PERSPECTIVAS MALABARES

 

VASCO OLIVEIRA E CUNHA*

 

1. REFLEXÕES EM TORNO DE UMA ESCULTURA

 

Os três homens grandes da Índia e do Oriente receberam-nos no pátio amplo do Heritage Village Club de Goa:

o Gama, cabeça soberba e altaneira, o sonho de águas malabares no olhar em busca de voo de pássaro ou do perfil tropical de um cabo verdejante, ouvido bem atento ansiando pelo coro de "terra alta pela proa" dos marinheiros da "celsa gávea"1 e pelo grito de "Terra é de Calecut, se não me engano"2 do mu'allim de Melinde, mundo novo para os portugueses, a juntar ao africano, alteração reestruturada da organização do antigo comércio transcontinental "que ia de Cantão, na China, até Alexandria e Veneza, no Mediterrâneo"3, e simultaneamente humilde, como em Camões, "geolhos no chão, as mãos ao céu" erguidas agradecendo "a mercê grande de Deus"4 por ter permitido levar até ao fim uma viagem antolhada de perigos e de tormentas mil, ora "rodeando os alíseos do sueste, entrando na corrente equatorial do sul, correndo com ventos largos de leste até encontrar os gerais do oeste"5, demandando então o Cabo e rumando a oriente, ora, já no Índico, mundo de estreitos, baixios, de escolhos e pequenas ilhas desde Melinde a Calecut, ora no "canal dos nove graus e meio"6, entre as Laquedivas e as Maldivas, a rota definida pelas alturas estelares, a técnica dos pilotos destas longitudes, e aproveitando a "monção pequena"7 de sudoeste para não encontrar fechados os portos da Índia no pico do Verão;

Albuquerque, o rosto duro, decidido e bravo, amansador de Goa, de Gerum, de Mascate, dos Párseos de Ormuz, "por seu mal valentes"8, sempre "abrindo com a espada o espesso e horrendo esquadrão de Gentios e de Mouros"9, e "lá no grémio da Aurora" subjugando a "opulenta Malaca... os Malaios e os Jaus valentes"10, "que Deus peleja por quem estende a fé da Madre Igreja"11, o empório dos mercadores muçulmanos do Guzarate transferindo para mãos portuguesas, a posição da cidade permitindo o reconhecimento das costas do golfo de Bengala, da Insulíndia, da Indochina e da China, cento e trinta anos de presença lusa, fonte caudalosa de rendimentos da coroa, base da missionação no extremo oriente e no sudeste asiático;

Xavier, a boca levemente entreaberta num sorriso breve, piedoso e benevolente, na mão direita, firme, a cruz bem ao alto, o jovem navarro, estudante de Paris, a promessa de servir a Deus na pobreza e na castidade, com Loyola e Fabro, o sonho da criação de um mundo novo sob o estandarte de Cristo, seu Deus e Capitão, o convite da coroa portuguesa e a viagem para a Índia como Núncio Pontifício, a pregação em Goa e em Cochim, o Evangelho levado aos Paravas da costa das pérolas, a catequese nas aldeias miseráveis e esquecidas, em Malaca e no Japão, a morte aos quarenta e seis anos, uma vida de conselho e de guia, de humildade e de ternura, aqui e além salpicadas de firmeza e de dureza, sobretudo para os senhores do poder sempre que menosprezavam os seus desígnios; de esforço de construção da Igreja em alicerces estáveis no Oriente, a ênfase na importância da formação de sacerdotes nativos em colégios religiosos, seculares e leigos.

Escultura exaltante da ocidentalidade, síntese da dilatação da fé e do ouro (ou seria do ouro e da fé?) durante séculos arautizada na escola e na vida, um certo viver no entorpecimento das epopeias e das grandezas de antanho, a incapacidade de explicar o desmoronamento da riqueza do Império e a queda das consciências nos abismos do fogo e da lei violenta, mesmo até ao limite, o ditador, apoplético, em 1961, ordenando a resistência até à morte, a loucura de uma mente insensível ao oxigénio da vida por sempre ter vivido fora do tempo.

Depois foram as boas vindas indianas, o tilaka, ou, como lhe chamam em Goa, o kumkum, o terceiro olho, pigmento vermelho da imagem de Hanuman, o deus com forma de símio, símbolo hindu da fraternidade desenhado nas nossas frontes por jovens vestindo sarees amarelos; os colares de flores silvestres em volta do pescoço; o almoço, todos os sabores indostânicos no peixe, na galinha, no porco, da pimenta ao cardamomo, da canela ao gengibre e à noz moscada e ao cravo; o diálogo aberto de culturas que já podem olhar-se nos olhos, porque livres. Em língua portuguesa.

 

20/10/1999.

 

 

2. VELHA GOA: DE "ROMA DO ORIENTE" A MUSEU (AINDA) VIVO

 

Difícil falar da excitação e das emoções de um dia por inteiro dedicado a Velha Goa, "a raridade mais preciosa da Índia"12, como a definiu Pyrard de Laval, viajante do século XVI; "cidade inteiramente cristã, digna de se ver"13, no juízo de S. Francisco Xavier, depois que Albuquerque a reconquistou em 1510, retirando-a do domínio muçulmano; "Rainha do Oriente", criação da bravura e do engenho da aventura marítima dos portugueses, mas também de sonho de fama e de ouro. De domínio do mundo, partilhado embora em Tordesillas14.

