O Expresso Semi-Geriátrico,

a Helvécia e o Bar des Dammes

 

MARIA DA CONCEIÇÃO DUARTE PEREIRA *

Desta vez foi diferente. Substancialmente diferente! Mas para pior, diria. Apesar dos deslumbres e orgasmos - visuais, gustativos e olfactivos que todos, decerto, experimentámos. Mas eu conto! Por motivos óbvios vou omitir, deliberadamente, nomes e designações que possam, de algum modo, identificar quem quer que seja. Pretendo apenas narrar uma sucessão de peripécias, caricatas e bem vividas, agora que são memória.

Ao invés dos anos anteriores, desta vez optámos por evitar o transporte aéreo que, à parte que me toca, me apavora e causa os maiores arrepios, calafrios, securas e amargos de boca. Assim sendo, vai de consultar os catálogos de férias e seleccionar os eventuais destinos de eleição. A Suíça e a Riviera Francesa, escarrapachadas em coloridas e deleitosas fotografias, como convém, foram as escolhidas. Era diferente de tudo quanto já havíamos visto e o apelo dos Alpes e da civilização foi mais forte...

Malas feitas, divisas na bolsa e ala que se faz tarde! Vontade de arregalar o olho era coisa que nos não faltava! Já em Lisboa, constatámos que se contavam pelos dedos de uma mão os potenciais clientes para esta viagem. Pelo menos os alfacinhas. Isto porque o nosso grupo, na realidade, eram dois. Ao de Lisboa iria, ainda, juntar-se o do Porto. Local da reunião, a cidade do Mondego. Para lá fomos levados por um transfer, se assim se pode considerar o mini autocarro de não mais de duas dezenas de assentos que para lá nos transportou. Nele seguia um septuagenário casal que já tinha estado em tudo quanto é sítio. Fazia-se acompanhar de duas netas adolescentes e de uma também septuagenária cunhada. Esta, seria protagonista de um incidente que contarei lá mais para diante e que redundou numa acalorada troca de impressões com o seu irmão. Também lá ia um engraçadíssimo casal sul-americano(?), com duas crianças. Estes últimos, que seguiam para outras paragens, eram particularmente engraçados e dignos de um qualquer conto de Dickens ou Eça. As malas que traziam eram todas iguais, de uma tonalidade caramelo. Quanto às crianças, um menino e uma menina, o que dizer? O garoto, muito compenetrado e aprumado, reflectia o sol nos démodé sapatos de verniz que calçava. A miúda, cara sarapintada de sardas de fazer inveja à Rita Pavonne exibia, caprichosa, umas bem torneadas tranças. Uma fofura! Quando fizemos a primeira paragem, visto ainda ser cedo para o encontro com o grupo do Porto, num café, algures, a petiz, encantada com um minúsculo e alvo espécime canino que não ultrapassava um palmo, exclamou, efusiva, na sua pueril voz da cana rachada: mira, mira, um perrito blanco, que lindo... Ao que o irmão, mais senhor de si, responde: és una mascota... Já dentro do estabelecimento, o pai pede uma chinesa!... As empregadas, boquiabertas, não souberam atender o pedido. Até que o cliente se dirige à vitrine e, indicador em riste, identifica o pedido. O que seria? Não sei, não vi! Já na mesa, achei piada ao facto de a mãe trazer na carteira uma latinha de chocolate em pó Toddy, que dissolveu no leite dos progenitores. Família cómica esta, que, face ao arrastado sotaque hispânico, não espanhol, apelidei de sul-americana. Findo o café, dirijo-me ao lavabo feminino. Para variar, era enorme a fila de potenciais candidatadas ao alívio da bexiga. Eis senão quando, saída sabe-se lá de onde, entra-nos porta dentro uma altiva e toda chibante madame, ostentando uns monumentais óculos escuros onde, em letras garrafais, sobressaíam as iniciais CK. Ou porque estava a rebentar, ou porque não se dava bem com bichas de pé descalço, vai de entrar no sanitário destinado às deficientes. Já aliviada e cá fora, grunhe qualquer coisa como têm aqui um sanitário vazio e estão para aí na bicha... E lá saiu porta fora, toda satisfeita e empertigada, julgando-se a esperteza personificada que deixa para trás um bando de mentecaptas. Só me apeteceu dar largas à mais brejeira liberdade de expressão. Contudo, mandou a decência e o decoro que me calasse... Costumo dizer que, presunção e água benta, cada qual toma a que quer!... Para início de andanças, não estava nada mal. Mal imaginávamos nós o que nos esperava pela frente...

