CRETA: DESPOJOS ACUMULADOS DO TEMPO

 

VASCO OLIVEIRA E CUNHA *

 

Pelas quebradas de vertigem das Lefka Ori, das Montanhas Brancas (1), e pelos planaltos altaneiros de Lasithi (2) de Creta ecoou a fúria insana de Kronos (3), a tentativa desesperada de furtar a Rhea (4), sua irmã e esposa, o filho terceiro, Zeus, acabado de nascer numa caverna do Monte Idi (5) com a ajuda dos espíritos e dos deuses, dos Daktyloi Idaiou (6), tantos quantos os dedos das mãos humanas. Para o devorar, como fizera aos irmãos, Hestia (7) e Deméter (8), e como faria depois a Hera (9), a Hades(10) e a Poseidon (11). Para que se não cumprisse a profecia de Gaia, a mãe Terra, e de Urano (12), os pais de Rhea, de que um dia o pai do tempo seria destronado por um dos seus próprios filhos (13).

Na ilha, o deus dos deuses cresceu entre pastores, alimentado pelo mel das flores suculentas das encostas e das ravinas e pelo leite que corria dos seios de Amaltheya, a ninfa com forma de cabra, em agradecimento o senhor do Universo colocando a sua imagem entre as estrelas do céu imortalizando-a com o nome de Capricórnio.

Em Creta, assumindo ora a forma de touro ora de águia, Zeus seduziu Europa (14), filha de Agenor (15) e de Telephassa (16), abandonando-a depois com três filhos – Minos, Rhadamanthys (17) e Sarpedon (18) -, deixando livre a ninfa fenícia para desposar Asterius (19), o generoso "rei das estrelas" e monarca da ilha, abrindo assim as portas do poder à sua descendência.

Em Knossos (20), Minos herdou o trono de Asterius com o favor de Poseidon, deus dos oceanos, desposou Pasiphäe (21), filha de Hélios, o deus-sol, e da ninfa Creta (também chamada Perseia), união fertilíssima de oito filhos, entre eles Ariadne (22), Phaedra e Androgeus, e de uma teia complexa de dramas e de tragédias nascidas da afronta feita pelo rei ao senhor das profundidades marinhas por não haver sacrificado no altar erguido em sua honra o touro branco (23), resplandecente, que a divindade fizera emergir do fundo dos mares de Creta:

a paixão amorosa pelo belíssimo animal, que Poseidon fez despertar no coração de Pasiphäe (24);

o desejo ardente, tão fora de medida, de ser "coberta" pelo touro nos prados verdejantes de Gortyn (25) com a conivência de Daedalus, o melhor dos artífices de Atenas;

o nascimento de um filho monstruoso, cabeça de touro e corpo de homem, o Minotauro, o "touro de Minos", a que chamaram Asterius;

in VASSILAKIS, op.cit., p.37

a construção de um labirinto (26) no palácio, depois de consultado um oráculo, onde o monarca mandou encerrar Pasiphäe e o monstro nascido do seu crime para os esconder do mundo, o Minotauro anualmente alimentando-se de jovens atenienses, o imposto ultrajante que Minos lançou sobre a cidade-estado por nela ter sido assassinado o seu filho Androgeus depois da vitória nos jogos da Ática (27);

a luta épica de Teseu (28) com o Minotauro, libertando Atenas do pesadelo do tributo e dilatando a fama de herói, filho de Aegeus e de Atena, a brilhante, a inteligente, o companheiro de Héracles (29) nas lutas contra Lycus, da Eubeia, usurpador do poder tebano de Creonte, o libertador do trono da Arcádia, e de empresas mil vencidas com força, prudência e inteligência;

a paixão de Ariadne por Teseu, cúmplice, com Daedalus, na destruição do touro maldito, ajudando o herói com um novelo a entrar e a sair do labirinto indecifrável;

