James Joyce & Jornada para Ítaca: do escritor "viseense" ao lugar do cânone

 

Martim de Gouveia e Sousa *

 

"Eu nasci em Vizeu - mas sou do mundo! E quem

me déra ser absolutamente de Vizeu!" (A. Alves Martins)

 

0. Calmo corre o dia de qualquer Agosto. A Biblioteca Geral é labirinto e fascínio, logo me pesando a angústia da influência do eco tomado de Aguiar e Silva. Pedi os livros junto aos desejos e estou no tempo suspenso da espera. Intenso, desmesurado. Vem a memória. Penso no asserto do notável e tão esquecido poeta António Alves Martins, e logo concluo que do mundo é o cheiro quente da maresia tensa de um Luís Miguel Nava ("O mar, no seu lugar pôr um relâmpago."), a rudeza torcicolada das intempéries aquilinianas, o mimetismo real de um Samuel Maia, a ousadia libertatária de um António de Albuquerque, a mágica alquimia de um João Pedro Grabato Dias (que a tantos escandalizou por honesto se achar perante si), a chuva impiedosa que cai em afago na vibrante Judith Teixeira (que uma Maria Teresa Maia Carrilho e um René Garay dedilham com mestria na língua de Keats e de Cummings), o sopro sapiencial e discreto de João Fonseca Amaral que tão bem disse o exílio naquela estrofe "Longe embora cidade paráclita / a língua se nos cola ao céu da boca / se vier o olvido." (e sempre redivivo pelo trabalho maiêutico de um Eugénio Lisboa), a presença tutelar de Vergílio Ferreira e do halo serrano das origens que nos abala até à fímbria do ser, a escrita estranha e tensa de um Branquinho da Fonseca (que, como diria um David Mourão-Ferreira, exala um forte poder atractivo), a maravilha e o encantamento das histórias infantis de uma Ana de Castro Osório que assim inscreveu no livro da eternidade a fidelidade ao amor, à amizade e ao dever, o vezo histórico de António da Silva Gaio, o romantismo à Musset de Fausto Guedes Teixeira, o anterianismo e a perseguição poética de Carlos de Lemos e o vôo cultural com a publicação literária periódica Ave-Azul, o feminismo suave e nem por isso menos actuante de Beatriz Pinheiro e, por último, o segredo clandestino e definitivo de António Franco Alexandre "que diz bom-dia quando a gente passa / e, indiferente, segue em frente."

Estala a madeira do soalho. Ainda não é para mim. As águas do sonho embalam a barcaça para Ítaca. Vem a memória. Chega Ulysses absolutamente do mundo e da circunstância.

1. Há livros assim. A partir deles, da sua chegada, nada do que havia sido dito se mantém, nada do que acontece depois poderá permanecer indemne à angústia da influência. Joyce é um ponto nodal da literatura de sempre. Não há discussão. Com Shakespeare, o inventor do humano, e com Baudelaire, o mittelpunkt da literatura moderna, Joyce habita uma cidade inexpugnável à qual é necessário chegar. No fundo, quaisquer tentativas hermenêuticas, nos seus modos distintos de assunção - seja na vertente metodológica de um Schleirmacher ou de um Dilthey, seja ainda na perspectiva ontológica de um Heidegger ou de um Gadamer, seja também na visão criticista de um Habermas ou de um Apel, seja no modo desconstrutivista de Derrida, seja por último no jeito pragmatista de Rorty - deveriam come-çar a testar-se nesse imenso e incontornável romance, visto intraorganismicamente e no debate com a recepção textual, que é o Ulysses .

De facto, a teia hermenêutica utilizável para uma tessitura sígnica tão codificada, ou melhor, tão alterada, deverá conglobar, na medida do possível, o labor da abordagem textual, o exercício do modo de ser, a preocupação epistemológica, a consciência da inexistência da plenitude do sentido e, por último, o seu pendor praxístico. Assim, o arco hermenêutico que aqui proponho, adaptado ao modelo textual que a titulação implica, é uma sombra do texto que enforma as multímodas contribuições e paradigmas interpretativos.

