O ENSINO SUPERIOR ITALIANO NA 7.ª CONFERÊNCIA ANUAL DA E.A.I.E.

 

Com um tema aglutinador - 'The Cultures of Education" - a E.A.I.E. (ver na secção " Educação sem Fronteiras" uma breve caracterização desta entidade) realizou a sua 7.ª Conferência Anual em Milão nos dias 29 , 30 e 31 de Outubro último com a presença de cerca de 1400 participantes de mais de 50 países. " Millenium " vai dedicar alguns espaços a este acontecimento dada a importância e actualidade de muitas das questões debatidas.

Na continuação de uma tradição criada por ocasião da 5.ª Conferência Anual , em Haia, a reunião de Milão foi precedida pela realização , na Università Commerciale Luígi Bocconi, de um " dia de informação pré-conferência" sobre o ensino superior em Itália com um programa que, durante a manhã, permitiu aos mais de 200 participantes o contacto com a realidade deste sector de educação através de comunicações como " Main Features of Higher Education in ltaly ", pelo professor Alberto Martinelli, e " Towards Quality Assessment", pelo professor Gíorgio Aliulli, a primeira constituindo um relato breve sobre:

O Reitor da Università deglí Studi di Venezia, professor Paolo Costa, analisou seguidamente o papel das universidades na busca da sua autonomia pela via do desenvolvimento de relações entre o governo central e as universidades, a comunidade académica e a universidade, e a sociedade e a universidade.

A projecção de um vídeo sobre Culturas da Educação, uma compilação e interpretação da educação na cinematografia de diferentes países, caracterizando diferenças educativas - interactivas, autoritárias, participativas. analíticas e analógicas - , constituiu um agradável momento de relaxamento a meio da manhã.

A sessão concluiu com uma reflexão filosófica sobre as culturas da educação na perspectiva italiana apresentada pelo professor Furio Colombo, jornalista, escritor e docente de Estudos Italianos na Universidade de Colombia, EUA. Conceito dominante, o da mudança generalizada de atitudes e de práticas na educação e wdedades, e a necessidade de encontrar o lugar da Universidade num mundo em contínuas transformações políticas.

A tarde foi dedicada a excursões oferecidas para visitas a cinco instituições de ensino superior: Istituto Universitario di Lingue Moderne (I.U.L.M.). Milano, Libero Istituto Universitario Carlo Cattaneo (L.I.U.C.), Politecnico de Milano, Università Cattolica del Sacro Cuore. Milano, e Università degli studi di Pavia.

Neste número destacamos a comunicação de Giorgio Aliulli - 'Towards Quality Asseswent' -, referindo detalhadamente as suas principais ideias.

Ao eliminar diferentes fontes de financiamento com a introdução de um orçamento global que passou a incluir os vencimentos dos professores, a Lei de Financiamento de 1993 (Leggí Finanziaria) ampliou a autonomia das universidades relativamente às decisões sobre a aplicação dos seus fundos, ao mesmo tempo que exigiu a criação de mecanismos específicos de apoio para a nova situação criada. os Centros de Avaliação (Nuclei dí Valutazzione), que avaliam a gestão e a produtividade da investigação e do ensino, ao mesmo tempo que estabelecem critérios de avaliação e elaboram um relatório anual para a Conferência de Reitores e para o Ministério da Educação; um Observatório Permanente (Osservatore Permanente) no Ministério, com funções de avaliação da eficiência e da eficácia do ensino, da investigação e dos programas de desenvolvimento.

No modelo de governo tradicional das universidades italianas os diferentes orgãos de gestão não detinham o poder efectivo da tomada de decisões, sendo também limitada a sua capacidade de influencia. O novo modelo veio permitir a partilha do poder entre os diversos intervenientes que operam dentro do sistema, atribuindo maiores responsabilidades aos órgãos de gestão das instituições. Entre eles, a Conferência de Reitores, capacitada para responsabilizar a administração por eventuais ineficiências e disparidades no sistema. O custo a pagar por esta maior intervenção, segundo Allulli, é o de que o reitor se está a tornar cada vez mais gestor e cada vez menos cientista.

Na nova situação o processo de avaliação adquiriu importância estratégica ao possibilitar a utilização de métodos claros de análise dos resultados obtidos pelas diferentes estruturas académicas, e tem permitido à Conferência de Reitores, em trabalho conjugado com delegados de todas as universidades, começar a analisar o problema e a criar modelos de avaliação. Resultados deste trabalho foram, por um lado, a definição de um modelo organizacional e operacional que funcione como Centro de Avaliação da Universidade e, por outro lado, definir, coligir e processar os indicadores da função das instituições. Algumas das questões inicialmente colocadas:

- Quais os objectivos e as tarefas que devem ser avaliados?

- Que papel institucional deverá desempenhar o sistema de avaliação? Deverá ele ser independente?

- Que instrumentos e métodos deverão ser implementados?

- Qual o papel dos indicadores?

- Como utilizar a avaliação feita pelos alunos?

- Como integrar avaliações externas e internas, qualitativas e quantitativas?

