O MAR DE S. TOMÉ E PRÍNCIPE

ALBERTINO BRAGANÇA *

 

Pressente-se que existe algo de espantoso e belo neste mar, nessa mole imensa de água que se espraia e perde de vista na franja sinuosa do horizonte.

Fica-se sem saber, decerto, do que se trata, porque estas águas se trancam num rumorejar de séculos, como se assim se resguardassem de alheias curiosidades e protegessem melhor os seus segredos e mistérios.

Espanta sem dúvida a rede multicor do verde e do azul perdendo-se em estranhos mimetismos; o brilho do sol no contacto com a superfície rugosa das águas; é misteriosamente bela e revolta no mar contra a terra na Boca do Inferno, nas proximidades da roça Água-Izé, a caminho do sul. É um embate feito de tumultos e de silêncios, como que a sinfonia do mar desenvolvendo-se em vagas sucessivas e demolidoras contra o rochedo.

A história das ilhas associa-se infalivelmente à história dessas águas, ora agitadas, ora inermes, que se viram há séculos esventradas por arrojados projectos de dilatação da fé e de insaciáveis impérios.

Em épocas da mais execrável desumanidade e cobiça, sobre este mar se derramou o grito angustiante dos que eram forçados a demandar terras alheias, levando com eles a memória viva de um continente exangue e explorado até à exaustão.

São sete as pedras, no sítio das Sete Pedras, sete como as maravilhas do mundo. No longínquo ano de 1544, narra a história que neste local naufragou um navio negreiro, cujos sobreviventes – os Angolares – teriam encontrado guarida em terra firme do sul da ilha.

Esfumam-se na névoa dos tempos as provas da veracidade histórica de um tema tão problemático como a questão de se saber se as duas ilhas eram ou não habitadas por altura da "descoberta". Por isso, o mito persiste, à espera de melhores dias.

Mas realidade bem viva são estes Angolares, donos do passado das florestas do sul e amantes incorrigíveis da liberdade, despojados das suas terras pela ganância dos impérios financeiros da época.

Foi um processo longo, de acirradas lutas, contra o invasor ávido do cacau e dos respectivos lucros e que pôs fim ao reino de Anguéné.

Hoje, longe dos obôs e da fragrância que deles emana, impelidos que foram para a orla marítima, assumem com a dignidade que os caracteriza o profundo processo de viragem em que tal mudança se traduziu.

Pese embora a nostalgia que neles se adivinha dos gloriosos tempos da enxada e da azagaia, a vida decorre com igual fluidez, tendo agora por companheiro inseparável o mar-oceano que lhes influencia o destino e me perpetua os sonhos.

Esse mar em que igualmente se luta pela sobrevivência, própria e dos outros. Rostos duros, mãos calejadas, ouvidos prontos a descodificar as insondáveis mensagens do mar-oceano e a desvendar-lhe os perigos, nestes homens a faina se confunde com a própria existência.

Mesmo nas horas vagas, quando no remanso à boca da praia o olhar divaga em sentido impreciso, é o mar que está presente: nas intermináveis histórias narradas com religiosidade e minúcia, na azáfama das mãos dedilhando, com a mestria de quem sabe, as redes esburacadas ou no merecido sono do guerreiro, que amanhã é outro dia e o mar não pode esperar.

Mas há também quem aproveite o mar como meio de lazer e se estirace preguiçosamente ao longo das águas. Saber nadar não é o que mais importa, porque é na praia, sobre a areia, que o convívio se faz e a amizade se consolida.

Sobretudo quando, como na praia das Sete Ondas, é tão forte o prodígio da natureza que até parece favorecer os mais supersticiosos: é que as ondas quebram em grupos de sete e não está escrito que sete é o número da sorte?

É assim o mar de S. Tomé e Príncipe.

Em tempos difíceis como este, que trazem mais dúvidas que certezas, parece adensar-se nas suas águas a sedução e o mistério, que fazem dele o mar mais belo do mundo.

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* S. Tomé e Príncipe

SUMÁRIO