SAMUEL MAIA: DO PRAZER-SABOR DO VINHO AO CALOR DA LITERATURA

(SEDUÇÕES NA OBRA DO MÉDICO-ESCRITOR DE VISEU)

 

MARTIM SOUSA *

 

"Nenhum ser no nada se precipita!

Em todos o Eterno se agita..."

(J. W. Goethe, <<Testamento>>)

 

0. A chama fende a noite desde sempre. O gume feérico da palavra inscreve-se em eternidade e o escritor não perde o sonho, não se faz nuvem. Goethe abraça Joyce. Juntos seguem Shakespeare. Próximo, Pessoa espreita. Mas outros se agitam dignamente com lugar marcado e insubstituível. Di-lo o passo poemático em epígrafe, digo-o eu em tom assertivo. E isto tudo a propósito de Samuel Maia, médico-escritor nascido em Viseu, que, tendo conhecido outra visibilidade e uma incontestada representatividade, nomeadamente na década de vinte do nosso século, agora é obscuro domínio para o público avulso e até mesmo para os "profissionais da literatura". Contudo, nem sempre assim foi, sinal de que os modismos vão causando fluxos e refluxos do núcleo para as margens e destas para o centro. Em 1929, um artigo no parisiense <<Le Monde>> sobre os escritores mais importantes de Portugal perscreve o primado de Eugénio de Castro e de Augusto Gil, seguindo-se-lhes de imediato António Nobre, Aquilino, Samuel Maia, Lopes de Mendonça e Ferreira de Castro (FRANÇA: 129). Ou seja, o autor viseense goza então de uma incontestável centralidade.

Mas, a que vem Samuel Maia, esse vulto das nossas letras que nasceu em Ribafeita, Viseu, em 1873 ou 1874?

1. Samuel Maia, depois de se formar em Medicina pela Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, vê inscrita a sua obra de ficcionista nos antecedentes do neo-realismo, consagrando-se mesmo, ao tempo, com o romance regionalista de sabor aquiliniano Sexo Forte (1917 ou 1919) e com a novela Língua de Prata (1929), obras que, no dizer de António José Saraiva e Óscar Lopes, sobrepujam as restantes.

Face a tais palavras presas de autoridade "definitiva", algo mais valerá a pena conhecer sobre esse escritor laborioso, como o dizia um João Pedro de Andrade, de nome Samuel Domingos Maia de Loureiro?

É evidente que muito interessa desvelar sobre este autor, até porque esse juízo, calhado no sabor telegráfico e generalista que uma história da literatura (ainda que conceituada) consente, omite outras derivações e outros campos percorridos pelo médico viseense, que, em termos de periodologia literária, nasceu na eficácia do realismo-naturalismo, cresceu sob o olhar do parnasianismo, do decadentismo e do simbolismo, apurou-se nos refluxos neo-românticos (vitalistas, saudosistas e lusitanistas), fez-se escritor no artemoto do 1 modernismo, viveu a plenitude no cruzar presencista, convivendo, já em decréscimo produtivo, na efusão do neo-realismo, no surto do surrealismo e na emergência do existencialismo literário de Vergílio Ferreira, que, em 1949, publicava Mudança , o tal livro que, segundo as palavras de Eduardo Lourenço, "abriu as portas ... para paragens cada vez mais desoladas e exaltantes".

Olhando o devir temporal e o transcurso histórico, as primícias literárias de Samuel Maia acontecem adentro do modo lírico, com o debutante Livro da Alma (1894), seguindo- -se-lhe, alguns lustros depois e em diversa modalidade genológica, para além dos títulos acima citados: os romances Mudança de Ares (1915 ou 1916), Luz Perpétua (1923), Dona Sem Dono (1936 - Prémio Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências), História Maravilhosa de Dom Sebastião, Imperador do Atlântico (1940) e O Diabo da Meia-Noite (1948); a novela Estre a Vida e a Morte (s.d.), o livro de contos Quem não Viu (1944); as peças de teatro Berenice da Judeia (1905) e Brás Cadunha (1928); os livros de viagens Por Terras Estranhas (s.d.) e Este Mundo e o Outro (1937); colaboração literária dispersa em jornais e revistas como o Século, Jornal de Notícias, Diário Popular, Ilustração (onde assinou interessantes crónicas quinzenais), Claridade ... ; opúsculos vários de educação higiénica (Aspectos da Questão Sexual, Protecção à Infância, Cantinas Escolares , Arte de Ter Saúde , Acção das Cantinas Escolares, Elogio do Vinho (Prémio do Office International du Vin, 1932, e conferência proferida em Viseu na sede da Associação Comercial e Industrial); e, por último, manuais de medicina doméstica (Higiene Prática, A Digestão, Regime Alimentar (2 vols.), Culinária Higiénica, Tratamento da Prisão de Ventre, Consultório (2 vols.), Manual de Medicina Doméstica , O Meu Menino (1925) e o Vinho (Propriedades e aplicações). E certamente que não pudemos ser exaustivos, face a uma actividade de tal forma prolixa, que facilmente consente um esquecimento ou uma exclusão.

2. Enfrentemos, primeiramente, parte do tema que aqui nos trouxe - <<o saber-sabor do vinho em Samuel Maia >>, pegando no último livro citado, que o opúsculo premiado, esse, logo diz tudo, no título catafórico que não esconde tratar-se de um elogio do vinho.

