Felix Hartlaub e Ernst Jünger

em Paris, Cidade Ocupada*

 

VASCO OLIVEIRA E CUNHA **

 

[Com o texto "Os Diários de Felix Hartlaub, como documentos do ambiente humano da situação histórica (política e mental) que reflectem", publicado nesta secção de Millenium no seu número 8 (Outubro de 1997), procurou dar-se uma visão de conjunto dos Diários escritos entre 1935 e 1945, a vida do autor repartida, antes e durante a guerra, por muitas regiões e países da Europa, por vezes vivendo no que Hartlaub viria a designar por "windstille tote Mitte des Taifuns", "centro inerte do furacão", isto é, o Quartel-General de Hitler.

Paris e a França constituíram referências significativas da vida do autor e da sua vivência interior do conflito, tanto mais penosa quanto é certo que Hartlaub, como se refere nesse texto, sempre se sentiu espiritualmente próximo da cultura francesa.

Para um outro autor alemão, Ernst Jünger, Paris ocupada foi igualmente campo de reflexão, de anotações e impressões da vida quotidiana de uma cidade símbolo, tendo-lhe dedicado dois dos seus seis Diários - "Das erste Pariser Tagebuch" e "Das zweite Pariser Tagebuch" -, um género literário que oferecia a possibilidade única de defesa da liberdade interior contra a corrente uniformizadora da massa; que constituía um escudo contra o crescente isolamento individual pela força da lei, do silêncio e da suspeita; e que era, igualmente, uma aventura espiritual da própria consciência. Como escreveu Jünger, "im totalen Staat das letzte mögliche Gespräch", "a última possibilidade de diálogo no estado totalitário".

O texto que agora se publica tem dois objectivos distintos: em 1., "Os Diários de Guerra de Felix Hartlaub - Paris, 1941," procura aprofundar-se a reflexão em torno dos quadros que o autor apresenta das pessoas e das coisas que se movimentam na cidade ocupada; em 2., "Hartlaub e Jünger, dois alemães em Paris - 1941", sublinham-se as perspectivas distintas de dois escritores no mesmo espaço, no mesmo tempo, e tendo ainda em comum a recusa da realidade da guerra].

1. OS DIÁRIOS DE GUERRA DE FELIX HARTLAUB - PARIS, 1941

Em Outubro de 1940 torna-se pela primeira vez visível a hipótese de uma eventual chamada de Hartlaub para a Comissão do Arquivo Histórico do Ministério dos Negócios Estrangeiros em Paris. A ironia da guerra vai levá-lo precisamente para o país a que sempre se sentira ligado espiritualmente, e na capital francesa vai sentir-se como um minúsculo membro da poderosa organização da injustiça; não um soldado entre soldados, como acontecera anteriormente na Alemanha, mas um civil, um modesto elemento entre os altos funcionários da Embaixada Alemã.

Já não se encontra entre camponeses seus compatriotas, como no norte da Alemanha, mas numa cidade onde a população civil se mostra constantemente adversa: "Die Franzmänner sehen einen so bitterböse an...", os franceses contemplam-nos tão furiosos..."1. A hostilidade dos franceses, juntamente com a natural tendência do autor para o isolamento, marcam todo o diário escrito em Paris a partir de Março de 1941. "Die Wüste wächst" "a solidão aumenta", escreve Hartlaub, citando Nietzsche, na rubrica "Tout seul oder le civil équivoque".2

Er, identificado com o autor, encontra-se no meio de uma população que lhe é hostil. O disfarce que sempre desejou torna-se aqui impossível: algumas palavras proferidas em francês são suficientes para o denunciar, o mesmo acontecendo com o seu cartão de identidade civil. Apesar de todas as suas precauções, sente que os franceses o identificam sempre como ocupante, envolvendo-o com olhares carregados de ódio, até porque, "à paisana", como diz numa carta, "corro o risco de muitas vezes ser olhado como espião", "... ln Zivil, laufe ich manchmal Gefahr, als "Spion" angesehen zu werden".3

