F. ANTÓNIO

MARIA ELISA PINHEIRO*

 

Mais um menino para a primeira classe. Não um menino qualquer.

Chegara da África do Sul. Perdera a Mãe. Só falava inglês.

Há sempre algum jogo de empurra em casos destes. Não convém a ninguém. A meio do ano e com tais características só interessaria ao Menino Jesus, se Ele desse aulas...

Alguém tem de os aceitar, depois de considerada a lei, os horários, a sobrecarga das turmas. Também pode pura e simplesmente não haver vaga. Por vezes há quem, humanizando-se, crendo que só vem até nós quem de nós precisa, lhes abra os braços...

Chegou numa manhã gelada, enroladinho no casaco de malha azul escuro até aos joelhos, último abraço da Mãe que partira e que muito o amara. Dois pedacinhos de céu a iluminar uma cabeça branca e doirada. Caladinho. Hesitante. Tímido. Nem tentei o meu péssimo inglês. Se o assustava? Passei-lhe, carinhosamente, a mão na cabeça. Sentei-o numa cadeira pequenina, junto a mim. Sorria-lhe de vez em quando, no meio de toda a movimentação.

Expectante e silencioso observava tudo, interessado.

À época costumava reunir grupos de cinco ou seis em volta da secretária, praticando leitura oral, e ele assistia, atento.

Três semanas? Um mês? Alertou-me um leve ciciar, vindo do lado esquerdo: timidamente tentava acompanhar. E lia, lia!

Grande foi o nosso abraço. Profunda a nossa alegria. Uma grande vitória a que se seguiram muitas outras que o puseram ao nível dos melhores. O melhor de sempre em Desenho!

Descobri mais tarde que, mesmo muito doente, a Mãe, prevendo sabiamente as dificuldades, o iniciara na leitura. E que o Português, embora pouco consolidado e bastante esquecido, era do seu conhecimento.

Enriqueceu o léxico português com o adjectivo sassariquente quando quis qualificar a Escola de São Miguel.

Um "quase filho" que desapareceu, deixando uma bela recordação...

Pretendia ser pintor.

Que tenha conseguido. Amen.

98 Outubro

Viseu

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* Professora reformada do 1º Ciclo do Ensino Básico.

SUMÁRIO