DEIXAI VIR A MIM OS MENINOS PERDIDOS, QUE SOU O LIBER

 

HELENA MARQUES *

 

 

"(...) Deixem passar

Quem vai cheio de noite e luar.

Deixem passar e não lhe digam nada.

 

Deixem, que vai apenas

Beber água de Sonho a qualquer fonte;(...)"1

 

" O sentimento é filho da matéria."2 O Liber é matéria esculpida, milagre de Pigmalião, sonho encarnado, fonte de vida, carnalidade leitosa do sentimento do homem, deleitoso alimento: patriarca do livro.

O livro, ser palpitante de sangue preto, pesado de substância universal, reservatório de sonhos solitários e adormecidos, espera, no seu corpo branco, por muitos renascimentos.

Ventre fértil, preto sobre branco, verdade limpa, espera uma travessia temperada de orvalhadas fecundas. Uma criança virá. À chuva-seiva, vinda de ao pé do luar, via láctea, há-de reunir o fogo vivo.

Desses rios pretos e frios de sonhos de papel esquecidos, hão-de jorrar fontes vermelhas e quentes, depois da visita de uma criança, aberta ao jogo de narradores-belas-adormecidas. O encontro virá, sem dúvida e o jogo "Quem-somos-e-o-que-é-viver" poderá acontecer a seu tempo. Um jogo primeiro, temporão, de sabor arcaico, derivado de terrenos primitivos flutuantes e sensoriais, gera no ventre fértil, preto deitado no branco, a verdade pura, tão gratificante para o eu. Um jogo primeiro que não pode sobreviver ao ser apartado do seu corpo natural, canto de uma voz, de uma mão que afaga, de um colo que aquece e de uns olhos que alumiam e abrem regos de água do fogo intelectual. Um jogo primeiro que salva a criança de andar à deriva, arrastada por uma corrente de sons, materiais, formas, odores e contactos duros e desconexos, malfazejos aos seus sentidos de homem, de gente. Uma esperança mítica milagrosa, onde palavras-estátuas são bafejadas pela deusa do Amor, dando corpo ao desejo dos meninos que acreditam.

Aí, no mundo poeticamente leve da infância, navega-se sem mar sem vela ou navio, animando-se o mundo de humanidade. Mais tarde, no mundo socialmente pesado da adultez, quando o ar está envenenado, é-se novamente atraído ao jogo primeiro das origens do eu e bebe-se a coragem até de um copo vazio.3

Álvaro Miranda Santos, numa comunicação de psicossociologia e estética literária, também dirige a sua reflexão para a necessidade de nos revigorarmos com a contemplação da beleza e de nos maravilharmos, como antigamente o homem do povo fazia acontecer nos seus contos. À luz da candeia "como água cristalina e leve corre por penhascos e entre relva e ervas, sempre cantando ou murmurando segredos" ou ao canto da lareira, portadora de calor, união, intimidade e magia "se desfiavam palavras e personagens variadas, ao mesmo tempo que da estriga do linho em roca usada, corria o fio para o fuso."4

Curiosamente, também Pierre Bergounioux, faz uma viagem de regresso ao sentido primeiro do livro, relembrando-nos terrenos etimológicos em pousio, abandonados e incultos, ao retraçar os laços de sangue que unem o objecto literário, à casca espessa da árvore, circulação de seiva, passagem de vida, por vezes oculta por camadas sobrepostas pelo tempo e pelos homens. Das acepções primitivas da palavra, liber, uma só sobreviveu, livro, objecto sobre o qual se escreve. Hoje, é nessa coisa do papel, outrora liber, parte viva da casca da árvore, sobre a qual se escrevia - mas que também já significou no francês arcaico, socialmente livre, e no singular servia a designar a criança, e que ainda segundo o mesmo documento, terá sido usado para fazer referência ao vinho, nas Odes de Horácio - é nessa coisa de papel, dizia eu, que procuramos a embriaguez da vida, a seiva, a liberdade, a infância, que a realidade contemporânea levou a exilar. Procuramo-las hoje, no liber.

Miranda Santos aproxima a necessidade de abertura ao maravilhoso "do berço da maior parte de nós que partilhamos o contacto húmido da terra, em dias de "virar a terra" em largas leivas e fundos sulcos", fonte original do que somos.

Bergounioux, ao evocar a relação original do livro à árvore, mais exactamente à parte viva da árvore, a camada da casca onde circula a seiva, afirma que o homem esqueceu esse sentido primeiro da passagem da vida. Facto que não nos surpreende, pois também esqueceu a ligação natural ao seu corpo e ao corpo da terra, ao mundo bucólico, por estar prisioneiro de corpo e alma, da actualidade urbana, de espaço reduzido, racional e funcional, privado de horizontes. Moderno, ansioso de viver a moda, o homem elegeu-se a si, vítima de um infinito desencantamento. Depois castigou os filhos a um desengano precoce. Será esta, uma das primeiras desilusões de um sonhador e fazedor nato: criança condenada ao betão, aos canteiros de ervas daninhas, aos tempos sem tempo, às vozes agoirentas e exasperadas, ao contacto com corpos hirtos e impacientes, aos sentidos caóticos e aos barulhos de aço cortante.

