Finlândia:

um exemplo de um sistema de ensino nórdico

 

RITA LOPES *

Factos e Números

Àrea Total: o sétimo maior país da Europa, 3338,145 Km2

Fronteiras: Suécia, Noruega, Russia, Estónia

População: 5.1 milhões

Densidade Populacional: aprox. 17hab/Km2

População Urbana: 62%

Cidades: Helsinquia ( capital, pop. 539000), Tampere (pop. 189000), Turku (pop. 169000)

Moeda: markka/mark (FIM)

Se todos os países, bem como a sua população, cultura e modo de vida não podem deixar de ser moldados pela sua localização geográfica, a Finlândia não é , de modo algum, excepção. A sua condição de país nórdico e a sua localização entre o Ocidente e o Leste marcaram desde sempre a mentalidade e história finlandesas . Ainda que os finlandeses não hesitem em identificar-se com a cultura Ocidental, o estilo de vida deste povo foi, sem dúvida nenhuma, enriquecido pela sua proximidade com a Rússia. Hoje a Finlândia é um país, aliás como sempre foi, com grandes ligações com S. Petersburgo e Estocolmo.

Desde o séc. XIII que a Finlândia começou a fazer parte da esfera de influência Sueca, chegando mesmo, no séc. XIV, a ser anexada ao Reino. Em 1809, quando a Suécia perdeu a guerra com a Rússia, a Finlândia foi cedida ao império e tornou-se um Grão-Ducado autónomo no seio da Rússia Czarista, sendo o seu Grão Duque o próprio Czar. Durante o século XIX, o sentimento nacional finlandês foi-se tornando cada vez mais forte : a cultura e a língua finlandesas começaram a desabrochar, e a aspiração de independência crescia no seio da população. A reacção severa do Czar, que procurou desde cedo abafar estas pretensões, serviu apenas para intensificar o movimento nacionalista finlandês.

Ainda como Grão Ducado autónomo, em 1906, a Finlândia aprova uma nova Constituição baseada no sufrágio universal: as finlandesas foram as primeiras a verem reconhecido o seu direito ao voto.

Após a Revolução Russa de 1917, em Dezembro desse mesmo ano, a Finlândia declarou unilateralmente a independência. Após esta declaração, a Finlândia mergulhou numa guerra civil de consequências marcantes para o país que tornaram os primeiros anos da independência manifestamente conturbados. As primeiras décadas de independência foram um período de rápidas transformações sociais, culturais e políticas.

Desde então, a Finlândia prosseguiu a sua política de neutralidade e de não participação em alianças militares, tendo criado as bases do actual Estado de Providência. Hoje a Finlândia é uma república parlamentar baseada num sistema político multipartidário. O poder legislativo pertence ao Parlamento, que integra 200 membros eleitos por voto directo e proporcional por um período de quatro anos. O poder executivo supremo é exercido pelo Presidente, que é eleito por um período de seis anos e pode desempenhar apenas dois mandatos consecutivos, juntamente com o Governo, que deve gozar da confiança do Parlamento. O país está divido em Províncias (administradas pelo Estado) e Municípios (com poderes de governação local). Os Municípios cobram os seus impostos, gerem os assuntos económicos e mantêm a ordem pública. Uma das províncias, as ilhas Aland (na fronteira entre a Finlândia e a Suécia), goza de um estatuto especial de autonomia.

A Finlândia tem duas línguas oficiais: o finlandês e o sueco, sendo a ultima a língua mãe de cerca de 6% da população.

Antes da II Guerra Mundial, a Finlândia era predominantemente um país agrícola, com um tecido industrial pouco desenvolvido; as exportações provinham fundamentalmente da indústria de processamento da madeira.