a viagem dramática do regresso de Teseu a Atenas, levando consigo Ariadne e Phaedra, mas abandonando a mulher que o amava na ilha de Dia (30), por congeminação dos deuses, para propiciarem a união da "santa", da "pura", da "visível à distância" (31) com Dyonisus, filho de Zeus e de Deméter e Semele, o deus "duas vezes nascido" (32);

in VASSILAKIS, op.cit., p.17

do drama de Glaucus, filho de Minos, afogado numa ânfora de mel do palácio de Knossos enquanto brincava, e regressado à vida pela força miraculosa da erva que uma serpente ofereceu ao adivinho Poleydos, de Argos (33);

a fuga dramática de Daedalus e do seu filho Ícaro (34) pelos céus mediterrânicos procurando refúgio para a perseguição determinada do monarca de Creta;

a morte de Minos às mãos do artífice de Atenas, ajudado pelo rei da Sicília e pelas suas filhas (35).

Histórias fantásticas do fluir eterno da vida, filhas da imaginação do homem e por ela animadas, como diz Camus; narrativas de planos difusos, esbatidos, entre o homem, a divindade e o universo, muito próximas do drama ritual, originadas no Caos, esse "vácuo aéreo onde nada é distinto"; mitos que são fundamento e força imperecível pairando sobre o homem e governando a vida num mundo imerso em mistério, quando a chuva e o vento, o raio e a tempestade tinham ainda gestação divina ou eram uma "função da realeza".

Mitos, narrativas, histórias que os invasores do continente trouxeram para Creta: na conquista aqueia (36), fácil, dos palácios do poder da ilha, vulneráveis após a erupção do vulcão de Santorini, mas ainda envolta na bruma espessa do nosso desconhecimento; na integração da ilha no mundo dórico, no século XI a.C. (37), a perda da identidade unitária, Creta submergida no esquartejamento em cidades-estados rivais, na intensificação do comércio intenso com o oriente, na criação de um estilo de vida grego. Clássico. Para preencher os espaços vazios de um passado desconhecido.

"Razões" estrangeiras, a ligação íntima da divindade com o homem; cultos olímpicos preocupados com honrarias aos imortais e aos membros invisíveis da sociedade recebendo em troca a sabedoria e a protecção da família, da tribo, ou do estado. Contraste profundo com a religião nativa, concepções desenvolvidas em torno da crença da natureza como Mãe, na oração individualizada em bosques sagrados e em grutas, mas com sacrifícios sangrentos de animais, ao som da lira, o sangue das vítimas vertido em vasos; na liberdade da devoção para o servo e para o homem livre.

Por Creta campeou depois a anarquia gerada na vertigem da decadência helenística, na sequência da partilha do império de Alexandre, o exercício da pirataria adicionado à vocação militar da ilha; o conflito com o mundo romano e a integração no império em 67 a.C., Creta, unificada com a Cirenaica (a Líbia actual), gozando então um período longo de paz e de opulência; a submissão ao poder bizantino no séc. IV A.D.; a conquista muçulmana em 824, a ilha envolvida no poderio crescente do mundo islâmico no Mediterrâneo; a subversão do status quo pela nova supremacia naval de Bizâncio a partir da segunda metade do Séc. X; a força da razão da espada latina da Quarta Cruzada, Bonifácio de Montferrat vendendo a ilha logo após à força "globalizante" do "império" oriental veneziano, Creta feita majestade soberana dos negócios e das armas, do fervilhar das madeiras, do ferro, dos tecidos "europeus" trocados por sedas e algodões, por açúcares e especiarias do Oriente; a decadência que se seguiu a 1669, quando o sabre otomano a reconquistou depois de um cerco de vinte e quatro anos; a insegurança permanente, temporariamente suspensa pela brevíssima soberania egípcia entre 1830 e 1840; o progresso demasiado lento e uma autonomia mitigada sob soberania do Crescente a partir de 1898, a "observação" ocidental casando-se mal com a incúria administrativa dos dirigentes; a insurreição geral no final do século XIX com o apoio "inevitável" da Grécia, a vitória otomana no conflito provocando a renúncia grega à posse da ilha, adiando ambições antigas; a proclamação da união com a Grécia em 1908, com Venizelos (38), e a sua materialização no rescaldo da guerra balcânica de 1913; a conquista nazi da ilha em 1941 por tropas paraquedistas, as represálias implacáveis, os massacres de civis, as execuções sumárias, a destruição sistemática das aldeias montanhesas, que os alemães apelidavam de "ninhos de víboras". Até à vitória da Resistência.

