TORTA DE RIM

MAJÔ MACEDO E SILVA *

 

Na agradável sensação de relaxamento produzida pelos medicamentos, ouço sobre a possibilidade de ser útil através da doação de órgãos. Com muita gentileza, me pedem para pensar sobre o assunto e saem do quarto. Não tenho nada contra doar meus órgãos. Não chega a aliviar a angústia da morte com data certa, mas é interessante ponderar sobre deixar algo vivo quando chegar a hora.

 

Com os pensamentos confusos pela sonolência, percorro o passado e sinto uma enorme vontade de comer torta de rim. Sinto raiva também.

 

Avalio os 17 anos de casamento e só consigo pensar na torta de rim. Nunca me incomodou a voracidade sexual dela. As extravagâncias de suas aventuras sim. Elas me atingiam em cheio. Bem no estômago.

 

Nos primeiros anos, ouvia comentários no trem e assim ficava sabendo que na minha ausência, homens de tais e tais procedências frequentavam minha casa e então pude entender a culinária exótica que passou a dominar meus jantares. Papa de cará cheia de pimenta: africanos. Peixe cru: japoneses. Porco carregado de gengibre: chineses. E nada da boa e tradicional torta de rim inglesa.

 

Ela talvez seja a única dona de casa inglesa a levar índios para a cama, o que me fez comer muito milho. Porque nunca um inglês? Volto a pensar na doação de meus órgãos o que em todo caso garante um pedaço de vida, ou vida para um pedaço de mim. Vou doar sim, mas para um branco.

 

Se algo meu vai continuar vivo, quero me assegurar de que haverá torta de rim no jantar.

 

SP 14.07.1999

________________

* S. Paulo - Brasil

SUMÁRIO