GESTÃO FLEXIVEL

"Um testemunho"

 

MARIA DA GRAÇA TAVARES PIMENTA *

 

Quando me foi lançado o desafio para dar o meu testemunho quanto ao modo de trabalhar no Projecto Gestão Flexível do Currículo, fiquei receosa, pois a maioria dos comentários que tenho ouvido são de cepticismo e desconfiança quanto ao sucesso do Projecto.

"O que é isso do Estudo Acompanhado?"

"Por que razão é ministrado por dois professores? Porquê o Professor de Matemática e o de Língua Portuguesa?"

"Uma hora para o Director de Turma estar com os seus alunos!? "

"Área de Projecto, quem a vai coordenar e como?"

 

Bem, estas são algumas das questões levantadas pelos colegas e, também por mim (confesso) quando me foram apresentados o despacho 4848/97 de 07/07/97-SEEI(1) e os documentos orientadores do Departamento de Educação Básica (DEB).

A ideia que tinha sobre a Gestão Flexível era que seria mais uma tentativa de inovação e que poucas modificações traria no nosso dia-a-dia como professores; cada um continuaria a desempenhar o seu papel dentro da sala de aula, a falar apenas dos conteúdos da sua disciplina (a qual é a mais importante), os conteúdos da disciplina do colega não nos dizem respeito, os problemas dos alunos são resolvidos pelo Director de Turma nas horas lectivas da sua disciplina e à pressa pois a matéria não se pode atrasar, o aluno estuda na véspera dos testes e sem organização, ou seja , não sabe estudar, porque, também verdade seja dita, nunca ninguém lhe ensinou a estudar. Penso, que esta era, e é, a realidade do quotidiano da maioria das escolas. Mas, afinal, com o Projecto Gestão Flexível este quotidiano vai alterar-se significativamente, antes de mais vai pôr os professores a discutirem uns com os outros, vai "abanar" o corpo docente que, na maioria dos cenários, permanecia no contexto da "paz podre".

Mas, antes de iniciar a descrição do que se modificou irei dar uma breve panorâmica do início do processo, ou seja, como a minha escola entrou no Projecto Gestão Flexível.

A escola E. B. 1,2 de Marzovelos entrou no Projecto de Gestão Flexível do Currículo em resposta a um desafio lançado pelo DEB em Julho de 1998. Nesta altura pouco se sabia sobre o Projecto. Analisámos o Despacho nº 4848/97 de 07/07/97-SEEI e os documentos oriundos do DEB. A partir daqui as dúvidas surgiram e as discussões e negociações começaram a ser uma constante. Como vamos operacionalizar? Onde temos que "mexer" para criar as condições necessárias para o desenvolvimento das competências pessoais e sociais dos alunos, consagradas no despacho? Como vamos reorganizar o currículo para serem contempladas várias áreas que proporcionem uma nítida valorização da vertente formativa da avaliação, uma função mais socializadora da escola, uma educação mais voltada para uma construção de saberes, atitudes, valores e uma cidadania esclarecida? Esta era a nossa maior angústia, como?...como?...como?...

A partir das orientações do DEB, "arrancámos" reorganizando o currículo, o qual se operacionalizou apresentando-se um novo desenho curricular. Assim, tendo por base o design curricular do 2º ciclo proposto pelo DEB, fizémos nele ligeiras alterações e depois de vários "confrontos" de opiniões entre os colegas, e elaborámos um desenho curricular que, nesta altura, pensámos ser o mais adequado.

Reduziram-se horas de componente lectiva às seguintes disciplinas:

Língua Portuguesa (-1)

Língua Estrangeira (-1)

Matemática (-1)

Educação Visual e Tecnológica (-1)

Educação Musical (-1)

Educação Física (-1)

transferindo-as para as novas áreas currículares não disciplinares da proposta: Área de Projecto (2), Estudo Acompanhado (2) e Direcção de Turma (1), reduzindo-se a carga horária curricular de trinta e uma horas para trinta horas.

O Estudo Acompanhado foi entregue ao professor da área de Línguas e Estudos Sociais da turma e ao professor de Matemática e de Ciências da Natureza. A Área de Projecto foi entregue aos professores das expressões (E.V.T., E.M. , E.F. e E.M.R.C.)

Estudo Acompanhado: que realidade?

