COLÓQUIO: MONTEMURO - A ÚLTIMA ROTA DA TRANSUMÂNCIA

 

Escola Superior Agrária de Viseu

Associação Para a Defesa da Cultura Arouquense

 

A. Soares de Sousa*, J. Oliveira**, H. Vala***, A. Monteiro**, A. Oliveira**** e F. Silva*****

Desde tempos pré-históricos podem-se observar na Península Ibérica movimentos sazonais de gado herbívoro que abandona o território onde habita para apascentar, durante uma temporada, em solos de regiões com diferentes condições orográficas e climáticas.

A criação de gado em regime de transumância caracteriza uma forma de relação do Homem com o meio. Esta actividade foi, durante séculos, a base económica e social das populações rurais que a exerceram.

Ao longo dos tempos, a Serra de Montemuro ofereceu excelentes pastos aos rebanhos que a demandavam em pleno Verão, num período compreendido entre os dias de S. João e S. Bartolomeu. Porém, nas últimas três décadas, a actividade tem vindo a perder a pujança e vitalidade de outrora, receando-se que a última rota da transumância possa vir a extinguir-se a qualquer momento.

Realizou-se no dia 18 de junho de 1999, no auditório da Escola Superior de Tecnologia de Viseu, o colóquio Montemuro: A Última Rota da Transumância, organizado pela Escola Superior Agrária de Viseu em colaboração com a Associação para a Defesa da Cultura Arouquense.

O Colóquio interdisciplinar constituiu uma ocasião privilegiada de abordagem do tema nos seus múltiplos aspectos, efectuada pela primeira vez em Portugal, tendo congregado especialistas de diversas áreas, convidados para apresentar comunicações e moderar as sessões, e cerca de 150 participantes, tendo todos revelado grande interesse pelo tema.

Ficou no ar que, apesar do risco de extinção da actividade transumante dos rebanhos, ela deveria ser aproveitada de forma diversa, nomeadamente nos seus aspectos culturais, antropológicos, sociais e turísticos, através da dinamização desta rota e de trabalhos subsequentes.

Após os trabalhos, seguiu-se um convívio gastronómico, onde os participantes puderam apreciar as carnes de vitela Arouquesa e borrego da Serra da Estrela, e vinhos das regiões do Dão e Lafões, animado por um grupo de música popular e a Tuna do Instituto Politécnico de Viseu.

 

Programa

 

8.30 - Recepção dos participantes e entrega da documentação

 

9.00 - Sessão de abertura com a presença de:

Eng. Vítor Barros, Secretário de Estado do Desenvolvimento Rural

Eng. Ricardo Magalhães, Secretário de Estado Adjunto da Ministra do Ambiente

Prof. Dr. João Pedro de Barros, Presidente do Instituto Politécnico de Viseu

Prof. Dr. João Inês Vaz, Governador Civil de Viseu

Dr. Fernando Gonçalves, Vice-Presidente do Instituto de Promoção Ambiental

Eng. Jorge Mendes, Director Regional de Agricultura da Beira Litoral

 

9.30 - Sessão I: A transumância no passado e no presente

Moderador: Benjamim Pereira (Centro de Estudos de Etnologia)

1. Cosmovisión e historia de la trashumancia en la Península Ibérica

Prof. Doutor Pedro García Martín (Universidad Autónoma de Madrid)

2. Transumância no Portugal Central: diversidade e organização do território

Prof. Doutora Rosa Fernanda Moreira da Silva (Universidade do Porto)

3. Os últimos dias da transumância

José Guilherme Lorena (Jornal "O Público")

10.30 - Debate

 

11.00 - Pausa para café

 

11.15 - Sessão II: Influências económicas e sociais

Moderador: Prof. Doutor José Portela (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro)

4. Da Estrela ao Montemuro: os caminhos, as pessoas e os rebanhos

Prof. Doutor Alberto Martinho (Universidade Católica de Viseu)

5. Processos tradicionais e mundo rural: que hipótese de adequação à "modernidade"

Drª. Adosinda Henriques (Direcção Regional de Agricultura da Beira Litoral)