Impossível descrever os sobressaltos e os riscos para chegar até ela num domingo escaldante de Setembro, a começar pela descoberta das leis básicas da circulação nas estradas da Índia: a volatilidade permanente do princípio de esquerda e de direita na ausência de uma linha de qualquer cor dividindo a largura escassa de uma fita de esfalto que já deve ter conhecido melhores dias; a hierarquia do trânsito assente no primado do peso e do volume, camiões desconjuntados, autocarros prestes a fragmentarem-se, o fumo dos escapes queimando os olhos e os pulmões, arrozais, arecais, coqueiros, palmeiras, a cana, o algodão, as vacas sacrossantas relegadas para lugar secundário pela força da competitividade e da urgência divinizada do mercado, mas ainda assim os únicos seres a gozar de alguma segurança porque "quem mata uma vaca ... apodrecerá no inferno tantos anos quantos os pelos do animal", segundo um velho poema hindu, e só depois os automóveis, as carroças, os búfalos de água e as motocicletas, cabras e cães, peões suicidas, pavões, galinhas e demais utilizadores do alcatrão num dia prenhe de vendedores de sonhos e de compradores de promessas nos comícios para as legislativas, de missas em todas as aldeias cristãs, Merculim, Mandur, Carambolim15, de indianas de meia idade passeando-se de saree, sombrinha colorida na mão na tarde tropical, e sempre, sempre, o cheiro acre e o aroma do contributo da vaca para as necessidades energéticas do país e a poluição do planeta.

Sensação permanente de viajar no fio de uma navalha, a pele escondendo-se em cada curva, chamuscando-se nas ultrapassagens, tensão só abrandada pelo diálogo íntimo com a história e a lenda a que Goa Velha, humildíssima aldeia junto ao Zuari e à beira da estrada que leva do sul, e de Margão, a Mormugão e a Pangim, nos obrigou, tentativa frustrada de conciliar a realidade de hoje com as descrições antigas da velha capital da Goa pré-cristã dos Kadambas de Banavasi16, senhores do Decão17 e do Canará18, a Gopalka-puri sânscrita, a Nelkinda e a Tyndis dos gregos, a

in Atlas Geográfico

- Goa Velha - Velha Goa

Sindabur dos persas, de comércio opulento e de encantos só comparáveis à beleza do paraíso de Indra, a divindade dos mil olhos dos céus estrelados hindus; pelas interpretações cultas de Nassu, o nosso condutor, sobre a essência e a existência, nascidas do vaivém, ora pendular, ora perpendicular, caótico, da efígie de Parvati, deusa mãe, esposa de Shiva, o destruidor, na sua forma mais graciosa e feminil, suspensa do espelho retrovisor do seu Hindustan Ambassador, o nome de pompa do automóvel mais comum da Índia, construído no país segundo um modelo da Morris Oxford dos anos cinquenta, um culto que o pai trouxera do norte, de Nova Delhi, quando deixou de trabalhar para uma empresa de transportes da capital no "grande rio da vida, ímpar no mundo" como Kipling19 chamou à via quase sem fim que percorre toda a planície do Ganges, de Calcutá até ao campo sagrado de Kurukshetra, junto de Ambala20, onde Krishna21 entregou a Arjuna22, o guerreiro, a Bhagdav Gita, a Canção Abençoada, instruções espirituais, jóia última das escrituras hindus, libertação da ilusão e do ciclo do nascimento, morte e reincarnação, depois continuada para oeste, através do deserto, até Peshawar, no Paquistão, num perfil desenhado pela rota histórica dos conquistadores, de Alexandre aos ingleses, passando por arianos, muçulmanos, mongóis23; pelas suas incursões excitantes, ao encontro da nossa curiosidade, nas solenidades religiosas hindus, o privilégio para Diwali, o Festival das Luzes de Nova Delhi na noite de lua nova nos meses de Kartika (Outubro) ou de Asvina (Novembro), dependendo dos anos, a comemoração dos fiéis do norte do regresso à Índia de Ram24 e de Sita, sua divina esposa, depois da vitória sobre o demónio-rei do Sri-Lanka, milhões de lamparinas minúsculas de barro alimentadas a óleo guiando o trajecto de todos os fiéis no regresso a casa. E também dos muçulmanos, como sublinhou o nosso guia, com a alegria própria de quem se rege na vida pela tolerância e pela liberdade do pensamento.

 in T.P.ISSAR-1997

Reflexões em torno de um mundo quase todo hindu, logo interrompidas por Nassu quando a estrada nos conduziu ao modestíssimo cais do Mandovi e ao Arco dos Vice-Reis, e às ruínas do que foi a muralha sólida, sete palmos de espessura e três léguas de extensão despidos de ostentação e de ornamentos, defesa primeira de Velha Goa, para lá da qual se preserva uma parte da memória portuguesa construída a partir de Quinhentos.