O desenvolvimento de uma economia de mercado, aliás bastante complexa, surgiu com o final da II Guerra Mundial de um modo particularmente rápido. Além da indústria da madeira, áreas como a indústria do metal, a indústria química e a indústria de construção tornaram-se os principais motores de desenvolvimento do país. A restruturação profunda ocorrida na economia teve ainda como consequência o facto de cerca 2/3 da riqueza total do país passassem a ser gerados pelo sector dos serviços. Algumas áreas da economia conheceram também um desenvolvimento espectacular nos últimos anos, principalmente no que diz respeito às novas tecnologias – a Finlândia é hoje um líder mundial no que toca ao desenvolvimento dos telefones móveis e redes de comunicação.

Hoje em dia, a exemplo do que se passa um pouco por toda a Europa, o mais sério problema a afectar a economia finlandesa é o desemprego. Em 1990, a taxa de desemprego era apenas de 3,4% mas com o avanço da recessão esta subiu em flecha para atingir os 10% em finais de 1999.

Sendo um país escandinavo e membro da União Europeia, a Finlândia respeita, acima de tudo, os valores da liberdade, da democracia e dos direitos humanos. Este país não integra qualquer aliança militar e mantém uma capacidade independente de defesa nacional. No entanto, é signatária do Acordo Parceria para a Paz com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) e goza de um estatuto de observador na União da Europa Ocidental (UEO) e no Conselho de Cooperação do Atlântico Norte.

A cooperação no âmbito do Conselho dos países nórdicos cobre uma larga área de assuntos sociais, culturais e técnicos com interesse para os seus cinco países membros: Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia. Após um longo período de envolvimento no processo de integração europeia, a Finlândia entregou, em 1992, o seu pedido de adesão , tornando-se, em 1995, membro de pleno direito da União Europeia. Após a sua adesão à Organização das Nações Unidas, em 1955, a Finlândia tem participado em muitas operações de manutenção de paz no âmbito daquela organização.

Devido aos cortes orçamentais nas despesas públicas do país a partir de 1990, o Governo viu-se obrigado a reduzir a sua contribuição para a cooperação para o desenvolvimento, de 0,7% do PNB para 0,3%. Contudo, o Governo assumiu, política e publicamente, o compromisso de atingir o nível anterior de contribuições na primeira década do próximo século. Não podemos deixar de nos lembrar que, em matéria de ajuda pública ao desenvolvimento, a Finlândia sempre foi um exemplo a seguir.

O Sistema de Ensino

É impossível não tomar como referência o sistema de ensino de um país cujas tradições democráticas devem ser um exemplo para todos os países europeus, e não só, e cujo o nível de literacia da população ascende, virtualmente, aos 100%.

Ainda que a sua organização formal se apresente muito similar à portuguesa, o grau de eficácia do sistema de ensino finlandês é bastante elevado, sendo que 56% da população acima dos 15 anos completa o ensino secundário.

Assim sendo, não é o aspecto formal do sistema de ensino finlandês que o torna um exemplo a este nível e que justifica o crescente número de estudantes estrangeiros que procuram as suas instituições. Que outras hipóteses então, senão as políticas educativas e o grau de comprometimento estatal para com a educação da população? O grau de eficácia do sistema educativo finlandês não pode ter senão a ver com o facto de estarmos a falar de um dos países com a taxa mais alta de dinheiros públicos investidos na educação (entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento na Europa), com um grau de comprometimento relativamente à educação de adultos absolutamente notável, e com um investimento na internacionalização que em muito ultrapassa o português (os finlandeses têm neste momento cerca de 300 cursos leccionados em inglês).

Em traços gerais, o sistema educativo finlandês agrupa a escolaridade obrigatória, o ensino secundário geral e profissional, o ensino superior e a educação de adultos. A escolaridade obrigatória consiste num programa educacional de 9 anos para todas as crianças em idade escolar que tem o seu início aos sete anos. O ensino secundário está dividido entre as escolas secundárias gerais (três anos , que terminam com a realização de um exame) e as escolas profissionais (três anos, que conferem qualificações profissionais básicas).