6. O pastoreio de percurso no sistema de exploração de ovinos em Trás-os-Montes

Eng. Carlos Barbosa (Escola Superior Agrária de Bragança) e Prof. Doutor José Portela (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro)

 

12.15 - Debate

 

12.45 - Pausa para almoço

 

15.00 - Sessão III: Montemuro - meio físico e humano

Moderador: Profª. Doutora Celeste Alves Coelho (Universidade de Aveiro)

7. Considerações sumárias sobre as características geográficas do Montemuro

Prof. Doutor Carlos Alberto Medeiros (Universidade Clássica de Lisboa)

8. A relevância da fitodiversidade no Montemuro

Prof. Doutor Jorge Paiva (Universidade de Coimbra)

9. Conservação da natureza em ecossistemas de montanha: a serra de Montemuro

Prof. Doutor Paulo Talhadas dos Santos (Universidade do Porto)

 

16.00 - Debate

 

16.30 - Pausa para café

 

16.45 - Sessão IV: Aspectos técnicos e novas perspectivas

Moderador: Prof. Doutor Jorge Azevedo (Direcção Regional de Agricultura de Trás-os-Montes)

10. Ovelha Serra da Estrela: origem e transumância

Dr. António Vaz Pato (Associação Nacional de Criadores de Ovinos Serra da Estrela)

11. Riscos sanitários da transumância

Drª. Helena Vala (Escola Superior Agrária de Viseu) e Dr. Fernando Esteves (Associação Nacional de Criadores de Ovinos Serra da Estrela)

12. La trashumancia en Europa: una historia común, un futuro para el desarrollo

D. Julio Grande Ibarra (Fundación Caja Rioja)

 

17.45 - Debate

 

18.15 - Sessão de encerramento efectuada pelo Professor Doutor João Pedro Barros, Presidente do Instituto Superior Politécnico de Viseu, com leitura de mensagem de Sua Exa. o Sr. Presidente da República.

 

18.30 - Lanche convívio

 

 

Resumos das comunicações

 

Cosmovisión e historia da la trashumancia en la Península Ibérica

Pedro García Martín

 

Dentro de las ganaderías móviles del planeta, el fenómeno de la trashumancia forma parte de la idiosincrasia de los pueblos de la Península Ibérica, impregnándolos de un modo de vida cíclico y circular. Para aprehender esta cosmovisión pastoril, empírica y naturalista, partiremos de la medida del tiempo y de la percepción del espacio que tenían los pastores migratorios. Depués de delimitar los tipos de pastoreo - estante, transterminante y trashumante -, examinaremos los factores que contribuyeron a arraigar este seminomadismo en la orilla septentrional del Mediterráneo, el organigrama de las explotaciones merinas, los movimientos estacionales de la cabaña, las labores del esquileo, transporte y comercialización de la lana. La infraestructura caminera para esta alternativa entre pastos complementarios vendrá dada por la red de vías pecuarias. La cultura ganadera se diferenciará y contrastará com las manifestaciones características del mundo agrícola y urbano. Por fin, un sucinto repaso a la historia de la Mesta castellana, en calidad de haber sido la corporación pecuaria más importante de Europa, nos permitirá acercarnos a la evolución de la granjería merina desde el Medioevo a la Revolución Industrial.

 

 

Transumância no Portugal Central: diversidade e organização do território

Rosa Fernanda Moreira da Silva

 

Esta comunicação foi estruturada em 3 partes.

Na primeira, procura-se equacionar o fenómeno da transumância através da leitura do território e, para tal, elaborámos uma base cartográfica que, segundo a nossa opinião, não só evidencia a sua amplitude espacial, como permite a formulação de reflexos sobre as possíveis dinâmicas territoriais da época.

Recorremos, para isso, a uma fonte documental do século XVI e estudos de vários autores portugueses.

Na segunda parte, a nossa preocupação centra-se no território anteriormente definido identificando-se as assimetrias entre litoral e interior, as transformações do território e as dinâmicas do seu desenvolvimento. Destaque para o despovoar dos campos como um processo histórico e de implicações preocupantes na gestão e nas estratégicas do futuro destes espaços rurais do centro de Portugal.