Já no autocarro que nos levaria às benditas férias de sonho que, diga-se em abono da verdade era óptimo, datado de Janeiro do presente ano e passado o primeiro percalço de uma das malas ter perdido as duas rodas e ter a dobradiça do fecho um tanto empenada, tomámos o primeiro contacto com os nossos parceiros de aventura, motorista e acompanhante. Digo propositadamente acompanhante e não guia. E explico porquê! Guia é, ou pelo menos deveria ser, pessoa que guia, qualquer coisa que orienta, que dirige ou conduz1. Não o foi, de facto. Eventualmente estarei a ser demasiado dura mas, acima de tudo, honesta. Insignificante, estatura mediana, era senhor de uns assinaláveis vazios capilares. Pelos vistos, incomodativos. Para atenuar os ditos, puxava e repuxava tudo quanto era pilosidade da nuca para, de forma artística e engenhosa, pespegar e grudar no cocuruto, em untuosas camadas sobrepostas. Contudo, está bom de ver o que o vento gélido dos Alpes fez a tão engenhoso ardil... Quase fazia lembrar um célebre e burlesco político nacional, lá para os lados da Pérola do Atlântico... Mas não era tudo! Pseudo bem falante, frequentemente arrotava postas de pescada, convencido que tinha descoberto a pólvora sem fumo! Por exemplo quando, numa determinada conversa informal, referiu que os aquistas demandavam as termas para a ingerência das suas águas e inoculação dos seus vapores. Ou ainda quando, em San Sebastian, mencionou terem ali lugar inúmeros festivais de cinemateca. Também raramente mudava de roupa. Pasme-se, mas, para os oito dias da viagem, levava apenas um minúsculo saco preto!... Como se isto não bastasse, ao fim do dia e já nos hotéis, aquando da distribuição das chaves dos quartos, instalava-se o caos. Era tal a atarantação que, por mais de uma vez, um elemento do grupo mais afoito foi em seu socorro. De manhã, era quase sempre o último a aparecer, atido que estava a que o acordassem. Só marcava presença quando quase todos já tínhamos tomado o pequeno almoço e nos aprestávamos a seguir viagem. O motorista, por seu turno, era um porreiro! Do alto dos seus quase dois metros, certamente não faltaria muito para lá chegar, todo ele emanava simpatia e solicitude. Conversador nato, com uma veia cómica assinalável, era um viciado na arte do fumo. Cada paragem valia-lhe mais uns preguitos para o caixão, tal a avidez com que devorava cigarro após cigarro.

Agora o grupo. Coeso, gente simpática, bem educada e bem disposta. Composto, na sua maioria, por gentes da segunda idade avançada, já instalados na vida. E, pelos vistos, bem instalados. Sim, porque a esmagadora maioria da malta nova ainda não dispõe de meios, ou pelo menos de um pé-de-meia, para fazer face ao custo deste tipo de viagens. Intitulei este trabalho de Expresso Semi-Geriátrico porque, a par da tal segunda idade avançada, também por lá havia algum sangue na guelra. Nomeadamente uma galhofeira moçoila, cujo sotaque, carago, não enganava ninguém. Ai, carago, não, carago! Carago sim, carago! Afinal, o Puerto sempre é uma naçon e os dragões, pelo menos alguns, são gente de fibra e genica. Para já não falar da carioca porreta que também lá ia. Com estas duas gurias passámos um animado serão de conversas, não da treta, mas versando os mais díspares e diversificados assuntos. Não faltou o ocultismo nem as experiências paranormais. Lá mais para diante levantarei a ponta do véu!

Mas também lá havia outras personalidades dignas de nota. Como uma provecta senhora, de olhar gélido e sinistro, a quem pus o nome de Mortitia. Para quem não sabe, digo que é a mãe da Família Adams. Não que fosse parecida, pelo menos fisicamente. Nada disso! Bem pelo contrário, era o oposto da alta, esguia e lívida personagem vivida na tela pela Angelica Houston. A forma como olhava as pessoas e as interrogava quase nos intimidava. Mas também nos arrancou algumas gargalhadas. À socapa, claro... A venerável senhora trazia um neto que, sempre que podia, esgueirava-se para uma saleta existente na parte de baixo do autocarro, a fim de tirar fotografias com a sofisticada máquina que trazia, oferta do pai. Como nota final, digo que a senhora arrastava, penosamente, uma enorme mala que chiava por todos os lados. Imaginem a dita a gemer pelos corredores dos hotéis, manhã cedo, quase madrugada, rumo ao porão do autocarro.

Também lá ia um anafado e bem provido de carnes casal nortenho, protagonista de uma cómica cena em Interlaken. Preparados que estavam para tirar uma fotografia juntos, o homem a nós se dirigiu pedindo-nos para bater a chapa. Acto contínuo, entrega-nos a bolsa recheada de notas. A mulher, em pânico, desata aos berros com o marido porque estava a entregar a pasta com todo o dinheiro a perfeitos desconhecidos. Berraria instalada, cada um puxava a saca para si. Até que por fim, cansado de tanta luta, o cavalheiro elucidou a esposa que não se tratava de estranhos mas sim de elementos do grupo. Embaraçada, corada até à ponta dos cabelos, a senhora desfez-se em desculpas e penitenciou-se do acto.