Por outro lado, há sectores na população parisiense que o não reconhecem como soldado alemão - ele veste à paisana e fala bem o francês levando-o a sentir-se como verdadeiro proscrito e, o que é ainda mais grave, possibilitando-lhe a perda do sentimento da própria identidade uma vez que lhe é subtraído todo o terreno onde poderia alicerçar-se. Entre esses sectores figura o das "nicht professionellen", mulheres que, embora lançadas na prostituição "pour ne pas crever de faim"4, o repelem, apesar de abordadas numa zona da cidade onde a tropa alemã domina: "Place Pigalle... in diesem Stadtteil herrscht der deutsche Komiss en maître absolu".5

Um tal isolamento, o vazio que os naturais criam à sua volta, acaba por, naturalmente, ter efeitos contagiantes uma vez que os próprios franceses sentem a mesma solidão crescer dentro deles. E não é apenas nele próprio que nota este isolamento - a falta de correspondência entre os soldados opressores e o que de mais profundamente humano resiste no seio dos parisienses tornam-se sentimento de vazio para os alemães. Como refere Klaus Peuker - "... den Deutschen, deren Leere um so deutlicher wird, als ihnen die Korrespondenz zum Hintergrund dieser Landschaft, dieser Bauwerke fehlt oder doch nur krampfhaft angeeignet ist"6. As "Blitzmädchen", no combóio suburbano, encontram-se entre os franceses como numa pequena ilha, como numa "Vogelkäfig", como numa gaiola. Sentem-se inseguras e apavoradas nesse vazio ameaçador que os franceses criam à sua volta. Apesar da vida miserável que são obrigadas a levar, apesar do esgotamento físico, os parisienses parecem ter conseguido congregar nos seus olhares toda a sua força, não se mostrando desejosos de estabelecer contactos com o inimigo. A distância que separa o ocupante do ocupado é intransponível. Hartlaub desinteressa-se dos indivíduos isolados e passa a privilegiar os grupos humanos, acabando também por deixá-los, uma vez que neles também se fazem sentir os efeitos de um clima de guerra.

Resta-lhe apenas o mundo das coisas que o envolvem e o fazem participar da sua estabilidade. Refugia-se nesse mundo, e quando o elemento humano o invade é sempre de uma maneira imprecisa, impessoal. O que era das pessoas foi absorvido pela vida intensa das coisas e dos elementos.

Assim, encontram-se personificados os elementos constitutivos da natureza circundante. As descrições do céu, por exemplo, com todas as suas cores, as suas mudanças de luz, com os correspondentes efeitos sobre as ruas; o movimento e a forma das nuvens são, na sua mutação contínua, rostos variados da eternidade, oásis no deserto humano. Na rubrica "Die Parkmauer"7, nota com exactidão tudo o que com o muro se relaciona: como está construído e orientado, o que o envolve. Fala na "fronte das pedras", "Stirn der Steine", na argamassa que, "com braços vigorosos e nodosos", "mit dicken knotigen Armen", as abraça e segura.

As cores das casas velhas dos bairros calmos e antigos encantam os olhos, harmonizam-se nos seus tons desbotados: "Alle sind in demselben milchigen Weiss gestrichen, aber jede mit einer anderen zarten Beitönung: rosa, olivgrün, ockergelb", "todas estão pintadas com o mesmo branco de leite, mas cada uma com uma tonalidade levemente diferente: rosa, verde-azeitona, amarelo-ocre"8. E em pensamento fareja, através das janelas abertas, os seus quartos: "Man spürt die Kälte, die noch in den Wohhungen herrscht", "sente-se o frio que domina ainda nos aposentos"9. Sente-se elevado na calma e velha ilha de S. Luís, nos cais do Sena, onde tudo respira recolhimento, silêncio e dignidade. Muitas vezes, porém, tudo começa a viver ruidosa e selvaticamente: as casas executam movimentos, traçam os seus perfis, distendem-se, movem as sua linhas ou desenvolvem formas humanas, como ventres, ancas, etc. - "Die Häuser bewegen sich langsam: Bauch, Hüfte oder Hohlbrust"10.