Relativamente ao Ensino Superior, ele é neste momento, assegurado por 20 universidades e 33 institutos politécnicos. Actualmente, as escolas profissionais têm ainda programas de estudo que conferem aos estudantes uma qualificação profissional superior, no entanto, a tendência é para que este sistema seja progressivamente desmantelado, passando estes cursos a ser, única e exclusivamente, da competência dos Institutos Politécnicos.

Uma das características do sistema educativo finlandês é a aposta cada vez maior na educação ao longo da vida. Todas as universidades finlandesas têm neste momento um centro de formação contínua, que gere cursos de formação profissional, e universidades abertas. Este tipo de formação profissional não confere nenhum grau específico, no entanto, a actualização de conhecimentos que este tipo de curso permite, bem como os diplomas que são entregues aos estudantes, são amplamente valorizados pelos empregadores.

Ao nível do ensino superior, assiste-se a um crescente empenho no fortalecimento das relações com o exterior, nomeadamente com os países da União Europeia, da qual a Finlândia faz parte desde 1995. Aliás, já antes de serem membros de pleno direito da U.E, os finlandeses participavam (desde 1990) em Programas Comunitários para a Educação e Formação Profissional, sendo a sua participação em Sócrates e Leonardo da Vinci as manifestações mais claras deste envolvimento.

No entanto, não podemos deixar de salientar que os laços mais fortes de cooperação a este nível (e outros) se verificam com os países nórdicos, através do Programa Nordplus.

Há ainda outro aspecto que convém salientar relativamente à aposta da Finlândia na internacionalização da educação e que diz respeito ao número crescente de programas de estudo totalmente leccionados em Inglês. De facto, isto não pode deixar de acontecer quando um país com uma das línguas menos faladas da Europa pensa em apostar seriamente na internacionalização da sua educação.

É o Parlamento finlandês que aprova as leis relativas ao sistema de ensino e decide sobre os princípios gerais da política de educação. O Governo e o Ministério da Educação estão encarregados de implementar estes princípios ao nível central. Em todas as questões que digam respeito à escolaridade obrigatória, ao ensino secundário, às instituições de formação profissional e à educação de adultos, o Ministério é aconselhado pelo Conselho Nacional de Educação.

Quase todas as instituições públicas (financiadas pelo Governo), desde o ensino primário ao ensino superior, são controladas pelo Ministério da Educação, no entanto, convém salientar que em algumas áreas específicas, como sejam as relacionadas com a defesa nacional e o direito, as instituições são administradas pelos ministérios relevantes. A maior parte das instituições de ensino privadas são de formação profissional, no entanto, elas têm também uma parte considerável de financiamento público e estão, igualmente, sujeitas a controlo por parte do Governo.

As universidades são financiadas directamente através do Orçamento de Estado, enquanto que o financiamento das outras instituições provém essencialmente das autoridades locais.

Sendo um pais bilingue, existe formação em finlandês e em sueco em todos os níveis de ensino. Para além disso, existem ainda, escolas suecas ao nível do ensino básico, secundário e profissionais suecas.

Ainda que a língua de ensino na maior parte das universidades seja o finlandês, os cidadãos cuja língua mãe é o sueco têm o direito de a utilizar nos exames, trabalhos e teses. Existem ainda duas universidades e quatro politécnicos cujos planos de estudo são totalmente leccionados em sueco.

O fenómeno da internacionalização reforçou a necessidade de se apostar no desenvolvimento do ensino do inglês em todos os níveis de ensino. Existe a possibilidade de, ao nível do ensino superior, se frequentarem cursos totalmente leccionados em Inglês, ainda que estes requeiram um bom conhecimento de finlandês e sueco. Em muitos cursos o conhecimento destas línguas é mesmo uma condição de ingresso para todos os candidatos. Mesmo os estudantes estrangeiros são obrigados a frequentar cursos de finlandês (ou sueco) para apoiar os seus estudos. No que diz respeito aos doutoramentos, eles podem na maior parte dos casos ser realizados com sucesso em inglês.

