DAQUI HOUVE GENTE DE PORTUGAL: espaço de encontro com gente grada, mais ou menos conhecida, que na nossa cidade nasceu ou viveu ou tão-só por aqui cruzou no universalismo juncional que é a cultura contra a morte...

 

João Pedro Grabato Dias ou a ousadia expressional:

um grito neomedieval de um poeta excepcional a inscrever no futuro

MARTIM SOUSA *

 

"Sou o único espectador deste teatro espantoso"

(J. P. Grabato Dias, Saga Press )

 

0. Dizer João Pedro Grabato Dias, isto é, não dizer só o transiente verificável e gritar o homem completo e renascentista que foi-é-será António Quadros. Perceber estarmos perante um estranho estrangeiro , que, como o Pessoa de Robert Bréchon, nesse eco onomástico e significante, se esconde, se mostra, se multiplica, se desmultiplica e se projecta no vento para a eternidade da arte. Ainda assim, sendo, reagindo e vincando assertos seus na uita breuis com que os deuses o haveriam de bafejar em aval a uma coonestação para sempre inquestionável. E essa vida curta para tão longo e competente domínio de múltiplos saberes afirma, no rasto de Menandro, que cedo haverão de morrer aqueles a quem os deuses amam.

Humano , demasiado humano , é um eco de Nietzsche que encaixa neste Homem, que, nascido em Viseu ou no seu raio (Santiago de Besteiros), viveu sempre no meio mundo repartido entre "os pinheirais da infância e os micairais do adulto", à espera da morte que o haveria de apanhar de novo na nossa circunstância. Filho da terra, como uma ave de há muito destinada. Não institucional e avesso a fáceis identificações, na linha da poesia esotérica e iconoclástica (HAMILTON: 1983, 66) - Eduardo Pitta insere-o numa lista de grandes poetas pouco conhecidos do público, ao lado de António Manuel Couto Viana, Pedro Oom, Vítor Matos e Sá, José Terra, Fernando Echevarría, Helder Macedo, M. S. Lourenço, Armando Silva Carvalho, António Barahona, Fátima Maldonado ou António Franco Alexandre (PITTA: 1995,36) -, ele é uma ave excepcional, silenciosa, única, lustral. Poeta-pintor-artista-prestidigitador de um sem número de vozes. Com António Quadros-João Pedro Grabato Dias-Frey Ioannes Garabatus-Mutimati Barnabé João, o amanhã nasce sob o signo da heteronímia.

 

1. António Augusto de Melo Lucena e Quadros nasceu em Viseu no dia 9 de Julho de 1933 - Russell Hamilton, na senda do equívoco, di-lo nascido em 1931 (HAMILTON: 1984, 66) -, vindo a falecer, no primeiro dia do mesmo mês do ano de 1994, com incompletos sessenta e um de idade, em Campo de Besteiros. No entanto, nessa juventude amadurecidamente irrequieta, estava a ânsia do absoluto pleno, que o mesmo é dizer-se a desconfiança pela escassa ductilidade do artefacto verbal que urgia refundar e criar de novo. Ou seja, por outras palavras e com aplicabilidade a todas as artes e técnicas que António Quadros também "dominou", a incorformação e a heterodoxia seriam as lições de vida de que o escritor-pintor se fez discípulo atento e engenhoso.

Da sua infância beiroa ressumam os ecos dos pinhais e os ruídos das crianças do tempo suspenso. Mas, da sua língua, desse mesmo diassistema de diversidade e de encontro, de casa-comum do corpo espacejado , daí, do silêncio que sucede à voz e ao sopro do dissídio Heimat -desenraizamento, alguém grita, à voz do mar , <<partir para melhor ficar>>.

Iniciando-se na ESBAL, prossegue o seu trajecto com a "especialização" em Pin-tura nas Belas-Artes do Porto, onde, aliás, inicia a experiência docente, como convidado. Ultrapassados os estudos de Gravura em Paris e cumpridas que estavam as primícias poéticas, pela década de 50, na revista literária Bandarra , vamos encontrá-lo, já adulto, corria o ano de 1964, num liceu moçambicano, seguindo o destino de da sua língua ver o mar , não suspeitando talvez que nesse país nascente viveria até 1985, num tempo sus-penso e pletórico de interactividade cultural. E chega a ser absolutamente superior a modéstia que o leva, ainda nessa debutante década de 60, a não reclamar um prémio literário que um certo Grabato de Tete havia subscrito. Como diria respeitosamente um Rui Knopfli, António Quadros foi sempre, até final, um envergonhado camponês de Santiago de Besteiros (KNOPFLI, 1995, p. 14).

