CULTURA E CONTEMPORANEIDADE

O Labirinto do Mundo

 

LUÍS MENDES *

 

Em ano de centenário de Jorge Luís Borges interessa falar em labirintos e espelhos, e no mundo dito das ficções. Uma inteira teoria da comunicação e da linguagem poderia ser deduzida da leitura de Borges. É, aliás, com a Ursprache de Tlön que se iniciam as Ficções.

Uma outra muito interessante razão para discutir Borges decorre de uma conversa que tive recentemente com Lídia Jorge. A escritora, falando de escritores que eu mencionava, acusa Borges de ser o "escritor dos académicos". Por esta razão, dizia-me Lídia Jorge, eu gostava de Borges. A invisibilidade do grande escritor e das opiniões de uma Lídia Jorge perturbam-me quanto à compreensão do mundo moderno.

O académico - começando pela última razão deste texto -, é aquele que instrumentaliza a linguagem e se compraz nos seus jogos de funcionalidade? Antecedem ao estudioso ensaísta, reprodutor de verdades nascidas nos outros, motivos explanatórios? E que fecundidade acontece aqui?

É exactamente na contenção que Borges demonstra a mestria literária. Pessoa, pela voz de Bernardo Soares, tinha dito que "a concisão é a luxúria do pensamento". Borges afirmava:

"Desvario laborioso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de explanar em quinhentas páginas uma ideia cuja exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que estes livros já existem e apresentar um resumo, um comentário."

O admirador e leitor reincidente de Schopenhauer, Stevenson e Chesterton, aparece-nos, para além de bibliotecário, como um académico. Aqui está a primeira razão para homenagear, sem o conteúdo pejorativo de Lídia Jorge, o grande escritor argentino: Borges foi um leitor, ou seja, um construtor de ficções.

A irrealidade dos seus mundos ficcionados, desenvolvidos por labirintos ou repetidos dos espelhos, é o produto da mais sagaz e sábia leitura. Providencial como no poeta, exacta como no ensaísta (ou, neste caso, o contista). Veja-se "Pierre Ménard, autor do Quixote", nas Ficções.

Repetições, quer temporais, quer dos espaços em que se produziu o conhecimento, são renovadas leituras a existirem numa plenitude viva. Shakespeare representara-o melhor ainda (e esta é uma referência de grande importância em J. L. Borges). O dramaturgo, génio do aparecimento do que não há, serve-nos o seu mundo de ilusão no acto mágico de com ela criar a verdade. Personagem de si mesmo, William Shakespeare é o hábil e belo criador das nossas múltiplas realidades.

Borges, cego, dono dos segredos da multiplicidade, é o leitor da hipertextualidade do mundo.

Os pressupostos culturais são aqui desafiados. A comunicabilidade entre mim e o(s) outro(s) efectua-se num espaço de ficcionalidade aparente, recriando realidades numa disposição intertextual.

Ser inteligível ou não depende do nível desta intertextualidade, tal como, metaforicamente, ser-se, ou não, visível (materializada que foi esta condição na cegueira de Borges).

Quando Shakespeare, no texto de Borges, se descobre personagem, um entre muitos, e, em diálogo com deus, a personagem divina se denuncia como um, também, entre os muitos de Shakespeare, acedemos à realização do real.

"O universo (que outros chamam biblioteca)" é um intrincado de ligações que se realizam na transmutação contínua de sentidos. Em cada livro há um indício de um derradeiro final revelador. Ou o mundo feito para, nas palavras de Mallarmé, "emboutir à un livre", o livro, cuja narrativa contenha uma essencial razão de todas as coisas.

Daqui resultam - ou os antecedem - o uso dos labirintos, a duplicação dos espelhos (como a da cópula), o mistério terror ou fascínio (tão só a beleza selvagem?) dos tigres - elementos recorrentes em J. L. Borges.

Lembremo-nos da nossa actual percepção do conhecimento via as novas tecnologias de informação e de comunicação. A ligação hipertextual é indispensável, ou assim se tornou. A leitura compõe-se de inúmeras possibilidades, às quais as ditas tecnologias nos permitem ter acesso. A nossa relação como mundo não é linear (como nunca foi), transforma-se ao sabor apressado, urgente, de quantidades grandes de estímulos provenientes das mais díspares origens.

Se Italo Calvino nos questionava sobre porquê ler os clássicos e ao mesmo tempo nos criava as suas Cidades Invisíveis, Borges remete-nos para uma realidade transfigurada por esses dois termos da equação. Por um lado, a herança dos "por obras valerosas / se vão da lei da morte libertando"; por outro lado, a nossa capacidade de entreter a razão, sentir com a imaginação (como é dito por Pessoa), criar, fundar, habitar os espaços invisíveis, de todo reais.

O conjunto de hipóteses matemáticas e cálculos ou estratégias, em equidades e em conflito, numa geometria do tempo, transfiguram a nossa possibilidade de conhecer o mundo. Os labirintos de Borges são a origem e o decorrer do universo, quer queiramos ou não.