Foi difícil a operacionalização devido às várias opiniões do que se entende por Estudo Acompanhado. Alguns colegas entendiam que nestas duas horas apenas se trabalhavam conteúdos da disciplina de Língua Portuguesa e Matemática, por outro lado, outros eram de opinião que deveriam ser tratados conteúdos de todas as áreas e que deveriam ensinar-se técnicas de estudo. Estava a ser difícil chegar a um consenso. Depois de várias reflexões conjuntas chegou-se por fim a este consenso - nestas duas horas, e de acordo com a especificidade de cada turma os professores iriam trabalhar com os alunos os aspectos onde eles sentem mais dificuldades, abrangendo todas as áreas disciplinares.

Então, no início do ano lectivo, trabalhou-se mais a organização dos cadernos diários, principalmente no 5º ano. Com o avançar do ano o conhecimento da turma foi-se aprofundando, e com ajuda das informações recolhidas nos conselhos de turma, as actividades do Estudo Acompanhado foram se diversificando de turma para turma, indo sempre ao encontro das necessidades dos alunos dessa turma específica. No meu caso concreto, numa turma enveredámos pela consulta do dicionário enquanto, noutra turma, fizémos investigação em enciclopédias. Realizámos actividades, primeiro em pequeno grupo e depois alargadas a toda a turma, de desenvolvimento da capacidade de concentração, de modificação de atitudes e postura na sala de aula, visto esta turma ser muito agitada, com alunos que não conseguiam estar muito tempo sentados nos seus lugares, não sabiam participar e a sua linguagem não era a mais indicada para um contexto de aula. Ainda nestas aulas, dava-se continuação a trabalhos de grupo iniciados nas outras disciplinas. Recorrendo à Psicóloga da escola solicitámos uma acção de formação sobre Estratégias e Métodos de Estudo para os professores, para assim podermos orientar os alunos no estudo e ensinámo-los a organizarem-se autonomamente. Assim, com os conhecimentos adquiridos nas sessões desta acção, em algumas aulas de Estudo Acompanhado transmitimos técnicas úteis que permitiam ao aluno organizar-se nos seus estudos. Mais tarde eles próprios pediam para nestas aulas se prepararem para as fichas de avaliação que tinham a seguir.

Outra das actividades que desenvolvemos nestas aulas e que os alunos muito apreciaram foram os trabalhos no computador com programas multimédia. Todos os alunos tiveram oportunidade de trabalhar com um computador, a turma era dividida, um grupo ficava na sala com uma professora, o outro grupo ia para a sala de informática acompanhado da outra professora. Numa aula normal é quase impossível trabalhar assim, pois os computadores não chegam para todos os alunos da turma e só um professor não pode orientar todos os alunos.

Nestas aulas, outro aspecto que achei fundamental foi o desenvolvimento nos alunos do espírito de entre-ajuda, os alunos com mais conhecimentos, digamos assim, ajudavam os colegas com mais dificuldades, sentavam-se junto deles e explicavam, ou então a ajuda era dada no quadro ou com outros recursos disponíveis.

Outro aspecto que foi desenvolvido, e que causava, por vezes, muita confusão e perda de tempo nas disciplinas, era o incutir nos alunos as regras de trabalho de grupo. Nestas horas, tal como na Área de Projecto, o trabalho de grupo é a estratégia mais utilizada. A pouco e pouco os alunos interiorizam as regras de trabalho de grupo e aprendem a trabalhar em conjunto, o que é um aspecto essencial para a sua vida futura. Outro aspecto que considero positivo foi o facto de trabalharmos dois professores em conjunto, o que é sempre uma mais valia tanto para os alunos como para nós, pois há sempre conhecimentos e experiências que se partilham.

Em todo este contexto são fundamentais os Conselhos de Turma, pois só trocando informações dos alunos nas várias disciplinas é que sabemos se as actividades desenvolvidas nestas duas horas estão a colmatar as dificuldades e assim poderemos avaliar estas aulas, caso contrário tornam-se angustiantes, pois não sabemos se estamos a contribuir para o progresso do aluno. Penso que só dois Conselhos de Turma por período é insuficiente para levarmos a bom termo este projecto, os Conselhos de Turma terão que ser mensais e todos os professores terão que estar envolvidos no contexto da turma. Os professores terão que necessariamente re-aprender a trabalhar em grupo , os Conselhos de Turma terão que ser verdadeiras equipas coesas e os elementos a "jogarem" todos com a mesma garra e determinação.

