PERO VAZ DE CAMINHA E JOHN SPARKE: A TRADUÇÃO DO OUTRO

 

MARIA PAULA MARTINS DAS NEVES *

 

Os textos de Pero Vaz de Caminha e John Sparke oferecem testemunhos do encontro entre o 'Eu' dos exploradores do Velho Mundo e o 'Outro', que neste caso toma a forma das terras e gentes do Novo Mundo. É a partir deste encontro que se vai construindo a ideia de América. Esta é resultado não de uma descoberta mas da projecção de uma civilização europeia sobre uma realidade que lhe é completamente estranha e que avalia e classifica segundo os seus instrumentos culturais.

De uma primeira leitura do texto de Pero Vaz de Caminha verificamos que o relato das explorações levadas a cabo no Brasil é feito através da narração pormenorizada de todos os momentos da experiência, desde a acostagem até à observação dos dois exemplares de nativos escolhidos. Os agentes das acções praticadas são em geral identificados pelo nome ("Afonso Lopez", "Sancho de Toar", "Simão de Miranda", "Nicolau Coelho" e "Aires Correa") ou por cargo ("the Captain"). Por vezes, as formas do pronome pessoal na primeira pessoa do plural ("we" e "us") substituem os nomes dos agentes já nominalmente identificados e outros membros da tripulação que supomos pertencerem a uma hierarquia inferior, onde o narrador se inclui ("the rest of us"). Outras vezes, substituem o conjunto formado por todos os portugueses presentes no momento ("We lit the torches", "We showed them a gray parrot", "We showed them a ram") e anteriormente identificado no texto.

Quanto aos nativos, também eles agentes de algumas das acções descritas, não são identificados por nome. No entanto, aparecem descritos com individualidade, especialmente os dois que são recebidos pelo capitão. A maior parte da descrição física de ambos é feita de modo pormenorizado em tom 'objectivo', ou seja, com escassez de adjectivos. Quando estes são usados fazem referência a qualidades materiais pouco sujeitas a diferenças de apreciação subjectiva ("straight" e "long" qualificam o cabelo, por exemplo).

Depois desta descrição física, Caminha narra a tentativa de comunicação entre estes índios e os exploradores portugueses, tentativa essa feita através de linguagem gestual. Também aqui a narração se processa com detalhe, passo a passo, alternando cada pronome de primeira pessoa "we" com o de terceira pessoa "he" ou "they".

Quanto ao relato que John Sparke faz da Flórida, este começa com uma listagem das embarcações e do número de homens que constituíam o corpo da expedição. A indicação da data precisa, juntamente com esta enumeração pormenorizada, fazem crer que se trata de um relato 'objectivo' dos acontecimentos. No entanto, ao contrário do que poderíamos pensar, o relato da terra e das pessoas não incide sobre aspectos particulares da observação feita. Sparke usa a terceira pessoa do pronome pessoal ("they") e do adjectivo possessivo ("their"), dando de imediato uma visão de conjunto e não de pormenor. Outras vezes ainda, o pronome pessoal "it" (por exemplo, "it has stanchions and rafters") é utilizado para referir um arquétipo (neste caso o das habitações dos nativos). O relato é constituído fundamentalmente por descrição em forma de generalizações, sendo a narração utilizada apenas no início para tratar das circunstâncias e eventos da navegação.

Por outro lado, o facto de, logo no início, Sparke referir o vento qualificando-o de "prosperous" parece ser revelador de um estado de espírito optimista, por parte do narrador, no momento da partida. Contrastando com este qualificativo inicial, verifica-se que, quando no parágrafo seguinte Sparke narra os pormenores de navegação, ele qualifica com uma linguagem de carácter mais científico o vento ("ordinary breeze ... which is the northeast wind ... and therefore we went to the northwest to fetch wind"), aliando-o às correntes ("to have the help of the current, which was judged to have set to the eastward").

