Chove num Conto de Fadas,

Chove sobre a Infância

- Lendo um conto ao jeito de uma leitura sobre a infância actual -

 

HELENA MARQUES *

 

Quando penso num livro para crianças é entre as mãos afagantes de centenas de meninos que conheci que o percepciono. E é nessa perspectiva que ele se torna centro das minhas reflexões. A criança que nos habita prega-nos partidas e, segundo Éluard, vemos o mundo como somos e não como ele é. A via está-nos, por isso, naturalmente aberta ao poder da magia egocêntrica infantil, que teima em materializar no livro um sem número de desejos, de sonhos de ser, de possibilidades por nascer.

Falar em nome da criança pressupõe que nos questionemos sobre o que lhe damos a beber nos reservatórios de sonhos de papel, portadores da seiva da vida, essência espessa absorvida por um ramo guloso1, o pensamento da criança. Quando por ela vivenciado, o livro recupera os sentidos, deixa-se ficar em presença, disponibiliza o seu potencial para reparar as desventuras da vida, apazigua do fundo de uma voz profunda e afectiva, cede silenciosamente as suas sentinelas, extraordinariamente mais poderosas que algumas pessoas demitidas. Em suma, propõe viagens deambulantes, sem fronteiras. Este livro ainda existe?

A uma dada altura, uma mão codifica canais complexos e indefinidos de pensamentos humanos e resolve domesticá-los numa história de ficção. Porém, os sonhos capturados nos signos sacrificam-se, sujeitam-se à mão puxada pelos fios de um eu social, mais ou menos vitima de uma visão limitada nas contingências de uma certa época. Uma forma especifica de julgar o universo e de penetrar a infância.

As crenças do escritor, essa espécie de sementeira ideológica, fertilizam a terra branca de sonhos anónimos, perfumam-na, salgam-na, adoçam-na de olhares, de formas de julgar, de mitos pessoais. O imaginário guloso e desregrado da infância prova à socapa, chupa fortuitamente todas as guloseimas, embriaga-se, desforra-se até ao excesso.

E se essa ficção fosse um conto de fadas transposto á vida dos nossos dias, de que mitos seria ele recheado, que perfumes e que sabores provaria o leitor? Por que via navegam os sonhos do ano 2000, as águas onde nos banhamos, águas onde a criança se lava e se suja, esta água tornada chuva sonhada, como veremos adiante, com a qual adormecemos os nossos meninos?

As chuvas de hoje tornaram-se ácidas e cada vez mais há meninos desmunidos de abrigos afectivos, só que com novos nomes. Elegantes, quantas vezes, subscritos por mãos adultas que não dão mais palmadas mas que também já não sabem acariciar como deve ser; mãos esquecidas sobre corpos metálicos.

Proponho uma leitura de A princesa da chuva de Luisa Ducla Soares2. Nesta narrativa de uma princesa que não é como as outras, como resiste a mitologia dos contos maravilhosos ao tempo do capitalismo económico e da tecnologia, com quem se parecem as fadas quando vencem o abismo do tempo e nos fazem uma visita num conto actual? Entre os dois tempos, o da ficção do maravilhoso e o da realidade actual, com que brincam as crianças?

A narrativa comunica eventualmente uma leitura, uma metáfora daquilo que poderá querer dizer viver hoje a infância. Veremos que levar fadas a entrar em histórias contemporâneas pode obrigar-nos a lamber quimeras. O tempo corrói os mitos maravilhosos de outrora, da mesma forma impiedosa com que degrada todo o corpo orgânico. A televisão ensina-no-lo: os heróis mutantes actuais enfiam-se pelos esgotos e a esperteza alojou-se toda na massa muscular.

Neste conto, a imagética reenvia-nos a um contexto social contemporâneo, mesmo que disfarçado sob o cenário de um reino longínquo dos contos tradicionais, estirando-se por sequências sobre as paisagens dos desertos árabes. Um conto de fadas dos tempos actuais governado pelo racionalismo e pelo pessimismo, disfarçado sob uma escrita arquitectada pela farsa é o que iremos encontrar.

