BROOKLYN BRIDGE : facto ou símbolo?

ANA MARIA MARQUES DA COSTA *

 

Brooklyn Bridge, que Hart Crane celebra no seu poema The Bridge, é simultaneamente artefacto e símbolo.

Envolta numa aura de mistério, a ponte - enquanto artefacto - assume , desde logo, um carácter lendário, quase mítico, corolário da forma singular como, desde o início, foram conduzidos os trabalhos de construção da referida ponte.

Embora a ponte corresponda à materialização de um sonho acalentado por John F.Roebling, o emergir daquela que viria a ser considerada a 8ª Maravilha do Mundo ficou a dever-se a seu filho, Washington Roebling, que, embora fisicamente incapacitado, jamais deixou de observar e dirigir (qual feiticeiro astuto de longas barbas) os trabalhos que dariam vida à obra de arte que seu pai projectara.

A invalidez de W.Roebling acarretou-lhe, para além de um mal-estar físico e psicológico, o desdém de empreiteiros corruptos, a animosidade da imprensa e graves ofensas à sua integridade. Foi, pois, com grande pesar que duas semanas antes da inauguração da ponte, a 24 /5 /1883, Washington Roebling se lamentou de toda a incompreensão de que tinha sido vítima: "for years I have been obliged to possess my soul with all the patience and philosophy that I could muster, and when I have had to yield to the inevitable I have consoled myself by thinking with Pope «whatever is, is right»" (1)

Após a inauguração da ponte, W.Roebling obteve tardia mas merecidamente o reconhecimento do público. Foi então que se retirou da cena pública e se dedicou à filatelia e à redacção de um livro sobre as suas memórias.

Morreu em 1926, quase com 90 anos de idade. Aquando da sua morte, o poema de Hart Crane, The Bridge, estava em fase de gestação.

Hoje, quando se lê a versão integral do poema, é-se transportado aos anos 20. O poema é simultaneamente autobiografia e mito da América. Reflecte, consequentemente, não apenas os ritmos sincopados da década, como também todos os arrebatamentos estéticos, conflitos e mudanças que a assolaram.

A própria vida do poeta, naqueles anos de mecanização, estandardização e capitalismo consumista, constituiu o cenário que serviu de pano de fundo ao poema.

Na Primavera de 1923 Hart Crane abandonou a casa de seu pai em Cleveland (e desde então, até ao seu suicídio em 1932, viveu em Brooklyn Heights, próximo da mais bela ponte do mundo). No Inverno do mesmo ano–então com 24 anos de idade - Crane anunciou o seu propósito de escrever um poema intitulado The Bridge: poema épico que pretendia ser uma síntese mística da América. Crane tinha então terminado a sua obra For the Marriage of Faustus and Helen,poema em que a moderna cultura faustiana se funde com a ascese e a contemplação estética .Então, servo de um compromisso com a poesia visionária e sentindo-se em comunhão estreita com Whitman, Crane preparava-se para um esforço ainda maior: o de compor o mito da América. Eliot havia convertido London Bridge em símbolo de passagem para o Além ; a réplica de Crane foi Brooklyn Bridge.

Crane desde sempre procurou manter viva a imagem de Brooklyn Bridge. Em 1924 confessou:"I am now living in the shadow of the bridge".(2) Tinha-se então mudado para o nº 110 de Columbia Heights, a mesma casa que fora ocupada pelo «inválido» Roebling, e, à semelhança de Roebling, também Crane dedicou os anos áureos da sua criatividade à contemplação da visão além do cais. Na sua imaginação, a sombra da ponte metamorfoseou-se em mito."The Bridge", escreveu Crane "aprofunda as tendências manifestas em Faustus and Helen"(3). Estas tendências incluem uma concepção neo- platónica de uma realidade que ultrapassa o imediatismo dos sentidos. O caos inebriante das sensações na cidade moderna nega esta realidade transcendente, tornando-a acessível apenas ao artista, que, abandonando-se a uma sensação de transe, viabiliza a fusão do "eu" com o mundo.

Em The Bridge assiste-se ainda a uma tentativa de converter a América contemporânea em símbolo de uma nova consciência, bem como a um desejo de transformação meramente estética de uma sociedade corroída espacial e temporalmente pelo mecanicismo. Contudo, não se esgota aqui a simbologia do poema.

Fundamentalmente, importa reflectir sobre o significado histórico do momento vulgarmente conhecido por "the classic moment".

O "the classic moment" traduz-se numa entrega a percepções meramente visuais e de movimento, e atinge a sua forma clássica na estrofe que abre o último poema de The Bridge:

 

Through the bound cable strands,the arching path

Upward,veering with light, the flight of strings,-

Taut miles of shuttling moonlight syncopate

The whispered rush,telepathy of wires.

Up the index of night,granite and steel-

Transparent meshes-fleckless the gleaming staves-

Sybilline voices flicker ,waveringly stream

As though a god were issue of the strings.. (4).