Uma criança sufoca de angústia, enjaulada e privada do sonho, da gente e da terra-mãe... "E a terra chorou / Chorar também cansa / Quem pode enxugar as lágrimas / Da terra cansada? / Nem as mãos de uma criança... 5 Bergounioux exprime a necessidade de libertarmos a criança de hoje "da árida decoração de cimento onde está trancada."6 Sente-se o apelo a uma comida orgânica retirada da terra, do ar, da água, do fogo, tão evocada por Bachelard, manifesta nas palavras destes autores e acentuada na selecção de Sophia de Mello Breyner, de poemas para a infância, recolhidos de vários autores. A título de exemplo, citamos: "Casa toda esta Terra de sorrisos diferentes / Com o Fogo Macho acendido na manhã baixa / Com o padrinho Ar de Fole sempre a dizer piadas / E a madrinha Água Pouca esperando / Para dizer a sua sentença importante." E ainda "Buscar na linha fria do horizonte / A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte / Beijos merecidos da Verdade."7

No maravilhoso experimenta-se a aprendizagem da liberdade e do silêncio num espaço interiormente e exteriormente arejados, despojados de barulhos opressores, onde é dado descobrir a ser-se pelos sentidos, pois " como sabes, o sentimento é filho da matéria." 8 Ao explorador das terras exóticas fantásticas é dado sentar-se no beiral de uma janela sensorial: carne sensitiva e pensante, alma imperatriz dos sentidos. Aberta a horizontes infinitos, afluídos de águas azuis de rios vários, oferece um sem número de pão venturoso. Algum desse pão arrecadado na seiva de alguns livros, puros herdeiros do Liber, porquanto abençoados de bem-querer, os que não perverteram a verdade seivosa dos seus antepassados.

Fernando Pessoa escreveu que "o sonho é ver as formas invisíveis", "Chegando a "ver" o invisível e a "Apalpar" o imaterial", acrescentaria Manuel de Boaventura, também ele sensível à ânsia de liberdade corporal e de metafísica mimada.9 Por tudo isto, na certeza da criança se reconhecer nesta dimensão, onde pode com autonomia fazer-se a mimetismos e cinesias imaginadas, confirmar a sua existência na dos outros, abuso uma última vez das palavras de Bergounioux: "É ao livro que compete legitimar junto das crianças a soma imprescriptível de imagens, de deambulação, de sonhos e de beleza." Outrora, ao que se diz, quem mandava no povo era a sua imaginação, "Que se deleitava no maravilhoso, a criar um mundo novo."10

A criar um Mundo Novo ... aventura expectante e epopeica, a da criança, também. Grandiosa e metafísica.

Uma aventura, um jogo primeiro que leva tempo. Tempo psicológico, profundo e seguro. Aventura que, se partilhada melhor...

 

... Mas aventura também solitária

num refúgio-jangada

navegante

de percepções poéticas e brancas

do berço-uniVerso...

 

Francine Dugast-Portes 11 fala da linguagem poética que procura a reminiscência do deslumbramento óptico da infância, a fascinação das coisas vistas pela primeira vez: "um pensamento exclamativo, uma abundância de sensações, uma antropomorfização constante das palavras remotivadas, cujo significado reencontra a riqueza associativa que tinha durante a infância." Refere-se ainda ao estado anterior e superior do modo de percepção do real na criança.

 

Proust 12preferiu entendê-lo assim:

 

"Cada ser é como um ideal ainda desconhecido que se abre a nós. (...) Ficamos com a ideia que existem bem mais vidas que aquelas que pensávamos viver, e isso dá mais valor à nossa pessoa. Um novo rosto que passou, é como um encanto de um novo país que a nós se revelou por um livro. Lemos o seu nome, o comboio vai partir. Que importância tem se não partimos, sabemos que ele existe, temos mais uma razão para viver.13

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* Equip. a Professora-Adjunta da ESEV

1 Torga, Miguel, Santo e Senha, poema integrado na recolha de Sophia de Mello Breyner Andresen par crianças, p. 132, Primeiro livro de poesia, poemas em língua portuguesa para a infância e a adolescência, Caminho, 1993

2 Richard, Jean-Pierre, Poesie et profondeur, Éditions du Seuil, 1955, p. 90, citação de René Char, no original: "ne cherche pas les limites de la mer. Tu les détiens. (...) Le sentiment, comme tu sais, est enfant de la matière."

3 Godinho, Sergio, Era uma vez um rapaz, Polygram discos. Canção: O primeiro dia.

4 Santos, Álvaro, Miranda, Um perfil de perfil, psicossociologia e estética literária, Esposende, 1987

5 Araújo, Matilde, Rosa, As fadas verdes, Civilização Editora, Porto, 1994, p. 12

6 Bergounioux, Pierre, Liber,Librairie Ombres Blanches,, Éditions Verdier, Toulouse, 1995

7 Andresen, Sophia de Mello Breyner, Primeiro livro de poesia, Poemas em língua portuguesa para a infância e adolescência, Caminho, 1993. A primeira citação foi extraída de O ferro de Mutimati de Moçambique, p. 44-47. A Segunda encontra-se na p. 143, de autoria de Fernando Pessoa.

8 Cf. nota 2

9 Citação usada por Álvaro Miranda Santos, em Um perfil de perfil, op. cit., p. 33

10 Boaventura, op. cit.

11 Vários autores, Cahiers de sémiotique textuelle, Le récit d'enfance en question, Université _Paris X, Publidix, 1988, p. 233-234

12 Proust, Marcel, Contre Sainte-Beuve, Gallimard, 1954, p. 72, 73

13 O sublinhado é meu, por analogia à acção interior da criança, no acto de se elevar à liberdade imaginativa, pois à semelhança de Proust, também ela reafirma a sua auto-estima, presentifica a sua identidade, dá rosto à sua vivência simbólica, pelos "rostos que passaram" na sua viagem fictícia, mesmo sem ter partido. Adquire uma dimensão espiritual grandiosa, advenha o que advier.

SUMÁRIO