L.S.

 

MARIA ELISA PINHEIRO *

 

Cruzámo-nos aqui na arcada. Eram três: altos, espadaúdos, "enkispados". Ergui os olhos, assustada. Carinhoso sorriso do meio...

- Ainda sabe o meu nome?

- L.S.

- Como é possível, de entre tantos?

Como esqueceria?

Seis anos vivaços, sustidos por uma mãe obviamente impreparada, pensando levar pela mão o inimigo público n 2... Insuportável! Absolutamente insuportável! Já fizera mil tropelias. Já tentara por duas vezes incendiar os cortinados.

Um princípio difícil, a acalmar, a adaptar, a disciplinar suavemente.

Ainda uma última habilidade com fósforos e sustos.

Sempre entregue a empregadas, amigos, e Escola, pedia ao Menino Jesus, no Natal, "só um pequenino carinho".

Apenas se pede o que se precisa ou deseja, porque se não tem...

Recreio. Um apelo urgente:

- Acuda. L.S. tem uma coisa muito indecente.

Assomo à janela. Ofegante, corre de braços no ar, à frente de uma pequena multidão.

Naquele tempo respeito e disciplina não eram palavras vãs. Um breve sinal e ruma até mim, seguido do roldão de todos os outros.

- Mostras-me?

A mão aberta liberta um bocadinho de revista (artística? pornográfica?) e nele a revelação de um corpo de mulher.

- Indecente? Se Deus achou bem fazer assim a mulher, porque há-de ser indecente olhar para ela?

Desarmaram.

L.S. passou à normalidade. Mas não sem antes me ter brindado com um trabalho, que infelizmente se perdeu, no qual dizia que a Escola de São Miguel era tão boa, tão boa que até se lá aprendia que quando se põe um algodãozinho molhado num grão de bico e se deixa estar 3 dias, ele deita cá para fora, a espreitar, um biquinho como o dos passarinhos.

 

98 Outubro Viseu

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* Professora reformada do 1 Ciclo do Ensino Básico.

SUMÁRIO