A análise destas e de outras questões conduziu à definição de algumas regras gerais que deverão servir como guias básicas de avaliação, nomeadamente:

- o objectivo do Centro de Avaliação é a avaliação da eficiência e da eficácia global da estrutura administrativa, didáctica e investigativa;

- a avaliação dos indivíduos compete aqueles que dirigem as diferentes estruturas;

- o Centro de Avaliação é um órgão técnico e não de decisão política:

- o Centro de Avaliação deve solicitar a participação dos alunos e de outros utilizadores da Universidade;

- a necessidade da integração da avaliação interna e da externa, realizada por especialistas independentes, bem como da das abordagens quantitativas, baseadas em indicadores e em outros elementos estatísticos, com as abordagens qualitativas que resultam da observação da realidade e da avaliação directa com os operadores e os utilizadores do sistema;

- a necessidade de manter a uniformidade da avaliação mesmo quando possa parecer oportuno diversificá-la para cada faculdade ou para cada área disciplinar.

O processo de avaliação deveria ter com resultado uma maior transparência dos processos e dos resultados obtidos pela Universidade.

O exame do papel dos indicadores no processo de avaliação leva Allullí a referir que o debate no seio da Conferência de Reitores conduziu a um posicionamento de integrarão dos métodos quantitativos e qualitativos com base na consideração de que os indicadores representam uma base de informação mínima necessária mas de significado limitado desde que não seja possível compará-los no tempo e no espaço. Tal não será possível se eles não se revelarem estáveis e se não forem aceites pelos diferentes intervenientes no processo de avaliação- Por outro lado, os indicadores têm a vantagem de limitar a subjectividade da avaliação, constituindo uma limitação a sua impossibilidade de avaliarem a qualidade dos resultados. A partir destas considerações a Conferência de Reitores elaborou uma listagem de indicadores que foi dada a conhecer aos órgãos administrativos das universidades.

A Lei de Financiamento acima referida e o debate iniciado pela Conferência de Reitores levou muitas universidades a coligir dados e a organizar Centros de Avaliação incluindo-os nos seus estatutos. Segundo o professor Allulli, as linhas de orientação definidas pela Conferência de Reitores têm sido genericamente seguidas: 88% das universidades designaram já os membros dos Centros de acordo com considerações 'técnicas" ; foram designados membros externos às universidades em 65% dos casos, e só se verifica uma clara, segmentarão entre investigação e administrações em 12% dos Centros de Avaliação.

Relativamente à sua composição, os membros são principalmente professores das universidades, gestores administrativos, com a inclusão em alguns casos do director administrativo. Alguns Centros incluem estudantes, sendo os representantes externos peritos em avaliação ou auditores.

Para além da constituição destes órgãos de avaliação algumas universidades têm procedido a análises detalhadas dos seus modos de funcionamento (Bocconi, Milano, Camedno, Udine); outras têm solicitado aos alunos a avaliação da actividade didáctica (Bocconi, Mílano, Venezia, Modena, Udine, Trento, Siena, Verona, Todno) e a avaliação pelo utilizador de certos serviços universitários (Bocconi, Milano, Camerino, Udine). Igualmente têm sido implementadas análises estatísticas dos cursos de licenciatura e " surveys " sobre emprego e sobre a avaliação global da universidade pelos licenciados.

Para a Conferência de Reitores a avaliação da actividade docente é considerada como parte integrante dos processos de avaliação das universidades mas tem havido alguma descontinuidade na sua implementação.

No ano lectivo de 1994/1995 quatro universidades italianas participaram num programa de avaliação da qualidade de ensino patrocinado pela U.E, utilizando o método designado por Peer Review , um método que integra um processo de auto-avaliação realizado a nível de cada faculdade com base numa grelha de análise elaborada pelo órgão central, e uma avaliação externa dirigido por um comité de especialistas que visita a universidade durante alguns dias fazendo auditorias sobre as actividades realizadas.

Os resultados desta experiência têm sublinhado os aspectos positivos desta abordagem, caracterizada por um grau elevado de participação e de envolvimento das universidades no processo de avaliação e também por algumas das suas fraquezas, entre elas o custo exagerado que o método exige e a impossibilidade de comparar diferentes realidades enquanto não for concorrentemente desenvolvido um sistema de indicadores .

Allulli concluiu a sua comunicação afirmando que a pdncipal questão da avaliação da qualidade reside na ultrapassagem da justaposição entre a qualidade e a quantidade e entre abordagens quantitativas e qualitativas e também. na grande confusão reinante sobre o conceito de qualidade , considerada quase como uma entidade espiritual, indefinível e impossível de medir e de avaliar. Na verdade, a qualidade, nas palavras de Allulli, "não é mais do que a realização de objectivos previamente determinados não tendo, portanto, um valor discricionário mas relativo e pré-definível, podendo ser medido a partir de dados". O problema real é o de que, com frequência, os objectivos não podem ser inicialmente definidos , não sendo possível saber o que avaliar. Deste facto resulta que a dificuldade da avaliação não reside tanto na justaposição entre as dimensões, qualitativa e quantitativa, que tem pouco significado, mas na complexidade da matéria. A necessidade de análises recorrendo a outras fontes de informação tais como a análise directa e a avaliação pelos actores e pelos utilizadores envolvidos torna-se essencial.

 

V.C.

ALLULLI, G. (1995 - October). Towards Qualily AssesSment.

Comunicação apresentada na 7.ª Conferência Anual da European Association for lnternational Education, Milão.

ALLULLI, G. (Red.) I Nucle" di Vaiutazío,,e nellle Università Italiana. Universitã Ricerca (UR) , 5/6 , Anno VI, Maggio-Giugno 1995.

SUMÁRIO