Em resumo, uma princesa nasce, dá-se-lhe o nome de Princelinda. Uma rainha mãe teima em fazer cumprir a tradição e manda chamar três fadas para que seja fadada a nova herdeira. O pai quase que não ocupa lugar no conto e submete-se aos caprichos femininos. As fadas exigem ser pagas com realeza e uma delas brinda a menina com um dom: que chova sempre onde ela se encontrar; não tivesse feito chichi sobre o vestido azul feérico da fada. Logo azul, que fantástico mais grotesco!

"Na mais alta torre do mais alto palácio", a menina cresce apartada; sua presença chuvosa incomoda, literalmente falando, toda a gente. Um dia foge numa canoa, para que a cidade, transformada num rio gigante, reencontre a sua forma primitiva. Poupando os demais á chuva, leva-a para os lugares onde faz falta: os desertos, agora grandes prados. O reino prospera e ela cumpre uma missão impossivelmente solitária. Só quem é pessoa pode compreender essa impossibilidade, mesmo que cumprida.

O universo mágico dos contos de fadas perdeu seu império na actualidade calculada. Resiste ainda, mas sob pena de ser convertido e sacrificado á nossa imagem, é esta a posição expressa da autora desde o início da narrativa quando manda chamar as três fadas através de um anúncio deixado num jornal. O mundo calculista vai sendo desenhado aos olhos do pequeno leitor: "tempo de desejar, tempo de pagar". As fadas não concedem dons gratuitos e foram destituídas do poder de adivinhar os desejos dos mortais. Até duvidamos que as três criaturas, uma corcunda, outra estrábica e a terceira, velha e vingativa, tenham sido algum dia tocadas pela bondade divina.

O autor reduz ao ridículo a credulidade nestes seres outrora extraordinários. Confina a menina aos seus parcos recursos físicos e enclausura personagens reduzidos ao cliché numa narrativa abafada por economia política e doméstica, onde viver a infância coincidiria tão somente com o poder de conseguir ficar invisível aos olhos dos adultos impacientes e que têm mais que fazer.

O leitor sente-se massacrado por um espaço sobrenatural contaminado por ambições adultas dos mesmos sentimentos de vingança, das mesmas invejas. A ausência de adjuvantes é chocante; ninguém mais acorre a socorrer ninguém. A criança recolhe-se num canto da mais alta torre.

Os pilares ideológicos do conto maravilhoso desmoronam-se pela presença das fadas vendidas ao prazer malicioso do dinheiro e pelo carácter irreversível do prejuízo causado. O número três parece querer repetir incansavelmente que a fatalidade é irreparável. A tríade pai-mãe-filha, as três fadas, os três pratos, os três anos de viagem, a chuva que anaforicamente "cai, cai, cai". A autoridade severa dos adultos aparece investida na figura materna, enquanto símbolo de uma realeza absoluta, e na escolha abusiva das repetições sonoras em r: "retirado, reino, reinetas, reinava, rei, Reinaldo, rainha, Regina". Uma aliteração agressiva, a lembrar a dureza familiar.

A princesa pertence à categoria isolada da infância benfazeja mas à mercê da outra categoria, a dos bonecos cínicos que desempenham papeis inflexíveis, onde se arrumam neste caso os pais, mas também as fadas, abrindo um fosso irremediável entre o universo adulto e a infância. As fadas pensam como os adultos, semeiam a discórdia e não reparam o mal. Pais, fadas, criados, não passam de caricaturas incapazes de apaziguar o medo, de tolerar e de gerar o amor.

A ilustração e o discurso narrativo avisam o leitor que não devemos levar os adultos e as fadas a sério, com boa vontade, confiar apenas nos cães reconhecidos e, também eles, desconfiados com as três mulheres estranhas.

