Olá Macau! /Adeus Macau...

MARIA GIL DE SOUSA *

Não sei porquê, o Oriente sempre exerceu um certo fascínio sobre mim. Desde que me lembro. Aos quatro anos, "herdei" uns chinelinhos de seda provenientes de Macau. Não sei de quem eram, nem como chegaram até mim. Sei que gostava muito de lhes tocar. Creio que não pelo toque da seda em si, mas porque tal acto me reportava a longínquas e exóticas paragens. Foi também aos quatro anos que comecei a ler. Através da leitura, já conseguia, de certa forma, viajar. Encantavam-me as histórias passadas em lugares exóticos. Também por esta altura recebi de presente Os Lusíadas contados às crianças, em banda desenhada. Devo dizer que não fiquei particularmente deslumbrada pela epopeia camoniana, mas sim pela biografia de Camões, pelas suas viagens e, pelo romance em Macau com a Ti Nan Men, cujo nome foi depois aportuguesado para Dinamene. Lia essas páginas iniciais, também em banda desenhada, sem cessar...

Tinha eu nove ou dez anos, quando soube que, em 1999, Macau iria passar para administração chinesa. "Decidi", então, que iria a Macau, antes dessa data. Como a minha situação financeira na época não era exactamente favorável, os meus pais lembraram-me que se tratava de uma viagem cara, mas que se estudasse e conseguisse um bom emprego, talvez fosse possível.

De facto, tirei um curso superior, depois o mestrado, se tenho ou não um bom emprego, daria quase uma tese tal discussão; e, consegui ir a Macau, na semana anterior à passagem para soberania chinesa. (À boa maneira portuguesa, guardei a realização deste sonho - por motivos de vária ordem - para os últimos dias).

Cheguei a Macau numa tarde ensolarada de Dezembro, após treze horas de avião e uma de jet-foil. Reconheço que o embate cultural inicial foi violento. Esperava que, pelo menos no aeroporto e no hotel, alguém falasse português. Mas não. Só inglês... ... e pouco. Do mesmo modo, não se encontra uma revista portuguesa, nem sequer ocidental, num quiosque. Mas toda esta sensação de estar perdida no mundo foi rapidamente esquecida com a viagem de riquexó do cais até ao hotel. Um senhor pedalava a bicicleta e eu ia sentada atrás, numa espécie de charrette, o que foi extremamente compensador, após horas sem ver a luz do dia. Cansada como estava, nem reparei, nesse momento, que em Macau se conduz pela esquerda...

Ruinas da Igreja de S. Paulo

Depois de quase tantas horas de sono como de viagem, saí à descoberta de Macau. Munida com mapa e seguindo as inscrições dos nomes das ruas que, felizmente, estavam em português (1), foi fácil alcançar a Avenida Almeida Ribeiro, mais conhecida por San Ma Lo (Rua Nova) e chegar ao Largo do Senado. Aí foi grande a minha comoção. Senti que tinha, finalmente, chegado, depois de muitos anos de espera e alguns de dúvida. Visitei depois as Ruínas da Igreja de S. Paulo e o Jardim de Camões. O jardim chinês é algo de extraordinário! Conforme dizem os chineses, ele "alimenta o coração" e toda a vegetação luxuriante é muito bem cuidada. Entrar num jardim é quase o mesmo que entrar num livro de lendas chinesas. Para os olhos ocidentais, tudo constitui novidade: Os passarinhos nas gaiolas, pendurados nas árvores, de modo a que possam ter um breve contacto com a Natureza (não assisti a nenhuma luta de pássaros, felizmente!), as senhoras que fazem a sua ginástica de meditação, senhores de idade que jogam mah jong... E, no Jardim de Camões, um busto do Poeta. Resolvi tirar-lhe uma fotografia, mas antes murmurei entre dentes: "Safado! Deixaste morrer a rapariga, para salvares a tua obra... É mesmo "à homem"..." Ele deve ter-se ofendido, porque se "recusou a posar" (já em Portugal, ao revelar as fotos, reparei que a que lhe tinha tirado não saiu...).

Tinha eu previsto visitar estes três lugares de manhã, mas como o território é pequeno (assim diz uma canção macaense, cantada em patuá: "Nhum falá Macau sa grándi, qui foi? Nôs senti qui nunca sa"), ainda me sobrava imenso tempo, e decidi ir ao Templo da Deusa A - Mah. Conta a lenda que, num dia de tempestade, os marinheiros pediram ajuda divina e surgiu uma rapariga andrajosa que fez com que a tempestade serenasse. Foi então erguido um templo a essa deusa, A - Mah, a deusa dos navegantes, que dá também o nome ao território de Macau. Ao que parece, a palavra Macau deriva de A - Mah Gao, baía (ou porto) dos navegantes. Fui arrastada pelo misticismo presente no templo. Com tanta gente a agradecer graças concedidas e a pedir protecção, aproveitei para "agradecer a A-Mah" o facto de estar em Macau e pedir protecção para os próximos dias...

Templo de A-Mah, a Deusa dos Navegantes

De volta à realidade, visitei ainda o Museu de Macau, interessantíssimo. Como existe já bastante informação sobre ele acessível em Portugal, vou apenas destacar um pormenor da cultura chinesa que me despertou a atenção: no dia do seu casamento, a noiva é transportada numa espécie de liteira. A justificação, é, no entanto, bastante óbvia. Embora a noiva esteja feliz, há sempre uma certa tristeza em deixar a casa dos pais, por isso, nunca poderia sair pelo seu pé. E achamo-nos nós, europeus, mais civilizados!...