Finalmente, na terceira parte, dá-se real evidência ao conteúdo da "Carta Europeia sobre o Espaço Rural" que, desde 1992, se orienta no eixo do Desenvolvimento Rural. Neste contexto, propõe-se a necessidade de incentivar a ocupação permanente e apropriada do território com a finalidade de reforçar a agricultura como sector produtor de bens e serviços.

Pois, a sustentabilidade dos espaços rurais passa necessariamente pela diversidade das suas actividades e pelo trinómio Ambiente/Agricultura/Turismo.

 

Os últimos dias da transumância

José Guilherme Lorena

 

Um percurso quase exaustivo com os últimos "bravos e rijos" pastores e agentes da transumância em Portugal. O jornalista acompanhou há cinco anos a reunião de um grande rebanho de mais de duas mil cabeças de ovelhas e cabras, seguindo depois a pé (na maioria do percurso) de Viseu aos plainos da serra do Montemuro, no concelho de Castro Daire, onde os sábios pastores alugaram pastos verdes para manter vivos e saudáveis os animais.

O grande rebanho transumante manteve-se quase um mês naquela serra e regressou às suas diversas proveniências naquele que foi um dos últimos anos em que se praticaram todas as tradições seculares da transumância desta região.

Os caminhos, por "canadas" de passagem obrigatória, levaram a locais de riqueza incalculável. Por vezes atravessavam-se estradas romanas que não deverão estar registadas pelos arqueólogos.

As pessoas que ainda mantêm viva a transumância estão a "enfraquecer" nessa tarefa secular e rica de tradições e saber.

Para que conste e, se possível, se contribua para um retomar de tão saudável e antiga actividade.

 

 

A transumância: da Estrela ao Montemuro - os caminhos, os pastores e os rebanhos

Alberto Martinho

 

1 - No maciço da Serra da Estrela, no presente século, temos que considerar o estudo da transumância: a de Inverno e a de Verão. Da Estrela saíam os rebanhos para os campos da Idanha, para o Alentejo, para o Douro e para os campos de Coimbra. No Verão, a Estrela acolhia os gados de aldeias dos concelhos de Seia, Oliveira do Hospital, Gouveia, Guarda, Manteigas e Covilhã. Também acolhia gados dos concelhos de Tábua, Arganil, Carregal do Sal, Nelas, Mangualde, Fornos Algodres, Vila Nova de Poiares e Coimbra.

 

No presente momento, quer a transumância de Verão quer a de Inverno circunscrevem-se a distâncias curtas.

2 - É que, embora a transumância melhore a qualidade dos ovinos e caprinos, e consequentemente, o resultado económico das explorações pecuárias, há um enorme entrave - o insucesso escolar dos filhos, originado pela deslocação dos rebanhos e, consequentemente da família dos pastores.

 

Processos tradicionais no Mundo Rural: que hipótese de adequação à modernidade

Adosinda Henriques

 

Com esta comunicação pretende-se incluir na discussão o tema das formas tradicionais de organização do trabalho em meio rural, bem como dos modos de cooperação que lhe estão associados. De facto, o nosso campo é fértil na produção de mecanismos pelos quais se assegura autonomamente um certo modo de providência e de segurança para actividades em geral frágeis e cheias de risco.

O que está na base destas formas é um conjunto de regras e comportamentos auto-regulados e, portanto, tendencialmente aceites de modo generalizado.

O principio da necessidade e do auto-conhecimento impera e serve de padrão para os resultados alcançados.

O que agora importa saber é se tais formas, depois das profundas alterações que as atingem e condicionam, têm um lugar e são susceptíveis de revitalização quando se trata de desenvolver o mundo rural e devolver-lhe capacidades próprias em vez de apenas o organizar segundo visões exteriores.