De súbito, sem que nada o insinuasse, nasce o Poeta assumido. Mas não só - também nele habitava o pintor, o cenógrafo, o professor de Artes Plásticas e de Arquitectura, o letrista musical (para José Afonso e Amélia Muge), o maquetista, o rigoroso arquitecto, o apicultor, o urbanista, o jardineiro, o pecuário, enfim, o "monstro sagrado" (LISBOA, 1995, p. 15) que era também um valoroso "engenheiro de almas" (KNOPFLI, 1995, p. 14).

No ano de 1970, sai a lume o livro de poesia 40 e tal Sonetos de Amor e Circunstância e Uma Canção Desesperada . Confinado genologicamente ("Ó soneto, ó espartilho carcereiro!"), a colecção de composições ousa e avança, derrubando os freios pela compresença de constructos de linguagem subversivos e inventivos (neologismos, justaposições e "infracções" ortográficas), sem menosprezamento de utilização de outras vozes - a de Camões é quase uma obsidência - que provam que os vanguardismos se alimentam do passado. Nessa escrita estimulada pela homofonia colhe o leitor uma fascinante viagem pelo pulsar da linguagem e pelas suas veias que se expandem até ao limite num jogo suspensivo de corrosão, sarcasmo e humor cáustico, num pulular de erupção léxica reganhadora de identidade e diferença intensiva. Erigindo aí a sua ars poetica - "Humor, minha automática secreta", escreve Grabato Dias na p. 8 -, o nosso escritor e artista plástico faz entroncar o seu tom diletantemente verrinoso nas cantigas de escárnio e de maldizer e na voz insubmersível de Alexandre O'Neill ou Cesariny de Vasconcelos. Eugénio Lisboa, apresentando o Autor em nota que precede a obra, di-lo possuidor de uma poesia "ensimesmada, onírica, ironicamente realista, brutal, descabelada, ardentemente bizarra, reveladora de um mundo fantasmagórico e quase demasiado verdadeiro". Sirva de exemplo o ardiloso e cativante soneto da p. 17 destes Sonetos de Amor e Circunstância , que recobrem, como codiciosamente o notou Eugénio Lisboa, um "livro denso e difícil" (LISBOA: 215, 1987) mais preso ao universalismo do que ao moçambicanismo :

 

Amor. Te. Ti, tigo. A morte. Amo-te

sem R, sem risco ao meio da morte.

Quero-te assim, querente, quente e forte

ode que a circunstância obriga a mote.

 

Quatorze versos no papel e dou-te

exangue e medido ramo. O corte

já deixou de sangrar. Pinhos do norte!

Que ricas tábuas de caixão, pra bote!

 

No mundo em pedaços repartida

ficou-me a mim e ao luis vaz a vida,

galinha gorda rebolante ao espeto.

 

Me, mi, Mimi, migo... Ó amiga, as migas

ainda são um bom prato, e até com ligas

de duquesa se faz tanto soneto.

 

Em 1971, no seguimento do difícil período de luta armada que repulsava quaisquer edições associativas, surge, por iniciativa conjunta com Rui Knopfli, a revista Caliban que duraria até ao ano seguinte, perfazendo um total de quatro números plenos de intervenção e de subtileza, e um quinto logo guilhotinado pela PIDE, "alertada talvez pela perfídia shakespeariana do título..." (PITTA: 1994-121). E, de facto, a titulação da revista, se, por um lado, reenviava para a personagem de The Tempest de Shakespeare, por outro, aludia metaforicamente ao colonizado e à sua situação, convocando, nesse passo, Próspero.

Esta fase da pré-independência, que engloba obra publicada entre 1970 e 1972 - ve-ja-se, no final, a bibliografia activa -, contribui para a nossa literatura com "alguns dos poemas mais animados e mais imaginativamente subversivos das categorias morfo-sintácticas, lexicais e semânticas do português" (SARAIVA-LOPES: 1978, 1154-1155), apresentando-se a fase revolucionária, com os seus trinta mil exemplares de Eu, o Povo (1975), adentro de um registo poético-didáctico límpido e imageticamente ingénuo, o que, como o querem os definitivos António José Saraiva e Óscar Lopes, põe em causa a simplicidade de Alberto Caeiro.