Apesar do relato da Flórida se desenrolar a partir de uma circunstância de carácter negativo, a escassez de água fresca, este contratempo passa a ser irrelevante perante uma série de outras circunstâncias todas elas de carácter positivo, corroborando, assim, a ideia que nos fica no início da leitura do texto. Na descrição da natureza, das casas, dos costumes e dos habitantes, o narrador utiliza constantemente adjectivos que qualificam positivamente os substantivos (por exemplo em "marvellously sweet", "great bigness", "deer great plenty", "great fires" e "marvellous policy").

Outras vezes, o narrador utiliza expressamente relatos anteriores de exploradores franceses e espanhóis. Este é o caso da descrição dos nativos como sendo "people of some policy" e "witty in their answers", que contradiz expressamente o testemunho menos lisonjeiro dos exploradores espanhóis e corrobora o dos franceses, que se ajusta à imagem positiva que o narrador prefere dar do índio.

Outras vezes ainda, Sparke inclui contributos não confirmados ("but it is thought that there are lions and tigers as well as unicorns") e chega mesmo a fazer afirmações a partir desses pressupostos ("lions especially, if it be true that it is said of the enmity between them and the unicorn. For there is no beast but has his enemy"). Deste modo, ele dá preferência a um testemunho menos fidedigno mas que se coaduna bem com um conhecimento anterior e por outro lado se torna mais sedutor para a imaginação do leitor, em vez de dizer simplesmente que não viu ou omitir o assunto. Podemos, assim, afirmar que o indício inicial sobre as expectativas optimistas do narrador, relativamente às descobertas da expedição, se confirmam ao longo do texto.

Resumindo, podemos afirmar que Vaz de Caminha trata de personalidades individualizadas e acontecimentos particulares enquanto Sparke apresenta as suas observações em termos de generalização. Estas diferenças estão ligadas, pelo menos em grande parte, ao facto de haver várias décadas de intervalo entre os dois relatos. O primeiro, feito em 1500, altura em que começa a grande competição na conquista de mares e de terras e em que existe escassez de informação sobre a geografia do mundo, e o segundo, feito em 1564, numa época em que já tinha havido um primeiro contacto com o novo mundo e há mais informação disponível.

O primeiro relata de modo cauteloso, de pormenor em pormenor, porque os primeiros contactos revelavam uma realidade até então nunca vista e porque o pouco presenciado podia não ser revelador da totalidade dessa realidade. O segundo escreve de um ponto de vista mais distanciado do pormenor devido à vantagem da existência de informações anteriores que permitem fazer generalizações a partir das observações particulares que terão necessariamente ocorrido.

Desta primeira abordagem aos dois textos podemos perceber que a informação sobre viagens de exploração de que os cronistas dispõem determina o modo como o relato se desenrola. Ao mesmo tempo, começa a estabelecer-se a imagem da América, uma imagem feita de palavras que traduzem a projecção de conhecimentos anteriores e expectativas mais do que 'realidades' . Como Heidegger afirma, "Die Sache ist so, weil man es sagt" (Mason, 1990: 174).

Mas o modo como os relatos se desenrolam é ainda determinado por outros factores. Ambas as situações são caracterizadas pelo confronto dos exploradores com os índios, um grupo de pessoas ao qual os exploradores não pertencem e cuja linguagem e costumes não entendem. O relato do confronto com este 'Outro' (Todorov, 1982: 3) traduz-se de dois modos distintos os quais decorrem do conhecimento e visão que cada um deles tem do mundo.

A presença dos índios confronta Caminha com a nudez à qual ele atribui um cunho de inocência ("with as much innocence as they have in showing their faces") . Para ele a candidez com que mostram o corpo é semelhante à maneira como se entregam ao sono, no final do extracto. Não somente nestes casos, mas em todo o seu comportamento, os nativos são apresentados com reacções que, para um ocidental, podem ser identificáveis com as de uma criança. A gesticulação sem recurso à fala, as reacções primárias de medo e de rejeição e o modo lúdico como tratam o terço, são disso exemplo.

