Procura-se um Lugar ao Sol...

Diário de Bordo

Origem: Portugal.

Destino: Estocolmo, Suécia.

SÓNIA SILVA

 Técnica Superior do ISPV (Relações Internacionais)

 

Dia 1, 20 de Novembro de 1998

São 8 horas da manhã e o verdadeiro Sol não tarda, embora esteja muito frio em Lisboa. Penso nas longas horas de viagem que me esperam enquanto mecanicamente passo por e entre guichets que, embora distribuídos por um espaço aparentemente anárquico, formam de alguma maneira um conjunto coerente de filtros de formalidades unidos pelo cheiro a papel novo. Num aeroporto tudo funciona como na vida real, as pessoas estão desorientadamente apressadas porque supostamente há alguma coisa de muito importante para fazer, mesmo que nesses momentos, e no meio da agitação, isso se torne um pensamento relativamente ausente.

Ali estava eu, com um grupo de amigos e colegas de trabalho, e em breve teríamos algum espaço (entre duas filas apertadas de bancos) para descompressar e deixar, por algumas horas, as compressões para os motores do avião. Horas passadas a enlaçar palavras em palavras, ideias em ideias e a ... esperar. As palavras eram nossas mas também de quem, entre outras filas apertadas, fazia preguiçosamente descair a face sobre uma mão mal apoiada. Vontade de estar passivamente entre estranhos ou mera curiosidade, pensei eu. Felizmente, a hora da refeição chegava ocasionalmente para quebrar a sonolência tépida dos viajantes. Na verdade, é preciso estar bem acordado para gerir com racionalidade a disposição das miniaturas nos tabuleiros. Qualquer erro de geometria pode significar "uma peça irremediavelmente fora do puzzle". Adiante.

Tapetes rolantes e malas. Como seria bom, pensava eu, enquanto tentava distinguir a minha mala pouco distinguível naquele correr de intimidades fechadas e codificadas, se em Estocolmo houvesse assim um tapete, com contornos de montanha russa, e pudéssemos ser levados entre as ilhas sem qualquer dispêndio de energia que não fosse o da apreciação. Ah! Que pensamento infantil, pensei.

Com os exageros de um Europeu do Sul habituado às gentilezas da atmosfera, passei a linha da porta. Estava ao ar livre sem que a temperatura me deixasse esquecer este facto. Pela primeira vez em Estocolmo (e num país escandinavo), não pude deixar de me sentir uma verdadeira mediterrânica. Dali em diante seria sempre esse o meu pensamento "Venho do Sul". Havia pouca neve, apenas os vestígios normais dos "dias seguintes". Mas o suficiente para decorar os pinheiros de forma perfeita que passámos ao longo dos cerca de trinta minutos que nos separavam do centro da cidade. Magnífico! O Natal, que apenas tinha começado em Portugal, ocupava aqui todas as ruas, todas as lojas e as faces dos que passavam. Admirava os 7 graus negativos oficiais, da janela do quarto do hotel, e pensava que decerto a medição estaria errada. No calor do quarto, em poucos minutos deixei estes pensamentos.

Estranhava agora a noite súbita. Uma noite cheia de pressa que nesta altura do ano rouba a todos que aqui vivem o prazer de ler um livro até à hora de jantar com luz natural. Hora de jantar. Hora de descobrir que também os suecos estão gastronomicamente colonizados: 27 MacDonalds, cerca de trinta restaurantes chineses e outros tantos italianos, contados por mim num guia turístico. Pena foi que nenhum restaurante tipicamente sueco constasse da lista como tal. Como poderia ter acontecido em qualquer outra parte do Mundo, optámos por um restaurante híbrido, com algumas influências mexicanas, culturalmente indefinido. Frustrante para um estrangeiro curioso.