O livro O Vinho (Propriedades e Aplicações), com trinta mil exemplares vendidos na década de trinta, é duplamente interessante: primeiro, porque, para qualquer efeito, é criação de um viseense; e, por último, porque se trata de um trabalho saído da pena de um médico que resume comunicações e pareceres aprovados nos últimos congressos médicos dessa época, não sendo uma artística ode ao vinho proveniente da ressaca de um qualquer paraíso artificial - e que me perdoem os poetas, de que tanto gosto, mas, não obstante o Pro Archia de Cícero, cedo aprendi que os poetas não precisam de ser defendidos!

Iniciando a sua obra por repudiar a guerra lançada sobre o alimento mais antigo do homem mediterrânico, Samuel Maia mergulha nessa crise da bromatologia emocional para dela emergir com uma asserção inconfutável e, pensamos, racional: "O vinho é bom, no bom momento, em boa conta." Tudo o que depois se ouvir dessa escrita enleante, já o sei, é um caminho por sobre o fogo, com luta de asserções e derrogações.

Fixado esse motivema funcional, o médico de Viseu escreve terem-se:

I. referido, no Congresso de Beziers de 1934, experiências com êxito em vários campos: profilaxia do alcoolismo pelo vinho, benefício do vinho na alimentação infantil, a enoterapia (com aplicação a doenças dos aparelhos circulatório, digestivo, respiratório, urinário; a doenças infecciosas, do fígado - para a insuficiência hepática, v.g. , 1 decilitro de Bordeaux tinto -, avitaminoses, doenças de origem hídrica e operados), profilaxia das colibaciloses, da febre tifóide e da tuberculose pulmonar;

II. exalçado, no Congresso de Lausanne, os efeitos benéficos na diabetes (Dão e Torres), na taxa glicémica, na psiquiatria, nas sezões e na pielite colibacilar.

<<Resumidor>>, traidor! - pensarão todos, no rasto do que Eco disse relativamente ao tradutor. É certo. Mas um livro não se ensina, lê-se. Fica aí esta porta para as duzentas páginas, desactualizadas aqui e ali, deste Vinho caldeado no fogo do tempo. Um Júlio Dantas, referindo-se ao nosso médico, disse-o detentor de uma prosa forte, vascular, saborosa e admirável. Tudo isso eu encontrei neste livro sobre o vinho que um Shakespeare, centro do cânone da literatura ocidental, cultuou no seu irmão <<Madeira>>.

Seja o homem feliz na contenção que julgar a sua, respeitando o outro na contenção que julga desmedida... Mas, se um de nós extravasar a taça, considere-se ainda e sempre que o conceito de contenção se alterou tão-só nesse dia. E que todos estávamos dentro, olhando as alegrias dos saberes-sabores que do fundo do tempo irromperam nesse casual derrame do sumo fermentado da uva.

3. Agora, o calor da literatura. Um sopro antigo, de um neo-realismo ante litteram. E assim, como esquecermos, em capítulo subordinado à tópica erótica na literatura portuguesa, aquela figura de padre de Samuel Maia, presente em Sexo Forte, obsessionada pelos prazeres do corpo, que só encontra refrigério na mutilação?! Ou então, ao reflectirmos sobre o Volksgeist literário, como menosprezar o pitoresco regional dos seus quadros vivos com as nossas gentes e o nosso povo?! Como não lembrar a actuação criadora do escritor-médico de Viseu na apropriação do mito sebástico?! Ou, por último, como não conhecer aquele vezo castiço, fantástico e vernacular das suas obras?! Provas para tal que as colha cada um na leitura que de Samuel Maia fizer. Ainda assim, que o leitor avance por Sexo Forte e pelos apelos do amor, que avance pelos sulcos de terra de Quem não viu , que sonhe com a aparição da História Maravilhosa de Dom Sebastião e, por fim, que mergulhe na portugalidade de Luz Perpétua. Disse muito, disse pouco? A literatura não se ensina, lê-se. Leiamos então.

4. É o tempo do fim. Este é um texto sincero, de consciência, sem ambição ou desejo de aplauso, confiando eu, por isso, que o tomem por bem. Afinal, tudo isto deriva do simples intento de conversar ou meditar sobre os destinos do vinho e da literatura, tema sedutor, aliás, para propor a gente escolhida. E, pensando bem, esta homenagem a Samuel Maia é um tributo extensivo a Alexander Pushkin, a Johann Wolfgang von Goethe ou ao Visconde de Almeida Garrett. Como o é, afinal, a António Botto, a Mário Beirão, a Manuel António Pina, a José Tolentino de Mendonça e a cada artista que faz da sua casa o coração da escrita. Porque "em todos o Eterno se agita"...

 

BIBLIOGRAFIA

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COELHO, Jacinto do Prado, "Amor nas Literaturas Galega e Portuguesa" in COELHO, Jacinto do Prado (dir.), Dicionário de Literatura (Literatura Portuguesa, Literatura Brasileira, Literatura Galega, Estilística Literária) , 1 vol., Porto, Figueirinhas, 31985, p. 49-B.

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SIMÕES, João Gaspar, Perspectiva Histórica da Ficção Portuguesa (das origens ao século XX) , Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 714.

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* Equiparado a Assistente do 1 Triénio da ESEV.

SUMÁRIO