in T. P. ISSAR - 1997

Depois foi a imersão na atmosfera cristã da capital do Império, a segunda, depois de Cochim25; no silêncio profundo de igrejas e de conventos, os ruídos do mundo filtrados pelos relvados magníficos, imaculados, de uma praça imensa plantada de árvores gigantescas, belíssimas, só o discurso ciciado de Asha, para não perturbar as orações, ousando profaná-lo, todos os pormenores, quase a análise laboratorial da Basílica do Bom Jesus, o Taj-Mahal26 de Goa, da textura rara, porosa, dos blocos de pedra vermelho-escuros da fachada principal; dos motivos da iconografia hindu no púlpito da nave; do corpo "incorrupto" de S. Francisco Xavier, o caixão de prata no topo do mausoléu florentino de Ramponi27, fusão perfeita da arte italiana e da talha exuberante de emblemas e de querubins de artistas nativos; do trajecto dos santos restos, desde a ilha de Sanciano, na China, até Cochim, Bhatcal28 e, por fim, Velha Goa, a recepção solene do arcebispo, do Vice-Rei, do clero, da nobreza e do povo;

da Sé Catedral, os pórticos renascentistas, as janelas insignificantes e os campanários altaneiros da torre que sobreviveu aos raios da monção de 1766 numa fachada branca, austera, o contraste intenso com a magnificência interior das naves, das capelas, do altar-mor de ouro, pleno de episódios da vida de Santa Catarina de Alexandria, padroeira primeira da cidade pela vontade de Albuquerque29, o desejo de impressionar os nativos com "a riqueza, o poder e a fama dos portugueses, dominadores dos mares do Atlântico ao Pacífico"30, "para tornar mais sombrias as dúvidas dos incrédulos"31;

 AD-VISION

da estrutura complexa da Igreja de S. Francisco de Assis, dois torreões góticos numa fachada da Renascença, pórticos manuelinos, a introdução de variações nas linhas tradicionais como reflexo de confiança na força e na estabilidade do poder político; a imagem do santo no altar-mor ladeada por colunas salomónicas; as paredes repletas de retratos de eminências da Ordem e de cenas da vida do patrono; cotas de armas e nomes dos grandes do tempo gravadas nas pedras tumulares do pavimento;

 in T. P. ISSAR - 1997

da arquitectura greco-romana, monumental, da Igreja e do Convento de S. Caetano, ou da Divina Providência, junto do Arco dos Vice-Reis, a cúpula seguindo o modelo da S. Pedro, em Roma;

in T. P. ISSAR - 1997

in T. P. ISSAR - 1997

da Igreja de Santa Catarina, junto ao Mandovi e ao Palácio da Adil-Khan32, primeiro templo cristão levantado em Goa depois da reconquista, construção simples, modesta, liberta da opulência barroca e do ouro, hoje quase abandonada;

 in T. P. ISSAR - 1997

do templo de Nossa Senhora do Rosário, na colina do Monte Santo, contemplando o rio, no local de onde Afonso de Albuquerque assistiu à vitória portuguesa sobre o exército da Adil-Khan, única obra de arquitectura religiosa manuelina no estado de Goa, a influência oriental nas torres cilíndricas que flanqueiam a entrada, à maneira da mesquita islâmica;

do edifício vigoroso do Convento de Santa Mónica, como se um lugar de fé tivesse de ser tanto forte como santo, construído para madres, de véu preto, filhas de europeus, e para sorores, de véus brancos, raparigas nativas, simples; para viúvas ansiosas por se devotarem ao serviço de Deus; para protecção de mulheres casadas, com os maridos ausentes de Goa, na defesa do Império. Todas seguindo as regras de Santo Agostinho.

Memórias vivas de um tempo de fortuna e de fausto, fracção pequena de um património que fez de Velha Goa a "Roma do Oriente" nos anos dourados de Quinhentos e nas primeiras décadas do séc. XVII, vinte e um templos, doze conventos, misericórdias, escolas para se "doutrinarem" os meninos a aprender a ler, a escrever e a contar, o órgão e o canto, seminários, ensino secundário e superior nos colégios das ordens religiosas, escola matemática e militar; centro de irradiação de fé e de missionação, de cultura e de investigação alimentando a primeira editora da Índia33, nomes grandes vivendo ali - Garcia de Orta34, Diogo do Couto35...;

 in T. P. ISSAR - 1997

cidade de quase um quarto de milhão de habitantes36, cabeça de um império que abarcava Moçambique, Ormuz, Mascate, Malaca e Ceilão, portos comerciais de Sofala a Ormuz e de Cambaia à China defendidos por cinquenta fortalezas;

terra, também, de intolerância e de violência para lá da espessura das paredes do palácio da Inquisição, a vhodlem ghór, a casa grande, como em segredo lhe chamava o povo, sem nunca ousar apontá-la com o dedo, junto à Sé Catedral, nos cárceres tenebrosos da penitência, do segredo e do encerramento perpétuo; nas casas da doutrina e dos tormentos, tudo para "inquirir e punir e heresia, degenerada como estava"37 e para proibir aos infiéis, sob graves penas, o exercício dos seus ritos e cerimónias e o de cargos públicos;

nas procissões imponentes entre o palácio e a igreja de S. Francisco de Assis, ou a catedral, no primeiro domingo do advento, no início das solenidades dos autos de fé, a abjuração dos erros e a leitura das culpas e das sentenças aos presos e aos penitenciados, as fogueiras erguidas no campo de S. Lázaro, a cremação dos corpos e a confiscação dos bens dos seus herdeiros;

nas punições bárbaras a criminosos e ladrões no Pelourinho velho, por detrás da Basílica do Bom Jesus, e no Pelourinho novo, ainda de pé, no Monte da Cruz dos Milagres, a que o povo chama hat-katró, "lugar onde se cortam as mãos"38;

na discriminação na doença, o tratamento gratuito para soldados brancos e paisanos de classes elevadas, mas vedado a mulheres e a nativos no Hospital Real39;

na prostituição nos cais e no Monte Santo.