Neste complexo de escrita (e sobre Grabato Dias ressumam adjectivações como surpreendente ,inquietante , sábio , profético ,contido ,desbordante ... ), ressalta, pela originalidade construtiva, o longuíssimo poema épico - sê-lo-á? - As Quybyricas , em oitavas ao modo camoniano, a que não falta uma gostosa carnavalização prefacial de Jorge de Sena sobre a novel "anti-epopeia" e a selagem autoritária das "notas" e do "posfacto", num fingimento factual que lembra, por exemplo, a técnica camiliana de ancorar a ficção na realidade através da compresença de "documentos" ou relatos circunstanciados. Não se inscrevendo este texto parodístico numa intenção crítica relativamente ao poema camoniano, o que ressalta deste imenso constructo é a clara incidência, em verruma, sobre o já agónico regime salazarista-caetanista, que, num jeito caquéctico de ser nacionalista, só o era lateralmente. A mensagem é entendida e o livro esgota em poucos dias nesse ano de 1972, sem que as autoridades locais entendessem a perfídia subversiva em nada inferior à de Caliban. Em reanálise à obra, um Gil de Carvalho diz estar perante "um testemunho irónico e fascinante" (CARVALHO: 1993, 245). Na época, um Eugénio Lisboa, em balanço à actividade literária moçambicana de 1972, reage com um asserto sibilino e enigmático, dizendo tratar-se de um livro "que vai dar que falar." (LISBOA: 1987, 226) Prospectiva frase que ecoa ainda no turbilhão da espera... E nós, poderemos fugir a esse vezo de fascínio com inscrição no futuro?

Com radicação imagética em Quibir - quando o país avança para Álcacer Quibir, está interiormente derrotado...-, este poema, quiçá o maior e não menos estimulante da literatura portuguesa do século XX, constrói-se em 11 cantos e 1180 estâncias (relembremos os 10 cantos e as 1102 estrofes da matrix ), no seguimento da epopeia camoniana e da promessa do Poeta de continuar Os Lusíadas . Abrindo-se com a invocativa estrofe

 

Altos fados invoco e esconjuro

porque me dando ânimo me dêem

para esta empresa rútilo e seguro

génio de meu ofício - o que não vêem

quem me quisera ver pobre imaturo.

Invoco os fados não porque detêm

maior poder que o meu neste meu passo

mas só porque é galante o quero e o faço. ,

 

o percurso efectua-se a rebours do modelo camoniano, pleno de amargor satírico e de sentimento anti-epopeico ("Assim nos houve um tempo em que tecidas / as malhas da cobiça alheia sobre / o patético reino das servidas / ilusões do ter tudo (sonho pobre / que é já e só o ter por iludidas / as virtudes do querer) Luso descobre / que a herança imperial pouco mais era / que arco destinado a outra esfera.", XXX ), não raras vezes com um polimorfismo de registo, com tonalidades diversificadas e também por isso de vincado poder sedutor: assim, confluem no poema, no meio de um sem número de possibilidades exemplificativas, o épico ("Mas pelo reino corre o povo meúdo / que lhes doi mais que tudo o sangue irmão / ver derramado pelo chão que mudo / não saberá dos mortos a canção.", LIX ), o burlesco ("Andava o Luso iluso em seu viver / acoitado no espanto de ter tanto / que, coitado, em seu canto era de crer / bem melhor gasalhara o Crer no manto / do querer ver alá do tanto ter.", XXXI), o dramático ("Há meninos e velhos nas ameias / e moças e avós que os municiam / e o imigo renasce nas areias / fecundadas com sangue dos que finam.", LXIII ), o jocoso ("...aos que o ofício / nunca tolheu as mãos do calo ao osso / farei pulha escarnida e desonesta / que a risa de al-gum modo assusta a besta.", VIII), o lírico ("Sobre um leito de sangue carmezi / dous namorados brancos se repousam; inda meninos são e o ser assi / derrama-lhe inocência no que posam...", LXIX), o sério ("Crêde, o herói só é depois de morto / porque pagou com tudo o que dispunha.", LXIV), o bucólico ("...nozes/ bem sãs de odor de verde e beira rio / ...vozes / de campina preguiça e desfastio / ali mesmo seria o paraíso...", LXVI) e o sarcástico ("Em vós, fidalgos, clérigos, tunantes / cantarei a perfídia, a unção e a manha.", VI ).