Os objectivos gerais definidos já há muito pelo Governo relativamente ao sistema de ensino passam por elevar o nível e o padrão de educação, bem como por promover a igualdade no seio do sistema de ensino. Aliás, ao longo dos últimos anos, têm vindo a ser feitos esforços crescentes tendo em vista proporcionar igualdade de oportunidades a toda a população em idade escolar e de todas as regiões do país.

Estas são, aliás, as motivações básicas que levaram às reformas educacionais implementadas nos últimos anos (a reforma do ensino básico e da educação profissional, a regionalização/expansão da rede universitária e a criação dos institutos politécnicos).

Além destas prioridades, tem também sido prestada especial atenção aos curricula e aos métodos de ensino num esforço de aumentar a flexibilidade e reforçar as oportunidades de escolha individual. Tem sido evidente que todas as reformas propostas pelo Governo vão no sentido de reforçar o sistema de ensino de acordo com o princípio da educação ao longo da vida, tornando-o internacionalmente competitivo.

O Ensino Superior

Todas as reformas propostas pelo Governo relativamente ao ensino superior têm sido determinadas por questões que não afectam apenas a Finlândia, mas que se fazem sentir um pouco por toda a Europa, e entre as quais se destacam a necessidade de investir na investigação em determinados sectores chave, de adaptação das instituições às constantes mudanças no mercado de trabalho e de tornar o financiamento das instituições cada vez mais racional.

Nos finais de 1995, o Governo, ao definir as linhas gerais de acção para o sistema educativo até ao ano 2000, manifestou a intenção de apostar na Educação e na Investigação, considerando-as como cruciais para a estratégia global do país, cujos objectivos máximos são o bem-estar dos cidadãos, a promoção da diversidade cultural, o desenvolvimento sustentável e a prosperidade.

Os grandes objectivos para os próximos anos, tal como foram definidos pelo Governo para este nível de ensino, são a promoção da qualidade, a igualdade de oportunidades e a educação ao longo da vida. No campo da investigação a grande aposta será também a qualidade, a ética, a liberdade de investigação e o equilíbrio entre a investigação pura e a investigação aplicada. Salvaguardar o desenvolvimento harmonioso dos mecanismos de inovação é também fundamental para se conseguir melhorias na economia e na situação de desemprego que afecta actualmente o país.

Definiram-se, assim, o princípio da educação ao longo da vida, a resposta às mudanças no mercado de trabalho, a internacionalização e o ensino de línguas estrangeiras como as grandes traves mestras da política educativa para o ensino superior nos próximos anos.

Todos os esforços têm vindo a ser feitos no sentido de disponibilizar as condições necessárias para uma investigação de qualidade e para a formação dos investigadores e cientistas do futuro. Condições de adaptabilidade e flexibilidade na investigação e na educação, bem como o apoio a instituições de ensino nas áreas em que elas se destacam, vão assim preparar o terreno para que a educação e investigação possam atingir padrões máximos de qualidade. Será então reforçado o financiamento de novas unidades e actividades de investigação nas áreas mais relevantes. O apoio será também maior para todos os jovens investigadores que queiram prosseguir doutoramentos e serão igualmente promovidos projectos de investigação conjuntos entre as instituições de ensino e o mundo empresarial.

As rápidas transformações ocorridas no mercado de trabalho têm exigido uma constante adaptação das universidades e dos politécnicos, que têm, ao longo dos últimos anos, aumentado os planos de estudo multidisciplinares e cursos para a educação de adultos, permitindo a adaptação ao mercado de trabalho.

Entre 1994 e 1996, foi adoptada em grande parte das universidades uma estrutura bietápica para a quase totalidade dos cursos, tendo como objectivo estabelecer uma estrutura de formação internacionalmente compatível, dando aos alunos a possibilidade de desenvolver os seus estudos, não só de um modo multidisciplinar como também em diferentes instituições.