 Com Asha peregrinámos também por escombros e por memórias apagadas pelo tempo e pelos homens sobre os quais o poder de "Goa Dourada" se construiu:

pela Torre de Santo Agostinho, a mais bela das ruínas de Velha Goa, dominando a Altinho, refúgio predilecto de S. Francisco Xavier, relíquia última da Igreja da Senhora da Graça e do convento que tinha o nome do santo, o cenário poderoso do Mandovi no sopé do Monte Santo, na outra margem, Divar, a ilha pequena, tranquila;

pelo que resta do Convento dos Milagres, no Monte da Boa Vista;

pelo lugar onde se erguera o Palácio dos Vice-Reis, varrido até às fundações em 1820, o chão hoje infestado de ervas daninhas e de árvores espinhosas;

in T. P. ISSAR - 1997

pelos pilares cinzentos, monolíticos, do pórtico do velhíssimo Palácio da Fortaleza, quase escondido pela ramagem luxuriante de castanheiros gigantescos;

pelo sítio da Velha Casa do Senado, demolida em 1835, a pedra utilizada em construções de Pangim, destino igual ao do Palácio de Idal-Khan, "o único elo visível"40 que restou dos tempos do sultanato, utilizado por Albuquerque e pelos vice-reis que depois dele vieram.

Símbolos muitos, a juntar a tantos outros, de uma decadência de vertigem, paralela ao desmoronamento do império no oriente, originada em epidemias; na exigência progressiva de águas mais profundas para a navegação; no terror inquisitorial que despovoou a cidade "da parte mais rica e industriosa dos seus habitantes"41, comerciantes mouros, arménios, persas, árabes e hindus; no bloqueio holandês de 1643, a capital quase reduzida à indigência; em saques e pilhagens; no colapso dos edifícios e do sistema sanitário, de pé só ficando igrejas e conventos e alguns edifícios públicos;

na decisão da coroa portuguesa, e nas hesitações intermináveis subsequentes, da transferência da capital para Pangim ou para Mormugão; na retirada do governador para Pangim, em 1759, levando com ele gente importante, o comércio, já limitadíssimo, ficando aniquilado, a população reduzida a pouco mais de 1600 habitantes...

Bem tentou Pombal reedificar a cidade mas a empresa depressa foi abandonada. Escrevia o vice-rei Guilherme de Sousa em 1870: "há ruas inteiras sem casas...; as antigas que existem estão ameaçando a maior ruína...; na sua magnificiência só existem a Sé e os conventos das religiões...; Goa tem oitenta e sete casas velhas e pequenas, ...; o mais distrito é de palmares aonde se acham espalhadas sem ordem trezentas e cinquenta casinhas ou choupanas térreas cobertas de folhas de palmeira, em que moram os rendeiros dos palmares, taverneiros, cafres, mulatos e outra gente pobre"42.

 

Velha Goa não é hoje mais do que um modestíssimo lugar que só o património religioso cristão, em parte recuperado, mantém vivo. Para trás ficou a capital de Quinhentos, das colinas e das planuras, milha e meia de nascente a poente, quase uma milha na sua maior largura, dos outeiros forrados de edifícios galantes e de palácios sumptuosos; a cidade das igrejas e dos conventos, das "casas de pedra e cal, ou pintadas de vermelho; das sacadas e das escadarias amplas rodeadas de jardins e de pomares, com poços para a rega"43 "bordando as ruas na melhor simetria".44

 

. No seu inglês quase perfeito, Asha foi meticuloso, analítico. Percorreu a história e personalizou-a; falou de santos e de heróis, de catedrais e de conventos, de escombros e de ruínas. Situou tudo no tempo. Com rigor. Mas deixou de fora as interpretações a as sínteses que dão sentido ao mundo. Como frequentemente sucede com os guias, o seu discurso ignorou o pulsar da vida, as cores, os sons e os ruídos, os perfumes e os cheiros que ergueram Velha Goa até às alturas e que depois a precipitaram no abismo.

Não falou do bulício e dos ruídos dos cais dos Vice-Reis e de Santa Catarina; do suor da construção e da reparação das naus no Arsenal da Marinha; dos marinheiros e dos coolies45 descarregando contadores, biombos e porcelanas da China, cavalos da Arábia, musselinas de Bengala, âmbar das Maldivas e benjoim de Samatra, a cânfora de Bornéu, o ébano e o marfim de Moçambique, ou carregando o linho e o algodão, tecidos, drogas e especiarias nos barcos que partiam para Portugal e para o Brasil; dos guzarates46, transportando bolsas pequenas com diamantes, rubis, topázios, esmeraldas para venderem nas lojas da cidade; de muçulmanos embarcando para Jeddah, no caminho para a peregrinação santa a Meca, a cidade das mesquitas; da actividade febril nas lojas da Rua dos Baneanos, pejadas de comerciantes da Arábia e da Pérsia, de Cambaia e de Malaca, de Java, da China, de italianos, alemães e ingleses, sem falar de judeus; da Rua Direita, que ia do Arco dos Vice-Reis à Misericórdia, principal centro comercial da cidade, ponto de irradiação de estradas e de praças, bordejada de tendas e de bazares ruidosos , de lojistas ricos, de lapidários e de ourives, mas também local de leilões diários de escravos (com excepção de domingos e de dias santos); das alegrias e do desespero nas casas de jogo esplêndidas; dos mercados de fruta, fartos; dos negócios nocturnos de baratilha na Praça do Pelourinho velho, objectos roubados vendidos por dinheiro miúdo bem mesmo na cara da esquadra da polícia e do tribunal de primeira instância; do trabalho dos sangradores e dos barbeiros; dos escravos, vendendo água e doçaria pela cidade, ao serviço dos seus amos; da vida de ostentação dos mais poderosos, baixelas de ouro, vinhos finos servidos em cristal, passeios de espavento montando cavalos bem ajaezados, selins adornados de ouro, rédeas cravejadas de pedras preciosas, estribos prateados, sempre rodeados de escravos que os protegiam do sol escaldante com sombreiros de grande copa; dos séquitos numerosos de escravos acompanhando as esposas soberbamente vestidas, a vaidade e as gargalhadas soltas enchendo as ruas empedradas nos dias festivos, jóias na cabeça, nos braços e nas mãos, na cintura; das folias, das bandeiras e dos tambores da Rua de S. Paulo, ou da carreira dos cavalos, em honra de S. João Baptista, o vice-rei, ladeado de fidalgos, percorrendo toda a cidade a cavalo, depois de ouvir missa na igreja de S. João, "em traje de mascarada, mas sem máscara, dois a dois, ou três a três, todos juntos e em boa ordem para o Terreiro do Paço"47, onde terminavam as festividades; do recato das pousadas; dos sinos das igrejas e dos conventos chamando os fiéis à oração.