Neste mundo das coisas as pessoas não têm quaisquer sentimentos reais, nenhuma forma verdadeira. As casas, pelo contrário, são "menschenförmig", têm sentimentos. Hartlaub atribui-lhes uma vida plena e original. A cidade tem pulmões: "Kastanien füllen die Höfe wie die Lunge den Brustkorb, wie ein voller Atemzug die Lunge", "as castanhas enchem os pátios como os pulmões o tórax, como uma inspiração enche os pulmões"11; a cidade respira pelas suas pedras porosas, delas por vezes também se elevando um calor sufocante.

Em lugares variados cresce a vida das coisas, antes de mais, das casas e das árvores de maneira inquietante. Os choupos, a cujo sussurrar, já na Alemanha, Felix Hartlaub era sensível, ganham em Paris uma vida obsidiante em todos os seus membros: "Das Rauschen scheint immer stärker zu werden. Es gibt die vielstimmige hastige Durcheinandersprechen der äusseren Blätter, eine endlose blinde Aufregung; aber auch das lnnere des Baumkörpers hat seine Stimme, ohne einzelne Zungen, ein unregelmässiges Atmen, Seufzen, an der Grenze des Gesanges. Und dann wird oft noch ein einzelnes Glied von einer besonderen Erregung ergriffen", "o sussurrar parece tornar-se cada vez mais forte. Há a conversa confusa, polifónica e apressada das folhas exteriores, numa excitação constante e cega; mas também o interior da árvore tem a sua voz, sem sons isolados, uma respiração irregular, suspiros, a aproximar-se do canto. Frequentemente, um membro isolado é atacado de uma excitação especial"12.

A alma do autor, que foi sacudida pela presença da indiferença ou da inimizade, procura agora uma saída nas coisas. Ele foi repelido pelas pessoas na Paris ocupada mas é absorvido pela vida dos elementos naturais e daqueles que o homem criou; neles encontra o humano, mas grandiosamente elevado, com formas e órgãos próprios. E o sinistro de muitos lugares reside presisamente no facto de a abundância e movimento das coisas terem a sua origem na profunda privação de Hartlaub.

Que as coisas que ele despertou para a vida excitante o façam andar perigosamente à volta é um outro traço angustiante.

A distância entre certas descrições e a narrativa posterior delas resultante - "Mond und Pferde", na qual o herói, um imbecil, é enfeitiçado pela lua e pelos choupos, não é muito grande13.

2. HARTLAUB E JÜNGER, DOIS ALEMÃES EM PARIS -1941.

A hostilidade, e até o ódio, que Felix Hartlaub sente à sua volta elevam-se até à loucura porque o fazem sentir-se usurpador e inimigo entre um povo que lhe é querido - o povo francês. Esse sentimento de inimizade é totalmente alheio a Ernst Jünger, que ao mesmo tempo se encontrava como oficial em Paris14.

Jünger move-se, devido à sua posição, nos melhores círculos, tanto alemães como franceses15, sendo bem recebido neles; a cidade é-lhe também mais familiar do que a Hartlaub; ela é, ainda e sempre, a capital, "símbolo e fortaleza", "Sinnbild und Festung", contrariamente ao que afirmava um propagandista nacional-socialista para quem Paris era "nichts weiter als eine europäische Provinzstadt", "nada mais do que uma cidade europeia de província"16. Ainda que a cidade não lhe fosse familiar, ele teria podido igualmente orientar-se pelo seu sentido de aventura, do desconhecido e do perigoso. Típicas da fascinação que a proximidade do perigo desperta nele são as linhas seguintes: "lch sah mich dort, und zwar am Tage der Jungfrau von Orléans, unter einer Masse von Tausenden allein in Uniform. Trotzdem bereitete es mir ein gewisses Vergnügen, mich dort zu ergehen und zu meditieren ...", "via-me ali, e precisamente no tempo da donzela de Orleães, sozinho em uniforme, no meio de uma multidão de muitos milhares. Apesar disso, dava-me um certo prazer passear ali e meditar"17.