Terra de navegadores, conhecedores dos ventos etésios estivais soprando constantes de norte e de nordeste, favoráveis a intercâmbios, Creta foi, no terceiro e no segundo milénios anteriores a Cristo, eixo de uma civilização avançada de um povo de pele escurecida e cabelo negro mediterrânicos, expulso de África pelo avanço irresistível das areias do deserto, que irradiou pelas ilhas do Mar Egeu, pelo Peloponeso, nas cidades florescentes de Argos e de Micenas, em Pylos, Nauplia, Tyrins, pelas costas da Ásia Menor e da Fenícia, pela Síria e pelo Egipto, onde os aliados cretenses eram conhecidos por Keftìou.

in ART AND HISTORY OF CRETE, op.cit., p.83

Minóica se chamou esta civilização assente na superioridade naval e no comércio que a talassocracia possibilitava, o poder exercido por famílias reais habitando palácios magníficos (39), reis-sacerdotes conduzindo a política e a religião, simbolizadas em Knossos pelo Chifre Duplo e pelo Machado de Duas Cabeças, o Labrys(40), o poder sobre a vida e a morte, uma lâmina para os cidadãos, outra para as vítimas dos sacrifícios às divindades.

Palácios de burocracias institucionalizadas, centralizadoras, de alfândegas, de celeiros e de armazéns da produção e da distribuição; núcleos artesanais e industriais proliferando nas povoações que à sua volta se erguiam transformando-se em urbes de grandes dimensões (41), as casas apinhadas em ruas estreitas, pavimentadas, com sistemas engenhosos de condutas e de esgotos; o desenvolvimento de uma economia brilhante, a cerâmica cretense penetrando no Egipto e na península itálica; o cobre, importado de Chipre em barras, transformado em bronze e espalhando-se por todo o Mediterrâneo; a exploração do mármore, da prata, da obsidiana (42); o trigo, cultivado nas planícies, o azeite, o vinho, o mel, a amêndoa, o figo, laboriosamente produzidos nos socalcos das colinas, integrando as exportações; a construção de uma rede comercial poderosa, base de uma supremacia marítima tão vigorosa que a ilha escusava fortalezas defensivas, os povos vizinhos respeitando a sua independência.

Civilização berço de uma cultura criadora, de conforto, de elegância e de prazer:

a arquitectura palaciana de andares sobrepostos e de casas de campo senhoriais, água corrente nos banhos privados dos aposentos interiores, átrios ensolarados abrindo-se sobre a paisagem tranquila, a montanha altiva recortando os céus na distância;

in VASSILAKIS, op.cit., p.47

a pintura de frescos, decorativa de interiores e de exteriores, a profusão e a liberdade plena da representação naturalista, lírios que adornam o colar e o diadema da silhueta de um jovem efeminado, num fundo vermelho, penas de pavão no cabelo longo e escuro solto até à cintura, uma mariposa esvoaçando em seu redor (43); golfinhos, no mégaro (44) da rainha, nadando sobre uma rede iridescente criada pelo sol no movimento ondulante da água (45); andorinhas "beijando-se" nos bicos enquanto voam sobre um campo coberto de flores (46);

in VASSILAKIS, op.cit., p.67

as cenas de uma vida palaciana igualitária, acrobatas, homens e mulheres, saltando sobre o dorso de um touro a galope, o desporto mais popular de Creta (47);

in ART AND HISTORY OF CRETE, op.cit., p.75

a atitude simultaneamente elegante e majestática de uma sacerdotisa jovem, nariz espiritualmente arrebitado, rosto maquilhado, lábios carmesim, os seios, quase libertos, irrompendo de um corpete justo, estilizado (48);

in VASSILAKIS, op.cit., p.57

as silhuetas vivas das Dames de Bleu, mangas douradas e azuis dos vestidos moldando a pele (49), colares de brilhantes nos colos soberbos, o cabelo seguro por cordões de jóias preciosas, exuberante, mas libertando para o rosto a espiral irregular de um caracol longo e negro, uma trança moldando-se sinuosamente nas ondulações tranquilas dos corpos (50).

