19TH WORLD CONFERENCE ON OPEN LEARNING AND DISTANCE EDUCATION

 

JOÃO PEDRO DE BARROS *

VASCO SOARES DE OLIVEIRA E CUNHA **

 

. Realizada em Viena entre 20 e 24 de Junho de 1999, esta conferência mundial, com o tema geral The New Educational Frontier: Teaching and Learning in a Networked World, foi uma organização do Conselho Internacional para a Educação à Distância (ICDE).

Todos os trabalhos se desenvolveram no Austria Center Vienna, o mais moderno centro de congressos da capital austríaca, adjacente ao complexo das Nações Unidas, na margem esquerda do Danúbio, a menos de quinze minutos de metro do centro da cidade.

Com mais de mil e trezentos participantes, na Conferência estiveram representados setenta e nove países, sendo trinta europeus, dezasseis asiáticos, quinze americanos, catorze africanos e quatro da zona do Pacífico. Em termos de representação individual, a Europa, com mais de 57% de presenças, foi a zona do globo mais visível. De salientar, contudo, a presença significativa de um elevado número de representantes de países em busca de desenvolvimento, de todos os continentes, da Letónia à Eslováquia, da Mongólia ao Vietname, da República Dominicana ao Equador, do Botswana à Tunísia, passando pelo Chade e pelo Togo.

Como habitualmente sucede em grandes conferências internacionais, os países ricos ultrapassam largamente os mais pobres em número de presenças. Uma situação a merecer alguma atenção dos organismos com dimensão planetária, interessados, pelo menos no plano teórico, em promover um desenvolvimento mundial mais equilibrado.

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. Numa conferência com três plenários, um simposium, cinquenta e seis sessões paralelas e quarenta e sete posters, para além de workshops e demonstrações práticas da responsabilidade de variadas agências de educação (governamentais, ou não), de sectores económicos e de âmbito financeiro (UNESCO, SADE, THE WORLD BANK, EDEN, ASTRA-Net, AT&T, etc.), cada participante tem de fazer opções para rentabilizar o seu tempo, sempre na perspectiva de uma colheita de informação e de formação e preferências individuais e, simultaneamente, para conseguir sentir o pulsar actual das questões em análise. Para além do estabelecimento de contactos diversos que poderão constituir uma possibilidade de cooperação inter-institucional. Tem sido este o posicionamento do Instituto Superior Politécnico de Viseu e a conferência de Viena não fugiu à regra.

Optou-se pela participação em sessões no âmbito de grandes temáticas como: a construção da Universidade e da Escola do futuro; o desenvolvimento da formação. Também como preocupação, as sínteses que as visões e perspectivas actuais sempre ajudam a construir.

Regista-se em Millenium uma síntese, necessariamente breve, de algumas das sessões em que foram expostas e discutidas questões como a democratização da educação, o contributo da educação à distância no desenvolvimento de minorias étnicas, o impacto na Escola da alteração de sistemas económicos nacionais. Problemas actuais, permanentemente abertos nas sociedades do tempo presente, e sempre na perspectiva da Educação à Distância, onde se transformam os papéis tradicionalmente desempenhados pelos participantes no processo educativo, o professor assumindo-se como assessor, com uma comunicação mais intensa com os alunos; onde os documentos de trabalho deverão constituir sempre guias de aprendizagem e, simultaneamente, fornecer elementos de auto-avaliação; onde a dimensão espácio-temporal é distinta e os meios e os modelos de comunicação têm facilitado a transmissão e a recriação do saber pelas vias de um diálogo e de uma interacção tanto sincrónicos como assincrónicos. Enfim, de uma educação à distância que, como refere Martha Barquín (1999, p. 84), urge distanciar "de una expectativa eminentemente cuantitativa y con un sentido extremo de competitividad" para passar à criação "de nuevos paradigmas, programas y prácticas prospectivas que equilibradamente contemplen procesos cualitativos, con sentido de complementaridad humanística y de orientación formativa".

No âmbito dos contactos estabelecidos, Millenium tem o grato prazer de publicar neste número um texto assinado pela presidente da Asociación de Difusión de Educación a Distancia da Argentina.