Sendo um momento de profunda subjectividade e privacidade, o momento clássico poderá ainda ser classificado como um, entre outros indícios, de que estamos perante aquilo que se designa por fenómeno cultural e que se realiza através da apropriação de um reino interior, onde necessidades individuais se entrecruzam e combinam com valores exteriores, para dar ao sujeito uma nova visão do mundo e dos objectos.

Em suma, o momento clássico constitui um paradigma da conversão da ponte em fenómeno histórico e cultural. É por isso que desconhecer a história de Brooklyn Bridge equivale, em certa medida, a um desconhecimento de uma parte importante da História dos Estados Unidos da América, história essa que, no poema de Crane não se confunde com visões economicistas , políticas ou meramente cronológicas. Com efeito, ao afirmar que "history and fact,location ,etc ,all have to be transfigured into abstract form that would almost function independently of its subject-matter (...)" (5), Crane estabelece uma distinção entre história e "abstract form", aproximando-se , assim, da visão do antropólogo Mircea Eliade. Eliade acreditava que o homem primitivo não lograria opor-se à marcha ininterrupta da história e ao seu curso de acontecimentos irreversíveis, a não ser pela recriação, nos seus rituais, de alguns dos acontecimentos mais remotos da sua mitologia, como, por exemplo, a criação do Universo. Do seu ponto de vista, "all events and actions acquire a value ,and in so doing become real because they participate, after one fashion or another,in a reality that transcends them."(6)

Assim, os únicos acontecimentos reais são aqueles que a mitologia celebrou e que, por sua vez, se transformaram em "gestures" paradigmáticos. Por outras palavras, "o mito do eterno retorno" era , segundo Eliade, a ontologia predominante do Homem primitivo.

O poema The Bridge constitui uma versão sofisticada e actualizada do "mito do retorno", cuja composição se alicerça num intertexto que, sendo inerente ao poema, não deixa de ser facilmente identificável: a História dos Estados Unidos da América, a Literatura Universal e as Escrituras .

A acção do poema compreende, através das quinze secções que o compõem, um dia, desde o amanhecer em Harbor Dawn, à meia noite em Atlantis.

Através do motivema do sonho, nesse dia se percorrem vastos períodos de tempo e de espaço: uma viagem de metro pela manhã converte-se num passeio de comboio ao Mississipi e depois num regresso ao passado (mais concretamente ao mundo primitivo dos índios e ainda ao oeste dos pioneiros). Em certa medida, todo o dia constitui um sonho; o poeta viaja através da sua própria consciência , ambicionando apropriar-se do significado da história dos Estados Unidos da América ,que, sendo inseparável das suas memórias, encerra também a chave para a compreensão do seu "eu". Cathay, que designa o fim da viagem ou a descoberta de um novo mundo é, segundo Crane, uma "atitude de espírito", uma auto-descoberta.

Decorre do exposto que o modo do poema é, por excelência, o mito, e que a sua principal função é ultrapassar a história, abolir o tempo e demonstrar que todos os acontecimentos significativos partilham de um arquétipo: a descoberta de um novo mundo.

Em conclusão, as emoções ambivalentes que a visão da ponte desencadeia correspondem significativamente à oposição que Henry Adams acredita estar no cerne de toda a Civilização Ocidental, e que ele designa através da oposição entre a Virgem e o dínamo.

A Virgem representa a submissão à Natureza, a fecundidade, a ordem orgânica, o mistério. O dínamo, por sua vez, representa o domínio da Natureza pelo Homem e traduz-se na adopção de comportamentos repressivos e aquisitivos tão característicos da sociedade moderna.

A grande maioria dos Americanos pareciam firmemente convictos de que a ponte prestava simultaneamente culto à Virgem e ao dínamo : enquanto auto-estrada, símbolo de mudança e progresso, a ponte servia o dínamo; todavia era a Virgem que esta venerava, ao elevar-se quase até ao Céu.

Por outras palavras, a ponte evoca respostas que fazem crer estarmos perante o símbolo cardinal de uma época, visão que não é refractária à noção de mito ,uma vez que grande parte dos mitos que conhecemos têm a sua origem num período histórico-cultural bem delimitado; só depois se transformando em fenómenos transcendentes e intemporais. É nessa perspectiva que deve ser entendida a afirmação de Abram Hewitt, com a qual se encerra esta nótula: "it stands before us today as the sum and epitome of human knowledge;as the very heir of the ages ." (7)

 

NOTAS

 

(1) Trachtenberg,Alan,Brooklyn Bridge:Fact and Symbol. Chicago,London,The University of Chicago Press,p.96.

(2) Idem, ibidem. P.144

(3) Idem,ibidem .

(4) Weber,Brom (ed.)The Complete Poems and Selected Letters and Prose of Hart Crane.New York,Doubleday & Company ,Inc.,1966,p.114.

(5) Trachtenberg,Alan,op.cit., p.146

(6) Idem,ibidem, p.147.

(7) Idem,ibidem , p.8.

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* Equiparada a professora adjunta da E.S.E.V.

SUMÁRIO