Por outro lado, não se pode pensar, com Jünger, em sentimento de culpa, se bem que ele admita que a complexidade da situação possa estar dentro dele próprio, como, aliás, dentro de qualquer outro ser humano:"... das Labyrintische der Lage (liegt) nur in uns selber..."18. Ele não se identifica com os compatriotas, afasta-se mesmo deles, vivendo à margem dos acontecimentos numa esfera livre e espiritual não se sentindo, por conseguinte, atingido. A sua censura e os ataques contra os alemães deixam adivinhar bem um sentimento de ódio, mas quase nunca o ódio para consigo próprio. Na verdade, ele pode sofrer como homem nestas circunstâncias, mas não como alemão. Por este motivo, toma parte, com naturalidade, na vida de ocupação.

Além disso, Jünger não se sente ameaçado, porque se não sente culpado, como Hartlaub. Enquanto este, pela sua hipersensibilidade, passa por experiências comoventes, Jünger permanece fechado. É, afinal, a diferença entre o jovem indeciso a quem todas as emoções expõem e o homem mais amadurecido, seguro e fleumático19. Este facto não significa, porém, da parte de Jünger, uma aceitação do regime de força e da utilização da violência como caminho que conduza à liberdade: "... die Gewaltanwendung ... das ist der Weg zur Freiheit nicht"20. Ele condena-a implicitamente quando afirma, depois de tomar conhecimento de alguns pormenores da guerra no leste, através de Kossmann, o chefe do Estado Maior: "Wir sind nun inmitten der Bestialität, die Grillparzer voraussagte", "estamos agora no meio da bestialidade que Grillparzer predizia"21.

Para o autor de "Strahlungen"22 a libertação não está na fuga, não está mesmo no suicídio. Há, isso sim, que aceitar a elevação através da dor, pois "só então o mundo se tornará mais compreensível": "... dann wird die Welt fassbarer"23. Simplesmente, Jünger não sente a dor e o horror dos parisienses porque os não vive directamente. Tudo é simplesmente anotado. Um dia torna-se-lhe evidente que uma vendedora ambulante o contempla com ódio, mas não se sente pessoalmente atingido. Felix Hartlaub, pelo contrário, atrai toda a dor para si, até mesmo o ódio que lhe não é dirigido.

Jünger permanece impenetrável, o olhar inimigo não o fere. No entanto, apesar de adoptar uma atitude que poderíamos classificar de menos humanamente vivida que a de Hartlaub, ele recebe por vezes manifestações de amizade e de solidariedade dos franceses, goza o agradável da vida do quartel, mergulha na paisagem, delicia-se com o que a cozinha e a despensa lhe oferecem, deixa até que no jardim de uma casa francesa lhe expliquem a diferença entre pêcher e pécher. Como que simbolicamente, refere o encontro, no dia da Tomada da Bastilha, com "um homem que trazia um violino debaixo do braço esquerdo", "ein Mann der eine Geige unter dem linken Arm trug", e que ao passar lhe apertara a mão ao mesmo tempo que o olhava amistosamente. Felix Hartlaub não poderia referir tal acontecimento muito embora o tivesse desejado, talvez mais insistentemente do que Jünger. Para ele, os parisienses e a sua cidade eram hostis; para Jünger a cidade era amiga - "Die Stadt als Freundin", como escreve a 14 de Julho de 194124.

Felix Hartlaub não pode adaptar-se, sem esforço, à situação de ocupante, uma vez que se não sente inimigo; não pode dominar os seus escrúpulos e sente-se culpado. O pensamento de que é seguido por toda a parte torna-se obsessão.