Relativamente à distribuição do financiamento, o Governo determinou que esta será efectuada tendo sempre em conta a relação entre a qualidade do projecto e o financiamento exigido. Relativamente a novos projectos, as instituições deverão procurar apoio financeiro, assegurando uma correcta distribuição interna dos fundos e a racionalização dos gastos. No entanto, procura-se sempre atribuir à instituições um financiamento estável, de modo a que estas possam produzir resultados satisfatórios e envolver-se em projectos a longo prazo. O financiamento das instituições baseia-se em critérios de qualidade, como o potencial da instituição, a capacidade de colocar os seus formados no mercado de trabalho e o grau de concretização dos projectos propostos. O volume de financiamento proveniente de fontes externas, nomeadamente internacionais, irá aumentar consideravelmente.

Ao longo dos últimos anos, o ensino superior na Finlândia tem vindo a desenvolver-se com base em dois sectores paralelos: o sector universitário e o sector politécnico.

O Sector Universitário

Investigação e autonomia parecem ser as palavras-chave quando se pretende falar do ensino universitário finlandês

O sector universitário é, na Finlândia, como em todo o mundo, a mais tradicional e antiga forma de ensino superior. A primeira instituição deste nível, a Real Academia de Turku, foi criada em 1640, altura em que a Finlândia fazia ainda parte do Reino Sueco.

Até 1900 esta era a única instituição de ensino superior finlandesa. Começaram então estabelecer-se as primeiras instituições de ensino superior especializado.

Existem, hoje em dia, 20 universidades neste país: dez multidisciplinares, três universidades de tecnologia, três escolas de economia e gestão e quatro academias de arte. Geograficamente podemos dizer que esta rede cobre a totalidade do país, sendo a Universidade de Helsínquia a maior instituição de ensino superior. Há ainda a acrescentar o Colégio de Defesa Nacional que, ao invés das outras instituições, se encontra sob a responsabilidade do Ministério da Defesa.

A principal missão das universidades é levar a cabo a investigação e ministrar os seus cursos com base nela. O princípio norteador deste tipo de formação é a liberdade de investigação e autonomia universitária, que dá às instituições uma considerável margem de manobra.

Todas as universidades finlandesas são geridas pelo Estado, que assegura cerca de 70% do seu financiamento. Cada uma das instituições celebra com o Ministério da Educação um acordo, com a duração de três anos, onde se define o orçamento para levar a cabo os objectivos definidos para esse período.

As universidades seleccionam os seus alunos e a existência de numerus clausus torna este processo bastante competitivo, sendo os exames de admissão o seu o elemento base. Hoje em dia, o conjunto das universidades oferece vagas a cerca de 1/3 dos candidatos, o que perfaz o número de 23000 colocados. Da lista de objectivos definidos pelo Ministério da Educação para os próximos anos consta o aumento das vagas do ensino universitário de modo a atingir 65% dos candidatos. O número de estudantes universitários cresceu cerca de 40% na última década: hoje são cerca de 147000, dos quais 19000 se encontram a frequentar cursos de pós-graduação.

Sendo, como vimos, a aposta na investigação uma das características fundamentais do ensino universitário, esta é sempre incluída nos planos curriculares, mesmo ao nível da formação inicial. A natureza independente das universidades finlandesas permite uma liberdade considerável no que toca à maior parte das áreas, o que exige dos alunos uma grande capacidade de iniciativa e trabalho individual. Os regulamentos internos definem as linhas gerais de cada curso, mas dentro disto é permitido que os alunos decidam individualmente sobre o seu plano de estudos. Uma vez que o sistema de ensino é baseado essencialmente em palestras, que podem ser substituídas pelo estudo individual, os estudantes são livres, na maior parte dos casos, para decidir sobre o seu ritmo de estudo. É por isso que o tempo de duração de um curso varia consideravelmente, e mais ainda se tivermos em conta que muitos alunos combinam o seu estudo com o trabalho, quer seja por razões financeiras quer seja para adquirir experiência na sua área de estudo.