 

 

O pastoreio de percurso no sistema de exploração de ovinos em Trás-os-Montes

Carlos Barbosa e José Portela

 

A partir de um estudo realizado em Trás-os-Montes, entre 1990 e 1993, fez--se a caracterização e análise do sistema tradicional de exploração de ovinos. Posteriormente, até 1998, seguiu-se um trabalho que possibilitou alargar o conhecimento deste sistema.

Adoptou-se uma perspectiva sistémica e tomaram-se cinco elementos constituintes: o pastor; o rebanho; o maneio; o espaço; e a comunidade. É a partir das interligações entre estes elementos e da gestão dos condicionalismos entre eles que se fundamenta o sistema tradicional de exploração.

O pastor é, na maioria dos casos, o dono do rebanho e a sua relação com a actividade não é puramente empresarial. Este é, geralmente, um "negócio de família", onde o "saber fazer" é a alma do negócio.

Num sistema de exploração tradicional, os rebanhos estão muitas vezes sujeitos a condições adversas, como, por exemplo, o pastoreio associado a longas caminhadas em trajectos por locais de difícil acesso. Os animais das raças autóctones estão adaptados ao sistema tradicional de exploração e conseguem níveis de produção muito favoráveis face aos condicionalismos inerentes àquele sistema.

As condições orográficas e edafoclimáticas de cada região vão influenciar e condicionar as formas de uso e utilização do solo e, portanto, interferir, em certa medida, com a gestão do espaço de pastoreio. Este espaço é utilizado na satisfação racional das necessidades alimentares do rebanho.

O maneio alimentar é a técnica de maneio mais marcante; e o pastoreio de percurso é uma das características definidoras do maneio neste sistema. O rebanho aproveita recursos vegetais e pastagens marginais que, na maioria dos casos, não teriam qualquer outro tipo de utilização.

O papel do pastoreio de percurso e a definição (ou escolha) dos percursos deve ser analisada no quadro da gestão anual dos recursos alimentares disponíveis e da sua variação ao longo do ano. Com o pastoreio de percurso, o pastor potencia o aproveitamento dos recursos alimentares naturais e consegue ultrapassar as épocas de escassez alimentar. Mas, para tal, o pastor tem que gerir as suas relações (de cooperação e conflito) com a comunidade, as quais determinam em larga medida as relações com o território local, em particular o espaço de pastoreio.

A comunidade, que engloba quer estruturas sociais locais quer instituições, vai criando normas, regras, usos e costumes que o pastor tem que adoptar na sua actividade e que podem condicionar, de forma positiva ou negativa, a sua evolução.

O sistema tradicional de exploração de ovinos resulta de uma articulação bem conseguida entre os interesses do pastor/criador e as condições específicas do meio onde está inserido. Revela ser racional e equilibrado na forma de utilização de recursos marginais. Revela ser capaz de gerar riqueza sem grandes custos nos factores de produção; e de uma forma vantajosa, sob o ponto de vista ambiental. Qualquer intervenção institucional deveria ter em atenção a interdependência e complementaridade entre os elementos constituintes deste sistema tradicional de exploração.

 

 

Considerações sumárias sobre as características geográficas da serra do Montemuro

Carlos Alberto Medeiros

 

A serra do Montemuro situa-se no NO da Beira Alta; atinge 1381 m e, nas áreas mais elevadas, as chuvas são abundantes, ultrapassando os 2500 mm. O povoamento é antigo e estável, de tipo concentrado (aldeias). A criação de gado desenvolveu-se desde cedo e, para o século XVI, está documentada a transumância de Inverno dos bovinos (deslocação para áreas da Beira Litoral) e a abundância de caprinos. O gado ovino acabou por ganhar particular relevância. O clima, com invernos rigorosos, impôs limitações à presença de algumas culturas. O centeio assumiu predomínio entre os cereais. Mas o milho, que surgiu em Portugal no século XVI, terá aparecido cedo nesta área e a batata difundiu-se também, embora em menor escala e mais tardiamente. A organização do espaço cultivado faz-se a partir das aldeias, onde usos comunitários se conservaram até tarde. Entre estes, avulta a constituição de rebanhos de gado miúdo (vigias), para aproveitarem o pasto dos baldios, e reunindo animais de diversos donos. Os vastos espaços disponíveis tornaram possível também um movimento de transumância de Verão, época em que grandes rebanhos de ovelhas dos planaltos a sueste passaram a subir até às áreas elevadas. No quadro duma economia de autosubsistência, as características de isolamento da serra, acentuadas ao mesmo tempo que nas áreas mais baixas se desenvolviam as vias de comunicação, foram rompidas nas últimas 3 décadas. Entretanto, a população declinou fortemente a partir dos anos 50, em função de correntes migratórias importantes. Reduziram-se também a área cultivada e os efectivos de gado miúdo. No contexto actual, sulcada por novas estradas, esvaziada de gente, com uma vida de relação intensificada, quebradas as malhas das estruturas de autosubsistência, a serra do Montemuro enfrenta novos desafios no que se refere à sua ocupação humana.

