Batuque no Monapo

(Única recordação de minha passagem por Moçambique (1947-1965).

Outras se perderam.

 

RUI TORRES DE ALMEIDA *

Pairam nuvens altaneiras

A noite desce às sanzalas

Cantando canções guerreiras

Negros acendem fogueiras

Todo o mundo veste galas.

Rompe o silêncio um tambor

Jovens de lábios pintados

Ensaiam estranhos bailados

Cantando canções de amor.

Coloridas capulanas(1)

Um mar humano em orgia.

Sipais(2), mainatos(3), "mufanas,"(4)

Marrússis(5) e metianas(6)

Tudo baila neste dia!

O luar enamorado

Beija as folhas do sisal

Dando ao céu estrelado

Cintilações de cristal.

De "Jagaia", de Nampaco,

Do mais longínquo sertão,

Uma imensa multidão

Veio contar ao Monapo

Histórias da tradição.

A brisa agita as palmeiras,

Invade-me a nostalgia.

Morreu a luz das fogueiras,

Rompe a manhã, já é dia!

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* Um Homem da Beira.

1 Espécie de capa que usam as metianas e marrússis de panos coloridos e vistosos.

2 Sipal, sipai ou sipaio: soldado ao serviço nos postos administrativos em Moçambique.

3 Criado que passa a roupa a ferro e a lava.

4 Nome dado aos rapazes no sul de Moçambique.

5 Raparigas macuas.

6 Mulheres macuas.

SUMÁRIO