O grau académico mais comum em todas as faculdades é o equivalente ao Master britânico ou norte americano que tem a duração de 5 a 7 anos e exige ao aluno a realização de um trabalho final de investigação. No entanto, desde meados dos anos 90 que as universidades adoptaram o método dos cursos bietápicos e é agora possível que os alunos, passados três anos em média, adquiram o grau de bacharel.

O Sector Politécnico

As instituições de ensino superior criadas no âmbito do sector politécnico têm como característica fundamental a aposta numa formação mais orientada para a prática, tendo como objectivo formar profissionais capazes de responder aos novos desafios do mercado de trabalho.

Existem 33 Institutos politécnicos na Finlândia, sendo a maior parte deles instituições multidisciplinares e de carácter regional, que dão particular atenção aos contactos com a indústria e comércio locais. Os institutos politécnicos também levam a cabo actividades de investigação relevantes, tanto para os seus planos curriculares e métodos de ensino, como para o mundo empresarial.

Estas instituições foram sendo gradualmente criadas ao longo da década de 90, sendo que as anteriores escolas de formação profissional foram elevadas e incorporadas em institutos politécnicos multidisciplinares. Desde 1995, ano em que foi aprovado o Acto dos Politécnicos, o Governo tem vindo a acreditar anualmente algumas instituições de modo a que elas possam funcionar numa base de permanência. Os critérios usados para esta acreditação passam por provas de excelência e qualidade no que diz respeito ao trabalho experimental e de desenvolvimento. Este ano, a rede de institutos politécnicos ficou completa e todos eles operam agora numa base permanente.

Os politécnicos ministram cursos superiores orientados para a profissionalização, de 3 ou 4 anos, nas seguintes áreas:

Recursos Naturais

Tecnologia e Transportes

Gestão e Administração

Hotelaria e Economia Doméstica

Cultura

Humanidades e Educação

Os politécnicos finlandeses, municipais ou privados, são co-financiados pelo Governo e autoridades locais. O Ministério da Educação celebra com cada uma das instituições, e à semelhança do que acontece com a universidades, um acordo válido por três anos, onde é definido o orçamento geral, os objectivos e o financiamento de projectos específicos para esse período.

Uma vez que estas instituições foram criadas com a intenção primeira de fazer face aos novos desafios do mercado de trabalho, todos os planos de estudo comportam uma forte componente ocupacional, estando definido que se concentram numa área profissional particular. Além disso, eles encontram-se divididos por áreas de especialização, havendo politécnicos onde é possível frequentar cursos de carácter multidisplinar.

Os cursos são construídos em função de unidades de crédito (em média 140 a 160 créditos) o que representa, sensivelmente, três anos e meio de formação.

Os planos curriculares são desenhados de modo a englobar: disciplinas de formação básica, onde os alunos aprendem as noções gerais acerca da sua área de estudo; disciplinas profissionais, onde se aprofundam os conhecimentos das matérias fundamentais; disciplinas opcionais; a componente prática e um trabalho de fim de curso. Além disso, tem-se procurado, cada vez mais motivar os alunos para a aprendizagem de línguas estrangeiras.

Os estudantes candidatam-se após terem terminado o ensino secundário geral, ou profissional e, ainda que as instituições estejam dependentes do Ministério da Educação, são elas próprias que determinam os critérios de selecção dos seus estudantes

A Cidade e a Universidade de Helsínquia, sinónimos de história e tradição

Sendo Helsínquia uma das Capitais Europeias da Cultura 2000, é impossível falar da Finlândia sem fazer uma pequena visita à cidade que festeja este ano os seus 450 anos de existência. Sob o tema "O conhecimento, a tecnologia e o futuro", Helsínquia foi palco, durante este ano, de inúmeras actividades culturais e ponto de atracção para milhares de turistas.