Por analogia, o nosso acesso à informação tornou-se tão labiríntico formalmente como o da imaginação. As possibilidades comunicativas e de intertextualidade parecem inesgotáveis. As ciências recorrem ao que chamam narrativas - um fixar dos fluxos tornados concorrentes, da informação disponível. Na nossa contingência humana seremos ilimitados como actores diversos de uma multiplicidade de razões e papéis.

A questão da lotaria, como em "A Lotaria da Babilónia" das Ficções, e os espelhos, ambos os temas definidos por Borges em "um infinito jogo de acasos", afirmam a condição humana de forma eloquente e numa alegoria de verdades evidentes. O acaso como método de escolha é-nos a todos familiar. A repetição de gestos e de momentos é por todos praticada. Conhecer o indivíduo perante si mesmo, o lugar que ocupa, inconsciente da sua imagem a não ser no espelho (onde é outro, afinal, reproduzido, duplicado), é uma tarefa de aproximação dos mistérios. Tal como em Shakespeare e nos seus jogos dramáticos.

Em Borges é o acto cultural por excelência, individualizante e distintivo, mas também uma parte da semiótica (para não falar do requinte axiológico) do mundo e de nós nele. Eu e eu e o outro, o outro que sou eu, o que não sou e as combinações de ser. Trata-se de uma geometria do Homem, percebida e construída.

Arriscar-se-á a dizer que são estes os grandes pressupostos do mundo contemporâneo. As escolhas, as gentes, o individual / o social ou as identificações de grupo, etc. Não só preocupações de hoje, da nossa contemporaneidade, mas que se impõem pelo intrincado mapa, de múltiplas e variadas direcções, que conhecemos agora em época de globalidade e de anulação das distâncias.

É o Borges surreal, com as suas enumerações de grande disparidade de conteúdos e critérios, o Borges dos tigres, da felina acuidade de visão e construção de realidades, o Borges da memória e da imaginação que lhe corresponde ou lhe é anterior ou exterior ou subsequente, ou, ainda, substancial; este é o Borges das Ficções, a brincar aos académicos e a dizer a verdade.

Académico, académico, só o conhecimento estilizado dos que embandeiram os títulos honoríficos. Honrosos aqueles para quem o academismo se confunde e vive imiscuído da intelectualidade comprometida com o renovado conhecimento do mundo.

Seja Borges uma das nossas ficções-herança, no prosseguimento do sonho, das bibliotecas, do prazer e a vertigem dos labirintos, ou a constante surpresa de eu ser eu ao espelho.

A importância cultural de J. L. Borges advém do facto de ele se constituir como um leitor. Através das suas leituras e subsequentes construções, nós percebemos o significado intelectual e orgânico de cada um dos aspectos da vida, ou da vida em todos os seus aspectos. Ele conduz-nos ao entrecruzar de visões numa utilidade que provém do entendimento íntimo de inúmeras relações. Esta intertextualidade, importa repetir, é o pressuposto essencial da comunicabilidade da cultura.

Entende-se aqui, obviamente, que o termo "cultura" define o estabelecimento de relações múltiplas concorrentes para a sua própria definição, definidoras, entretanto, de um sujeito num determinado momento histórico (à maneira daquilo que António José Saraiva diz no seu Para a História da Cultura em Portugal, na aproximação que aqui é feita à sua definição).

O leitor situa-se no momento histórico conjuntural em que se pensa a si mesmo, mas é vítima do passado e engloba neste momento presente o mesmo tipo de projecção de si mesmo quanto ao futuro. O elemento labiríntico de Borges mostra-nos quanto as escolhas definem percursos em que somos autores e actores. À maneira do seu tão querido Shakespeare, torna-nos "merely players" e, igualmente, sujeitos de poder - tigres -, percorrendo uma invisibilidade de percursos tornados possíveis.

Todos os elementos passíveis de definir um percurso entendido em passado - presente -futuro são considerados. De tanto respirar a memória e o mundo, Funes, o Memorioso, uma das suas personagens, morre de uma congestão pulmonar. A memória, base das narrativas de Borges, que se referem a outras histórias (Borges nunca é um autor, mas um narrador), é a perplexidade do espelho.

De igual forma, e o tema tem sido actualmente referido, Hitchcock, de quem se celebra também o centenário, apresenta-nos o mundo perturbado por mistérios ou jogos mais ou menos cobertos, num suspense que não é mais do que um olhar perplexo sobre os inúmeros segredos contidos na vida.

Se, para retomar um dos tópicos do início deste texto, Borges é um escritor de académicos, então ele será um escritor da intelectualidade - esta, academicamente, assume o papel de questionar o mundo e projectar as novas visões, que de novo têm, como na alegoria da caverna, a ausência de sombras.

 

3 de Setembro de 1999

 

NB: o livro mais citado neste texto, entre as obras de Jorge Luís Borges, pela sugestão de conhecimentos que induziu o que aqui fica dito, é Ficções. Lisboa: Livros do Brasil (Ficciones. Buenos Aires: Emecê Editores, 1969).

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* Professor Requisitado da ESEV (Pólo de Lamego)

SUMÁRIO