Faz parte da cultura religiosa de qualquer cristão dessa época saber que houve um paraíso terrestre onde a nudez fazia parte de um comportamento inocente possível devido à ausência de pecado. Este estado de inocência apenas encontra o seu duplo no período da infância. Por outro lado, aparecem logo no início da descrição dois adjectivos de carácter subjectivo ("good-looking", que qualifica o rosto, e "well-shaped", que qualifica o nariz) que transmitem uma impressão positiva do narrador em relação aos dois jovens e ligam a imagem do índio aos padrões de beleza clássica.

Ao descrever os índios nos moldes observados, o nativo deixa de ser um indivíduo totalmente estranho e com um mundo à parte e passa a poder ser integrado dentro do mundo de classificações ou de categorias conhecidas do narrador e, consequentemente, do seu futuro leitor.

Estas tentativas de redução do 'estranho' à condição de 'conhecido' ligam-se ao comentário que o próprio narrador faz sobre o significado atribuído às reacções de um dos nativos: "Or rather we took this to be his meaning because we wished it to be so". O narrador está consciente de que as interpretações feitas podem provir da sobreposição do 'desejo' sobre a realidade. Ironicamente, tal como a interpretação dos actos dos nativos pelos exploradores desvirtualiza a realidade por interposição de um desejo, também o texto do próprio narrador molda a alteridade dos índios segundo o contexto cultural europeu que sobre ela projecta.

Por seu lado, Sparke apresenta o índio tentando conferir-lhe uma certa civilidade e nobreza. Ao descrevê-lo compara-o com o mundo britânico, uma ligação directa, explícita. O relato é feito em termos de comparação com a experiência do presumível leitor, inglês de nacionalidade e, por isso, aparecem comparativos como "more than ours" e "not inferior to ours". Estas comparações permitem perceber uma tentativa, da parte do narrador, de transmitir uma imagem aceitável do nativo daquelas terras, imagem essa que vinha reforçar a ideia do "noble savage". Assim, Sparke tenta eliminar a alteridade do nativo e encaixá-lo no mundo do explorador.

Paralelamente surge em Sparke uma profusão de hipérboles para descrever tanto os nativos como a fauna e a flora. A consciência do alargamento de horizontes faz activar a imaginação no sentido de uma visão de grandiosidade e magnificiência. Também estas imagens da Flórida conotam imagens do Paraíso, o "locus amoenus" por excelência.

Podemos, assim, concluir que tanto Pero Vaz de Caminha como John Sparke traduzem o 'Outro', o diferente, o desconhecido, em termos de semelhante, de conhecido. Pero Vaz de Caminha traduz a forma de comportamento desconhecido do nativo em termos do comportamento conhecido da criança e as suas características físicas diferentes são delineadas com o traço da beleza clássica. Sparke, por seu lado, identifica formas comportamentais e situacionais desconhecidas com formas socio-culturais que fazem parte do seu mundo.

Estes dois relatos, juntamente com as restantes narrativas de viagem do tempo dos 'Descobrimentos' constituem a primeira forma de apropriação das terras e das gentes do Novo Mundo.

 

BIBLIOGRAFIA PRIMÁRIA

 

Caminha, Pero Vaz de. Vaz de Caminha's Letter of Discovery from Brazil in 1500.

Thomas Colchie, trd. sd.

Sparke, John. The Hawkins' Voyages. Clements R. Markham, ed. London, 1978.

 

BIBLIOGRAFIA SECUNDÁRIA

 

Mason, Peter. Deconstructing America- Representations of the Other. New York: Routledge, 1990.

Todorov, Tzvetan. The Conquest of America-The Question of the Other, Richard Howard, trad. La Conquête de l'Amérique, 1982. New York: Harper & Row, 1984.

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* Professora Adjunta da Escola Superior Tecnologia e Gestão da Guarda.

SUMÁRIO