A filosofia, essa reencontra-la-íamos no regresso a casa. No diálogo com Nassu.

 

30/12/1999

 

 

3. BOMBAIM: CINCO SÉCULOS A CAVALGAR A ESPERANÇA

 

Os portugueses receberam o lugar de presente. Sete ilhas pequenas de pescadores, que baptizaram de Boa Baía, pedaços de lava separados por baixios de lama que a maré cheia cobria, parte de uma dádiva que continha ainda Baçaim, a norte, e Salsete, Caranjú, Elefanta e Trombai, ilhas todas na rota mais buliçosa do Mar da Arábia, tráfego intenso entre os comerciantes de Guzarate e os portos do Malabar, de Ceilão e do Oriente. Em 1535, das mãos do sultão de Cambaia, pelo auxílio recebido na defesa do seu reino, invadido pelos mongóis de Delhi.

Um entreposto comercial nasceu na extremidade sudeste, o Forte, como ainda hoje se lhe chama. Cresceu, ampliou os laços para sul, para Goa e para Cochim, e para ocidente, para a Arábia, mas não foi duradoura a sua vida. Num daqueles negócios de engenho em que a nossa história é fertilíssima, a coroa ofereceu o território aos velhos aliados, em 1661, fracção do dote principesco integrado no tratado de paz e de casamento da sereníssima senhora D. Catarina, infanta de Portugal, com o Stuart Carlos II. Para além de Tânger e de dois milhões de cruzados (constando que esteve para entregar-se Setúbal!), tudo por amor do reino, na defesa da restauração, mas contra os habitantes de Boa Baía, "para que el-rei da Grã-Bretanha estivesse melhor aparelhado para assistir, defender e amparar os vassalos do rei de Portugal naquelas partes da força e da invasão dos Estados das Províncias Unidas", isto é, dos holandeses, segundo reza o artigo 11 do tratado48. Assistência, defesa e amparo nunca cumpridos, antes oferecendo os ingleses armas aos maratas hindus para expugnarem os portugueses das praças importantes da região - Salsete, Chaul, Baçaim, a Corte do Norte, como era conhecida, e todo o seu património arquitectónico, religioso, social e comercial, apressando a queda lusitana no Malabar.

Bem lamentou o vice-rei D. João da Cunha a decisão numa carta ao rei de Portugal, dizendo que a Índia não estava tão bem como se pintava, e que "das pedras não se tira mel, nem do seixo duríssimo o azeite", que "estes milagres são só de Deus",49 mas o real espírito ficou insensível ao pranto, Boa Baía passando a chamar-se Bombay, toda a história que se seguiu contada em inglês até 1947, ano da independência do subcontinente. As suas misérias e as suas grandezas:

o conde de Clarendon, viciando a geografia, fazendo o seu monarca acreditar que a cidade ficava bem pertinho do Brasil, convencendo-o assim a arrendar as ilhas à Companhia das Índias Orientais, isto é, a um grupo de mercadores ricos que iriam aprofundar o caminho para a expansão e para a ocupação inglesas, a Índia vista como "nova pastagem";50

a "descoberta" dos novos senhores de que as ilhotas se situavam junto ao melhor porto natural do Malabar, necessário sendo só o trabalho quase escravo dos pobres hindus e muçulmanos para fazer os aterros entre elas e criar um território amplo, unificado, decisão fundamental que os portugueses não souberam tomar, Bombay crescendo rapidamente, novecentos quilómetros quadrados de baías e enseadas, muitas delas roubados ao mar, pólo de atracção magnética para os intocáveis, tão vis que se situavam fora do sistema de castas, para os sudras, nascidos dos pés de Brahma51, os alparqueiros, os farazes e outras castas menores, esperança para milhões de deserdados do campo, com as suas codificações rigorosas, o anonimato da cidade grande libertando-os das pequenas e das grandes tiranias e de um destino cruel com origem no demérito de transmigrações passadas.