Cultura, também, de uma devoção intensa à divindade que habita os cumes mais elevados, domadora dos animais selvagens, deusa da fecundidade que lembra a Grande-Mãe das religiões da Anatólia e a doce virgem Britomartis (51), protótipo da Artemisa (52) helénica;

do respeito profundo pelos mortos e pela crença numa existência prolongada para além da vida;

da representação pictórica das procissões de libações, miríades de dançarinos, músicos, sacerdotisas e suplicantes avançando para uma deusa ao ritmo de uma lira de sete cordas (53);

dos rituais dos frescos dos sarcófagos calcários, o touro manietado, imobilizado sobre uma mesa para o sacrifício, um músico tocando duas flautas, uma sacerdotisa oferecendo libações num altar (54).

in VASSILAKIS, op.cit., p.71

O trabalho arqueológico (55) restabeleceu o diálogo interrompido de Creta com a sua história mais profunda, passo a passo buscando a reconstituição de uma vida quotidiana soterrada durante milénios pelas forças desmedidas da natureza e pela violência das vagas contínuas de invasores. Diálogo complexo, pleno de intermitências, descontínuo; hipóteses que se constroem, que se reformulam e que se abandonam para cederem sempre o espaço a novas veredas; o silêncio da linguagem escrita na indecifrabilidade dos textos pictrográficos, hieroglíficos (56), mais antigos e do Linear A (57). Na quase inexistência de documentos do Linear B (58).

Mas a arquitectura e a arte minóicas enriqueceram o património mental e espiritual dos gregos e do mundo. No convívio pacífico com as ruínas das villas e dos templos romanos; com o fascínio oriental das cúpulas convexas das mesquitas e com os minaretes turcos, de onde o muezzin chamava os fiéis à oração; com o perfil belíssimo das loggia venezianas e dos faróis nos molhes dos pequenos portos em ferradura; com a elegância e a frescura das fontes italianas renascentistas; com os rectângulos e os quadrados massivos de castelos; com muralhas e bastiões; com os frescos bizantinos de igrejas e de conventos. E nas pequenas aldeias e vilas de pescadores das baías e das enseadas da costa sul, no Mar da Líbia, a velhíssima arquitectura egeia, anfiteátrica, começa a reocupar o seu espaço.