 

 

A relevância da fitodiversidade no Montemuro

Jorge Paiva

 

A grande maioria dos autores de textos, conferências, ou qualquer outro processo escolhido para tratar dos Descobrimentos e respectiva Expansão, referem fundamentalmente factos que enaltecem o valor que essa grandiosa epopeia lusa teve para Portugal e para o conhecimento e dispersão de novas e úteis plantas como, por exemplo, o milho, a batateira, a cana-do-açucar, o tomateiro, a bananeira, o cafeeiro, etc. Porém, os Descobrimentos foram a maior desgraça para as florestas de Portugal Continental, pois cada nau necessitava madeira de 2000-4000 carvalhos. Inicialmente foi utilizada madeira de azinheira (Quercus ilex subsp. ballota) e de sobreiro (Quercus suber), pela abundância destas árvores nas proximidades dos estaleiros da capital. Porém, devido à utilidade destas duas espécies de carvalhos, fornecedores, respectivamente, de bolota comestível e cortiça, foi proibido o abate destas duas preciosas e úteis espécies de árvores, tendo sido substituídas pelo carvalho-alvarinho (Quercus robur), o maior carvalho que temos Outras madeiras utilizadas, mas em menor quantidade, portanto com fraco impacte ambiental, foram pinho (Pinus pinaster) para a mastreação e vigamento e castanho (Castania sativa) para o mobiliário. Só para a "Campanha de Ceuta" foram necessárias 200-300 naus, e durante a Expansão dos Descobrimentos para a Índia construíram-se 700 naus e para o Brasil, 500. Portanto, durante essa época derrubaram-se mais de 5 milhões de carvalhos. Foi assim que se desflorestou grande parte do país, tendo desaparecido muitos dos nossos riquíssimos carvalhais (Fagosilva), plenos de Biodiversidade. A destruição dos carvalhais prosseguiu depois com a construção da rede ferroviária, agora com o derrube do carvalho negral (Quercus pyrenaica) das Beiras. Assim, as montanhas, particularmente as da região entre Douro e o Tejo, foram praticamente desarborizadas e, portanto, crodidas, tendo sido o respectivo solo arrastado, assoreando os rios. Mais tarde, depois da criação dos Serviços Florestais no fim do século passado, rearborizaram-se as áreas desflorestadas com pinheiro-bravo (Pinus pinaster) que, por serem formações monoespecíficas, portanto, homogéneas, têm menor Biodiversidade, são mais facilmente incendiadas e destruídas por epidemias. Actualmente, continua-se a arborizar o país com uma única espécie de árvore - o eucalipto (Eucalyptus globulus). Por outro lado, as áreas ardidas, bermas das novas vias de comunicação (IPs e ICs) e incultas, estão a ser infestadas por acácias australianas, por serem mais competitivas que as plantas autóctones e, pior ainda, não têm a utilidade dos pinheiros ou até dos eucaliptos.

Se não conseguirmos "travar" o êxodo rural, também iniciado com a emigração durante a Expansão e a que ainda estamos habituados, não desenvolvendo o país, as acácias acabarão por infestar os próprios campos agrícolas, como já se verifica nalgumas regiões.