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. O processo de democratização da educação é hoje uma questão chave para o desenvolvimento. Conhecido, como é, que todos os projectos educativos estão intimamente imersos em cada sociedade específica, uma estrutura social única, e que as sociedades que se encontram num processo de desenvolvimento se caracterizam pela omnipresença de uma estratificação social que conduz a disparidades profundas, sobressai na planificação do ensino a necessidade do desenvolvimento de um sistema educativo que contribua para o nivelamento das oportunidades de formação.

Conhecido também, como é, que o acesso à educação depende, em grande medida, do tipo de modelo usado para transmitir o conhecimento, poderá concluir-se que, neste contexto, a educação à distância cria e desenvolve condições favoráveis para a oferta de oportunidades aos segmentos da população dos países com maior número de problemas de acesso a todos os graus de ensino, nomeadamente do ensino superior, na América latina, na África, na Ásia e na Região do Pacífico.

Para Fernando Bolaños, sociólogo da Universidade da Costa Rica, presentemente a trabalhar na Universidad Estatal a Distancia (UNED), torna-se urgente a construção de um modelo de avaliação do processo de democratização na educação que permita estabelecer, em bases científicas firmes, que o uso de metodologias á distância melhora a distribuição social do ensino superior e que as instituições de ensino superior à distância aumentam as oportunidades de acesso aos sectores da população que, no passado, a educação convencional manteve fora do caminho para o desenvolvimento.

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. As crianças aborígenes da Austrália têm sido genericamente ignoradas em muita da literatura de investigação sobre educação à distância, havendo uma tendência para homogeneizar tanto os cenários económicos e sociais de fundo como as experiências educativas dos estudantes, "o desvio da norma sendo frequentemente interpretado como 'deficit' que urge corrigir e ultrapassar". (Brady, 1977, p. 6.).

Necessário se torna assumir um posicionamento que privilegie a diversidade estudantil, as suas aspirações e motivações, bem como o estudo aprofundado dos factores de aprendizagem cultural, uma atitude tanto mais urgente quando se considera que "a heterogeneidade dos estudantes existe num meio mais amplo [sujeito a] uma mudança vasta e acelerada a nível global, nacional, regional e local". (Danaher, 1995, cit. por Brady, op. cit., pp. 6-7).

Os programas de educação à distância, como o que está presentemente a ser desenvolvido nas escolas primárias de Sidney, envolvendo crianças aborígenes no contexto dos seus próprios grupos culturais, e com abordagens holísticas, poderão conduzir a desempenhos mais elevados. Condições igualmente decisivas poderão ser o recrutamento de professores indígenas e a ligação íntima dos autores dos curricula com a realidade aborígene.

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. Com uma superfície que corresponde a três vezes a da França, e com apenas 2,4 milhões de habitantes, 50% dos quais com menos de vinte anos, a República da Mongólia é um estado interior, sem qualquer saída para o mar, montanhoso a oeste, com florestas, planáltico a leste, com predomínio da estepe, área extensíssima de pastagens sazonais, e o deserto de Gobi a sul.

A criação de gado, a produção de cereais, a exploração mineral e a manufactura nos sectores têxtil, de peles, carne enlatada, casas pré-fabricadas, mobiliário, vidro, papel são as actividades principais de uma população em grande parte nómada, deslocando-se na estepe ao sabor das necessidades dos rebanhos de ovinos, bonivos e cavalos, e em caravanas de camelos, no deserto, para as trocas comerciais.

Entre 1924 e 1990, a Mongólia viveu numa economia socialista centralizada. A queda do Muro de Berlim, que arrastou consigo os regimes da Europa e da Ásia sob jurisdição da União Soviética, esteve também na base de alterações políticas e económicas profundas na Mongólia, a economia planificada dando lugar a uma economia de mercado, uma transformação acompanhada de múltiplas consequências e de elevados custos sociais, inevitáveis quando os fundamentos da vida económica e social de um país tão radicalmente substituídos por outros de matriz oposta.

Segundo a especialista europeia que apresentou em Viena um trabalho sobre a actual situação mongol no domínio da educação, com o conhecimento concreto da vida do país nos últimos dezoito meses, a vida social mongol a seguir a 1990 tem-se caracterizado por um aumento vertiginoso do desemprego, sobretudo entre os jovens, pela abolição de subsídios estatais, pela ausência de programas para as zonas rurais, pela deterioração dos serviços públicos, nomeadamente nas áreas da saúde e da educação. Neste sector, e relativamente às zonas urbanas, porque grande parte da população jovem passou a trabalhar em casa, por conta de empresários, para poderem complementar o magro rendimento familiar, assistiu-se a um aumento forte das percentagens de abandono escolar, com especial relevância em Ulaanbaatar, a capital, onde vive mais de 30% da população do país.