Dia 2, 21 de Novembro de 1998

À entrada do Metro trocávamos comentários, humores matinais, próprios de quem está em grupo, num local que não conhece, e procura orientar-se. Procurávamos concretamente o terminal de onde seríamos levados, com pouco equilíbrio, para a Universidade de Estocolmo. Mais uma vez, a EAIE (European Association for International Education) organizava uma mega conferência internacional, desta vez intitulada "International Education: Interactions with the Wider Community", o motivo da nossa viagem. Chegados, depois de um percurso relâmpago, povoado por cabeças descoloradas, olhos transparentes e sons que não descodifiquei ("Venho do Sul", pensei mais uma vez), deparei com o Campus Universitário, antecedido por um gigante tapete de neve, geometricamente dividido pela passagem de estudantes atrasados, e pobremente iluminado. Um país rico com uma luz pobre, pensei. É sempre assim, pelo menos durante grande parte do ano. Uma luz dormente, enfraquecida, própria dos finais de dia, de algo que está prestes a acabar. Uma luz que quase imobiliza o cenário e, por isso, me apeteceu revolver a neve morta com os pés, na esperança que alguma coisa acendesse, ao mesmo tempo que me aproximava da Aula Magna, um dos principais pontos da Conferência.

Aula Magna, Universidade de Estocolmo Foto: Mirella Mels

De volta ao calor dos interiores, procurei passagem entre os cordões humanos que raiavam o espaço apertado para tantas nacionalidades. Mais uma vez, a EAIE conseguia formar uma pequena nação multicultural que ao longo daqueles dias serviria de exemplo a qualquer Organização Internacional. Nos intervalos dos calorosos reencontros com alguns dos membros desta nação recolhi o plano que me guiaria nos dias seguintes.

Depois de algumas horas de agitação e de partilha de experiências e interesses profissionais, estava de novo no Metro que desta vez me levaria à "cidade antiga", um labirinto arquitectónico envelhecido pelos aromas das comidas levados pelo vento, seu amante. Aqui e ali, porque se repara, uns olhos escuros emigrados do Sul. No frio perdi a concentração e congelei o olhar na imagem do fluxo humano constrangido pela estreiteza das passagens, como um rio pelo seu leito. Havia qualquer coisa de nórdico no ar, sem que conseguisse defini-la com precisão. Descobri uma miniatura de um Vicking numa loja de recordações e confirmei-me.

Dia 3, 22 de Novembro de 1998

De volta ao Campus, de manhã bem cedo, depois de um percurso atribulado e lento pelos corredores de neve, procurava reduzir o meu atraso para o Workshop que havia escolhido. "Ouvir o auto-discurso de clientes culturalmente diferentes" era o seu tema. Sem saber muito bem o que se seguia, abri a porta da sala e encaixei-me entre a Finlândia e a Eslovénia. Boa escolha, pensaria mais tarde.

Procurávamos em grupo, e sob orientação do Mr. Paul Pederson, especialista nestas questões, desenvolver a nossa sensibilidade para a diversidade cultural, numa manhã baça que nos fazia companhia do lado de fora da janela. Éramos cerca de 30 participantes, das mais diversas nacionalidades, unidos durante 4 rápidas horas pela experiência que nos tornaria momentaneamente tão próximos, ainda que não nos tivéssemos voltado a ver. Uma pena!

Sem que tivesse tido tempo para me aperceber dos pormenores imediatos da personalidade de uma das participantes sentadas ao meu lado, sem qualquer outra referência que não fosse a do seu nome e nacionalidade, vi-me confrontada com a indicação de que teria de desenhar uma casa com ela (uma finlandesa) utilizando a mesma caneta em simultâneo. Se, segundo o Mr.Paul Pederson, o diálogo (verbal ou não verbal) é, na sua essência, em 67% tendencialmente negativo, posso dizer que nesta experiência se verificou um compromisso equilibrado e silencioso entre nós, que resultou numa casa de telhado pontiagudo, pronto a acolher suavemente os flocos de neve pertencentes ao chão do Norte, e de janelas largas, prontas a receber o Sol pertencente às peles do Sul. Entre a primeira linha e o pormenor final da chaminé, alguns borrões de tinta no papel a assinalar os impasses das negociações Portugal/Finlândia. Pensei mais tarde que seria bom que todos os "diálogos" interculturais se processassem desta forma e nenhum terminasse na irredutibilidade de um inglês e um irlandês, submetidos ao mesmo exercício uns anos antes, saídos da sala com metade de uma folha cada um, antes que a casa estivesse terminada. Curioso é notar a falta de auto-consciência cultural existente na maioria de nós. Como se fôssemos programados para pensar somente em situações de confronto. Como se reagíssemos mais do que agimos.

