Projecto COGITO

 

AVELINA RAINHO

Área Científica de Matemática - Escola Superior de Educação de Viseu

 

Uma das funções das instituições do ensino superior de formação de professores é, ou deveria ser, desenvolver investigação sobre o processo educativo nas escolas e ao serviço das escolas. Cabe neste contexto o desenvolvimento de projectos de investigação que estudem as potencialidades didácticas e formativas de materiais e recursos, a utilizar na prática docente, e a divulgação dos objectos, dos objectivos e dos resultados desses estudos.

O Projecto COGITO, em curso na Área Científica de Matemática, visa concretizar a linha de investigação acima referida, o que significa enveredarmos por um projecto multicomponente a todos os níveis. Foi iniciado este ano lectivo, com um estudo parcelar que visa modos de explorar um dos recursos didácticos mais rico e mais disponível, mas também um dos mais ignorado e/ou mal explorado: o manual escolar.

É um trabalho a desenvolver ao longo de um ano, que foi seleccionado pelo Sistema de Incentivos à Qualidade da Educação, do Instituto de Inovação Educacional, entidade que o subsidia. O seu plano apresenta-se nos parágrafos seguintes.

 

Problema

 

Determinar os efeitos de uma abordagem, ao ensino da matemática, que utiliza regularmente o manual escolar segundo uma estratégia multicomponente, na auto-estima escolar dos alunos, no seu aproveitamento escolar em Matemática, no seu desenvolvimento intelectual e nas suas concepções sobre aprender matemática, saber matemática e aula de matemática. Também se considera em estudo a transferência dos conhecimentos e competências adquiridas para outros domínios curriculares.

Enquadramento teórico e na realidade educativa portuguesa

 

É nossa convicção de que é necessário e urgente desenvolver investigação sobre práticas de ensino, envolvendo directamente os actores educativos – professores e formadores de professores – numa cumplicidade de interesses que foque o aluno e o sucesso escolar. Nessa base, em termos de realidade educativa portuguesa, as razões para este estudo situam-se a nível de problemas de carácter geral, existentes na escolaridade básica, e a nível de problemas específicos da educação matemática que se processa nas escolas. De entre as razões de carácter geral, destacamos:

 

 

A nível de razões de carácter específico, destacamos como mais significativas:

 

O estudo é enquadrado, sobretudo, pelas teorias de Lev Vygotsky, de Robert Sternberg e de David Perkins.

 

Qualquer trabalho que se situe na área de estudos para a renovação da escola actual não pode deixar de invocar as ideias e a obra do que é, hoje, reconhecido como um marco teórico imprescindível na comunidade educativa: Vygotski (1979). Nomeadamente, as suas ideias têm de estar subjacentes sempre que se pretenda orientar a actividade educativa para a zona próxima daquela em que a criança vive a experiência do seu encontro com a cultura, apoiada por um adulto, e sempre que se privilegia a dialéctica linguagem /pensamento, como é o caso.

A teoria triárquica sobre a inteligência humana, de Sternberg (1990), e as suas metáforas, constituem um bom suporte quando se pretende compreender e desenvolver a inteligência dos jovens, em termos de sistemas interactuantes. Neste estudo, têm lugar de destaque o desenvolvimento de metacomponentes, de componentes de aquisição dos conhecimentos e de componentes de execução.

 

O âmago do discurso e das ideias de Perkins (1993) são as disposições triádicas, cujo conceito inclui inclinações, sensibilidades e competências. Por outro lado, tem sido notável a sua contribuição para o estudo da transferência dos conhecimentos que o aluno vai adquirindo.

 

São pois, três marcos teóricos que se complementam, teorias solidamente instaladas, com um corpo de investigação credível e, sobretudo, com evidentes preocupações e ligações ao que se passa na sala de aula.

 

Objectivos

 

São objectivos deste estudo:

 

Pressupostos

 

 

 

Metodologia

 

A equipa envolvida neste estudo compreende especialistas em educação matemática, uma psicóloga e uma especialista em desenvolvimento curricular, todos formadores de professores, e um grupo de professores do 2º Ciclo do Ensino Básico, das escolas e turmas onde vai decorrer a intervenção. Dada a composição desta equipa de investigadores, em número e em habilitações, torna-se possível desenvolver o estudo da mesma problemática também no âmbito da compensação educativa. Assim, pretende-se que o estudo compreenda duas componentes:

 

 

 

Variável independente

A variável independente, em estudo, é uma estratégia de utilização dos manuais escolares adoptados, constituída por uma gama de actividades de aprendizagem activa.