Área de Projecto

Esta nova área curricular não disciplinar ,como já referi, foi coordenada por dois professores da turma e da área das expressões. Nas primeiras aulas os professores conheceram a turma utilizando para o efeito fichas biográficas, pequenos inquéritos, sessões de conhecimento mútuo e outras actividades que lhes dariam um conhecimento mais profundo dos seus alunos. Para quê este conhecimento ? Para se desenvolver um projecto interdisciplinar que fosse ao encontro dos interesses específícos dos alunos dessa turma. Assim, na minha direcção de turma foi escolhido pelos alunos o tema "Conhecer a cidade de Viseu". Esta escolha não foi pacífica , pois já se sabe que quando há muitos interesses há sempre várias opções, mas depois de um processo de votação democrática entre eles acabou por ficar este tema. O tema foi levado pelos coordenadores a Conselho de Turma e foi elaborado um rascunho de planificação, onde intervinham todas as disciplinas, não com horas, como na área-escola, mas com conteúdos. Porquê rascunho de planificação? Porque a planificação de um projecto está constantemente a ser reformulada e tinha que ter a participação dos alunos na sua elaboração.

Ao longo do ano os trabalhos foram desenvolvidos essencialmente nestas duas horas que os alunos têm no seu horário para o efeito, também nas horas de Estudo Acompanhado, na aula de Direcção de Turma e nas horas das disciplinas. Estes trabalhos consistiram em muita investigação, saídas para o exterior da escola e organização e apresentação da informação recolhida. Contribuíram para o efeito os conhecimentos adquiridos nas várias disciplinas e o acompanhar constante do percurso do projecto pelos restantes professores e, mais uma vez, os Conselhos de Turma se mostram essenciais.

Direcção de Turma

A hora de Direcção de Turma, chamada recentemente de Educação para a Cidadania, é, a meu ver, essencial; nesta hora o Director de Turma conversa com os seus alunos, tem oportunidade de os ouvir atentamente, põe em prática a sua função de gestor de conflitos, desenvolve projectos que os ajudam a organizarem-se como futuros cidadãos responsáveis pelos seus deveres e conhecedores dos seus direitos, organiza pequenos estudos de caso, relativamente a situações específicas de alunos ou problemas de aprendizagem globais. O Director de Turma, nesta hora, poderá pôr em prática muitas das suas competências de Director de Turma, nomeadamente de conselheiro, amigo, ouvinte, gestor de conflitos entre alunos / alunos e alunos / professores, orientador, intermediário entre o aluno e a sua própria família, etc.

Esta hora já existia na escola e todos os Directores de Turma a consideravam fundamental. Neste ponto, o Projecto Gestão Flexível só veio formalizar o que na prática já se fazia em algumas escolas.

Ao iniciar o ano lectivo, no primeiro Conselho de Directores de Turma planificam-se em conjunto as primeiras aulas de Direcção de Turma e após estas primeiras aulas cada Director de Turma desenvolve actividades de acordo com a especificidade da sua turma.

No meu caso concreto, as minhas primeiras aulas (planificadas em conjunto) foram de análise e discussão do "Regulamento Interno" da escola, com principal ênfase nos direitos e deveres dos alunos; falou-se também da avaliação e do regime de faltas; seguiram-se aulas com jogos didácticos de conhecimento mútuo e, em todos os períodos, desenvolvi o "Jogo do Amigo Secreto", que era solucionado na última aula de D.T. com a troca de pequenas lembranças feitas pelos próprios alunos para retribuírem ao seu amigo secreto, noutras aulas tratava apenas assuntos relacionados com "queixas", pequenos mal entendidos entre uns e outros e, por fim, desenvolvi um projecto "Pensar sobre o meu Pensar", baseada no livro "Ensinar e Aprender a pensar" -- Maria Helena Salema -- Texto Editora.

Em jeito de síntese, penso que com este Projecto as escolas irão sair da sua rotina habitual e vai ouvir-se falar de trabalhos em grupo, de aulas planificadas em conjunto, de reuniões mais assíduas entre os membros do conselho de turma, entre os Directores de turma, em suma, a dinâmica das escolas vai alterar-se significativamente. Para isso, nós, professores teremos que mudar as nossas atitudes, teremos que sair das nossas "capelinhas" e deixar de considerar a nossa disciplina como soberana. Deveremos sim, reunir esforços e tornar o conjunto das disciplinas como um todo coeso e promotor das aprendizagens essenciais que possibilitam ao aluno ser um verdadeiro cidadão, pronto para saber agir em qualquer circunstância da vida.

Assim, vou apostar inteiramente nesta nova gestão curricular, tem os seus perigos mas se for bem reflectida, bem planificada e bem avaliada por todos os actores intervenientes no processo penso que trará mais pontos positivos do que negativos.

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* Professora efectiva do 4º Grupo da Escola E.B. 1.2. de Marzovelos – Viseu.

1 Posteriormente, foi publicado o despacho nº 9590/99 que substitui este.

SUMÁRIO