Não ficaríamos por aqui. Entre dois outros apontamentos de natureza mais teórica, caímos num outro exercício de sensibilização cultural cientificamente designado de "Triad Training Model". Com a destreza das mães de muitos filhos, habituadas a manter várias conversas em simultâneo, fomos actores em esquema rotativo, ora conselheiros, ora aconselhados, ora advogados de defesa, ora advogados de acusação. Grupos de empenhados humores cientificamente levados a um fim específico: a gestão do positivo e do negativo na interacção cultural, no meu caso entre uma portuguesa, uma eslovena, uma inglesa e , mais uma vez, uma finlandesa. Uma conclusão conjunta e imediata: pelo menos nestas 4 culturas é sempre mais confortável ser o advogado de acusação. A crítica fácil é sem dúvida internacional, pensaríamos no final desta séria brincadeira. Complicado, sobretudo quando trabalhar nestas áreas exige de nós um esforço no sentido contrário.

Pouco depois das 14.00 h do mesmo dia a Agnieszka, de Kattowice, Polónia, dizia-me, na Sala Estocolmo da Aula Magna, que era a primeira vez que assistia a estas conferências. Na realidade, era o seu primeiro ano de trabalho na área da internacionalização da educação. O seu entusiasmo era grande e pareceu-me ver nela a vivacidade de quem está a começar qualquer coisa sem muita consciência das dificuldades próprias de um processo que é novo e está repleto de resistências, sobretudo por parte de certas mentalidades. Achava que na próxima vez seria eu a sentar-me ao lado de alguém que pensaria o mesmo de mim. Também eu às vezes me sinto demasiado optimista, embora não queira deixar de ser assim.

Eram 19.00h quando chegámos ao Museu Vaasa. Em forma de barco, este espaço protegia dos efeitos do tempo e das águas um outro barco, em forma de mistério, o Vasa. Nascido em 1628, da vontade desmedida de Gustav II Adolf da Suécia, na altura em guerra com a Polónia, e insensatamente ampliado ao sabor de ambições, Vasa acabaria por ter um fim trágico depois de uma curta viagem inaugural com partida da baía de Estocolmo. Grande parte das vidas perderam-se, parte dos tesouros foram recuperados e o barco seria integralmente reconstruído (com 95% dos materiais originais) nos anos 70 e 80 (do nosso séc), graças ao empenho de Andres Franzén .... A história seria então trazida ao presente a lembrar ambições e responsabilidades reais não assumidas. Só quem viu este barco de baixo para cima, e o sentiu elevar-se na magnitude das construções megalómanas, consegue imaginar a força dessa ambição.

Dia 4, 23 de Novembro de 1998

Na atrapalhação dos bilhetes mal encontrados, arrancámos num autocarro colorido, preparado pela EAIE para proporcionar aos participantes uma breve passagem entre as ilhas que constituem Estocolmo. Mal saídos da Universidade, estávamos perante o maior parque situado em área urbana na Europa. A antiga reserva real de caça servia agora de escape aos amantes da natureza à procura de um pouco de silêncio. Daqui para uma pequena encosta, separada da água por estreitos caminhos de onde se detectavam, até ao ponto visível mais alto, inúmeras casas de madeira raiadas pela vegetação que procurava protegê-las, como se tratassem de redutos de felicidade frágil. Adivinhava lareiras e chamas irrequietas a quebrar deliciosamente a tranquilidade de quem aqui morava. Pensava que não poderia haver melhor lugar para viver.

Estados Unidos da América, Itália, França, Alemanha, Reino Unido...viviam juntos fora do seu território num pacato bairro não longe da encosta por onde havíamos passado. Um sem número de embaixadas concentrava-se naquela atmosfera volvocrata que nos surpreendia ao virar de cada esquina na ansiedade de descobrirmos um novo "país".

De ilha em ilha descobríamos Estocolmo. O Palácio Real, o Parlamento, a Biblioteca Municipal...ao mesmo tempo que a guia nos explicava que em alturas de maior frio (o que me parecia uma impossibilidade física) se organizavam corridas de patins de gelo de Estocolmo a Uppsala, o que significava 80 Km de percurso sobre a "morte súbita" de um gelo desigualmente formado pelos caprichos da natureza. Tremi.

