De Kombach à Beira Alta, ou de como o

Volfrâmio me fez "entrar"

na Segunda Guerra Mundial

 

VASCO OLIVEIRA E CUNHA *

Reli recentemente o guião de Der plötzliche Reichtum der armen Leute von Kombach ("A súbita riqueza dos pobres camponeses de Kombach"), filme-balada de Volker Schlöndorff(1) e Margarethe von Trotta, sua mulher, que os cine-clubes portugueses passaram em 1972, construído a partir de uma velha crónica judiciária de 1820 do estado de Hesse, na Alemanha central, membro da confederação germânica arquitectada no Congresso de Viena de 1815(2) como herdeira do Sacro-Império, "cidadela de particularismo", como lhe chamou Georges Duby, defensora tenaz dos interesses dos Habsburgos e dos pequenos estados, cedo tornada entidade anacrónica com o despertar vigoroso das ideias unitárias prussianas, o império alemão nascendo, com Bismarck(3), de uma confederação da Alemanha do norte, alargada, depois da guerra franco-prussiana de 1870, aos estados do sul.

Narrativa do assalto dos camponeses de Kombach à malaposta que todos os meses ligava Biedenkopf a Giessen carregada com o ouro dos impostos cada vez mais pesados para restabelecer o equilíbrio financeiro desfeito pelas guerras napoleónicas; acto de desespero gerado na miséria extrema, na fome, na destruição dos sonhos, na convicção profunda de que na Europa já não havia salvação; repulsa pela injustiça, pela violência e pela violentação da inteligência, como animais de tracção os homens arrancando a madeira à floresta, carregando-a nos ombros fragilizados, os dorsos eternamente curvados para o chão, as mulheres arrastando pelas encostas o arado a troco de quase nada, na escola os filhos recitando a poesia romântica de Gellert(4), o agradecimento à divindade pela dádiva da inteligência, da força, da ordem, a educação colocada ao serviço da repressão; convite à reflexão profunda do êxtase da contemplação quase mística do ouro do cofre violado, silêncio quase de morte, os olhos escancarados não cabendo no rosto, a respiração suspensa, como se a vida se tivesse extinguido no universo, e da explosão de volúpia que se lhe seguiu, o impulso irreprimível, vindo não se sabe de que profundidades, de desnudar o tronco, de afagar o ouro com mais ternura que o corpo da mulher amada, de o fazer deslizar suavemente por todos os interstícios da pele, beijando-o repetidamente, a esperança do findar da rotina da fome antiga e da opressão; da compra desatinada de todos os sabores e de todos os atavios que o mercado de Giessen lhes podia oferecer - as carnes, as frutas, a doçaria, as sedas e os couros, as lãs e os algodões -, todos os privilégios dos ricos e dos poderosos; do esquecimento fatal de que o dinheiro na mão dos pobres sempre desperta suspeitas; da prisão dos sete assaltantes, dois deles pondo termo à vida, incapazes de suportarem a desonra e o estigma da submissão a um processo público difamante, os restantes autocriticando-se, declarando o arrependimento e a aceitação da moral e da justiça da sociedade que os explorava; da punição exemplar, a afirmação do poder fortalecido, ilimitado, dos senhores feudais, consequência do fracasso da revolução burguesa na Alemanha.

O regresso ao texto alemão avivou-me memórias antigas do tempo dos volframistas, dos que se proletarizavam na mina industrial(5) e dos privados, esgaravatando courelas e alqueives, esventrando belgas e lameiros, "esgaigando na seara e no maninho", como escreve Aquilino, toupeiras insaciáveis arrancando à terra o pó mineral negro e denso que endurecia os canhões que incendiavam a guerra; dos domingos de vertigem da minha aldeia, depois da missa a rua transformada em feira de vaidades, homens e mulheres desfilando na passerelle do macadame "picado de furunculose", eles, pedalando Dinâmicas esplêndidas(6), fato azul ou cinzento escuro de algodão quando o calor apertava, de caxemira no pino do inverno, quatro ou cinco canetas de tinta permanente inúteis imobilizando a dobra triangular de um lenço ora branco ora vermelho que emergia do bolsinho do lado do coração, colete da mesma cor adornado com um fio de prata fina emalhada que prendia o último design de um cronómetro Roskopf, gravata ampla de seda, riscas diagonais de ouro, nós quase invisíveis, calça larguíssima apertada por uma mola da roupa para a poupar da corrente oleosa da máquina, um espelho circular no topo de uma haste metálica fixada no guiador reflectindo rostos sorridentes, felizes, vencedores, enriquecidos, e o brilho sedoso de uma vaga imensa de cabelo cuidadosamente tratada com Brylcream, o fixante da moda, para não encapelar com o vento, fazendo lembrar gangsters dos filmes rodados nas ruas da Chicago nos anos vinte; elas, no frenesim dos preparativos para o jantar(7), uma toalha branca escondendo da curiosidade da rua as iguarias que cozinhavam no forno colectivo, blusas de filó finíssimo, engomado, popelinas de tons claros, vivos, as mais ousadas arriscando socialmente a transparência da cassa de linho ou de algodão, saia branca plissada cobrindo bem os joelhos, o pescoço de ouro, quatro ou cinco voltas de um cordão que se esgotava na cruz da sua devoção balançando no peito farto, a permanente com a assinatura do cabeleireiro mais conhecido da cidade.