A septuagenária cunhada atrás referida era um espanto! Uma autêntica leoa! Mulher de tutano, recusava sempre qualquer tipo de ajuda. Insistia que, sozinha, se desenvencilhava muito bem. E assim era, de facto.

Por fim, last but not least, uma sénior intelectual de esquerda, senhora de uma invejável cultura geral, esmerado civismo e perfeita dicção. Dava gosto ouvi-la falar. Baptizei-a de La Passionaria. Um dia, quando à nossa mesa se sentou para jantar, foi um regalo ouvi-la relatar coisas e loisas do antigamente. Do tempo da outra senhora. Esta autêntica enciclopédia andante teve ainda tempo para nos dizer o quanto havia ficado chocada com o último filme de Pedro Almodovar - Tudo sobre mi madre. Demasiado avançado para a sua filosofia de vida, confidenciou-nos. No último dia, à laia de despedida, brindou-nos com a récita de um poema de Miguel Torga.

Mas vamos às aventuras do semi-veterano grupo, embalado sempre, musicalmente falando, por cançonetas da Rafaella Carra, Al Bano & Romina Power e Mirreille Mathieu. Também, de quando em vez, se fazia ouvia a nossa Dulce Pontes e o melodioso Rão Kyao. Primeira paragem do percurso, Salamanca. Aqui apreciámos a belíssima Plaza Mayor, com as suas edificações ocres e as lojas nas arcadas cobertas por toldos amarelos. Degustámos um magnífico gelado de, imaginem, arroz doce - arroz com leche como dizem nuestros hermanos. Depois de um fatigante dia de viagem, eis-nos chegados a Burgos, berço de Fernán González, o herói nacional dos tempos da reconquista cristã frente aos Sarracenos, que passou à história como El Cid. Estamos frente à catedral, gótica, de beije pedra calcária, com a magnífica rosácea central e as duas bem delineadas torres que se erguem ao céu. Aprestamo-nos a entrar quando constatamos que é eminente o seu encerramento, face ao adiantado da hora. Com perícia, esgueirámo-nos por uma das duas portas laterais. Lá dentro extasiámo-nos com o seu interior, onde decorria uma cerimónia litúrgica. Já cá fora, ainda houve tempo para sermos mirones de um casamento que, pelas indumentárias, presumimos tratar-se de gente de posses. Ao redor da catedral, ex-libris da cidade, tudo nos lembra El Cid. Quase se sente a sua presença! É o hotel Mason del Cid e a cafetaria La Ruta del Cid. Também admirámos o magnífico Arco de Santa Maria. Dali rumámos ao hotel. Qual não foi o nosso espanto ao verificar que se tratava de um hotel de estrada. No meio de um ermo, num emaranhado de estradas e auto-estradas. Só me fez lembrar o Hotelíssimo de triste memória onde, em Julho, se despenhou o Concorde da Air France. Era tão bom que até os cães tinham entrada. Acompanhados pelos respectivos donos, bem entendido. Valeu o jantar. Ai que bem nos soube aquele esparguete com pimento picadinho e chouriço, que alguns, maldosos, disseram ter ficado no porco!... Isto de entrada, porque a seguir vieram umas costeletas de porco grelhadas com batatas fritas. Uma farturinha. De manhã, porque a estrada era longa, a alvorada foi ao raiar do dia. Para espantar o sono, vinha mesmo a calhar um bom banho. Contudo, este hotel era uma caixinha de surpresas e ainda nos reservava mais uma. Água para o banho, quem a viu? Alvíssaras a quem a encontrar... Assim, de forma inglória, foi adiado o primeiro lavatório em profundidade. Felizmente ainda houve umas gotas para enxaguar os remelosos olhos! Depois de um frugal pequeno almoço - café com leite, um pãozinho, uma madalena e meia dúzia de bolachas Maria -, rumámos ao País Basco. Terra quente por estes tempos. Não muito longe de Donostia, San Sebastian em Basco, deparou-se-nos pela frente uma barreira policial. Inspeccionava, a pente fino, um Uno vermelho. Reparámos nos guardas, de metralhadoras ao alto. Achámos estranho que, no meio de tanto aparato, um deles parecia desarmado. Engano nosso! De forma dissimulada, tinha na mão um fio que conduzia a uma fileira de pregos camuflada na estrada. Quem não parasse à ordem policial, ver-se-ia, de imediato, barrado pelos pneus esfacelados pelos cravos. Enfim, sinais dos conturbados tempos que por aquelas bandas se vivem. Atravessámos a cosmopolita San Sebastian, com a sua esplêndida marginal, a ilha de Santa Clara, a praia da Ondarreta - praia da concha -, que deve o nome à sua configuração e o hotel do monte Iguelva, de onde se tem uma magnífica vista sobre os fogos de artifício, lançados por altura das festas locais que decorrem em Agosto. Ainda o casino, a catedral gótica e o porto. Realce para o Hotel Maria Cristina, poiso das estrelas que demandam a cidade por ocasião do seu festival de cinema. Depois, a ponte sobre o rio Gornea e as tabuletas com indicações, primeiro em basco e só depois em castelhano. Por exemplo, Merkatal Zentrua para Centro Comercial. Prosseguindo, a meio caminho e ainda por terras Bascas, para desentorpecer as pernas e acalmar estômagos mais sôfregos, parámos numa cafetaria. Depois do café, acompanhado por uma generosa fatia de bolo de chocolate, vai de inspeccionar a zona envolvente. Linda, por sinal, velada por um ténue manto de neblina matinal. Aqui, deparei com uma árabe figura feminina que, salvaguardando as devidas proporções, me fez lembrar a Madre Teresa de Calcutá. De castanho vestida, tinha a cabeça coberta por um lenço, ou véu, branco. Achei curioso o facto de ter as falanges dos dedos das mãos manchadas com uma tinta castanha escura, quase preta. Prosseguindo, algumas horas volvidas, eis-nos chegados a Carcassonne, a belíssima e muralhada cidade medieval. Se às silenciosas pedras fosse dada voz, decerto relatariam inúmeras invasões e peleias, ocupadas que foram por povos tão diversos como os Romanos ou os Árabes. Destes últimos, não restam vestígios. Pelo menos nos edifícios, por via do curto período que aqui se mantiveram. Também não foi imune às investidas Nazis que, durante a II Guerra Mundial, aqui estabeleceram um dos seus muitos infames aquartelamentos.

