Educar para a Diversidade, Valores e Atitudes:

- que propósitos, práticas e perspectivas?

(Experiência de uma acção de formação em Castro Daire)

 

MARIA JOSÉ SÁ CORREIA *

LUÍS MENDES **

JOSÉ ANTÓNIO SANT'ANA ***

 

"A escola é a instituição mais generosa da democracia."

Ana Benavente

 

A escolaridade básica representa/empreende o início e a consolidação progressiva de aprendizagens consideradas elementares e nucleares, no âmbito da formação pessoal e social, dirigidas à construção de bases do saber; estas permitem ao indivíduo o seu desenvolvimento enquanto ser que aprende e aprende a aprender, constituindo também um processo da sua integração plena na sociedade. Trata-se, portanto de admitir conteúdos e, ao mesmo tempo, realizar percursos de processualização das aprendizagens.

As várias mensagens que passam pela escola exigem de nós a reflexão e preparação para uma educação holística e capaz de abordar cabalmente os problemas e questões do Mundo real e actual. As aquisições cognitivas são, sabemo-lo hoje como dado cientificamente comprovado, validadas por uma dimensão afectiva. O penso, logo existo e o sinto, logo existo convergem em processos de construção crítica e reflexiva de discursos de identidade individual. Resta-nos saber que opções tomar, que valorizações, quais os critérios, que discurso de poder assumimos perante as nossas práticas pedagógicas. É a pluralidade do Mundo presente que nos exige pensar uma outra educação para a diversidade, respeito, a participação e os procedimentos democráticos.

Daqui pode-se desenvolver uma acção pedagógico-didáctica, da qual se apresentam, em seguida, algumas propostas. A experiência dos professores presentes nesta acção e a reflexão conjunta sobre as suas práticas resultou neste conjunto de acções/propostas de acção:

 

1 - Organização da sala de aula - eleger, num processo democrático, um líder do grupo turma, que servirá de intermediário entre o professor e os colegas (por exemplo, se o professor se ausenta, ele ou ela assume a responsabilidade do espaço). Por outro lado, se estão definidas as regras de funcionamento da sala de aula, discutidas no início do ano lectivo entre todos, registadas por escrito e ficando expostas na sala durante todo o ano, cada um é responsável por ele mesmo e por todos.

 

2 - O professor, entre um conselho regulador e autorizado por todos, constituído por um grupo de alunos, promove a mediação de conflitos e é o responsável pela execução de decisões.

 

3 - Trabalhos de grupo, desenvolvendo noções de entreajuda, solidariedade e cooperação; promovendo a autonomia pela utilização de guiões orientadores das actividades a desenvolver, e pela preparação do produto final a ser apresentado ao grupo-turma.

 

4 - Criação de mapas de tarefas, competindo a cada aluno actividades de organização do espaço físico de aula, criando hábitos de responsabilidade e rotinas.

 

5 - Troca de correspondência com outras escolas, descrevendo as actividades realizadas e dando a conhecer o que é feito em cada escola. São conjugados saberes em cada texto, agrupando as diferentes áreas disciplinares. O trabalho realizado ganha um sentido novo, porque é partilhado com outros. Depois de se conhecerem pessoalmente, os alunos desenvolvem afinidades que os levam a trocas de correspondência pessoais, realizadas fora do âmbito das aulas.

 

6 - Os alunos dos 3 e 4 anos produzem materiais a serem utilizados pelos alunos do 1 ano na iniciação da leitura e da escrita. Criam histórias de acordo com a unidade didáctica a ser leccionada, adequadas ao desenvolvimento, naqueles alunos, das competências de leitura e escrita. Os alunos mais velhos são assim implicados na organização do saber e do aprender a aprender.

 

7 - Discussão em grupo da avaliação feita do trabalho de cada um e dos outros (auto e heteroavaliação). Os alunos preenchem fichas em que fazem a apreciação do seu desempenho de acordo com os parâmetros que lhes são fornecidos.