O autor preferiu um sobrenatural colérico e corrompido, concebido à imagem dos crescidos. Regressamos, de certa forma, ao pensamento grego, quando os deuses se pareciam com os homens, nomeadamente nas vilezas. Os fenómenos da natureza, explicados pelo seu humor temível, reencontram a mesma característica quando a chuva advém da má disposição da fada, espécie de pequena vingança. Outrora imaginados por adultos para se sentirem protegidos da falta de conhecimento e controlo sobre os fenómenos da natureza, resolvem agora voltar disfarçados de fadas, como se o adulto que escreve não conseguisse mais concebê-los à imagem e semelhança do desejo da criança. Quando os seres mágicos se pervertem em policias pagos pelos adultos, onde procurar o prazer, onde forjar miragens pessoais? Censurado, vigiado pela vontade dos crescidos, até o espaço sobrenatural trai o pequeno leitor; o ficcional espelha o real e não cria alternativas, não gera novos universos reconstructivos, como seria suposto acontecer.

Apenas sobra a imagem vaga de uma menina deambulando por caminhos incertos, confinada à sua chuva quotidiana e à sua magia interior de desejar recuperar as terras áridas dos desertos fertilizando-as de chuva. Uma princesa destronada de um reino, uma criança destronada da infância, eis um despojamento que vale por todos os lugares comuns do texto. Evidentemente que transpira outra leitura do material semiótico, mas essa agora não me interessa.

A nossa sociedade de consumo não dispõe mais de tempo nem de espaço para remontar aos mitos da harmonia e da reparação do mal, desse encantamento tão repetido em todos os tempos, mas sempre à medida do fascínio de cada leitor. É como se o homem actual já só conseguisse sonhar com um mundo decalcado sobre o seu pesadelo quotidiano e todos os mundos possíveis se fundiriam num só. O resultado equivale a uma estética de abismo deprimente, de um mundo governado por fantoches desumanos, de bocas crispadas cuspindo palavras duras e soltando sons metálicos e monocórdicos.

Na altura em que a criança se ressente com a concepção racional do conto, o narrador passa-se para o outro lado anunciando a fuga da jovem dentro de um pequeno bote. Uma ideia à medida da criança, evasiva, de verdadeiro resgate, no momento decisivo de rebentar com as comportas das referências do real. Ávida de espaço, de construir um lugar seu no mundo, faz-se à viagem. Esta emancipa-a, afastando-a, por outro lado, das pessoas que ama, para as poupar à chuva.

A chuva... Sua angústia, sua infância, suas inquietações, o barulho incomodativo de sua presença, de seu estorvo, o desejo de crescer, mas a dor de um barulho calado de abandono quotidiano. A chuva que acusa a sua asneira de criança. Não pode mais haver asneiras, nem perdão, nem reparação, nem imaturidade. Assumindo o valor do castigo da fada, caído de cima, de um pesadelo, a chuva denuncia o tempo roubado aos adultos pela imaturidade, os actos involuntários e sua dependência. Tempo é dinheiro, aprenderam as fadas com os nossos tempos. Na origem da punição, adivinhamos que a infância actual é suposto ser regulada por interditos específicos: nada de atrapalhações; a autonomia e a iniciação ao mundo social são estimulados desde a mais tenra idade. Mas nem sempre com as devidas precauções, sem acompanhamento pessoal. A insegurança e o medo advêm prematuramente, mas procurar ajuda no mundo vaporoso e feérico não deixa de nos parecer absurdo neste mundo descrente onde são chamadas a intervir fadas pagas pelos pais. Inicialmente na sua torre isolada, mais tarde acompanhada pela chuva, Princelinda evoca torres e mais torres sobrelotadas de crianças, chuvas e mais chuvas de abandono infantil de meu conhecimento e certamente da grande maioria das pessoas.

Orçamento harmoniza-se com tempo, mas não com chuva. Tempo é dinheiro e a infância, não tendo preço, também lhe é furtado o tempo. Assim, as chuvas prateadas já não caem mais sobre a cabeça dos mortais, à semelhança dos Sonhos de uma noite de verão shakespearianos. Aqui, a criança tem direito à chuva diluviana e flutua sobre as águas inquietantes de sua infância, espécie de espelho baço, eco de suas perguntas sem respostas. Porque ninguém está por perto, com ouvidos de ouvir e olhos de ver.