Desta vez, o hotel era melhor. Um tudo nada melhor. Ancestral, para não destoar da paisagem, ficava muito perto da Porte Narbonaise, a única entrada do castelo ainda intacta, com a sua ponte levadiça em magnífico estado de conservação. Bem perto, um belíssimo e cintilante carrossel fazia as delícias de miúdos e graúdos. À noite, o jantar foi num típico restaurante do ancestral burgo. Com todo o requinte, diga-se de passagem. No interior, as prateleiras estavam recheadas de velharias e, a um canto, a figura de um cavalheiro medieval fitava os comensais. O repasto consistiu numa colorida salada, regada por um molho branco, como entrada. O prato principal foi um peito de frango enrolado e recheado de cogumelos, acompanhado de um aromático arroz e courgetes salteadas. Para sobremesa uma salada de frutas, ou sopa fria de frutas, que flutuavam num alaranjado molho. Curiosamente servida num prato de sopa e comida com uma colher também de sopa. Terminámos a noite deambulando pela cidade, explorando-a intra e extramuros. Como o corpo pedia clemência, a cama soube bem. Rompido o dia, rumamos agora à Suíça. Destino de pernoita, Genève. O caminho ainda era longo e deixámos para trás cidades como Montpellier e Nîmes com a sua arena romana. Após o almoço, parco face ao câmbio do pindérico escudo, circundámos Grenoble rumo à fronteira Franco-Suíça. Aqui, o controlo policial foi mais apertado. Não a nós, que estávamos no autocarro. O mesmo já não pode dizer um cidadão que, por via da sua escura cor da pele, melhor dizendo, por ser preto, viu o seu carro revirado e revistado. Sempre de forma meiga e carinhosa, pelos zelosos e competentes guardas suíços!... Já em Genève, pena das penas, o Jet d'eau estava desligado quando chegámos à cidade. Foi preciso esperar pela noite para o podermos apreciar, iluminado, esparramando litradas de beleza. Percorremos as marinas com os bonitos iates de velas ao vento, apreciámos os windsurfers, os barcos de cruzeiro turístico, alguns deles à imagem e semelhança dos seus congéneres do distante Mississipi e o lindíssimo relógio, todo feito de flores e arbustos, onde se mesclam as cores verde, amarela e bordeaux. Cruzámos as pontes contíguas ao Jet d'eau, estarrecemo-nos com os carros de grande cilindrada, as relojoarias, ou não estivéssemos nós na Suíça, os Bancos e as Companhias de Aviação de todos os cantos mundo, do Irão à Argélia. Ainda o monumento a Brunswik que, dizem as más línguas, pediu para ficar de frente para o lago. Contudo, quem lhe satisfez o último pedido pô-lo de costas. Como solução de recurso, dizem, lá colocaram um retrovisor para que pudesse deliciar-se com as cristalinas águas. Não confirmámos pois estava totalmente coberto, para obras de restauro. Prosseguindo, deparou-se-nos uma rotunda com uma descomunal cadeira de pau sustentada só com três pernas, visto uma delas estar totalmente esfacelada! Boquiabertos, questionámo-nos sobre o seu significado. Pasme-se, o nosso acompanhante não sabia o que era!!!!... Improvisou logo que talvez fosse a cadeira do poder e qualquer coisa sobre a sua efemeridade. Afinal, tratava-se de uma fora de série e bem concebida campanha anti-minas pessoais que, por esse mundo fora, tantas vidas ceifa e mutila. Seguiu-se o edifício das Nações Unidas. Abro aqui um parêntesis para falar de um cartaz do McDonald's que achei um espanto! Publicitava um dos seus afamados menus, desta feita o Mc Da Vinci. Para tanto, deitou mão ao excerto de um esboço do mestre renascentista, que francamente não sei como se chama, mas que, na parte dianteira, lembra quatro foices unidas em cruz e que figura no Codice Arundel.