O pastoreio extensivo também tem sido um dos factores da desarborização das nossas montanhas (incl. Montemuro) desde longa data.

Apesar de todas estas vicissitudes, em Montemuro ainda existem vestígios da vegetação clímax que ali existia, como carvalhais com dominância do carvalho-negral e algum carvalho alvarinho, vegetação ripícola como amieirais e salgueirais ao longo das linhas de água e a extraordinária fitodiversidade dos prados de lima. Assim, ainda ali ocorrem mais de três dezenas de espécies de plantas com estatuto de protecção e alguns endemismos ibéricos (ex.: Anarrhinum duriminum, Carex asturica, Paradisea lusitanica) e lusitanos (ex.: Anarrhinum longipedicellatum, Teucrium salviastrum).

 

 

Conservação da natureza em ecossistemas de montanha: a serra de Montemuro

Paulo Talhadas dos Santos

 

A fauna dos ecossistemas de montanha pode apresentar valores consideráveis de um ponto de vista conservacionista. Desde as espécies de elevada mobilidade até àquelas que se encontram apenas nos vales mais estreitos, são várias as que se apresentam com estatuto de espécie ameaçada. A abordagem das causas da rarefacção dessas espécies é um passo importante no planeamento regional. Neste âmbito, é fundamental ver mais longe e procurar obter mais valias a médio e longo prazo, procurando não hipotecar os recursos naturais como a fauna, a paisagem e os ecossistemas rurais por meio de uma exploração acelerada e descaracterizante. No que respeita à região da Serra de Montemuro, o que foi explanado acima aplica-se de uma forma particularmente actual. A rica fauna da região passa por mamíferos como o lobo, a lontra e a toupeira-de'água, por aves como o falcão-peregrino e a águia-de-Bonelli, ou por répteis como a víbora e a salamandra-lusitânica. A presença destas e outras espécies só foi possível devido à prática agropastoril pouco desenvolvida, da qual a transumância é um ex-libris. Apesar disso, e também um pouco devido a alterações das actividades agro-pecuárias, a abundância daquelas importantes espécies tem sofrido reduções consideráveis mercê da acção conjunta de factores como os incêndios, a caça desregrada, os venenos, as lixeiras e esgotos, a captura ilegal e todo um conjunto de actividades que provocam a redução dos habitats favoráveis. Não há soluções milagrosas. Contudo, o trabalho conjunto revela boas possibilidades de êxito, desde que se reunam agricultores e pastores, associações de caçadores, autarcas e associações de conservação da Natureza. Todos de boa fé, cada parte cedendo um pouco das suas posições tradicionais, podem chegar a posições de consenso, em que os conhecimentos técnicos prevaleçam acima de discussões de direitos adquiridos ou questões sentimentais.

 

 

Ovelha Serra da Estrela: origem e transumância

António Freire Lobo Vaz Patto

 

Não é possível afirmar com segurança donde vieram os Ovinos Serra da Estrela. Têm sido apresentadas algumas hipóteses acerca da sua origem e domesticação das três etnias presentes na Península Ibérica-bordaleira, churra e merina.

Estudos relativamente recentes dos pólenes depositados nos últimos 12.000 anos em zonas húmidas da Serra da Estrela, feitos para determinar a importância e datar o aparecimento da acção dos homens e dos animais ao longo dos séculos, que permitiram identificar as alterações sofridas pela Serra da Estrela ao longo dos últimos milénios, trouxeram novos dados para esta polémica.

Podemos com esses estudos datar as primeiras transumâncias da ovelha Serra da Estrela.

Devemos considerar para as nossas ovelhas, uma transumância de Verão e uma transumância de Inverno.

São conhecidos os percursos tanto de uma como de outra.

Para poder esclarecer alguns pontos e pormenores da transumância dos rebanhos de Oliveira do Hospital para o Montemuro resolvemos seguir, tanto quanto ainda é possível, esse percurso na companhia do nosso último pastor transumante, que deixou de ir para Montemuro há 25 anos.

