Cultura e Contemporaneidade - O Labirinto do Mundo

 

O HIPERTEXTO, TEXTO ELECTRÓNICO:

AS IDENTIDADES DISCURSIVAS NA GLOBALIDADE DAS CULTURAS

 

LUÍS MENDES *

 

O texto electrónico, na forma de hipertexto, é um mosaico de todos os discursos possíveis. O seu suporte electrónico e digital permite a maior diversidade de leituras, quer ao nível dos materiais (texto, imagens, som, vídeo; construções diacrónicas e sincrónicas), quer nas interpretações. A globalidade das culturas (identificações étnicas, de grupo, nacionais, de género - gender -, individuais, etc.) encontra aqui a porta para a construção pessoal do discurso de identidade individual. É também de um discurso democrático que se trata.

A possibilidade de escolha e o processo democrático são quase sinónimos; falta apenas acrescentar-lhes a legitimação da escolha através de uma possibilidade, suportada por uma ocorrência processual. Isto é, o percurso seguido pelo indivíduo, que determina a contratuação histórica dos seus recursos, substanciada numa decisão (um contrato de futuro), supõe, inapelavelmente, a capacidade de possuir e gerir os termos dessa decisão. São pressupostos de um discurso de democracia.

Por outras palavras, a variedade discursiva é um pressuposto democrático, da liberdade, da pluralidade, das tomadas de posição, das atitudes e das acções, assim como o é a afirmação da identidade. Pessoal, inter-relacional, social (de grupo, étnica, ideológica, de interesse), - em múltiplas dimensões, mas sempre uma construção afirmativa. E daqui, identificativa.

Deste texto assim dito democrático, justificado na pluralidade de acesso e de escolha, pode-se partir (é esta a minha proposta) para a dualidade compreendida na globalidade cultural vs. a construção pessoal do discurso de identidade individual. Uma dualidade em conflito, mas que teremos de reconhecer como incontornável no plano actual do conhecimento do Mundo. Aceder à informação já não é o problema; é-o, sim, organizá-la, seleccioná-la, valorizar escolhas em detrimento de outras, construir hipóteses globais a partir de elementos que sabemos não serem os únicos e os suficientes.

A grande dose de interactividade proposta pelo hipertexto está aqui: no acto individual de jogar com mensagens múltiplas para criar uma mensagem única, singular. Eu passo a ser o agente não só descodificador dos sentidos, mas construtor do meu texto, pleno de códigos próprios, a que pude ter acesso, feito do sentido que comporta a informação por mim escolhida, uma onda de um mar vasto de que dispus.

Qual a diferença entre a normal leitura de um texto e esta construção realizada a partir do hipertexto? A minha leitura faz-se num mosaico de todos os textos possíveis e, nesta intertextualidade, sou obrigado a um processo de descoberta. A minha leitura adequa-se, assim, à sociedade multireferencial e miscigenada em que vivemos. Não posso falar de um défice negativo de referências, mas sim da multiplicidade tornada disponível e da intertextualidade de culturas.

A leitura do hipertexto é um resumo (sum, summary) individual e único dos conjuntos sobrepostos e interligados de informação a que acedi. Qual a diferença, então? Os textos dialogaram entre si, diacronica e sincronicamente em simultâneo, na especificidade de cada um deles, de temas e áreas a que se referem, de proveniências absolutamente diversas. Não coexistem no mesmo texto - concorrem para a construção textual que eu efectuo; que induzo, primeiro, para lhe dar uma forma cuja maioria de significados (e significantes) é inequivocamente absoluta para mim. Num determinado momento, em determinado local; uma contingência espacio-temporal única, válida para mim, que sou também contingente, eventual, imperfeito, constrangido na cronologia.

O hipertexto, como conceito, é uma alternativa a uma linearidade rígida e autoritativa dos textos - e dos seus discursos - convencionais. Pelo meio da leitura (sem perdermos de vista que qualquer leitura se realiza neste espaço, no meio das linhas), o leitor, co-participante da construção do texto, tem à sua disposição um grande número de opções. A partir destas é-lhe possível sair do bloco textual que lia e seleccionar novos espaços de escrita e de leitura. Em tempo imediato em simultaneidade.

Mais do que discursos alternativos, eles são opções de muitos e variados diálogos possíveis, que geram, por construção pessoal, um discurso, entre muitos, elegível.

"I link, therefore I am", a frase é de Mark Amerika, no seu "Hypertextual Consciousness", um dos textos do projecto GRAMMATRON (1) . Cada link é um momento de significado, sem território, numa "arquitectura líquida", ainda segundo as palavras de Amerika, em que somos convidados a avançar, sempre, a estabelecer continuamente ligações, desde o inesperado e o menos provável àquilo que nos move como mais significativo na nossa experiência pessoal.

É um espaço de subjectividade e, como foi dito, por provocação, de ausência de espaço (spacelessness). Quem nele está ficou sozinho e entregue à multireferencialidade e à miscigenação de uma história das ideias, que por si reconstrói e reescreve. Abandonado a um individualismo crítico e reflexivo, que a sua possível e virtual ligação a tudo e a todos, incluindo todos os espaços e todo o tempo, de si exige, o autor do discurso é alguém em constante diálogo.

Uma outra ideia, também de cariz provocatório, pode ser debatida: até que ponto não é esta virtualidade encontrada no ciberespaço a realidade localizada e materializada dos processos "virtuais" que temos vindo a experimentar enquanto leitores /autores do texto? A paginação destas relações mentais/afectivas terá encontrado no hipertexto a sua condição material de não-linearidade?

Num contexto educativo, que privilegio para concluir esta reflexão/proposta de descoberta e debate de ideias, parece óbvia a riqueza em termos estratégicos de gestão de materiais. Esta deixa de ser unicamente o campo da investigação, se o tem sido, e obriga os agentes dos processos de ensino-aprendizagem à formulação de pressupostos novos (que não são, em si, realmente novos): gerir e promover os discursos de autonomia, de reflexão critica, do desenvolvimento e afirmação de atitudes e valores e da participação; esta em todos os níveis - da construção do conhecimento à interacção com o Mundo, e vice-versa. Segundo os objectivos de um projecto de educação multicultural da Universidade de Virgínia, que acompanhamos, produzir produce) "socially active, critically thinking members of society" (2) , numa cultura de diversidade, respeito e muitas ligações (connections).

Lamego, Março de 1999

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* Professor requisitado da ESEV (Pólo de Lamego).

(1) http://www.grammatron.com.

(2) http://curry.edschool.virginia.edu/go/multicultural/initial.html

SUMÁRIO