Editorial

Este mítico ano em que acabámos de entrar, ano de todos os mitos, como o foi o ano 1000, como o serão todos os outros mil que vierem, viu nascer novos mitos e assistiu, pacífico mas incrédulo, como sempre, à ressurreição de histórias, de medos, de superstições e de mitos antigos. Alguns deles foram temporariamente esquecidos, como por exemplo o mito do fim do mundo, pela evidente falta de realização de tal profecia, para ressurgirem de novo em cada um dos milénios vindouros. Mas este ano também se iniciou aquém e além de todos os mitos. Como, aliás, seria de esperar, considerados os vertiginosos progressos do sec. XX, sobretudo a nível científico e tecnológico. Contudo, qualquer um deles foi, como se sabe, alvo de mitificações. O mito do progresso, o mito da ciência, o mito da técnica. Mas o progresso, a ciência e a técnica, em si mesmos, não são mitos. Nós é que inventamos mitos acerca deles e deles fazemos entidades míticas. É neste território da ciência, geograficamente indefinido mas limitado, em si não mítico, por si avesso a todos os mitos, embora não imune e não isento a mitos e, por isso, para si, algumas vezes mítico, que vamos situar o nosso discurso editorial.

Decretou-se o ano 2000 como o Ano Mundial da Matemática. A IMU, International Mathematical Union, em 1992 assim o decidiu. Mas já lá vamos. Ao Ano Mundial da Matemática. Antes disso propomo-nos dar aos nossos leitores alguns - breves - esclarecimentos sobre a entidade promotora desta efeméride. Este organismo internacional no domínio da Matemática existe desde 1919, ano da sua fundação, e mantém-se até hoje; a sua actividade é, contudo, interrompida em 1936, dentro daquele clima social e político que anuncia a eclosão da 2 Guerra Mundial, voltando a renascer e a reconstituir-se em 1951. Contam-se entre os seus objectivos:

- facilitar e promover a cooperação internacional no âmbito da Matemática, quer dentro da comunidade científica matemática mundial, quer entre matemáticos;

- Apoiar e assessorar o International Congress of Mathematicians (ICM) bem como outros encontros ou conferências internacionais no campo da Matemática;

- Estimular e sustentar outras actividades internacionais, no sentido de desenvolver a ciência matemática em todos os suas dimensões, quer se trate de matemática pura, de matemática aplicada, de matemática educacional ou educação matemática;

Assim, a organização de encontros internacionais de matemática, a publicação e distribuição de material científico no campo da matemática(1), o fomento de quaisquer outras actividades matemáticas de carácter internacional, a promoção e facilitação do diálogo, da troca e partilha de informação entre matemáticos de todo o mundo, são algumas das principais actividades que desenvolve na realização dos seus fins. Ainda com vista à consecução dos seus propósitos, a IMU funciona com três comissões permanentes:

A International Commission of Mathematical Instruction (ICMI); A Commission on Development and Exchange (CDE) e a International Commission on the History of Mathematics (ICHM).(2)

Se atentarmos nos objectivos da IMU é fácil constatar que, de todos, o seu principal objectivo é promover, a nível internacional, a ligação entre a comunidade científica matemática e entre matemáticos. Daí que a sua actividade fundamental se situe na organização do International Congress of Mathematicians (ICM), no apoio e na assistência activa que presta à realização de evento tão privilegiado. Aliás a IMU nasce a partir do ICM, já que o primeiro ICM se realizou em 1897, em Zurique, (seguiram-se-lhe mais quatro, em Paris (1900), em Heidelberg (1904), Roma (1908) e Cambridge (1912) - desde o ICM de Paris em 1900 que a realização do acontecimento ocorre de quatro em quatro anos) e a fundação da IMU é posterior, datando de 1919. O último ICM foi em Berlim, em 1998, de 18 a 27 de Agosto, e o próximo será em Beijing, na China, em 2002, de 20 a 28 de Agosto.

É na Declaration of Rio de Janeiro on Mathematics (de 6 de Maio de 1992) que a IMU estabelece o ano 2000 como o Ano Mundial da Matemática (World Mathematical Year - WMY 2000),(3) visando:

- a definição dos grandes desafios matemáticos no e para o sec. XXI;

- a promulgação da Matemática, pura e aplicada, como uma das mais importantes chaves para o desenvolvimento;

- O reconhecimento da presença sistemática da Matemática na sociedade de informação.

Para responder a estas exigências, foram criados:

- O Turn of the Century Committee, que se propõe conhecer os grandes desafios matemáticos do e para o sec. XXI, pretendendo vir a publicar o IMU Book for the Turn of the Century ;

- O IMU Committee for the Year 2000/Unesco, responsável pela coordenação de todos os planos para a comemoração do WMY 2000.

A UNESCO deu o seu apoio à Declaração do ano 2000 como Ano Mundial da Matemática, aprovando a resolução 29C/DR126 de 11 de Novembro de 1997, onde igualmente disponibiliza a quantia de US$ 20,000 para a realização de eventos dentro destas celebrações.

Um pouco por todo o mundo, são muitos e diversificados os modos previstos para comemorar o Ano Mundial da Matemática, desde Conferências, Congressos, Encontros, Concursos e consequente Exposição de posters de matemática nos metropolitanos de cidades de todo o mundo e até a selos de correio, representando matemáticos europeus.(4)

Millenium não podia deixar de divulgar e de, no modo que lhe é possível, se associar a esta comemoração. Daí que, a revista, durante todos os números deste ano, pretenda reflectir e participar nestas celebrações. Ao longo de todos os seus números, a capa não deixará de relembrar este ano como o Ano Mundial da Matemática, através da apresentação do respectivo logotipo. Por outro lado, cumpre-nos dar a vez e a voz aos matemáticos, designadamente àqueles que trabalham quer na ESEV, na Área Científica de Matemática, quer na ESTV, no Departamento de Matemática, bem como a todos os que, dentro deste campo científico, sejam docentes, sejam discentes, queiram colaborar. Por isso, ao longo do ano, a secção Educação, Ciência e Tecnologia está-lhes reservada.

 

Maria de Jesus Fonseca

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1) A este propósito convém referir que a IMU dispõe de um acervo documental e histórico, hoje considerável, que até 1994 esteve em Zurique mas que, a partir dessa data, passou a situar-se nos arquivos da Universidade de Helsínquia.

2) Mais informações sobre a IMU podem ser recolhidas, via Internet, no site http://elib.zib.de/IMU/about.html

3) Para mais pormenores, visitar o endereço http://wmy2000.math.jussieu.fr

4) Informações mais detalhadas podem ser obtidas, respectivamente, em:

http://www.math.jussieu.fr/~jarraud/wmy2000/agenda.html

http://www.math.jussieu.fr/~jarraud/wmy2000/projects.html

http://www.math.jussieu.fr/~jarraud/wmy2000/poster.html.

SUMÁRIO