Na Alemanha fora admitido em sociedade pelos "einfachen Jungen", com quem mantinha relações, interessando-lhe as suas vidas. Aqui, contudo, Felix Hartlaub não é admitido por qualquer círculo, vive como civil num mundo alheio ao dos soldados, como simples ajudante de funcionários de patente superior.

O autor esboçou muito pouco sobre as pessoas com quem trabalhava. Os alemães que surgem nas suas notas são oficiais rotineiros, gente da imprensa, que se movem em Paris com independência e se interessavam vivamente pela vida de ocupação. Apresenta-os sem qualquer comentário; deixa que os factos narrados falem por si e que os quadros se comentem por si próprios. Hartlaub não pertence a este meio porque nele se não sente à vontade, porque nele o egoismo e a barbárie do vencedor o repelem. Contudo, está a ele ligado apesar da sua incapacidade de fusão. E aqui dá-se conta dos comportamentos diferentes de Hartlaub e de Jünger.

Ambos se encontram numa situação que lhes não é adequada, mas enquanto que Jünger se recolhe em si próprio com todo o seu ser, enquanto exteriormente executa o que se lhe ordena; enquanto deixa apenas uma sombra sua, um uniforme, e se sente livre para censurar, sentenciar e condenar os alemães, pois se eleva entre eles pela sua virtude, a sua bondade e a sua humanidade, Felix Hartlaub encontra-se totalmente ligado à situação criada pela ocupação: conversa com os burocratas da imprensa, frequenta lupanares, movimenta-se, como os camaradas, no ministério conquistado. Contudo, o que aflora desta situação, que considera repugnante, é o aspecto indefinido e vago do seu eu que tudo distingue de uma maneira fria, insensível, quase abstracta. Só através da distância interior, da sua clarividência e da sua sagacidade intelectual se eleva na colectividade onde está integrado. No ministério conquistado comporta-se como os outros, mas, simultâneamente, parece errar através dos aposentos, dos móveis e dos objectos agarrados por mãos brutais. K. A. Horst define o comportamento de Hartlaub com as palavras seguintes: "Hartlaub schreibt die Chronik der anderen, denen er sich selber beizählt", "Hartlaub escreve a crónica dos outros, entre os quais ele próprio se conta"25.

Numa carta de Paris26, Hartlaub escreve: "Die Franzmänner sehen einen so bitterböse an, und von den Landsleuten (wir essen jetzt mit der ganzen Ambassade zusammen) ernte ich nicht minder atomzertrümmernde Blicke", "os franceses olham-nos tão furiosos, e dos compatriotas (comemos agora com toda a embaixada) não colho os mais simples olhares".

Pela situação em que se encontra sente-se como que separado dos seus compatriotas, e não apenas dos franceses. Em nenhum lugar encontra um apoio realmente humano, não se aproxima das pessoas. Umas, subtraem-se-lhe, fechando-se no seu ódio e na sua indiferença; outros, excitam a sua antipatia através da grosseria e do comportamento irracional numa cidade ocupada. Muitos não exteriorizam os seus sentimentos, e a sua superfície dura, tal como uma couraça protectora, nada deixa aflorar. Só no olhar ou em palavras fugazes brilha muitas vezes um indizível ódio colectivo.

As pessoas são, na sua maior parte, restos humanos impelidos passivamente. Diante das lojas, massas de gente esperam. Mostram-se cansadas, os seus sentimentos estão como que ressequidos, os seus corpos formam uma informe "serpente multicéfala", "vielköpfige Schlange". A própria forma individual se encontra suprimida e nenhum movimento espontâneo revela a presença humana. Só a multidão se move ainda. Ao ódio colectivo junta-se agora também a forma colectiva.