Mas, avancemos para os vinte e sete poemas de Eu, o Povo (1975), esse misto de intimidade e colectividade que forma o macrotexto e deixemos a anti-epopeia ao cuidado do leitor. Aí, em Eu, o Povo , surge em esplendor a colecção de poemas saídos do bolso, assim se dizia, de Mutimati, um guerrilheiro caído em combate, que, nesse legado de palavras, legitimava a apocrifia pelo fogo da fé inscrita naquela dedicatória que tudo diz acerca da vontade: "Mutimati é a voz individual que corporiza a voz colectiva. EU, O POVO é agora pertença de Moçambique. O povo moçambicano é o seu autor." Sem o encobrimento do angolano João-Maria Vilanova, caso único de anonimato na literatura mundial (será Pepetela?), Mutimati, o herói-mártir, é António Quadros, que, da mesma forma que Émile Zola se fez mineiro para o seu Germinal , também ele se fez próximo da guerrilha e da sua circunstância, dando vida à morte, ao dissídio, à ironia e à justiça da luta. Das páginas inumeradas que constituem o livro, podemos colher exemplificações de transcendência irónica e de humanidade, numa gesta que vai da vida vivida à morte que circunscreve. Assim, na página 10, em contagem manual, lemos, sem esquecer a ironia, este tétrico e comovedor encontro da morte com o lado certo da vida:

 

Estou tranquilo

Este inimigo morto não é inimigo

Não posso chamar inimigo a quem assim me sorri

E lamento que só agora pela mão da morte

Viesse para o mesmo lado da Vida.

 

Poesia de "arma atravessada na bandoleira" e voz recalcada pela espera sebástica - o poema "Durante séculos esperámos" afirma o esboroar da crença: <<Durante séculos / esperámos / que um Messias viesse libertar-nos...>> -, a acção torna-se o sonho de há muito acalentado que agora só se redime com "o tamanho / da Liberdade". Essa espera, meditada e acumulada no tempo em que "Os nossos filhos mediam o seu tamanho / pelo tamanho das espingardas" ("Nunca aceitámos"), permite agora uma liberdade em constru-ção visível, por exemplo, nas certezas do olhar , recriando por sobre as cinzas um corpo silencioso que se alonga, que não teme e sabe ser temido, rumo a um Moçambique livre, "país que nasce do nosso / pensamento, do nosso coração, das nossas mãos, das nossas armas" ("Forja do homem novo"), país-órgão que ouve ciciadamente as informções do inimigo que, afinal, não o é assim tanto: "Este inimigo deixa muita informação e rasto / Não pode ser um inimigo tão assim tanto / É um camarada trabalhando no campo inimigo/ É pelo menos um agente duplo." ("Camarada inimigo").

E, pela morte do "eu", assegurada está a vida persistente de todos naquelas letras vivas que cruzam o corpo cavernoso de cada um e se inscrevem em eco na consciência colectiva, numa fractura que é sutura e união das gentes: "Faz favor dá Ordem para pôr dentro outro outro Irmão, / Camarada Comandante." ("Relatório"). E só assim, nessa entrega do eu ao nós, "Eu, o Povo Moçambicano / Vou conhecer as minhas Grandes Forças todas." ("Eu, o Povo").

 

2. Com afinidades estilísticas com a obra plástica do franco-russo Marc Chagall (KNOPFLI, 1995, p. 13), das suas mãos aladas - e só de pintura falamos agora... -, do modo renascentista de António Quadros ser, surgia o pesadelo que fazia pestanejar: o disforme não era mais do que a perfeição embaciada à espera do crisol dos melhores intérpretes.

Os seus amigos das mais de duas décadas moçambicanas dizem-no um mediévico iluminado debruçado na banca alquímica avançando no rasto de novas técnicas e de inusitados materiais, ora na perquirição da diferença tonal e do imperfeito perfeito - era comum, diz-se, vê-lo pintar com borras do tabaco ardido no seu inseparável cachimbo ou com vinho tinto entornado -, ora no aprimoramento vinciano e engenhoso de linhas obedecentes a um obstinado rigor. E sempre, num e noutro registos, ficava a pairar uma doçura oblíqua e irrefragável.