Helsínquia foi fundada em 1550 pelo Rei Gustav Vasa da Suécia como um novo entreposto comercial no sul do país, com a intenção de fazer concorrência ao posto de Tallinn na Estónia. O crescimento da cidade foi lento porque, apesar das intenções do Rei, as mudança dos hábitos comerciais da época não era fácil. No entanto, esta nova cidade não deixou de ser um ponto estratégico-militar importante durante o período de guerra na Rússia, Países Bálticos e Alemanha.

A sua posição geográfica, perto da então capital russa - S. Petersburgo, não deixou de moldar durante muito tempo a história desta cidade, até que, por fim, a Finlândia acabou por ser anexada ao império Russo, como Grão Ducado autónomo, em 1809. Para esta cidade a guerra foi um importante ponto de viragem, uma vez que em 1812 ela passou a ser a capital da Finlândia e a albergar a única universidade do país.

Devastada pelo fogo, a cidade foi completamente reconstruída num estilo arquitectónico, agora sim, digno de uma capital de império, cujo monumento mais expressivo é sem dúvida a Catedral, que acabou de ser construída em 1852. Assim, rapidamente Helsínquia se transformou num centro administrativo, universitário e cultural, tendo, no início do século XX, uma população que rondava as 100000 pessoas.

Nos finais do século XIX, a arquitectura começa a reflectir o nascimento de uma cidade profundamente industrializada sendo o maior exemplo disto a quantidade de edifícios neoclássicos construídos na época. Não devemos esquecer que Helsínquia alberga a maior Igreja Ortodoxa da Europa Ocidental, construída em 1868. Um outro monumento que não pode deixar de ser referido é a Igreja Temppeliaukio, que ocupa um quarteirão inteiro e que foi construída à força de dinamite no interior de uma montanha rochosa, já que os moradores não queriam que a torre lhes tirasse a vista. Do exterior podemos apenas vislumbrar o telhado.

A primeira Ópera a ser representada na Finlândia teve lugar em Helsínquia, em 1852, uma cidade que se afirmava como o centro cultural do país ganhando uma importância crescente no seio do continente europeu.

A Finlândia declarou-se independente em 1917, ao que se seguiu uma guerra civil que se revelou perfeitamente devastadora que obrigou a família real a abandonar Helsínquia em Janeiro de 1918. Quando, passados quatro meses, a guerra terminou com a vitória das tropas do Governo, Helsínquia enfrentou grandes desafios enquanto capital da nova e independente República.

Durante os anos 20, a cidade desenvolveu-se a um ritmo alucinante e a arquitectura dos anos desta década e da seguinte é marcada pelo classicismo e funcionalismo. O Estádio Olímpico, construído em 1938, teve de esperar por 1952 e pelo fim da Guerra para finalmente servir de palco aos Jogos.

Com o Final da IIGM, à medida que a Finlândia se transformava numa economia industrial moderna, o êxodo rural levou milhares de pessoas a fixarem-se no Sul do país e na região de Helsínquia, fazendo nascer à volta da capital uma enorme quantidade de subúrbios.

Nas últimas décadas, esta cidade tem sido palco de conferências internacionais de enorme importância política. Em 1975, realizou-se aqui a Conferência sobre a Segurança e Cooperação na Europa, que deu origem à actual OSCE, e a primeira cimeira entre os EUA e Rússia, em 1990, altura em que se encontraram frente a frente os Presidentes George Bush e Mikhail Gorbachev.

A Universidade de Helsínquia é a mais antiga e maior universidade finlandesa e uma das mais antigas da Europa. Foi fundada em 1640 com o nome de Real Academia de Turku. Esta instituição, sueca nesta altura, adoptou desde o início a tradição universitária europeia seguindo nos primeiros anos da sua existência os padrões germânicos. Quando a Finlândia foi anexada ao império Russo, a Universidade foi transferida para Helsínquia (1828), que, como vimos, se tinha tornado o grande centro administrativo e cultural do país. Os novos edifícios construídos para albergar a Universidade eram de uma riqueza impressionante, principalmente se tivermos em conta a então situação económica e política do país. O edifício principal foi construído na Praça do Senado, mesmo em frente ao Governo Finlandês.