Para trás pareciam ter ficado sepultados para sempre os anos sombrios das chitas estampadas, desbotadas, do surrobeco grosseiro, coçado, dos andrajos pobríssimos de burel e de fioco crivados de remendos remendados, tantos que quase escondiam a matriz primitiva, as carnes enxutas, macilentas, de uma mesa magríssima de petinga, pão de milho amarelo e batatas sem tempero.

As tardes soalhentas eram tempo de socialização, de discussões acaloradas e ruidosas, homens e mulheres atropelando quilos de volfrâmio com contos de réis amealhados, cada qual tentando emergir como campeão e campeã dos pesquisadores, e com os sabores das delícias do jantar, o pão-leve(8) enxugando o prato da sopa, o cabrito e o perú assados com intermezzos de vinho de rótulo, as migas gordas, porco cozido servido com centeio ou trigo regados com azeite ou temperados com banha, a taça de champanhe como tranca do repasto; de histórias de tibornas e de traficâncias, os da separadora(9) vendendo à Alemanha gato por lebre, areia por volfrâmio, quando os nazis começaram a perder a guerra, avisando depois os aliados para que os barcos não chegassem ao seu destino e o crime ficasse sem castigo; de preocupações pelo pulsar do conflito para fazerem contas à vida, no silêncio que a custo se instalava erguendo-se então, convidado, o meu discurso ingénuo e tosco regurgitando as lições aprendidas dia após dia, religiosamente, num velho mapa da Europa e da África do Norte que meu avô trouxera para casa das suas andanças pelo mundo e onde minha mãe alfinetava bandeirinhas verdes de esperança para as vitórias dos aliados e negras de luto para os êxitos alemães e italianos de acordo com as notícias da BBC trazidas por um rádio velhíssimo alimentado por baterias de automóvel e os relatos do "Comércio do Porto", eu, inchado pelo grande plano que as luzes da ribalta do meu mundo me concediam por instantes, crescendo um palmo, um metro para dizer toda a verdade, gaguejando em 42 do alto dos meus anos poucos os avanços e os recuos dos aliados na luta com o exército de Rommel, a raposa do deserto, antes das conquistas libertadoras em Tobruk, al'Alamain, Bizerta, Bengazi..., a ofensiva dos alemães em Estalinegrado e a defesa tenaz da cidade pelos soviéticos; as vitórias dos submarinos nazis no Atlântico e dos japoneses no Sudeste asiático, estas sem o testemunho do meu mapa, que ele não abarcava tantas lonjuras; a ideia do equilíbrio das forças e de que a guerra estava ali para durar, a perspectiva que mais convinha aos pesquisadores.

Depois, em 43, quando já aprendera a ler e minha mãe me responsabilizara pela actualização dos cenários do conflito, a minha voz cantando aos domingos o encurralar do exército do general Paulus na frente russa, os bombardeamentos aliados no norte de França, em Paris e em Berlim, nos poços petrolíferos romenos ocupados pelos alemães, o desembarque aliado na Sicília e a rendição das tropas fascistas de Mussolini, a queda de Kiev, a Europa começando a pintar-se de verde, o "Deutschland über alles", o hino alemão, um ruído a extinguir-se. Hitler estava a perder, os volframistas começavam a coçar a cabeça, o paraíso da abundância prestes a dissolver-se e as minhas audiências também, só muito poucos estando interessados ainda nas vitórias americanas e chinesas no Pacífico e na Birmânia em 44, nos desembarques em Marselha e na Normandia e na libertação quase total da França, nos avanços na Roménia, na Bulgária e na Grécia. Na chegada dos aliados à Linha Siegfried(10) e ao Reno e nos campos de concentração nazis semeados um pouco por todo o Leste.