No séc. XIX, o caminho de ferro rompeu os Ghates ligando Bombay ao continente, à planície gangética, desenvolvendo os têxteis, a engenharia mecânica, a construção naval, as exportações, e a cidade tornou-se a mais cosmopolita de toda a Índia, cadinho de culturas e de religiões:

de Parsis, adoradores de Zoroastro, ou Zaratustra52, descendentes dos antigos persas, a rejeição da forma humana da divindade, a força da verdade simbolizada na luz pura do sol;

de Jainistas, a ahimsa, a não violência, como essência da vida, a irmandade universal como finalidade última;

de Budistas, a crença na anitcha, a impermanência da Natureza, na universalidade do sofrimento, filho do egoísmo, a libertação possível pelas vias do conhecimento, da recta intenção e da conduta justa, do esforço, da concentração e da contemplação;

de Sikhs, a fé militante dos homens de turbante na unidade de Deus e na irmandade do Homem, no misticismo e na transmigração das almas, a rejeição das escrituras, do ascetismo, das peregrinações, da mendicância, das castas;

de Hindus, miríades de deuses com formas humanas e animais, de demónios, de heróis, de fantasmas, o objecto sublime da união com Deus depois da transmigração derradeira, não através da oração e do ritual mas da pureza, do auto-controle, da verdade, da não violência, da caridade e da compaixão para com todas as criaturas da Terra;

de Muçulmanos, a fé em Alá, o Deus único, a oração cinco vezes ao dia, a esmola para a mesquita a para os pobres, o jejum no Ramadão, mês nono do calendário, o tempo das primeiras revelações a Maomé, a hadj, a peregrinação anual a Meca, força unificadora dos fiéis espalhados por todo o mundo;

de Judeus, a convicção profunda de povo escolhido pelo Deus verdadeiro, a ênfase nas responsabilidades e não nos privilégios, o homem considerado como punhado de pó que transporta a centelha divina, como criação de Deus, em cada momento enfrentando a decisão entre o bem e o mal;

de Cristãos, a crença na paternidade de Deus, o Senhor sempre presente, aqui e agora, na palavra dos apóstolos, nos sacramentos, no despojamento das riquezas e da propriedade.

Visão multifacetada do pensamento e da vida, só comparável na Índia com a paz religiosa de Kerala e de Tamil Nadu, na extremidade mais meridional do país, ainda assim potencialmente explosiva, com erupções de violência entre dez milhões de hindus e quatro de muçulmanos, como as de 1992 e 1993, nascidas, segundo uns, do fanatismo de extremistas, para outros, concebidas pelo crime organizado e pela gula dos construtores numa terra onde o solo tem o preço do ouro.

O séc. XX trouxe a independência do país, e a cidade, que passou a chamar-se Mombay, de Mumba Bai, deusa dos koli, os pescadores aborígenes da região, tornou-se um dos maiores centros financeiros da Ásia com o petróleo e a sua refinação, a montagem de automóveis, as indústrias de bicicletas e de rickshaws, de papel, de couros, mobiliário, alimentos. Do cinema, segundo centro mundial de produção de filmes, depois de Hong Kong e à frente de Hollywood.

Ao poder financeiro, industrial e comercial Mumbai soube adicionar a força política nascida da adesão íntima e intensa ao ideário de Gandhi53 e ao seu movimento, a combinação de Nehru54 da democracia parlamentar com os princípios do socialismo Fabiano da libertação dos preconceitos revolucionários, da confiança nas classes intelectuais, da reforma económica e social e defesa de uma maior fiscalização do estado democrático sobre a terra e o capital, da descentralização política e da oposição a toda a agitação violenta, da filosofia de viver e deixar viver, poder só ultrapassado por Nova Delhi, a capital.

Quinhentos anos de história, da Boa Baía portuguesa à Mumbai indiana, depois da Bombay britânica, colonial, imperial. Cinco séculos de suor, de lágrimas, de alegrias desbordantes, incontidas, nos festivais em honra de Ganesh Chaturthi, o deus hindu da prosperidade e da inteligência, milhares de pequenas estátuas de barro da divindade, floridas, submergidas nas águas para purificação dos fiéis, o espírito de Ganesh regressando ao reino dos deuses, de sangue, de tolerência, de liberdade, fizeram de Mumbai a cidade mais populosa de um país com um bilião de almas, potência nuclear, quinta economia do mundo em 1995;

metrópole, laboratório ímpar de análises das contradições de um sistema que oferece à diversidade étnica, religiosa e política dos seus habitantes um dos rendimentos per capita mais baixos do mundo, um analfabetismo endémico, o desemprego massivo, a rua como tecto para mais de sete milhões, muitos deles refugiados do Bangladesh e do Bihar, as gentes distribuídas na ilha segundo o ter e o não ter, a velhíssima compartimentação social das castas dando lugar a aquartelementos densos, monolíticos:

in NATIONAL GEOGRAPHIC-August 1999

em bairros de barracas de oleado, cartão e zinco maiores do que algumas capitais europeias, na metade norte da cidade, junto ao aeroporto, Ghatkopar, Kurla, Chembur, Dharavi, em Mahim Bay, a maior favela do planeta, setecentos mil hindus com espaço apenas para dormir, gente sem trabalho ou com salários escassos, pobreza indizível, lodaçal fétido, nauseabundo, corrosivo, sem água canalizada, a ameaça permanente da malária, por toda a parte crianças nuas lado a lado com cães sarnentos, leprosos, montanhas de cartão, de plástico, de latas de refrigerantes e de cerveja, o lixo como "recurso infinito das gentes"55, matéria prima para a única indústria aqui possível - a reciclagem -, que alimenta um comércio miserável de lojas minúsculas, remendos rectangulares de blocos de cimento, de cinza ou de tijolo, que vendem veneno para ratos, repelentes, lentilhas, matabala e arroz, os produtos mais essenciais e acessíveis ao dinheiro pequeno;