A infância sustenta-se no mito do excluído, pária isolado. O leitor sente-se assolado por uma temática banalizada hoje em dia, todos os motivos textuais encaminham para uma infância rejeitada, perturbada de angústias ligadas ao crescimento, não sabendo como ajustar sua imagem à outra, a que outros, bem maiores em tamanho, esperam que tenha. Procura de uma imagem que reajuste as duas, senão todas elas, à semelhança dos contos tradicionais. Mas este Patinho Feio não evolui das águas invernosas de seu refúgio. Princelinda não escapa à solidão do inadaptado pois o feitiço da fada é irreversível, o prejuízo é irreparável. Não consegue integrar-se na sua comunidade e viaja longe dos homens evitando ser censurada pelo erro de uma chuva que ela não desejou, por um acto que não conseguiu controlar.

O desenlace opõe-se definitivamente ao conto popular "teremos alguma dificuldade em lhe arranjar um noivo que não se importe de andar à chuva". As angústias da imaturidade infantil investidas na metáfora da chuva são culpabilizantes aos olhos severos dos adultos. A imagética literária filtra um universo de ideias muito preciso da infância actual ao corromper o mundo folclórico e protector das fadas antigas, espécie de pastiche do desencantamento actual da segregação e dos interesses financeiros. Esta menina é vitima da época posmoderna. A ideologia da criança responsável e autónoma, livre de decidir e de agir por seus próprios meios, é evidenciada em toda a trama quando a menina transforma em vez de ser transformada, repara o mal sem a intervenção dos adjuvantes habituais. Pelo contrário, estes estigmatizam, isolam e punem. Ela não é iniciada à vida social de um modo inclusivo, excluindo-se por iniciativa própria e escolhendo os locais onde se tornar útil para os demais privando-se ainda assim da sua companhia. Este quadro típico de liberalismo generoso oculta uma verdade. Mascara todo um exército de adultos demitidos do tempo indispensável à infância.

Um tempo generosamente dado: intemporal, aliviador, consolador, escutador e afagante.

As pessoas crescidas, também elas, órfãs de sonhos, cépticas e na maioria das vezes descrentes na humanidade, desviam o olhar dos horizontes vastos mutiladas em espaços hiper-racionados, os pés sempre assentes na terra. Que é o mesmo que dizer no cimento. Uma terra vendida, não se sabe bem a quem. Como poderíamos imaginar outras fadas?

A menina cumpre uma procura do eu ao ser destituída de um lar, de um povo, deserdada por fadas madrinhas, privada de príncipe encantado. É o preço da liberdade.

A água, cativeiro da infância, sobe, transborda, torna-se obsessiva. Prisão feminina edificada por mulheres, ela enrola-se em volta da torre até ao dia em que a protagonista decide acabar com o papel de vítima e se auto-proclama de conquistadora.

O sortilégio da chuva transfigura-se em poder mágico, mas por uma alquimia singular produzida pelo poder da sua mente. Isto até é bom, mas a independência forçada e precoce arrisca-se a ser demasiado progressista para meninos que aspiram a receber segurança e protecção dos pais, que procuram o auxílio dos heróis imaginários, que crêem muito e ainda nos poderes sobrenaturais, que desejam ser embrulhados numa força benfazeja.

Neste conto o novo mundo é construído sobre a ideia de uma travessia marítima dos descobrimentos: uma travessia à deriva de uma rapariga que se afunda nas águas incertas e inquietantes de sua chuva. O pessimismo sombrio e chuvoso da nossa época priva-a de actos, ideias e contactos ensolarados. Aprender o seu próprio caminho faz sofrer e ninguém parece estar lá para se antecipar a seus passos enfiados na lama.