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NOTAS

* Vice-Presidente do ISPV

  1. Cadeia montanhosa elevada (frequentemente acima de 2.000 metros) no oeste de Creta, assim designada pelas superfícies calcárias que, a espaços, parecem querer deslizar das alturas mirradas, como se de neve se tratasse.
  2. Planuras muito elevadas no seio das montanhas Diki, no centro e no leste da ilha.
  3. Titã criado por Eurynome, a Deusa de Todas as Coisas, para governar Saturno, com Rhea, um dos sete poderes planetários.
  4. Ver nota anterior.
  5. Pico mais elevado do maciço montanhoso de Idi (Psiloritis), no coração de Creta, a sudoeste de Iraklion (a cidade de Hércules), a capital.
  6. Quando Zeus estava para nascer, e para suavizar a dor, Rhea premiu com força os dedos das mãos contra o solo da caverna dele emergindo os Dáctilos, cinco machos e cinco fêmeas.
  7. Deusa das lareiras domésticas, a única divindade olímpica que nunca tomou parte em guerras. Tal como Artemisa e Atena, a deusa resistiu sempre aos convites amorosos que deuses e titãs lhe dirigiam. Depois da queda de Kronos, quando Poseidon e Apolo se apresentraram como seus pretendentes, Hestia jurou por Zeus que se manteria eternamente virgem. Por esta decisão, Zeus passou a oferecer-lhe a primeira vítima de cada sacrifício público uma vez que ela tinha preservado a paz na montanha sagrada.
  8. Deusa dos cereais. Amada e perseguida por seu irmão Poseidon, e não querendo ceder aos seus impulsos nem aos de outros deuses e titãs, Deméter transformou-se numa égua e começou a pastar com o rebanho de Oncus, um dos filhos de Apolo, que reinava na Arcádia (Peloponeso). Mas não conseguiu enganar Poseidon. Transformando-se em cavalo, este cobriu-a. Desta união ultrajante nasceram a ninfa Despoena e o cavalo selvagem Arion. A fúria da deusa teve tal intensidade que ainda hoje é venerada na Arcádia como Deméter, a Fúria.
  9. Nasceu em Samos, segundo uns; em Argos, para outros autores, mas foi criada por amas, as Estações, na Arcádia. Depois da queda de Kronos, Zeus, seu irmão, começou a cortejá-la em Knossos, a princípio sem qualquer êxito. Hera, contudo, começou a sentir pena de Zeus quando ele adoptou o disfarce de um cuco, vindo aquecer-se no seu peito, mas assumindo logo após a sua forma verdadeira e violentando-a. Envergonhada, Hera acedeu a aceitá-lo em casamento.
  10. Deus do Tártaro, o mundo inferior.
  11. Deus do mundo das águas, irmão de Zeus e igual a ele em dignidade, mas não em poder. De natureza belicosa, Poseidon construiu o seu palácio submarino ao largo de Aegae, na Eubeia, região vizinha da Ática.
  12. Segundo os mitos homérico e órfico da criação, Urano, deus dos céus, governou o universo depois de receber o ceptro de Rhea.
  13. Ajudado por Rhea, Zeus, a conselho de Metis, titã governador do planeta Mercúrio, deu a beber a Kronos uma poção mágica de mel. Tendo bebido demasiado, Kronos vomitou os irmãos mais velhos e mais novos do deus dos deuses, todos se conluiando depois para fazerem guerra aos titãs. Vencido, Kronos teve de abdicar do trono.
  14. Ninfa fenícia.
  15. Filho de Lybia e de Poseidon.
  16. Também conhecida por Argiope, originária da Terra de Canaan.
  17. Rhadamanthys viveu em paz com Minos depois de este ter assumido o poder sendo-lhe atribuído um terço dos domínios de Asterius. Ficou famoso por ser um juiz recto, severo para com os malfeitores, e por ter legislado tanto para os cretenses como para os habitantes das ilhas da Ásia Menor. De nove em nove anos visitava a caverna de Zeus, de cada vez regressando com um conjunto de leis, um costume posteriormente seguido por seu irmão Minos.
  18. Não aceitando a pretensão de Minos ao trono de Creta, Sarpedon defendia que era intenção de Asterius dividir o reino de modo igual entre os três irmãos. Expulso de Creta por Minos, fugiu para a Ásia Menor onde se tornou rei, concedendo-lhe Zeus o privilégio de viver durante três gerações.
  19. Filho de Tectamus, o dirigente de uma colónia da Aeolos e de Pelasgos, originários da Ásia Menor, e de uma filha de Creteus, o Aeolo.
  20. Palácio situado numa colina a sul dos vales da actual Iraklion e de Karteros, junto do rio Kairatos, e muito próximo do mar. Maior edifício minóico, o palácio ocupava uma área de 22.000 m2 no período de maior esplendor.
  21. Antes de vir para Creta, para escapar à perseguição amorosa de Apolo, Pasiphäe era conhecida por Daphne, ninfa da montanha e sacerdotisa da Mãe Terra.
  22. Embora mortal, Ariadne tem nome de deusa. Originariamente o seu nome seria Ariagne, superlativo de Hagne, epípeto de rainha do mundo subterrâneo.