Esta avaliação tem em conta aspectos dos domínios cognitivo e afectivo. Na heteroavaliação os alunos dão o seu parecer sobre a progressão de cada um, assumindo compromissos no sentido de poderem estabelecer-se actividades de ajuda e recuperação, realizadas por aqueles que se sentem mais à vontade em determinadas áreas ou conteúdos.

 

Os conceitos de identidade individual, de grupo, social, nacional, internacional, ou outros, tal como os conceitos de interacção e de participação (ou as atitudes que representam), são fundamentais na contextualização do saber, do ser e do saber estar, hoje. Como diz António José Saraiva, no seu Para a História da Cultura em Portugal, " A estreita dependência do indivíduo em relação ao meio aparece claramente se fizermos este raciocínio: eu defino-me em função de uma infinidade de termos (uma infinidade de factos e uma infinidade de indivíduos); cada um desses factos e desses indivíduos define-se, por sua vez, em relação a uma infinidade de outros, um dos quais sou eu próprio. Mas eu sou apenas um nesse conjunto que define cada um dos meus definidores e entro apenas como um elemento numa infinidade para o definir, ao passo que o conjunto que me define está definido por uma por uma infinidade de funções."

 

O facto de necessitarmos uns dos outros para uma definição é também a base dos procedimentos democráticos. Na escola confrontamo-nos com os outros, os que nos ensinam, aqueles a quem reconhecemos autoridade, os que têm opiniões ou posições opostas ou semelhantes. Reconhecemos, como no acto socrático, a nossa ignorância, ou a presunção do que sabemos.

Em resposta à pergunta "Que conclusões tira acerca da constatação da nossa ignorância?", Karl Popper, em entrevista, respondeu: " Isso é de grande importância porque leva a uma nova ética fundada no reconhecimento do facto de que não existe autoridade consagrada suprema: nunca deixamos de fazer erros. Temos, claro, a responsabilidade de os evitar. Mas, enquanto médicos, engenheiros, políticos, [professores], cometemos constantemente faltas graves. Ter consciência do que é preciso fazer para os evitar, mas sabendo que não se lhes pode escapar, é fundamental, no plano ético. Esta tomada de consciência leva a uma atitude antiautoritária e antitotalitária, uma atitude em que nos é necessário requerer a ajuda de alguém para o convidar a criticar as nossas posições. Por outras palavras, isso leva a uma cooperação com os outros numa base de igualdade: é o fundamento da democracia."

 

A participação activa na vida da escola estimula o conhecimento dos problemas, aumentando a responsabilidade e o sentido da eficácia nas actividades desempenhadas. Educar é proporcionar situações de aprendizagem, momentos em que cada um se pode sentir implicado na construção do saber e do tornar-se pessoa, para utilizarmos os conceitos de Rogers. Esta questão - a da pessoalidade -, é de fundamental importância , ou seja, constitui o elemento essencial, o fundamento, de toda a acção educativa. Conhecer-se a si mesmo, conhecer o outro, contrapor-se ao Mundo e ao(s) outro(s), ser capaz de interagir numa contínua construção de identidade. Aqui está a dimensão ética do processo educativo, a responsabilização do indivíduo, a garantia assim conseguida de liberdade pessoal, a afirmação dos valores e a sua concretização efectiva em práticas de aprendizagem, ou, para melhor dizer, em práticas de vida.

Esta é, ainda, a construção da cidadania, na defesa e construção inequívocas da liberdade e responsabilidade pessoais, assim como na promoção de atitudes críticas e reflexivas. São estas as atitudes que conduzem ao reconhecimento da dimensão pessoal e, ao mesmo tempo, do valor da participação, na cidadania que queremos democrática em pleno sentido.

 

Castro Daire, Maio de 1999

 

Acção promovida pelo professor José António Sant'ana (Escola do 1. CEB de Ester, Castro Daire), com a presença da Prof. Doutora Maria José de Sá-Correia e do Dr. Luís Mendes.

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* Prof. Coordenadora da ESEV

** Equip. Assistente 1 Triénio do Pólo de Lamego da ESEV

*** Escola do 1. CEB de Ester, Castro Daire

SUMÁRIO