Quando em 1917 a Finlândia se tornou um país independente, esta tornou, por fim a designação de Universidade de Helsínquia, cujo acto, celebrado em 1923, lhe garantiu um estatuto de autonomia e definiu como seus objectivos a promoção da livre investigação, da educação académica e da educação dos jovens.

Como já foi referido, o ensino superior na Finlândia expandiu-se rapidamente com o fim da II Guerra Mundial e em 1960 a Universidade atingiu a sua dimensão actual. Graças à sua tradição e reputação, ao facto de ser bilingue, à sua versatilidade e tamanho, a Universidade de Helsínquia é, sem dúvida, a instituição que mais atraí os estudantes de todo o país.

A educação e a investigação são levada a cabo em nove faculdades : Teologia, Direito, Medicina, Artes, Ciência, Educação, Ciências Sociais, Agricultura e Medicina Veterinária que, por sua vez, estão divididas em cerca de 120 departamentos e institutos.

A maior parte dos fundos da Universidade de Helsínquia provém do orçamento nacional, ainda que o financiamento da investigação, ensino e administração seja parcialmente efectuado através de receitas próprias, sendo que as propinas são inexistentes.

Os alunos são admitidos com base nos resultados dos exames nacionais e das provas realizadas pelas próprias instituições de ensino superior após o final do nível secundário.

As relações internacionais são estabelecidas tanto com base em contactos pessoais entre investigadores, como em acordos celebrados entre governos, universidades, faculdades e departamentos. Até este momento, esta Universidade já estabeleceu acordos com cerca de 60 outras instituições, estando também envolvida em vários programas internacionais de intercâmbio (ALFA, ISEP, LEONARDO, NORDPLUS, SOCRATES / ERASMUS e TEMPUS), com os países europeus e também com os Estados Unidos da América

Convém salientar que a Universidade de Helsínquia é uma instituição bilingue onde os planos curriculares com os serviços estão disponíveis tanto em finlandês como em sueco (6.6% dos estudantes têm como língua mãe o sueco). Ainda assim, a possibilidade de prosseguir estudos em sueco está disponível apenas para algumas áreas científicas( a Escola Sueca de Ciências Sociais, um organismo dependente da Faculdade de Ciências Sociais desta Universidade, é um exemplo de uma das áreas cuja língua de ensino é o sueco).

Existe a possibilidade de frequentar cursos em Inglês e, sempre que isto não seja possível na totalidade do plano curricular, os alunos poderão completar os seus estudos através de um estudo independente e individual.

Ainda que não haja requisitos especiais relativamente à língua para os alunos estrangeiros, é aconselhável que tenham um bom domínio de inglês que lhes permita acompanhar as aulas. Os exames podem ser realizados em inglês mas isto exige um acordo prévio com o professor responsável. Há ainda alguns docentes que aceitam realizar os exames em outras línguas.

Ainda que a maior parte dos cursos siga o método de ensino tradicional, baseado em palestras e na realização de um exame final, a Universidade está consciente das dificuldades e limitações deste método de ensino e tem realizado um grande esforço para promover novos métodos que se baseiem mais na interactividade e capacidade de iniciativa dos alunos.

Referências bibliográficas:

CIMO - Center for International Mobility (1998) - Living in Finland. Erweko: CIMO

CIMO - Center for International Mobility (1997) - Higher Education in Finland. Helsínquia: CIMO

NCM- Nordic Council of Ministers (1998) - Higher Education and Research in the Nordic Countries. Erweko: NCM

http://www.virtual.finland.fi

http://www.helsinki.fi

http://www.minedu.fi

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* Estagiária do Departamento Cultural do ISPV na área de Relações Internacionais

SUMÁRIO