  23. O mito do touro branco e da sua consagração à lua em sacrifício foi comum a muitas regiões mediterrânicas, entre elas Roma e a Trácia. Também no Atlântico, em Gales e na Irlanda.
  24. De acordo com Pausanias, Pasiphäe é um dos epípetos da Lua, o mito de Pasiphäe e do touro apontando para um casamento ritual, à sombra de um carvalho, entre a sacerdotisa lunar, usando cornos de vaca, e o rei Minos, a face escondida sob a máscara de um touro. Segundo Plutarco, muitos gregos preferiam acreditar que a rainha teve uma relação com um general de Minos chamado Taurus, não com um animal. (In Graves, 1960, Vol. 2, p. 297)
  25. Cidade, a sul da actual Iraklion, rival de Knossos no tempo do domínio aqueu, Gortyn viveu o seu apogeu político com os romanos tornando-se capital da província de Creta e da Cirenaica (Líbia actual). De acordo com Hesychius, o nome Gortyn deriva de Carten, palavra cretense que significa "vaca".
  26. Segundo Homero (In Graves I, 1960, p. 298), o labirinto era um terreiro de dança concebido por Daedalus para Ariadne, a loura filha de Minos. Sir Arthur Evans, o arqueólogo decisivo para o conhecimento actual sobre Knossos, sustenta que o labirinto era o próprio palácio da dinastia Minos, a origem do seu nome sendo a palavra "labrys", machado de duas cabeças com as formas de quarto crescente e de quarto minguante, emblema de soberania e do poder criativo e destruidor da divindade. Opinião não coincidente é a de Graves (op. cit., p. 346). Segundo este autor, o labirinto tinha uma existência independente do palácio, embora estando situado em frente dele. Gravado em mosaico sobre um pavimento, era utilizado para orientar os bailarinos de uma dança erótica de primavera.
  27. Segundo a lenda, de nove em nove anos Atenas tinha de pagar o tributo se sete raparigas e de sete rapazes para servirem de alimento a um monstro terrível, o Minotauro, que vivia no labirinto de Knossos.
  28. Herói, punidor de tiranos; libertador dos caminhos gregos infestados de criminosos e de salteadores; o vencedor das Amazonas, com a consequente supressão do regime de matriarcado; o sucessor de Aegeus, seu pai, no trono de Atenas, iniciando na Ática um processo de federalização com a promessa de abolir a monarquia substituindo o velho sistema pela democracia.
  29. Mortal, com pele de leão, libertou Teseu do Tártaro.Na sequência da deposição de Lycus, favorito de Hera, a deusa fez Héracles enlouquecer e morrer. Teseu foi protector dos seus descendentes. Uma das epopeias vividas por Héracles relaciona o herói com Creta. Por ordem de Eurystheus, rei de Atenas, Héracles foi à ilha capturar o touro que Europa levara para Creta, ou, segundo outra versão, aquele que Minos poupou ao sacrifício em honra de Poseidon. Depois de vencer o animal, Hércules levou-o para Micenas. Eurystheus dedicou-o a Hera, que o libertou, percorrendo e destruindo o touro plantações em Esparta, na Arcádia, e em Maratona, depois de atravessar o Istmo de Corinto. Em Maratona, Teseu dominou o animal e arrastou-o até à Acrópole de Atenas onde o sacrificou em honra de Atena, a deusa protectora da cidade.
  30. Hoje chamada Naxos.
  31. Um outro nome atribuído a Ariadne é o de Aridela, literalmente significando "visível à distância", um nome que decerto adquiriu depois de ser levada por Dyonisus para o céu, deixando, como deusa que passou a ser, um rasto brilhante no espaço.
  32. Na versão mais comum do nascimento de Dyonisus, o deu do vinho e da alegria tem uma dupla filiação materna. Zeus, seu pai, disfarçado de mortal, teve uma relação secreta com Semele, a lua, filha do rei Cadmus de Tebas. Com ciúmes, Hera, usando o disfarce de uma antiga vizinha de Semele, aconselhou-a a não voltar a dormir com o seu amante enquanto ele se não apresentasse diante dela na sua verdadeira forma. Irritado com Semele, já grávida de seis meses, Zeus fulminou-a com um raio. A criança, contudo, foi salva por Hermes, que a introduziu na coxa de Zeus, onde permaneceu durante os restantes três meses de gestação. Dyonisus é, deste modo, conhecido como o deus "duas vezes nascido" ou como "a criança da porta dupla".
  33. A lenda apresenta Argos como a cidade mais antiga da Argólida Mais velha que Micenas e Tyrins.
  34. Para fugir de Creta, Daedalus construiu asas, voando da ilha com o seu filho Ícaro. Mas Ícaro caiu no mar, afogando-se.
  35. Cocalus, assim se chamava o monarca siciliano.