Macchina croccante tutti-friti

Deram-lhe o nome de macchina croccante tutti-friti (la machine à frites). Como o nome sugere, talha de forma perfeita, dizem, as tão apaladadas batatas fritas mcdonaldianas. A Mona Lisa também lá está, deliciando-se com um pacotinho das ditas. Seguimos. Os aviões, mais que muitos, a cada passo nos zunem às orelhas. O aeroporto, necessariamente próximo, apareceu-nos numa placa toponímica assinalado como Palexpo. Espantou-nos a riquíssima comunidade islâmica, com os seus deslumbrantes e potentes carros e as mulheres que não dispensam o véu. Nem mesmo as crianças do sexo feminino de curta idade.

No dia seguinte, manhã cedo, vai de partirmos para a visita à Suíça. As paisagens e as videiras, geometricamente alinhadas, quase faziam lembrar os vinhedos do Douro. Os campos de milho a perder de vista, Lausanne e Friburgo. De relance, apenas, Vevey, sede da famosíssima Nestlé e última morada de Chaplin. O verde das montanhas, os bovinos bem nutridos e luzidios, as casas de madeira, belíssimas, as varandas repletas de sanguíneas flores, os telhados esguios e propícios ao escorrimento das neves, os túneis escavados na montanha, os varíadíssimos tons de verde das águas dos lagos, as rochas escarpadas e um longínquo cume coberto de neve, que nos desafiava. Para já não falar das sinuosas e labirínticas estradas que serpenteavam montanha abaixo e acima, aureoladas de brumosos diademas.

Estrada Alpina

Por fim, a lindíssima Interlaken que nos convenceu a comprar um relógio de cuco, tal era a variedade existente. Berna era a nossa próxima paragem. Lindíssima e imaculadamente limpa. O almoço foi no McDonald's. Para provar o Mc Da Vinci e constatar se, de facto, a tal máquina das batatas era eficaz. Seguiu-se a visita da cidade, algumas compras e as fotografias da praxe. O relógio da torre é semelhante ao de Praga. Lá está a figura masculina que segura uma ampulheta e se vai virando ao soar das horas, cantadas por um galo que se espavoneia com classe e distinção. E o urso. Uma estátua do dito que, curiosamente, está açaimado. Confesso que desconheço a razão. Este animal está por toda a cidade. Faz parte da sua heráldica. E isso tem uma explicação! Acontece que os fundadores da cidade buscavam um nome para a baptizar. Assim sendo, decidem dar-lhe o nome do primeiro animal selvagem que abatessem. Quis o destino que fosse um urso a aparecer-lhes pela frente. Berna rende-lhe as homenagens e, bem no centro da cidade, conserva um fosso com alguns destes mamíferos. Como no início referi, Berna foi cenário de uma contenda dos septuagenários irmãos do grupo. Quando foi satisfazer uma premente necessidade fisiológica, a velhota de tutano pediu ao irmão que a aguardasse à porta do lavabo. Como o tempo passava e eles até estavam em grupo, muito naturalmente este afastou-se e acabou por olvidar a sua vigilante missão. A pobre senhora, já mais aliviada, viu-se, num ápice, sozinha nas atarefadas ruas de Berna. Valeu-lhe um membro do nosso grupo que por ali passava. O seu anjo da guarda. O epíteto é dela! Escusado será dizer que, uma vez no autocarro, as palavras de reprimenda foram incendiárias. Enfim, sanada a discussão, depressa a harmonia se instalou. Segue-se Montreux, cidade dos festivais de Jazz e torneios de hóquei em patins. As fotografias no jardim frente ao Grand Hotel Suisse, a baía, os barcos e uma compatriota que a nós se dirigiu em efusivo cumprimento. Prosseguindo, agora sim, atravessámos Vevey. Por lá vimos um lindíssimo e multicolorido pavão, todo feito de flores e arbustos, que adornava uma rotunda. Depois Lausanne, a cidade olímpica pejada de bandeiras alusivas por via da sede do Comité Olímpico Internacional que aí se encontra.