in NATIONAL GEOGRAPHIC-August 1999

nas áreas comerciais, habitadas pela classe média alta hindu e muçulmana, em volta de Victoria Terminus, a estação central de caminhos de ferro, e da Bolsa, da Stock Exchange, dos bancos, bem próximas do porto, as sedas, os sarees, as peles, as jóias, os perfumes, num comércio de luxo e de preços europeus e americanos mais do que asiáticos, os restaurantes, os salões de chá, os hotéis de luxo oriental, contraste cruel com os pequenos negócios de rua, a céu aberto, de engraxadores, de encantadores de serpentes, do homem que alimenta com o tambor as acrobacias de pequenos símios à espera de míseras rupias, do hindu que no asfalto quente e húmido apara os pelos das narinas e as unhas de transeuntes descalços, de mulheres vendendo espanadores de penas de pavão, dos dhobis, os homens lavadores de roupa, de crianças esfarrapadas e sujas, a mão interminavelmente estendida e aberta para a esmola pobre, dos homens do rickshaw, à espera da tuberculose, ou alimentando-a já com a fome, até à morte, para que oitenta mil famílias possam sobreviver;

 

na zona do Forte, criada pelos portugueses, centro comercial e fabril, a população congestionada em casas decrépitas herdadas dos britânicos, prontas a desabar;

na costa sudoeste, junto de Chowpatty Beach e de Malabar Hill, a área residencial de governantes e de Parsis, gente poderosa, riqueza proveniente do latifúndio na planície gangética distante, das telecomunicações, do petróleo, da construção naval, da importação e da exportação, amante da pureza do ar, recusando as práticas funerárias da cremação e da inumação, dessacralizadoras da terra, da água e do fogo, e depositando os seus mortos nas plataformas de mármore das suas Torres do Silêncio, estruturas circulares erguidas junto ao mar, a norte de Malabar Hill, os abutres rasgando e devorando as carnes, a chuva forte tropical arrastando os esqueletos para as águas do Índico, prática antiquíssima do profeta Zoroastro com mais de dois milénios.

Dentro de quinze anos Mumbai terá mais de vinte e sete milhões de habitantes. Para os deserdados da fortuna, para os que perderam todas as batalhas, o sonho da prosperidade, durante demasiado tempo transformado em pesadelo por uma longa litania de erros, de males e de moléstias de toda a sorte, só poderá ser atingido se os dirigentes do país tiverem a vontade e a força para alterar a distribuição do ter. Se isso não suceder, a esperança continuará a residir a jusante das suas vidas, na lonjura impossível, para lá de todas as reincarnações, e a ser apenas aquilo que realmente é: esperança.

 

06/12/1999

BIBLIOGRAFIA

 

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BETTENCOURT, Francisco e CHAUDHURI, Kirti, História da Expansão Portuguesa, 5 Vols., Lisboa, Círculo de Leitores, 1998.

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SALDANHA, M.J.G. História de Goa (Política e Arqueológica) II, Nova Goa, Livraria Coelho, 1926.

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WARD, G.C., India, Fifty Years of Independence. In National Geographic, Vol. 191, N 5, May 1997, pp. 4 - 57.

 

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* Professor Coordenador da ESEV.

1) Camões, L. s/d, Lusíadas, Canto VI, XCII, p. 202.

2) Camões, L s/d, Lusíadas, Canto VI, XCII, p. 202.

3) Bethencourt, F. e Chaudhuri, K., 1998, Vol. 1, p. 164.

4) Camões, L. s/d, Lusíadas, Canto VI, XCIII, p. 202.

5) Bethencourt, F. e Chaudhuri, K., 1998, Vol. 1, p. 81.

6) Bethencourt, F. e Chaudhuri, K., 1998, Vol. 1, p. 82.

7) Bethencourt, F. e Chaudhuri, K., 1998, Vol. 1, p. 84.

8) Camões, L. s/d, Lusíadas, Canto X, XL, p. 205.

9) Camões, L. s/d , Lusíadas, Canto X, XLIII, p. 205.

10) Camões, L. s/d, Lusíadas, Canto X, XLIV, p. 206.

11) Camões, L. s/d, Lusíadas, Canto X, XL, p. 205.

12) In Fernandes, I.P.N., 1994, p. 69.

13) Issar, T.P., 1997, p. 18.

14) O Tratado de Tordesilhas foi assinado em 7 de Junho de 1494.

15) A população do Estado de Goa é maioritariamente hindu (60%). Os cristãos representam 35% dos habitantes; muçulmanos e crentes de outras religiões e seitas são apenas 5%. De acordo com o censo de 1991, só 2,3% da população indiana professa a fé cristã (The Economist, Nov. 6th - 12th 1999, p. 72).

16) Reino muito antigo do sul do Decão. Segundo a mitologia hindu, o seu fundador nasceu de uma gota de suor caída da testa de Siva na raiz da árvore Kadamba, espécie de palmeira. Da dinastia Banavasi nasceu um ramo conhecido por Kadamba de Goa. O primeiro príncipe Kadamba de Goa poderá ter reinado nos finais do séc. X ou no início do séc. XI da era cristã.

17) Vasto planalto na região meridional da Índia, constituindo a Índia peninsular, a sul da planície indo-gangética. Com altitudes médias situadas entre os 400 e os 500 metros, o planalto é bordejado pelos Ghates, cordilheira montanhosa, tanto na costa do Malabar como na do Coromandel.

18) Antigo estado de Mysore, no sul do planalto do Deão, hoje designado por Karnataka.