Reduzida a um valor de sucata, a mina encerrara já e os independentes reiniciavam a rotina das suas vidas engrossando ranchos de ratinhos que os engajadores dos patrões alentejanos, os moirais, como eram conhecidos, conduziam para montes e montados, para as herdades de Palma e Torrão, para Pinhal Novo e Alcácer, Poceirão, Montemor, ... o regresso à terra, à vinha e ao olival, ao arroz e à seara. Ao chaparral. Os que permaneciam na aldeia reencontravam a velha pobreza milenar na recuperação lenta das feridas que o minério deixara bem abertas no solo.

Separados no tempo por mais de um século, os camponeses de Kombach e os da minha aldeia agarraram momentaneamente a fortuna. Através da aventura irreflectida, canonicamente ilegítima, os alemães; pelo trabalho duríssimo, os pesquisadores do volfro, a arma ácida e única com que a vida sempre contemplou os pobres, todos mergulhando no perfume e nos sabores do ouro, as mentes amolecidas pela opressão recriando abundâncias míticas dos poderosos e de países distantes; da América, terra onde se comia tantas vezes carne como na Europa o pão, e onde os que trabalhavam a terra e a floresta eram senhores do seu próprio destino, a incapacidade de vencerem a ilusão, o sonho e a crença na predestinação das suas vidas. De equacionarem, dentro do sistema, formas de libertação.

BIBLIOGRAFIA

Antologia de Poesia Alemã (Selecção e Notas de Wolfgang Kayser, Paulo Quintela e Albin Eduard Beau). Lisboa: Instituto de Cultura Alemã, 1944.

Duby, G. Atlas Histórico Mundial. Madrid: Editorial Debate, S.A. (Edição actualizada a 1993). Título original: Atlas Historique Mondiale. Paris: Librairie Larousse, 1987.

Gettel, R.G. História das Ideias Políticas. Lisboa: Editorial Inquérito, Ldª, 1950.

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (Vol. XXXVI). Lisboa, Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia, Limitada, s/ data.

Grand Larousse Encyclopédique (tome neuvième). Paris: Librairie Larousse, 1964.

Lewandowski, R. Die Filme von Volker Schlöndorff. Hildesheim - New York: Ohms Presse, 1981.

Ribeiro, A. Volfrâmio. Lisboa: Livraria Bertrand, 1960.

The New Caxton Encyclopedia (Vol. 3). London: Caxton Publications, Limited, 1979.

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* Vice-Presidente do Instituto Superior Politécnico de Viseu e Director de Millenium.

1 Volker Schlöndorff nasceu em Wiesbaden (Alemanha) em 1939. Os seus primeiros contactos com o cinema tiveram lugar em Paris, cidade onde estudou. Também em França, realizou a sua primeira obra (1960), um documentário sobre exilados franceses durante a guerra da Argélia, proibido pelas autoridades. Das suas longas-metragens destacam-se aqui "O Jovem Törless" (1966), baseado no romance "Die Verwirrungen des Zöglings Törless", de Robert Musil (1906), denúncia dos sistemas totalitários e repressivos, símbolo de protesto contra o sacrifício político da liberdade individual; "Michael Kohlaas, o Rebelde" (1969) e "Fogo de Palha" (1972). O Círculo de Leitores publicou em 1997 uma tradução do romance de Musil.

2 O Congresso de Viena reorganizou a Europa com desprezo pela vontade dos povos e com o beneplácito dos príncipes, "temperando o desejo de equilíbrio europeu em benefício das grandes potências" (Georges Duby, op. Cit., p. 82), dividindo os despojos dos vencidos pelos vencedores, restaurando as monarquias europeias e as instituições anteriores à Revolução Francesa, nomeadamente as monarquias de direito divino, absolutistas, no plano político e ideológico, e, na vida económica, ressuscitando os princípios mercantilistas em oposição às políticas de livre-câmbio.

3 Otto von Bismarck (1815-1898) ficou conhecido como o "chanceler de ferro" pelo rigor manifestado na primeira unificação alemã, garantindo a supremacia prussiana.

4 Christian Fürchtegott Gellert (1713-1769) foi professor da Universidade de Leipzig e o poeta alemão mais lido no seu tempo.

5 A mina de Sangarinhos situava-se nos arredores de Viseu, entre as serranias da Muna e do Facho.

6 Dinâmica era a marca de bicicleta mais conhecida no mercado português nos anos quarenta.

7 Na complexa cronologia das refeições, as breves e as mais elaboradas, o jantar tinha lugar entre o meio-dia e a uma da tarde.

8 Designação local para o pão-de-ló.

9 A volframite, nos minerais, encontra-se associada com cassiterite, quartzo e outras gangas, sendo a sua separação realizada por processos mecânicos dada a sua elevada densidade.

10 A Linha Siegfried era um sistema fortificado semeado de minas anti-carro e anti-pessoais organizado pela Alemanha entre Basileia, Saarbrücken e Aachen em 1937.

SUMÁRIO