Jünger, pelo contrário, pode apresentar quadros que o enchem de alegria, como, por exemplo, o dos pares de namorados que caminham estreitamente abraçados e que, por vezes, se vêem inclinar-se para se beijarem: "Besonders erfreut mich der Anblick von Liebespaaren, die eng umschlungen gehen und die man zuweilen sich gegeneinander neigen und küssen sieht"27.

Há ainda para Hartlaub um outro tipo - o dos autómatos, ou cópias de um mesmo padrão, como que mortos ou amortecidos. Numa reunião de alemães não se evidencia o indivíduo, mas o tipo, que é sempre igual: "Immer dasselbe Gesicht: musikalische Stirn, nach hinten gestrichenes langes Haar, manchmal leicht ergraut", " sempre o mesmo rosto: testa musical, cabelo liso e comprido penteado para trás, muitas vezes levemente encanecido"28. Os únicos que se distinguem da massa anónima permanecem, contudo, impessoais, e neles não nasce qualquer relação humana.

As poucas pessoas pelas quais Felix Hartlaub é realmente atraído, que ele descreve com simpatia e alegria evidentes, são seres simples. Gosta dessas pessoas porque sabem conservar o seu encanto, porque continuam a viver tranquilamente, permanecendo fiéis a si próprias fora do remoinho do tempo e da vida não sendo abrangidas pela confusão colectiva.

São elas, por exemplo, os criados do hotel - Felix Hartlaub nota a origem camponesa de um deles: "er ist Bauernsohn aus der Picardie"; o empregado do elevador; a Klofräulein, a mulher da limpeza. Com um humor suave, fala do seu império, "ihren Reich", e louva-a em superlativos exaltados e em palavras poéticas: "sie trägt immer einen vergissmeinnichtblauen Kittel und hat die mildeste, tiefste Stimme", "ela veste sempre uma blusa de um azul de miosótis e tem a voz mais doce e profunda"29. Igualmente o atraem os soldados comuns, pela sua ingenuidade. Tudo isto, porém, não basta para tornar habitável o deserto em que vive.

Segundo Holthusen, Felix Hartlaub "vê tudo segundo a perspectiva de um criado de quarto" - "Er sieht alIes sozusagen aus der Kammerdiener-Perspektive30". Isto é, o autor, através de figuras que, por vezes, com ele se identificam, vê tudo aquilo que se esconde na fraqueza, no desespero, no medo, na mediocridade humana, sem contudo apresentar qualquer espécie de ideologia, qualquer solução. Mas enquanto se identifica, se bem que ironicamente, com a realidade e a mentalidade de que está cercado, condu-las até ao absurdo. Serve-se mesmo com perfidia irónica da versão oficial -"Sprachregelung", implantada pelos alemães do Nacional-Socialismo; deixa que a língua testemunhe por si própria e pelas coisas que representa o declinio da realidade em que está envolvido. E, sem nada dizer directamente, coloca-nos diante dos olhos a incerteza das estruturas, o medo, o desespero árido e mesquinho. É o que poderemos classificar de representação indirecta de uma observação imediata.

Jünger, pelo contrário, não é um simples observador. Tal como acontece com Hartlaub, ele permanece, no seu primeiro diário de guerra, "Gärten und Strassen"31, longe do conflito, o que lamenta como soldado. Simplesmente, ele admite, preconiza até, a possibilidade que cada indivíduo tem de actuar num mundo que não está sujeito ao acaso. Vai mesmo mais longe: cada um de nós pode modificar o mundo, sendo esse o grande significado da vida humana.

É ainda a mesma vontade de participação activa, e não de passividade, como em Hartlaub, que está patenteada em "Strahlungen" 32. Esta obra está repassada de tristeza. Só esporadicamente surgem luzes de um prazer despreocupado, sendo as mais simples aventuras motivo para uma análise profunda das coisas, atingindo-se nessa análise a dor e o sofrimento humanos. Da mesma maneira, não é a guerra perdida, ou prestes a perder-se, com os seus acontecimentos mecânicos exteriores que impressiona Jünger. Por um lado, o soldado verifica a serenidade com que os chefes militares parecem vencer a situação decadente em que se encontram; pelo outro, o horror e a aversão que a maldade humana patenteia a leste e a oeste são testemunho da existência de um exército numeroso de enfermos. Para Jünger, eles são, porém, curáveis e, uma vez mais, o autor preconiza a participação activa - ele próprio precisa de vencer a náusea da fraqueza.