19) Rudyard Kipling nasceu em Bombaim, em 1865. Filho de pais ingleses, educado na Inglaterra, regressou à Índia com dezoito anos, dedicando-se ao jornalismo, ao estudo da vida nativa e dos oficiais e soldados do exército britânico. A sua obra poética, muito extensa, privilegia o tema do Império, a princípio de forma implícita, mas tornado-se cada vez mais definida.

20) Cidade indiana do Estado de Haryana.

21) Na mitologia hindu, Krishna é primeiramente identificado como chefe de tribo pré-ariana; mais tarde, descrito como dirigente dos Yadavas. Numa versão posterior, como incarnação do deus Vishnu, combinando elementos de herói guerreiro e de deus do amor.

22) Guerreiro valente e honesto, recebeu dos deuses as armas celestes. Ajudado por Krishna, venceu os Kaurava, inimigos da sua família, e subiu ao Svarga, o paraíso de Indra.

23) O Império Mogal foi estabelecido no subcontinente indiano a partir de 1526, quando um chefe muçulmano, Babur, derrotou o último sultão de Delhi, moldando toda a região sul dos Himalayas durante dois séculos.

24) Sétima incarnação do deus Vishinu, herói do épico Ramayana. Guerreiro valoroso e piedoso, é representado transportando um arco, flechas e uma espada, frequentemente acompanhado de Sita, sua esposa.

25) Cidade da costa do Malabar, a 10o de latitude Norte (a sul de Goa), hoje designada de Kochi, local onde Francisco de Albuquerque construiu uma grande fortaleza, a primeira de Portugal nestas paragens. Em 1505, o vice-rei D. Francisco de Almeida estabeleceu aqui a sede do seu governo.

26) O belíssimo monumento de Shahjahan dedicado a Arjumand Banu Begum, sua esposa, conhecida pelo título de Eleita do Palácio.

27) Francisco Placido Ramponi, artista enviado para Velha Goa por Cosimo III, Grão-Duque da Toscana, para construir o mausoléu de S. Francisco Xavier.

28) Pequeno porto de Malabar, situado a sul de Goa.

29) Afonso de Albuquerque conquistou Goa, pela segunda vez, em 25 de Novembro (1510), dia de Santa Catarina da Alexandria,

30) In Issar, T.P., 1997, p. 21.

31) In Issar, T.P., 1997, p. 102.

32) Adil-Khan, herdeiro menor do reino de Bijapur, derrotado por Albuquerque em 1510 na tomada de Goa.

33) A arte tipográfica foi introduzida em Goa pela Companhia de Jesus.

34) Médico, cientista, autor de Diálogo dos Símplices e Drogus, publicado em Goa em 1563.

35) Diogo do Couto (1542-1616) foi funcionário colonial. De origem humilde, passou a maior parte da vida na Índia, onde foi guarda-mor do Tombo, na verdade uma designação pomposa dada a uma simples repartição do Palácio da Fortaleza, ou Fortaleza dos Vice-Reis, como também era designado.

Couto publicou em vida as Décadas 4, 5, 6 e 7. A 8 foi-lhe roubada, o mesmo sucedendo com a 9. A censura da Inquisição provocou-lhe grandes cortes.

Manteve relações de camaradagem e de convivência com Luís de Camões durante a estadia do poeta em Goa.

36) Segundo Saldanha (1925), "a população, no princípio do séc. XVII, calcula-se que seria de 225.000 habitantes, três quartas partes sendo cristãos. In História de Goa, I, p. 136.

Burton, R. (1851), considera este número "quase certamente empolado". In Issar, T.P., 1997, p. 28.

37) Saldanha, H.J.C., 1926, II, p. 150.

38) Saldanha, H.J.C., 1926, II, p. 224.

39) Saldanha, H.J.C., 1926, II, p. 184.

40) Burton, R. Goa and the Blue Mountain, 1851. In Issar, T.P., 1997, p. 29.

41) Saldanha, M.J.C., 1926, II, p. 59.

42) Saldanha, M.J.C., 1926, II, p. 159.

43) Descrição de François Pyrard, citado por António de Menezes, Goa - Notas Históricas. In Issai, T.P., 1997, p. 21.

44) Saldanha, M.J.C., 1925, I, p. 136.

45) Designação genérica de trabalhador não qualificado na Ásia.

46) Comerciantes da península de Guzarate.

47) Saldanha, M.J.C., 1926, II, 200-201.

48) Saldanha, M.J.C., 1925, I, p. 167.

49) Saldanha, M.J.C., 1925, I, p. 171.

50) Issar, T.P. 1997, p. 10.

51) Deus da Índia, associado, como criador, a Vishnu, conservador, e a Shiva, destruidor do mundo. É representado com quatro cabeças e quatro braços.

52) Reformador religioso iraniano (700(?) AC - 630 ou 600 A.C.). A sua doutrina acentua a necessidade de o homem se manter puro para merecer, depois da morte, a luz, e não as trevas.

53) M. Gandhi (1869 - 1948), alma do movimento que conduziu a Índia à independência em 1947, através da resistência aberta à Inglaterra, de campanhas de desobediência, de greves de fome.

54) J. Nehru (1889 - 1964) adepto das ideias nacionalistas de Gandhi, presidente do Partido do Congresso, Primeiro-Ministro e Ministro dos Negócios Estrangeiros depois de independência da Índia, leader do movimento terceiro-mundista, com papel relevante na ONU e nas conferências de Colombo (1950), Bandung (1955) e Belgrado (1961).

  1. McCarry, J. in National Geographic, 1995, 3, 56.

SUMÁRIO