Nas zonas rurais, onde a população é fundamentalmente nómada, as famílias numerosas, vivendo em gers, tendas circulares com uma só divisão, os programas de educação à distância desapareceram totalmente a partir de 1990, uma medida impopular na perspectiva nómada, onde a escolarização básica atingia mais de 90%.

Em termos nacionais, 70% do orçamento para a Educação é agora consumido no aquecimento das instalações.

Começou, entretanto, a tornar-se bem claro que o país necessitava de um sistema de educação que possibilitasse aprendizagens pragmáticas, tanto na cidade como no campo, uma educação orientada para a vida concreta das populações. E os projectos, ainda que timidamente, começaram a surgir em 1993.

No âmbito do ensino à distância, com uma tradição forte no país, uma iniciativa conjunta da UNESCO e do governo, que chega a 37.000 famílias rurais e nómadas, em que a aprendizagem é feita via rádio e o auto-estudo através de material impresso, mas apoiado por professores visitantes, por tutores e por centros de aprendizagem.

O curriculum privilegia questões como: a geração de rendimento, a poupança, as tecnologias locais e os saberes tradicionais, a saúde, os direitos cívicos e humanos, a pastorícia e a criação animal, a aprendizagem em casa de crianças em idade pré-escolar, os cuidados com as crianças. Entre outras.

Para a juventude urbana existe um programa separado. Necessário, porquanto é muito elevado o número de jovens que após a escolaridade básica obrigatória não têm acesso à Universidade, demasiado cara.

Com a designação de preparar jovens desempregados para o trabalho numa sociedade de mercado, o programa atinge 60.000 jovens só na capital, a maioria originária de famílias muito pobres, o curriculum flexível privilegiando a aprendizagem e o treino de skills e a sua actualização contínua numa sociedade em constante mutação.

O programa tem revelado algumas fraquezas, como comprovam inquéritos realizados junto dos alunos, a principal sendo a necessidade sentida de a formação à distância ser complementada com algum ensino directo.

 

UM MOMENTO ÚNICO DA VIDA MONGOL

 

A unificação das tribos pastoris mongóis e turco-mongóis foi realizada por Genghis Khan nos anos finais do séc. XII e no início do século seguinte.

Proclamado jagán, isto é, o Khan supremo de todas as tribos em 1206 pela assembleia geral dos chefes mongóis (Quariltai), Genghis Khan construiu um verdadeiro estado, ponto de partida para um vasto império que, em 1227, ano da sua morte, se estendia por grandes áreas da Sibéria, desde o Mar do Japão no Mar Negro e às vizinhanças do Rio Indo, a sudoeste, ao Tibete.

Os seus sucessores dilataram ainda mais o império por toda a Ásia, deixando apenas de fora a Índia, o sudeste do continente e a península arábica, no extremo sudoeste. Construíram assim o maior império de toda a história da humanidade. Um espaço que, para alguns, nasceu da violência, de atrocidades e de massacres, destacando outros que com Genghis Khan houve no império liberdade de circulação de bens, nomeadamente da seda, e de cultos religiosos para budistas, islâmicos e cristãos, e para os veneradores de Tengri, o senhor dos céus, uma tolerância superior à que se observa em muitos países do nosso tempo.

Coeso durante um período muito curto, o império sofreu um desmembramento acelerado nos meados do séc. XIII, com origem nas rivalidades surgidas entre os descendentes do conquistador. A Mongólia exterior, como os chineses designaram o núcleo original do império de Genghis Khan, foi anexada pela China nos meados do séc. XIV.

 

. Um curto apontamento final para as sessões de abertura e de encerramento da conferência.

Na primeira, depois das intervenções do presidente cessante do ICDE, o português Professor-Doutor Armando Rocha Trindade, da Universidade Aberta, de Magdalene Hoff, Vice-Presidente do Parlamento Europeu, e de Helmut Hoyer, Reitor da FernUniversität-Hagen (Alemanha), que coordenou os trabalhos do programa desta 19 Conferência Mundial, o destaque para os Prémios de Excelência por contributos no campo da Educação Permanente, área de Ensino à Distância, atribuídos a Börje Holmberg (FernFachhoochschule Darmstadt), da Alemanha, e a Otto Peters (FernUniversität-Hagen) também da Alemanha; para os Prémios de Excelência Institucional, entregues à Universidade Aberta de Hong Kong, criada em 1988, e à Universidade de Queensland Sul, Austrália. Individualmente, a distinção foi para James C. Taylor, do Centro de Educação à Distância de Queensland Sul.