Mais uma etapa. Agora rumo ao Vale d'Aosta, cruzando os Alpes. As vertiginosas montanhas, as florestas de pinheiros, as casinhas encarrapitadas nos montes, parecendo em equilíbrio periclitante e desafiando as leis da física e os túneis, os imensos túneis que esventram a montanha. O maior, o túnel de São Bernardo, liga a Suíça à Itália. Já em solo italiano, admirámos os chalets de montanha com os telhados cobertos de uma pedra toscamente cinzelada sob a forma redonda, lembrando o xisto. Dizem ser muito resistente ao frio e à neve destas inóspitas mas lindíssimas paragens. Não fora a bandeira tricolor que agora flutua nos mastros e diríamos estar ainda em solo helvético. Segue-se a Riviera Italiana, San Remo e por fim, através da Riviera das Flores, o Mónaco.

Monte Carlo - O Seaside Plaza

O estonteante e deslumbrante Mónaco e Cap d'Ail, onde Grace foi ao encontro da morte. Monte Carlo deixou-nos a todos de boca aberta. Vou tentar, por palavras necessariamente insuficientes e vazias de substracto, descrever o que as retinas, sortudas, puderam admirar. Os prédios, de uma arquitectura nunca vista, alguns totalmente assimétricos e acocorados nas veredas, as torres de apartamentos onde, nas varandas e terraços, sobressaíam jardins de frondosas árvores e as marinas repletas de iates. Grandes, pequenos, para todos os gostos e apenas algumas bolsas, o Museu do Instituto Oceanográfico e o Palácio dos Grimaldi, com os guardas trajados de branco, perfilados nas guaritas. Finalmente, a Catedral de Saint Nicholas, repouso de Grace Grimaldi, nascida Kelly. A heroína Hitchcockiana que, precisamente durante a rodagem de mais um filme do mestre - O Ladrão da Casaca -, filmado em solo monegasco, conhece aquele que viria a ser o seu príncipe encantado.

Monte Carlo – O Porto Hercule

Na sua fria e marmórea pedra tumular, pode ler-se Gratia Patricia Principiis Raineriis III Uxor Obiit Ann Dni MCMLXXXII. Ao cimo da inscrição uma cruz. Em baixo, uma coroa. Enfeitavam-na duas jarras de flores e três arranjos. Um deles em forma de coração com flores brancas. Ainda um punhado delas envolto em celofane. Ao lado, um outro túmulo ainda não identificado, obviamente, aguarda, silencioso. Talvez se destine ao seu príncipe... O crepuscular interior da catedral alberga uma imagem de Santo António, para os portugueses de Lisboa, para os italianos de Pádua. Ainda um magnífico e sentido Cristo crucificado e uma Santa Teresa de Lisieux, mais conhecida como Santa Teresa do Menino Jesus. Na fachada, a frontaria é encimada por um baixo-relevo de Cristo sentado, a mão esquerda sobre as Escrituras e a direita elevada em sinal de benção, com os dedos indicador e médio ao alto. Ladeiam-no duas aladas figuras angélicas.

Passando pela citadina pista do grande prémio de Fórmula 1 e pelo túnel onde os potenciais aceleras carregam no prego, rumámos a Nice, que dista a pouco mais de uma dezena de quilómetros. À entrada, admirámos o Promenade des Anglais, o celebérrimo Passeio dos Ingleses, a Praça e Museu Massena, o Hotel Negresco, as praias, a orla marítima e o movimentado aeroporto da Côte d'Azur à nossa direita. O jantar, supimpo e requintado, consistiu numa deliciosa e típica salada de atum niçoise, um borrego com ervas aromáticas regado com um avermelhado molho alcoólico, bem suculento, acompanhado de batatas e courgetes salteadas. Para sobremesa, duas fatias de queijo brie envoltas em folhas de alface e uma bola de gelado de baunilha com pêra em calda, cobertas com molho de chocolate. Depois da principesca refeição, o glamour monegasco. Se de dia o minúsculo Principado nos deixara espantados, agora estávamos perfeitamente atónitos e embasbacados com tanto luxo. Vimos carros que só o cinema nos havia mostrado. A mim, pelo menos. Eram Bentley, Rolls Royce, Ferrari, Jaguar e outros que nem sei identificar. No Hotel de Paris, quando nos ajeitávamos para tirar uma fotografia, fomos surpreendidos por uma arrogante madama, bem arreada e provida dos mais luxuosos acessórios, que nos enxotava como moscas que incomodavam o seu lauto jantar. Escusado será dizer que nos afastámos. Não fosse a criatura ter uma fúria e mandar tirar-nos a máquina. O fausto e ostentação à porta do Casino tirou-nos o fôlego. Era um autêntico atentado à pobreza que grassa por esse mundo fora.