Jardim Liu Lim Leoc - A Deusa Kum Yam

No dia seguinte, foi a vez de me deslocar para Norte e passear no Jardim de Liu Lim Leoc, considerado o mais chinês, de todos os jardins de Macau. Com o seu lago coberto de Flores de Lótus e a ponte com nove curvas - segundo uma lenda chinesa, os maus espíritos movimentam-se em linha recta, daí as pontes labirínticas. - o jardim é, simplesmente, uma maravilha! Tem ainda uma estátua lindíssima da Deusa Kum Yam, deusa da misericórdia, cujo templo visitei a seguir e antes das Portas do Cerco.

As Portas do Cerco

Levava daqui o contacto da Fátima, jornalista, conhecida como A Voz de Macau, que foi uma verdadeira simpatia, uma vez que, na altura não lhe faltava trabalho, e, mesmo assim, disponibilizou-se imediatamente para me levar a conhecer as ilhas de Taipa e Coloane, assim como Macau à noite. Involuntariamente, proporcionou-me a melhor recordação do território. Ao anoitecer, reparou numa loja de artigos de decoração de Taiwan, em Coloane, que tinha sido inaugurada nesse dia. Entrámos. Foi-nos servido chá numas tacinhas típicas e comida - fui imediatamente advertida que, se não aceitasse (o que no Ocidente pode ser uma forma de cortesia), tal gesto seria considerado uma ofensa, por parte dos Orientais. Dentro da loja, estava também um monge budista, com a cabeça rapada e vestido com uma túnica cor de laranja. Vim até à porta. Então, aí, senti estar na "China da minha infância", rodeada da paisagem, das pessoas, da comida e dos cheiros da Ásia. Um momento único, que não ficou fotografado. Mas, se os chineses dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras, eu contraponho que uma boa recordação vale mais do que mil imagens...

O dia foi terminado com um jantar no qual estavam alguns VIPs da cena nacional, que entretanto se tinham já deslocado a Macau, tudo numa atmosfera de quase "tu cá, tu lá". Divertido!

Depressa perdi o receio inicial de deambular pelas ruas (aliás, a criminalidade resume-se, praticamente, ao Casino e às "seitas mafiosas", que se prejudicam apenas entre si). A San Ma Lo transformou-se na Rua de Santa Catarina do Porto. Era divertido o caminho até lá, em que só se ouvia falar chinês, excepto quando passava pela Escola Portuguesa de Macau. Por uns segundos, ouvia-se a minha língua materna, para depois voltar a perder-me num labirinto de sensações novas.

Menos agradável foi a experiência de andar de autocarro e notar um certo "racismo" por parte dos transeuntes. O lugar vago ao meu lado era sempre o último a ser ocupado. Para não falar no susto que apanhei quando as máquinas do multibanco não aceitavam o meu cartão, inclusivé nas dependências dos bancos onde tenho conta bancária... Valeu-me, mais uma vez, a Fátima, que me informou que teria que me dirigir ao Banco de Hong Kong. Mais uma vez, o Oriente "triunfou" sobre o Ocidente...

A comida era pouco "comestível" - para mim, pelo menos - senti imensa falta do pãozinho com manteiga ao pequeno almoço. Outra desilusão foi constatar que a pizza vegetariana do Pizza Hut, nada tinha a ver com a que estava habituada a comer...

Contudo, tudo isso fez parte da "cor local" e foi compensado com o caminhar pelo parque Sun Yat Sen, fundador da República Popular da China o passeio no junco, onde quase ouvi a viola chinesa e a poesia de Camilo Pessanha - Ao longo da viola morosa vai adormecendo a parlenda - ; ou até quando fui às compras, em busca de sedas e chás... (Na loja dos tecidos falavam português!!! Escolhi os tecidos, disse o que pretendia fazer com eles. O senhor calculou a quantidade de tecido, mediu os tecidos com a jade e, no final fez as contas com o ábaco, instrumento sempre invulnerável a bugs. Outra aventura! ).

Regressei a Portugal com os pés numa autêntica lástima, mas gratificada. Já cá estava no dia 19, quando a bandeira portuguesa foi arriada. Senti pena. Não por uma questão imperialista ou colonialista, aliás, penso que Macau é quase completamente chinês e é mais que lógico que seja integrado na China. Acho que tive saudades. Do futuro, por não saber que caminhos Macau irá percorrer. Dos dias felizes que vivi e nunca mais voltam. Da alegria e paz de espírito que senti ao visitar jardins, templos e monumentos. Das crianças que olhavam para mim e sorriam. De mim. Divera Saiám.(2) E quero acreditar na letra da canção Adeus Macau:

Quando as memórias não conseguirem me aquecer

Quando as saudades forem difíceis de suster

Quando me faltar um lar para me amar

Eu sei que vou voltar.

 

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* Professora no Instituto Superior de Contabilidade e Administração do Porto.

(1) Era também obrigatório que todos os estabelecimentos tivessem a designação da sua actividade em português e em chinês (e assim vão permanecer por mais cinquenta anos). Como o conhecimento da língua portuguesa é reduzido, deparei com alguns casos engraçados, como uma alfaiataria, que exibia o letreiro "ALFAIATAIAR", ou a mensagem escrita atrás da porta do meu quarto: "Para sua segurança, ponha a cadeia atrás da porta". Queriam referir-se ao cadeado, claro. O mais engraçado foi que eu, com jet lag entendi, "ponha uma cadeira atrás da porta", o que provocou algumas gargalhadas na manhã seguinte.

(2) Título de um poema (em patuá) que significa Saudade de Verdade.

SUMÁRIO