O autor de "Strahlungen" sente-se frequentemente um ser solitário e estranho. Busca mesmo a solidão: "Ich suche die Einsamkeit wie eine Hõhle auf", "procuro a solidão como uma caverna"33, sentindo-se bem dentro dela, contrariamente ao que acontece com as personagens de Hartlaub, com excepção do redactor do Diário de Guerra. É que a sociedade lhe comunica, por vezes, um sentimento de náusea. Isola-se então na natureza, vai para onde as estrelas brilham e pergunta: "Was sind wir Menschen und unsere Erdenjahre vor diesem Glanz?", "que somos nós, homens, e o que são os nossos anos de vida diante deste brilho?34

O homem, porém, não deve deixar-se dominar pelo poder sedutor da solidão que também o atacou: "Unter den Klippen im Fortschritt meines Denkens wurde in diesen Jahren die des Solipsismus besonders stark", "entre os escolhos na evolução do meu pensamento foi particularmente forte nestes anos o do egoísmo"35. Não se deve mergulhar numa vida de sonho, mas elevar-se do abismo como germe.

BIBIOGRAFIA

HARTLAUB, F. Mond und Pferde ln: Das Gesamtwerk. Frankfurt am Main: Fischer Verlag, 1945, pp. 353 - 360.

HARTLAUB, F. Das Gesamtwerk. Frankfurt am Main: Fischer Verlag, 1945.

HOLTHUSEN, H.E. Der Unbehauste Mensch. Motive und Probleme der Modernen Literatur. München: R. Piper Verlag, 1951, pp. 157-160.

HORST, K. A. Handbuch der Deutschen Gegenwartsliteratur. München: Nymphenburger Verlagshandlung, 1957.

JÜNGER, E. Gärten und Strassen. Stuttgart: Ernst Klett Verlag (s/data).

JÜNGER, E. Strahlungen I - Das Erste Pariser Tagebuch - Kaukasische Aufzeichnungen. Stuttgart: Deutscher Taschenbuch Verlag, 1964.

JÜNGER. E. Strahlungen II - Das Zweíte Pariser Tagebuch. Stuttgart: Deutscher Taschenbuch Verlag, 1965.

KRAUSS, R. und G. HARTLAUB (Herausg.) Felix Hartlaub in Seinen Briefen. Tübingen: Rainier Wunderlich Verlag, 1958.

PEUKER, K. Das Werk E. G. Winklers und Felix Hartlaubs. In Päd. Prov. 11 ('57), 354 - 372.

WHEELER-BENNET, J. W. The Nemesis of Power - The German Army in Politics, 1918 - 1945. London: Macmillan and Co., 1954.

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* Uma perspectiva de 1965.

** Vice-Presidente do ISPV.

1 Carta ao pai, Paris, 1.6.1941. In R. Krauss und G. Hartlaub, "Felix Hartlaub in seinen Briefen", p. 201. São frequentes nas suas cartas as alusões à impossibilidade de uma vida pacífica, à indecisão, à deteriorização da sensibilidade humana, à solidão que constantemente experimenta em Paris.

2 Felix Hartlaub, "Das Gesamtwerk", p. 74.

3 Carta de 9.12.1940, op. cit., p. 192.

4 "Das Gesamtwerk, p. 76. Em francês no texto.

5 Ib., p. 76.

6 Klaus Peuker, 1957, p. 371.

7 "Das Gesantwerk", p. 93 e 94.