Ao passar por uma Pousada de Juventude, uma antiga prisão de Estocolmo, reparei nas grades das janelas que ainda hoje dividem geometricamente o raro Sol dos que ali ficam. Chaves gigantescas, de celas modernizadas pelo conforto de hoje, cantinas amplas tornadas mais pequenas pelo calor da luz, tecidos riscados nos fatos numerados dos funcionários ... reconstituí mentalmente, ao sabor do entusiasmo da guia, o cenário daquela Pousada construída com humor sobre antigas e duras realidades. Seria possível isto em Portugal?

De regresso à Universidade, e depois de um rápido almoço, estaria de volta à Aula Magna para mais uma sessão da conferência, desta vez a segunda parte do Programa Sócrates. Em breve a noite caía, como sempre, e bastante tempo depois regressaria ao hotel com a pasta avolumada pelas inovações da Comissão Europeia. Feliz. Seria hoje o jantar de Gala, na Câmara Municipal de Estocolmo. Como acontecia sempre nestas conferências, a EAIE reunia uma grande parte dos participantes nesta ocasião. Interessante notar a fidelidade destes participantes cujas caras se repetem de ano para ano, de país para país. Assim não foi difícil reencontrar velhos conhecidos. E também, na abertura que normalmente se proporciona, é muito fácil conhecer novas caras que se repetirão nos anos seguintes e , entretanto, se tornarão vozes e colaboradores familiares. Nos mais distintos pontos do Mundo.

Ao entrar na Câmara Municipal, lembrei-me que seria ali a entrega do Nobel a Saramago e, por isso, senti que era também um pouco português aquele espaço. De pé direito interminável, o salão principal era contornado por intemporais varandins de pedra de onde se vigiava a imponência dos claustros. Ao fundo, uma enorme escadaria dava acesso ao andar seguinte onde se situava o Salão Dourado de paredes que brilhavam entre os recortes de incrustações de cor. Estranhamente, senti qualquer coisa de mediterrânico naquela combinação. Possivelmente no quente do ouro. Depressa passei do lugar para as pessoas e perdi-me deliciosamente na multiculturalidade do ambiente.

Dia 5, 24 de Novembro de 1998

O último dia de trabalhos e a véspera do regresso. Apesar do frio, começava a sentir saudades antecipadas. Começava a habituar-me ao indecifrável Sueco, ao Inglês roubado aos ingleses e até aos passos inseguros e presos dados ao ar livre. A ideia de voltar entristecia-me, mesmo sabendo que viver ali seria quase impossível para quem está habituado a ser português. Como a última página de um livro, este dia significava o fim de uma estória irrepetível, ainda que um dia voltasse a Estocolmo. Nunca seria naquelas circunstâncias.

Já na Universidade, tropeçava nos recentes conhecimentos, que se haviam tornado de longa data pelas afinidades partilhadas em tão poucos dias. Muitos deles, pensava, não tornaria a ver e, provavelmente, esqueceria em breve. Enquanto esperava a hora da sessão sobre o Programa "Leonardo da Vinci", pensava que haviam sido tantas as pessoas marcantes com quem me cruzei uma única vez na vida, num contexto profissional. Lembrei-me dos formigueiros densos de beira de estrada que observava em criança e, em particular, das formigas concentradas no transporte de migalhas que ocasionalmente iam de encontro a uma outra, mais preguiçosa, mas que eu achava sempre mais criativa.

O dia ia curto ainda mas estava já a anoitecer. Escolhi um canto envidraçado, com paisagem de postal, e sentei-me a ler até que chegasse o início do último painel a que assistiria.

Dia 6, 24 de Novembro de 1998

Depois de, apressadamente, percorrer algumas secções de uma loja de brinquedos das redondezas do hotel, e de repetidamente cruzar-me com uma das suecas mais famosas no mundo inteiro, a "Pipi das Meias Altas", regressei ao hotel porque se fazia tarde para apanhar avião para o Sul. Esperava-nos a versão "backwards" da descrição que iniciou este diário, agora enriquecida pelo prazer de recordar em conjunto os últimos dias. Nos momentos de silêncio, revia mentalmente tudo o que havia passado e senti que tinha crescido um pouco, como sinto em todas as viagens que faço. Depois de chegar a Portugal recordaria intensamente, com o pormenor de quem gosta de saborear, os lugares, as pessoas. E, recorrentemente, pensaria numa frase que recolhi em lugar incerto..." A diferença é positiva naquilo que nos faz únicos".

SUMÁRIO