  36. Alguns historiadores situam no séc. XVI a.C. as primeiras tentativas de invasão e de conquista de Creta por parte dos aqueus, que viviam no Continente, depois da destruição de Knossos pelo grande sismo ocorrido por volta da 1700 a.C., seguido de fogos e de um maremoto. Para outros autores, o domínio aqueu efectivo na ilha só se concretizou depois do cataclismo provocado pela erupção violentíssima do vulcão de Santorini, uma das ilhas das Cíclades Meridionais, em meados do séc. XV a.C., com a instalação em Knossos de um anax, de um rei micénico, existindo documentação que comprova a submissão de muitos palácios: Amnissos, Tylisos, Phaistos, Lyktos, e muitos outros.
  37. Por volta do final do séc. XII a.C., a civilização micénica terminou abruptamente, sendo ainda hoje as verdadeiras causas desconhecidas. Na sequência deste colapso, uma nova onda de migrações se iniciou na Grécia continental, a dos dórios, que ocupavam a Argólida, a Coríntia, a Lacónia, a Mesenia, todas estas regiões situadas no Peloponeso. Creta e outras regiões mediterrânicas foram sucessivamente ocupadas.
  38. Guia espiritual das sublevações contra os turcos, foi forçado ao exílio na Grécia continental depois da revolta de 1888. Depois da vitória da rebelião de 1897, Eleutherios Venizelos torna-se membro do governo provisório da ilha trabalhando para a independência de Creta, tendo nesta luta o apoio do Príncipe Jorge da Grécia. Em 1905, na sequência de desacordos com o príncipe, Venizelos estabeleceu um conselho insurreccional independente e proclamou a união de Creta com a Grécia, um facto que originou a derrota do príncipe. Durante a I Guerra Mundial, os seus esforços para proteger a ilha dos ataques inimigos levaram-no a entrar em conflito com a Grécia tendo sido condenado à morte. Exilou-se em Paris, onde morreu em 1936.
  39. Não é ainda claro se havia em Creta um só poder soberano de um monarca ou de uma dinastia unificando politicamente a ilha, ou se o território se encontrava dividido em principados vivendo em boa harmonia. As escavações têm trazido à luz do dia palácios e núcleos urbanos em diferentes zonas da ilha: Agnion, Polirinia, Falasarna, Lissos, Risinia, Anopolis (no oeste); Knossos, Phaistos, Gortyn, Tylisos, Arhanes, Levin (no centro); Mallia, Millatos, Kritsa, Gournia, Siteia, Zakro (no leste).
  40. Ver nota nº 26.
  41. Segundo Arthur J. Evans, cujo trabalho de escavações foi decisivo para o conhecimento que, a partir de 1900 – 1902, se foi construindo sobre Knossos e o conjunto da civilização minóica, em volta do palácio de Knossos desenvolveu-se uma grande cidade com uma população avaliada entre 80 e 100.000 habitantes. Para S. Hood, actualmente considerado a maior autoridade viva sobre a civilização do período minóico de Creta, o número de habitantes deveria situar-se entre os 15 e os 20.000. (In Vassilakis, s/data, p. 32).
  42. Para além de técnicas muito avançadas no trabalho cerâmico e de metais, os minóicos distinguiam-se pela perfeição da sua joalharia, especialmente das filigranas e do granulado, e pelas obras que produziam a partir de pedras muito duras, como a esteatite e a obsidiana, esta última muito abundante na ilha de Milos.
  43. Fresco descoberto por Evans no palácio da Knossos, no Corredor das Procissões. O arqueólogo chamou-lhe Rei-Sacerdote. Actualmente, no Museu Arqueológico de Iraklion.
  44. Sala com lareira ao centro, e na qual se penetra por um pórtico, quando se vem do pátio.
  45. Friso encontrado nos aposentos da rainha no palácio de Knossos. Museu Arqueológico de Iraklion.
  46. Fresco encontrado nas ruínas da cidade de Tera.
  47. Designado por taurokatapsia, este desporto espalhou-se pela Grécia Meridional, chegando mesmo a Atenas. Museu Arqueológico de Iraklion.
  48. Fresco encontrado no palácio de Knossos. Actualmente, no Museu Arqueológico de Iraklion.
  49. O luxo do vestuário feminino contrasta profundamente com a exiguidade do dos homens – uma simples tanga envolvendo a zona dos rins.
  50. Também conhecido pela designação de Fresco das Três Deusas, foi encontrado no palácio de Knossos, encontrando-se actualmente no Museu Arqueológico de Atenas. Um intelectual francês, contemplando-o, exlamou: "Mais ce sont les Parisiennes!" (In Kitto, 1957 p. 21).
  51. No leste de Creta a deusa da lua era conhecida por Britomartis. Daí, a sua identificação com Artemis, feita pelos gregos. E também com Hecate. No ocidente da ilha era conhecida por Dictynna.
  52. Perseguida por Minos, Britomartis procurou em Creta todos os refúgios para escapar à violação, acabando por se atirar ao mar, em desespero, mas tendo sido salva por uma rede de pescadores. Foi Artemis quem deificou a "doce virgem" de Creta.