Os sonhos também se pagam e mais parecem pesadelos. O efeito da varinha mágica, pronta a retribuir o fôlego aos pequenos leitores, não terá lugar. Para além dos limites da infância, apenas o terror, porque os crescidos comandam o reino fantástico e corromperam as fadas que vendem a alma ao negócio.

Chove numa ilha da infância perdida neste conto.

É sobre Princelinda que projecto os sentimentos das crianças de hoje, abafadas por palavras que falam de orçamento, privadas de olhares afagantes dos mais crescidos.

"Rodeados da árida decoração de betão, onde se encontram trancados"3, segundo as palavras de Bergounioux, conseguirão ainda assim, reaver a seiva viva do patriarca dos livros, o fogo mágico dos mitos maravilhosos nos livros actuais?

Uma imagem sobrevive ao dilúvio emergente do conto, a de uma "rapariga de uma beleza estranha", molhada até aos ossos e montada a cavalo, avançando de uma determinação sobre-humana, sob uma bruma de chuva, nova pequena Quixote, rebelde e poética.

A imagem sobrevive e suspende-se para além da materialidade do texto, da textura das palavras, e parte repousar no país do tempo eterno, naquele lugar onde o homem revisita a infância visto que o seu estado de adulto não passa de um mito. E contudo, os homens aprazem-se em acreditar nas histórias destes mitos que criam para sossegar seu medo. Paradoxalmente, ainda, sempre, é preciso enganar o medo, quanto mais adulto, mais ainda. Onde está a verdade? Em todos os lados, e muito, muito, nestas sugestões efabuladoras que se inventam através de outrem mas que falam intensamente sobre o próprio. Fantásticas, verídicas. Ambas as coisas. Com toda a força da verdade, impõem-se, dão-se a beber e a comer na arte das palavras e dos corpos, tecidas de sons e de gestos afectivos, de desejos fundos e disfarçados pela manha adulta. Quanto mais disfarçados, mais a descoberto. Basta para isso uma gargalhada autêntica, solta, da eterna infância e as máscaras ilusórias dissolvem-se. Estes textos manifestam, ainda que por vezes de uma forma tímida, um pensamento de ir sendo infinito, rasgado, verdadeiro espaço humano e imortal, atrofiado pela insanidade quotidiana que murcha os gestos generosos por medo das vertigens do que é grande.

Acabámos de deambular sob uma chuva baptismal, autêntica veste branca, como sugere o duplo significado do adjectivo, rito de iniciação à vida, desta vez amaldiçoado. Chuva tomada como veste por uma menina que ainda nada sabe da vida, único agasalho disponível a um ser solitário que galga desertos a galope. Desertos dos homens, como diria o principezinho de Saint-Éxupéry, quando chega pela primeira vez a um planeta que dá pelo nome de Terra, perguntando inutilmente, já que, para além do abismo, apenas o eco das montanhas lhe responde, devolvendo-lhe as suas própria palavras: "Bom dia, quem sois vás? Sede meus amigos, sinto-me só, sinto-me só..." 4

Príncipes e princesas, herdeiros de um reino sem trono, eventualmente o pequeno leitor, um qualquer que tenha tomado entre as mãos esta narrativa, umas mãos ainda redondas - e nem sempre aconchegadas - e tenha bebido um trago amargo sem partilha possível. Chegado o momento da identificação, através do fenómeno de projecção, o grande momento misterioso dado a cada leitor, sempre de cada vez, naquele instante em que o pequeno leitor se transfigura inevitavelmente em Princelinda, ou melhor, se experimenta principescamente. Sentirá, também ele, porventura, um nó a apertar-lhe na garganta, ao ser atraído para becos incertos e lamacentos de chuva por um vendaval vivencial, perdendo-se ele também na sua solidão interior se pertencer ao tal grupo daqueles que se encontram encurralados na árida decoração de betão sem alguém que lhe dispense tempo e abraços fortuitos.

Chove num conto de fadas infiéis às crianças. Chove sobre a infância. Uma chuva vingativa e segregadora.