Percorremos canadas e veredas e visitámos os pontos principais de toda a rota do alavão e tentámos ficar a perceber as condições de alimentação, de alojamento e remuneração dos pastores em transumância.

 

 

Riscos sanitários da transumância

Helena Vala e Fernando Esteves

 

A profilaxia sanitária de algumas doenças infecto-contagiosas que afectam os ovinos recomenda a restrição da circulação de rebanhos, impondo também sérias restrições às transições de animais.

Duas das doenças de maior importância sanitária em ovinos, quer pela sua elevada contagiosidade, quer pelas suas consequências na saúde animal, são a Brucelose e a Agaláxia contagiosa. Destaca-se a Brucelose por ser considerada a maior Zoonose do mundo e pela incidência elevada quer na população ovina quer na população humana portuguesa e, em especial, a norte do Tejo.

Ambas as doenças se traduzem por perdas económicas relevantes nos efectivos que atingem e ambas exigem um controlo preferencialmente do tipo profiláctico, uma vez que a sua terapia se revela ou de difícil execução ou economicamente impraticável. Este controlo profiláctico acarreta medidas exigentes e dispendiosas que passam pelo despiste serológico e abate dos animais positivos no caso da Brucelose e vacinações semestrais no caso da Agaláxia, bem como medidas complementares de higiene que visam impedir o contágio entre animais da mesma exploração e entre animais de explorações distintas, cujo incumprimento impede qualquer eficácia das medidas anteriores.

Para que a transumância se torne uma prática segura é essencial que à realidade destes riscos sanitários seja dada a importância devida por todos os intervenientes na sanidade animal e sejam implementadas medidas seguras para o seu controlo. Até lá, não poderemos deixar de os considerar uma verdadeira ameaça à prática da transumância no nosso país e em particular na nossa região.

 

 

La trashumancia en Europa: una historia común, un futuro para el desarrollo

Julio Grande Ibarra

 

La trashumancia ha sido una práctica ganadera habitual en la Europa mediterránea desde la antigüedad. Su trascendencia ha sido definitiva en muchas regiones. No sólo por su papel como actividad económica fundamental, sino por haber condicionado un paisaje y un modelo social, en definitiva, por haber dado orígen a una cultura. Esta cultura presenta numerosos elementos comunes en todos los países en los que se ha desarrollado.

Las nuevas prácticas pecuarias y la situación actual del medio rural han provocado la agudización de una crisis que se arrastra desde principios del siglo XIX, estando en estos momentos en serio trance de desaparición.

No obstante, la trashumancia ha dejado un importante patrimonio tanto material como inmaterial que es preciso proteger y que, además, puede servir de base para nuevas actividades de desarrollo.

Este desarrollo se podría orientar en tres líneas:

1 - Mantenimiento de una actividad pecuaria que, aunque residual en la actualidad, supone una racional explotación de los recursos. En este sentido es interesante destacar el papel que puede jugar tanto este modelo de ganadería extensiva como las vías pecuarias desde un punto de vista medio ambiental.

2 - Una oferta de ocio temático vinculada a la herencia cultural trashumante. Los recursos disponibles ofrecen magníficas posibles para desarrollar actividades turísticas dentro de la oferta de nuevos productos turísticos.

3 - La recuperación de actividades y artesanías vinculadas con la granjería trashumante.

 

La dimensión europea de la trashumancia puede permitir la puesta en marcha de aciones que refuercen las líneas anteriores y generen dinámicas propias de funcionamiento en red. Desde este punto de vista una posibilidad sería la declaración de la trashumancia como Itinerario Cultural Europeo, dentro de la iniciativa que el Consejo de Europa desarrollo desde hace ya once años. Esta declaración permitiría además establecer un marco de protección del patrimonio y la puesta en marcha de acciones de intervención sobre el mismo.

* Técnico Superior da ESAV.

** Assistente do 1º Triénio da ESAV.

*** Equiparada a Assistente do 2º Triénio da ESAV.

**** Licenciado em Geografia. Investigador. Ambientalista.

***** Licenciado em História. Investigador. Coordenador de Acções de Sensibilização Ambientalista.

SUMÁRIO