A terminar, todo o encanto da música vienense de Johann Strauss, no primeiro centenário da sua morte, num concerto pela Bohuslav Martinu Philarmony Zlin, uma orquestra checa dirigida por Norbert Pffaflmeyer, fundada em 1946 e composta por 65 músicos.

Algumas composições de Strauss foram acompanhadas pelos bailarinos do Ballet do teatro Nacional de Brno, a segunda maior cidade da República Checa, nomeadamente Stadt und Land, Wien, Wien und Gesang, Unter Donner und Blitz, entre outras.

Na sessão de encerramento usaram da palavra o presidente cessante e a nova titular, Molly Corbett Broad. Gabriele Behler, ministra do estado alemão do Reno-Norte - Vestfália, deu as primeiras palavras de boas-vindas à 20 Conferência Mundial do ICDE, a realizar na Alemanha em 2001.

 

CONSELHO INTERNACIONAL PARA A EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA - (ICDE)

 

Organização global de instituições educativas, de associações regionais e nacionais, de autoridades e de agências nas áreas da aprendizagem aberta, de educação e de formação permanente, o ICDE, onde estão representados 130 países, é oficialmente reconhecido pela ONU e ligado a este organismo através da UNESCO.

Fundado em 1938, e sediado em Oslo (Noruega), a ligação da organização com os países filiados é estabelecida, em regime de permanência, através de departamentos nacionais em cada país membro.

Como objectivos fundamentais da organização destacam-se: o contributo no desenvolvimento de novas metodologias e tecnologias aplicadas à educação e à formação, e em ligação intrínseca com a aprendizagem contínua; a colaboração no desenvolvimento da educação e da formação sem fronteiras; o contributo para o emergir de novos paradigmas educativos; a capacidade de se constituir como um forum que potencie a interacção e o desenvolvimento. A crescente influência das tecnologias educativas nos sistemas de educação e de formação tem vindo a reforçar a acção do Conselho.

Existem actualmente cinco tipos de membros do ICDE: o institucional, o de autoridades e agências de educação, o de corporações, de indivíduos e de membros a título honorário.

Os elos de ligação entre os membros são fundamentalmente estabelecidos através da publicação de um jornal de educação à distância - Open Praxis -, e da realização de uma Conferência Mundial (de dois em dois anos).

Os mecanismos globais da cooperação, a partilha dos recursos e das capacidades, a mobilidade académica e o desenvolvimento estratégico são competências da Conferência de Presidentes (SCOP), o forum da colaboração interinstitucional.

A participação dos membros individuais do Conselho em grupos de interesse é feita através da estrutura designada por FAP, um Forum para Académicos e Profissionais.

O ICDE dispõe ainda de um Conselho (BERT) que funciona como Mesa Redonda aberta ao diálogo internacional entre executivos do mundo da educação e da produção.

 

BIBLIOGRAFIA

 

Bolaños, Fernando, Contribution of Distance Education to the Democratization of Education, The New Educational Frontier: Teaching and Learning in a Networked World S. José de Costa Rica Ed. UNED,) 1999, p. 7-12.

ICDE Profile, International Council of Open and Distance Learning, Oslo, ed. ICDE, 1999.

List of Participants (as per June 20, 1999) 19th World Conference on Open Learning and Distance Education in Vienna, June 20-24, 1999. Vienna, ICDE, 1999.

Barquín Martha, Evaluación Formatica en Educación a Distancia, La Nueva Frontera Educativa: enseñando y aprendiendo en un mundo interconectado Ciudad de México, ed. Ilce, 1999, 83-88.

Edwards, Mike, "Genghis, Lord of the Mongols", National Geographic 190, 6 Washington, D.C. 2-37.

Brady Wendy, Research with Aboriginal Communities to determine Access of Indigenous Australian Children to the Sidney Distance Education Primary School, Sidney, June 1997.

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* Presidente do Instituto Superior Politécnico de Viseu.

** Vice-Presidente do Instituto Superior Politécnico de Viseu.

SUMÁRIO