A sua carreira como pintor - transbordante no seu início, actuante em Moçambique e silenciosa no tempo do fim - teve propulsão num cultuada e intencional ingenuidade, vindo, na última fase a propender para os tons amarelos, sempre estranhos, que pareciam assinalar um incontornável mal de acédia. Sem rompimento com o quotidiano, de sempre ficou o vínculo imaginífico ao sobrenatural e ao oracular , notando-se, na componente técnica, um adornamento linear "ao gosto italianizante das cores lisas" (GONÇALVES, 1995, p. 23) e o respeito continuado pela adunação de motivos frontais de sabor medieval. Egurgitante nas cores e nos contrastes, a permanência aurática mantém-se no percurso de forma isotópica fornecendo, possivelmente, o indício do assinalado desfibramento tonal em direcção à palidez do tempo final.

Afirmando desde a década de 50 uma arte portuguesa, na erudição e na rudeza, António Quadros, sem a benção dos vanguardismos, afirmou vincadamente um imaginário de "tradição popular e aforística", como o defende Rui Mário Gonçalves.

Consciente, original e provocador, António Quadros reflecte na pintura uma arte impávida e fanérica. Devem, por isso, os críticos falar dela...

3. Esta foi e é a vida de um pintor e poeta que se tornou um escritor africano autên-tico e igual a outros dessa condição. E também nessa igualdade diferente radica a sua universalidade, para já, inconsentida. No entanto, nunca deixou de ser português, quanto mais não fosse pelo artefacto linguístico. Tal universalismo discursivo, muito comum ao escritor moçambicano, é exemplo da diglossia cultural em que Grabato Dias, como os seus pares (Rui Knopfli, Reinaldo Ferreira, Eugénio Lisboa ou Sebastião Alba), estava entrincheirado entre o "renascimento tradicional africano", o "compromisso ideológico" e o "cosmopolitismo erudito" (LARANJEIRA: 1989, p. 71). Desse dissídio, sopro do combate de Caliban e Próspero, nasce, da raiz do fogo, Grabato Dias. Com o Poeta, afirmamos que tudo a partir de si é espectáculo e que o proscénio da luz tinha origem na sua pele da qual subia em turbilhão o superior silêncio que a sua obra sempre perseguiu. Como se houvera a linguagem e o sentido pleno...

É já tempo de acabar, até porque, afinal, ler "com amor, ler com rigor, exige tempo, tranquilidade, lucidez e perspicácia." (SILVA, 1993, p. 75) Haja tempo, pois, para o cumprimento dessa ars amatoria que é a leitura, que o amor, esse, estará no vezo do intérprete e na luz do texto reflectida... Ler, que na sombra e no fascínio está o Poeta que em nós acontece.

Em sentido depoimento que pela minudência descritiva sugere a máscara final do também grande João Guimarães Rosa, diz Teresa Roza d' Oliveira,: "Foi bom estar contigo uma última vez. Arrumadinho na caixa com o teu fato-macaco azul, a T-shirt branca, a boina e os óculos, agarrado ao barquinho vermelho que o João talhou para tu levares." (OLIVEIRA, 1995, p. 18).

E é dessa emoção trazida pela "grande-viagem" que em cada esquina da nossa cidade se insinua, à voz do vento, essa presença inapagável do "homem da boina basca fumando cachimbo" num tempo frontal de eco medievo.

 

BIBLIOGRAFIA ACTIVA:

40 e tal Sonetos de Amor e Circunstância e Uma Canção Desesperada, Lourenço Marques, Edição do Autor, 1970.

A Arca - Ode Didáctica na Primeira Pessoa. Tradução do sânscrito ptolomaico e versão contida do autor , Lourenço Marques, Edição do Autor, 1971.

O Morto - Ode Didáctica , Lourenço Marques, Edição do Autor, 1971.

Uma Meditação, 21 Laurentinas e Dois Fabulírios Falhados, Lourenço Marques, Edição do Autor, 1971.

As Quybyricas. Poema éthico em outavas que corre como sendo de Luis Vaaz de Camões , Lourenço Marques, Edição do Autor, 1972. 2 Edição, Porto, Edições Afrontamento, 1991.

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Eu, o Povo , Maputo, Serviços Culturais da Frelimo, 1975.

Facto/Fado. Pequeno Tratado de Morfologia. Parte VII. , Moçambique, Edição do Autor, 1982. Porto, Edição do Autor, 1985.

O Povo em Nós , Moçambique, Edições Pouco, 1991.

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* Equiparado a Assistente do 1 Triénio da ESEV.

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