Monte Carlo – O Hotel de Paris

Aqui todos parecem ter nascido com o rabinho virado para a lua... A bajulice ensopa a brisa nocturna. O pavoneio choca. A idolatria fere. Os magnatas, ou pelo menos os tidos como tais, nem se davam ao trabalho de estacionar os bólides. Qual deles o mais espantoso. Chegados, de imediato o porteiro galga as escadas e aceita as chaves da viatura para a estacionar num local próximo. Para estes senhores da massa há sempre lugar. Pudera! A mão que entrega a chave do carro também transporta, aconchegadinha, uma gorda nota de um qualquer banco! Ensaiamos uma ida ao Casino. Só para ver, pois as nossas tuberculosas bolsas não têm arcaboiço para tanto... No Café de Paris, os Versaces e Armanis pululam, para gáudio dos apalermados turistas.

Monte Carlo – O Casino

De repente, como que surgido do nada, aparece um descapotável Ferrari, cinzento, coisa nunca vista. Diz quem sabe que, desta cor, só por encomenda(!!!)... Do lugar do condutor, sai um atarracado varão, corpo coberto de surrada ganga e besuntado cabelo à escovinha. Não tinha mais de meia dúzia de palmos. Contudo, do lado do pendura, sai uma alta curvilínea, espantosamente vestida, de estola pelas costas. E loira! Está tudo dito! "Deve ser jogador de futebol", disseram muitos em uníssono murmúrio...

Dando seguimento à nossa viagem, recheada de surpresas, apreciamos agora a deslumbrante Côte d'Azur. As praias de areia grossa e predregosa, os solários, como chamei às espécie de jangadas flutuantes perto da praia para onde se vai a nado, povoados de corpos de carnes enxutas, uns e balofas, outros, que se abrem ao sol estival. Decerto também por lá haveria algum silicone... Segue-se Saint-Paul de Vence, vila medieval com as suas estreitas ruas, as calçadas de pedrinhas meticulosamente colocadas em forma de flor e já lisas e polidas pelos milhares de pés que as calcam diariamente, as galerias de arte, quase porta sim, porta sim e as casas que quase se tocam, de varanda a varanda. O barulho das cigarras embala a nossa caminhada até ao topo da vila. Segue-se Cannes. Ou melhor, primeiro Le Cannet. Antes, uma breve passagem por Grasse, a capital do perfume, onde a odorífera Fragonard tem a sua sede. Agora sim, eis-nos em Cannes. Aqui, tudo respira cinema e o seu festival. É o restaurante La Palme D'Or, a cabine telefónica em ferro forjado simulando um pedaço de celulóide e a câmara encimada por um emaranhado de película cinematográfica, também em ferro forjado, frente ao ainda atapetado de vermelho pavilhão dos festivais. Os prédios, as praias, o casino, a loja Calvin Klein e o Hotel Carlton que ocupa um quarteirão inteiro. Este serviu, em tempos, de cenário ao anúncio a um conhecido perfume. As portas abriam-se de par em par e figuras femininas gritavam Egoïste, Egoïste...

Cannes – Marginal e vista parcial do Hotel Carlton

Rumo a Marselha, nosso próximo destino, cruzámos o maciço de Estérel, Saint Rafael, sempre com a panorâmica da Côte d'Azur à nossa esquerda. Os iates de luxo, as vivendas sobranceiras ao mar com as suas azuladas piscinas e as escarpas pintalgadas com o branco casario. Chegados a Marselha, a cidade de Zidane, tomámos o primeiro contacto com a urbe que, em minha opinião e que me desculpem os franceses, é horrorosa! Pelo menos aquilo que vimos era!... Adiante saberão porquê. O arco do triunfo, quase à imagem e semelhança do da cidade eterna, o velho porto, repleto de barcos e veleiros, àquela hora de velas recolhidas, e o Chateau d'If, mesmo à nossa frente, misteriosamente envolto numa sombria e obscura névoa de fim de tarde. Quase me pareceu ver Edmond Dantes assomar a uma das janelas, em jeito de saudação. À noite, vai de descobrirmos a cidade. Um susto! Para chegarmos ao velho porto foi preciso caminhar mais de hora e meia, por entre um ambiente sombrio e medonho. As ruas eram uma nódoa pegada. O lixo, amontoado nas valetas, conspurcava as ruas e empestava o ar. Nas casas, decrépitas e sujas, viam-se roupas a secar à janela. Curiosamente, uma grande percentagem delas tinha antena parabólica. E o cheiro, meu Deus, o cheiro era simplesmente nauseabundo. Uma mistura de fétida urina e putrefactas fezes. Esgoto. Puro esgoto. Tudo isto, misturado com o aroma apimentado e adocicado das especiarias que provinha das roulottes de oriental fast food da numerosa comunidade magrebina, toldava-nos o olfacto. Antes de chegar ao porto, ainda passámos por aquilo que nos pareceu ser um bar de alterne, o Bar Des Dammes. No seu interior, uma mulher espicaçava os mortiços clientes dançando, sozinha, ao som de uma mexida música. Só visto...