Enquanto brincava com fragmentos de objectos insignificantes, um menino de cinco anos ter-me-á dito um dia:

- Estou a encher uma expressão.

Picada de curiosidade e de espanto pelo terreno abstracto emprestado a simples funções práticas, já que o menino enchia objectos com areia, e já que, à partida, ele não sabia o que era uma expressão, pergunto-lhe:

-De quê?

Não queria sobretudo interferir com as minhas sentenças adultas, nem tão pouco viciar o caminho que me tinha sido proposto inadvertidamente. Há coisas com as quais temos que agir com muito tacto para que a revelação seja genuína e não o espelho do que pensamos ser.

- De fogo!

Foi esta a sua resposta pronta. Desta vez, verdadeiramente intrigada, vasculho seus horizontes linguísticos:

- O que é uma expressão?

- É uma coisa para adivinhar.

Redobrada de espanto, surpreendo-me a venerar um palmito de gente com cinco anos de idade que continuou absorto no seu jogo esquecido com toda a naturalidade do mundo. Agora lembro-me claramente do fogo com que incendiou a minha vista e alumiou meu mundo, bem mais previsível e pobre. E tanto mais o é quanto nós nos convencemos que somos adultos pelos sacrifícios que fazemos de nós, privando-nos da nossa recriação, julgando-nos já construídos. Este homenzito alumiou-me de um relâmpago galopante e selvagem como o cavalo de Princelinda.

Neste momento, questiono-me a propósito de Princelinda, porta-voz da criança anónima. A criança de hoje. Como irá ela sair-se, a tremer de frio, os ossos enregelados de chuva ininterrupta, produzida pela mente voluntariosa adulta, uma mente que determina um castigo à medida desumana, o da privação da companhia dos homens. Sem isso, não mais haverá pessoa. Será que não poderíamos casar a chuva da menina com o fogo daquele rapazinho, restituir à infância as crenças maravilhosas e as companhias vitais? Ousaria afirmar, as crenças na humanidade, num espaço onde as margens se tornam tão indefinidas entre palavras inflamadas de mistério? Encher de fogo a expressão de sua triste liberdade de chuva de abandono? Encher a infância de companhia fogosa? Além do mais, pais securizantes, fadas extraordinárias e príncipes encantados é do que precisam estas Princelindas modernas que sofrem de uma pseudoautonomia forçada, vinda antes do tempo, para justificar airosamente a demissão de um enorme exército adulto ocupado em outras guerras, em outros lugares, contra outras pessoas, à mesma hora. E já agora, que vai acontecer aos príncipes perdidos dentro de si mesmos, que lhes acontece quando as princesas não têm outro remédio senão governar-se sozinhas? Se é que me entendem, sobre a amplitude de seu significado no contexto do maravilhoso aqui debatido.

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* Equiparada a Assistente do 2ș Triénio da Escola Superior de Educação de Viseu.

1 Fiz aqui uma associação do latim liber, sendo que, na sua origem, o livro, como artefacto, provinha da camada da casca da árvore que continha a seiva, a parte viva, sobre a qual se escrevia, estando portanto significativamente associado à passagem através do tempo do substracto da humanidade. Nesta sequência. a expressão ramo guloso é apropriada por analogia da expressão francesa branche gourmande, que designa o mesmo campo semântico entendido no português, mas ainda os ramos da árvore onde foram aplicados enxertos, portanto, aqueles que são fertilizados ou, pelo menos, os ramos cujos rebentos absorvem a seiva da árvore. Neste caso particular, o duplo sentido associado à conotação da árvore, patriarca do livro, interessa-me particularmente, por caracterizar os contornos gulosos e humanizantes da imaginação durante a infância.

2 Ducla Soares, Luisa, A princesa da chuva, Plátano Editora, Lisboa, 1984.

3 P. Bergounioux, Liber, Librairie Ombres Blanches, Verdier, Toulouse, 1995.

4 Saint-Éxupéry, Antoine. Le Petit Prince

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