Variáveis dependentes

São variáveis dependentes, em estudo:

 

. aprender matemática;

. saber matemática;

. aula de matemática

 

 

Sujeitos

 

Os sujeitos são alunos do 2º Ciclo do Ensino Básico (5º e 6º anos) – 7 escolas (urbanas e rurais); cerca de 26 turmas; cerca de 500 alunos, a distribuir aleatoriamente por um grupo de controle e um grupo experimental.

 

 

Desenho da componente quantitativa

 

O1 X O2

 

O1 - situação de pré-testagem

X - tratamento experimental

O2 - situação de pós-testagem

 

O tratamento experimental

 

A estratégia global é constituída por actividades variadas, de complexidade crescente, a inserir regularmente no plano das aulas, com duração variável e com progressiva continuidade em casa.

 

São exemplos dessas actividades, a realizar pelos alunos:

 

. "explicar melhor" do que o autor do livro;

. melhorar ou apresentar alternativas às gravuras ilustrativas;

. arranjar melhores exemplos;

. inventar melhores problemas;

. procurar noutras fontes (biblioteca, web, ...) mais informação do que

está no livro;

. compilação de sugestões para enviar ao(s) autor(es);

. ...

 

A actuação preponderante do professor, para além de propor e/ou estimular as actividades em foco, traduz-se em ciclos de modelação das competências e atitudes, favoráveis aos objectivos do momento, e de organização de ambientes de aprendizagem baseada na discussão, colaboração e trabalho em grupo, isto é, modalidades consideradas na literatura como promotoras da aprendizagem auto-regulada e de competências intelectuais do aluno.

 

Instrumentos e fontes de dados

 

Variáveis

Instrumentos/Fontes de dados (exemplos)

Auto estima escolar

questionário; entrevistas

aproveitamento escolar

resultados da avaliação do aproveitamento escolar

desenvolvimento intelectual

observação directa; questionário

concepção de:

questionário; entrevistas

. aprender matemática;

 

. saber matemática;

 

. aula de matemática

 

transferência das competências e atitudes

questionário; entrevistas

Resultados laterais esperados

Desenvolvimento de:

Uma consequência natural deste estudo será a elaboração de uma matriz, fundamentada, de critérios para avaliar a qualidade dos manuais escolares e orientar os docentes na selecção dos mesmos.

 

Referências Bibliográficas

Ivic’, I. (1995). Lev S. Vygotsky . Perspectives – Penseurs de l’éducation, 4, 793-820.

Perkins, D. Jay, E. & Tishman, S. (1993). Beyond Abilities: A Dispositional Theory of Thinking. Merrill-Palmer Quartely, 39(1), 1-21.

Perkins, D. (1994). The New IQ: The Emerging Science of the Learnable Intelligence. Conferência Plenária apresentada em The Sixth International Conference on Thinking. Boston.

Project 2061 (1999). Blueprints for Reform in Science, Mathematics, and Technology Education. NY:American Association for the Advancement of Science.

Simon, M. (1995). Reconstructing Mathematics pedagogy from a constructivist perspective. Journal for Research in Mathematics Education. 26 (2), 114-145.

Sternberg, R. (1990). Metaphors of Mind – Conceptions of the Nature of Intelligence. Cambridge: Cambridge University Press.

Sternberg, R. (1994 a). Styles of thinking and learning. Conferência plenária apresentada em The Sixth International Conference on Thinking. Boston.

Sternberg, R. (1994 b). Sure, Intelligence Can Be Taught. Comunicação apresentada em The Sixth International Conference on Thinking. Boston.

Valente, M. O., Gaspar, A., Rainho, M. A., Santos, M. E., Salema, M. H., Moraes, M. M. & Cruz, M. N. (1991). O Currículo Redefinido. Lisboa: Departamento de Educação da FCUL.

Valente, M. O., Gaspar, A., Rainho, M. A., Santos, M. E., Salema, M. H., Moraes, M. M. & Cruz, M. N. (1991). Programas para Aprender a Pensar. Lisboa: Departamento de Educação da FCUL

Vygotsky, L. (1962). Thought and Language. Hanfmann, E. & Vaker, G. (Eds. & Trads.). Cambridge, Mass: MIT Press.

SUMÁRIO