No dia seguinte, a caminho de Irun, deparámo-nos com uma feira em frente ao hotel. De imediato um português a nós se dirigiu e ainda fez negócio com alguns elementos do grupo. Chamou-me a atenção, pena que já estava dentro do autocarro, uma tenda africana com umas espectaculares calças de capulana com motivos africanos. Através de Nîmes, Toulouse, Lourdes e o rio Garronne, lá chegámos a Irun, última pernoita do périplo. Nova aventura nos aguardava. Então não é que o acompanhante não sabia(?!) onde ficava o hotel? Perguntas e mais perguntas e eis que um solícito guardia civil se dispõe a ajudar-nos. Na sua potente mota, qual guarda de honra, indicou-nos o caminho. O hotel era muito bom. Pena que fora do perímetro citadino. Segue-se o jantar, com algum requinte. Uma entradinha de salmão fumado, queijo, fiambre, espargos e uma salada com maionese e azeitonas verdes, uma pescada cozida ao vapor com molho branco, ervilhas, gambas e cogumelos e, para sobremesa, fruta - maçãs, pêssegos, laranjas e ameixas rainha-cláudia. Chovia a cântaros quando nos sentámos no bar do hotel para tomar café. De imediato, a efusiva portista e a divertida carioca a nós se juntaram em amena cavaqueira. Falou-se de tudo. Novelas, teatro, cinema, mística. Sem que déssemos por isso, enveredámos pelo ocultismo. A carioca deu-nos a conhecer algumas histórias verdadeiramente arrepiantes, por si vividas. Como aquela da cobra que apareceu, vai-se lá saber como, no nono andar de um prédio de apartamentos!.. Ou aquela da figura branca, etérea, que fazia companhia a uma doente terminal e que a nossa interlocutora julgou ser um médico ou enfermeiro, uma vez que estava num hospital. Afinal, tudo indica que se tratava de um espectro... Só visto, ou melhor, só ouvido. A hilariante portista também não deixou os seus créditos por mãos alheias. Ou não fosse ela uma mulher do norte! Cada um de nós, à vez, contou esta ou aquela história. Desta forma soturna, mas deliciosa, entrámos no último dia da viagem. A custo, demos por terminada a tertúlia. Quase um convénio luso-brasileiro.

Debaixo de uma chuva intensa deixámos o País Basco, rumo a Tordesilhas, onde almoçámos. Antes, ainda cruzámos a localidade de Pancorbo, tornada célebre pela história do menino órfão acolhido por monges. Estou a referir-me a Marcelino, Pão e Vinho. Também por estas bandas foram filmadas algumas cenas de El Cid, a longa metragem protagonizada por Charlton Heston e Sophia Loren. Após o almoço, segue-se a fotografia do grupo. A chamada foto de família. Após as últimas compras em Fuentes de Oñoro e já em território luso, ainda há tempo para o discurso de um elemento do grupo. Um simpático engenheiro-coronel, ou vice-versa, que se fazia acompanhar da esposa. Com a emoção, referindo-se à cidade da Guarda, sede do seu distrito de origem, até a considerou uma vestuta cidade... Mas os discursos não se ficaram por aqui. La Passionaria, como a baptizei no início deste relato, não se fez rogada e vai de debitar o tal poema de Miguel Torga, com a garra e arroubo que lhe eram peculiares.

Aproximava-se o fim final. Na chegada a Coimbra, o grupo espartilha-se. Os do Porto seguem no autocarro e os de Lisboa no transfer que já os aguardava. Despedidas, promessas de escrita, de telefonemas, de e-mails e, ao que me foi dado saber, algumas lágrimas. Lá estava de novo o casal supostamente sul-americano com as duas criancinhas. Estas, ainda protagonizaram um pequeno percalço ao esquecerem uma mochila na área de serviço que nos forneceu o jantar. Señor, señor, por favor, la niña olvidou la bolsa en el restaurante...

Já em Lisboa, por volta das onze da noite, uma última paródia!... Imaginem as duas malonas, uma delas já sem rodas, penosamente arrastadas, avenida acima até ao hotel. O equilíbrio, necessariamente precário face ao peso e ausência de rodas, quase nos fez entrar em descontos. Isto porque, por mais de uma vez, a mala sem membros tombou muito próximo das montras da avenida.

Agora sim, acabou a história. Para o ano haverá certamente mais e, quem sabe, melhor. Pelo menos diferente e por outras latitudes e longitudes.

A ver vamos...

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* Assistente Administrativa Principal do Instituto Superior Politécnico de Viseu.

1) Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 8ª edição, Janeiro/2000.

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