  53. Filha de Zeus e de Leto, e irmã de Apolo.
  54. Fresco religioso conhecido pela designação de Procissão das Libações, encontrado nas ruínas da Villa real de Ayía Triádha, perto do palácio de Phaistos. Museu Arqueológico de Iraklion.
  55. Sarcófago pintado, encontrado num pequeno túmulo da villa de Ayéa Triádha. Museu Arqueológico de Iraklion.
  56. Para além dos nomes de Arthur Evans e de Hood (ver nota nº 41), deverão referir-se os dos arqueólogos assistentes de Evans, D. Mackenzie, D. Hogarth, Alan Wace, H. Forsdyke e R. Hutchinson. Das primeiras décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial, Nikolaos Platon e Styllanos Alexiou.
  57. A escrita pictográfica, ou hieroglífica, tem em Creta uma história que se avalia em 500 – 550 anos, mas o número dos textos que sobreviveram é muito reduzido, sendo a maioria proveniente de Knossos, Phaistos e Mallia. São, em regra, textos muito curtos, encontrados em selos com três ou quatro faces.
  58. Também conhecido por Proto-Linear, os primeiros textos neste tipo de escrita apareceram no palácio de Phaistos. Considerada inicialmente como resultado de uma evolução da escrita pictográfica, parece hoje mais rigoroso pensar os dois tipos de escrita como contemporâneos. A escrita Linear A poderá ser proveniente da família Camito-Semítica de línguas, ou mesmo da família Indo-Europeia, sendo, contudo, provável que a língua dos minóicos de Creta, tal como acontece hoje com o Basco, ou com o Turco, não tendo tinha qualquer parente linguístico mesmo na antiguidade, sendo muito reduzidas as esperanças de poder vir a decifrar-se.
  59. Escrita já decifrada; forma arcaica do Grego.

 

BIBLIOGRAFIA

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SUMÁRIO