8 Ib., p. 80.

9 Ib., p. 70.

10 Ib., p. 69.

11 Ib., p. 87.

12 I.b., p. 100.

13 "Mond und Pferde" é um fragmento escrito provavelmente em 1944 no Quartel-General, na Prússia Oriental, e incluído inicialmente nos Diários de Guerra... ("Im Sperrkreis", pp. 161 a 168).

Segundo Geno Hartlaub, há já indicações para os verdadeiros modelos das figuras nas notas de 1940 resultantes da sua estadia no Canal do Imperador Guilherme. O motivo da vigia (Das Nachtwachenmotiv) está igualmente presente nas folhas que escreveu na Roménia em 1941.

14 O Primeiro Diário de Paris, "Das Erste Pariser Tagebuch", surgiu da primeira estadia de Ernst Jünger na capital francesa, como oficial, entre 18 de Fevereiro de 1941 e 24 de Outubro de 1942. Em 14 de Junho de 1941 é-lhe comunicado, particularmente, que irá pertencer ao Estado Maior: "Während der Schlussbesprechung auf einen heissen Hügel nahm mich General Schebe beiseite und eröffnete mir, dass ich für den Stab des Oberfehlshabers angefordert worden sei" ("Strahlungen I", p. 52).

O Segundo Diário de Paris, - "Das Zweite Pariser Tagebuch", abrange os anos de 1943 (desde 19 de Fevereiro) e de 1944 (até 13 de Agosto). Durante este período de tempo Hartlaub encontrava-se na Prússia Oriental e em Berchtesgaden.

15 "Während des zweiten Weltkriegs findet man ihn als Hauptmann in Frankreich und vorübergehend auch in Russland wieder, nun freilich nicht mehr als Frontsoldaten, sondern als Gast und Freund hoher Offiziere...", "durante a Segunda Guerra Mundial encontra-se como capitão em França, e, interinamente, também na Rússia, agora, evidentemente já não como soldado da frente, mas como hóspede e amigo de oficiais superiores". Hans E. Holthusen, "Der unbehauste Mensch", pp. 146 a 147. Conta muitos amigos em França, entre eles Jean Cocteau e Sacha Guitry.

16 "Das Gesamtwerk", p. 59.

17 "Strahlungen I", p. 39.

18 Ib. p. 37.

19 Hartlaub contava apenas 28 anos; Jünger, 46.

20 "Strahlungen I", p. 37.

21 Ib., p. 125.

22 "Struhlungen", "Irradiações". Jünger considera-se um alvo de irradiações múltiplas, passadas e presentes. Considera, igualmente, que cada indivíduo é também um centro de irradiação. O poeta, sobretudo, como centro de irradiações, deverá utilizar a palavra com toda a veneração.

23 Strahlungen I, p. 37.

24 Strahlungen I, p. 59.

25 In "Die deutsche Literatur der Gegenwart", p. 129.

26 Carta de 1.6.1941, op. c., p. 201.

27 "Strahlungen I", p. 60.

28 "Das Gesamtwerk", p. 112.

29 Ib., p. 63.

30 In "Der unbehauste Mensch", p. 159.

31 Abrange o tempo decorrido entre 3 de Abril de 1939 e 24 de Julho de 1940.

32 Três volumes: o primeiro, de 18 de Fevereiro de 1941 a 17 de Fevereiro de 1943, e abrangendo "Das Erste Pariser Tagebuch" e "Kaukasische Aufzeichnungen"; o segundo, de 19 de Fevereiro de 1943 a 13 de Agosto de 1944, contendo "Das Zweite Pariser Tagebuch; e o terceiro, de 14 de Agosto de 1944 a 2 de Dezembro de 1948, reunindo as "Kirchhoster Bläter" e "Die Hütte im Weinberg (Jahre der Okkupation)."

33 Strahlungen I", pp. 38 e 39 (3.5.1941).

34 Kutais, 21.12.1942, "Strahlungen I", p. 274).

35 Paris, 10.9.1942, Ib., p. 176.

SUMÁRIO