 

2. O texto joyceano ou joyciano, de nome Ulysses , é uma marco da literatura universal. Com ele, James Joyce instaurou a guerra das palavras. Dessa luta sai vencedor o escritor irlandês, que prova, pela força da digladiação das palavras e pelo seu carácter redentor, poder escrever e ocupar um espaço antes sitiado. A criação de um texto como este é a verificação de uma força hercúlea que a todos afecta e transforma, reganhando um locus que afecta em catadupa os escritores de sempre, repulsando uns para as margens e convocando outros para o centro. Assim, neste contexto, o intérprete levanta a âncora e iça ao vento os preconceitos decodificadores:

 

PROVOCAÇÃO

 

Disse um George Steiner: "To read well is to take great risks. It is to make vulnerable our identity, our self-possession. (...) He who has Kafka's Metamorphosis and can look into his mirror unflinchingly may technically be able to read print, but is illiterate in the only sense that matters."

DISSEMINAÇÃO

 

Stendhal, no seu Le Rouge et le Noir (1830, II, cap. 19), escreve: << Un roman est un miroir qui se promène sur une grande route. Tantôt il reflète à vos yeux l'azur des cieux, tantôt la fange des bourbiers de la route.>> Em português, temos: "Um romance é um espelho que se passeia ao longo de uma estrada. Tão depressa reflecte aos nossos olhos o azul dos céus como a lama dos lamaçais da estrada." (tradução de Maria Manuel e Branquinho da Fonseca).

Walt Whitman, na "Song of Myself" (1855), confidencia: << I do not give lectures or a little charity,/ When I give I give myself.>> Um também poeta americano, Robert Frost, em entrevista de 1964, "define" assim poesia: <<Poetry is what is lost in translation. It is also what is lost in interpretation.>>

E para que o fastio de citações não se cumpra, finalizaremos a apresentação, dizendo: que Tennyson gritou para a noite dos séculos "And none can read the text, not even I; / And none can read the comment but myself." (Idylls of the King , 1859); e que Joyce gritou para todo o sempre "That ideal reader suffering an ideal insomnia." (Finnegans Wake , 1939).

Em conclusão, como judiciosamente o notou há dois séculos Isaac D'Israeli - pai do arquifamoso Benjamin Disraeli - existe uma arte de ler, como existe uma arte de pensar ou uma arte de escrever. (The Literary Character , 1795)

 

RECOLECÇÃO

 

Ler bem é ler por dentro. O espelho do texto mostra ao sagaz leitor os trabalhos de deuses. Ler bem é desvelarmo-nos por dentro. No reverso espelho, estamos nós. A urdidura textual é especular, para dentro do texto, ao divino, para dentro de nós, em devassa. Assim se mostra o criador, sem se dar. Aí começa o trabalho do leitor, insónia activa pela vida do texto dentro de si. O texto existe em mostração. Mas como exaurir-lhe a pureza, esse muito-dentro da criação, se a arte percutiva da leitura age sobre o criado num longe-perto da criação?

O texto é a cidade que a leitura quer habitar. O leitor toca o criador e a criação. Todos se agitam. O leitor-intérprete, através desse frémito sem sono, derruba a muralha e funde-se no dentro-fora do texto do autor-intérprete. E o fora do texto choca agora com a concepção de obra de arte do new criticism , desapensa de intenções, emoções e paráfrases, uma entidade autónoma, sem história. A intenção do autor é valorizada na hermenêutica recognitiva de Hirsch; a reacção do leitor é enfatizada na estilística afectiva de Stanley Fish; o "mundo" é valorado na crítica sociológica de Edward Said... E assim a arte da leitura se torna difícil, nesse dia sempre inacabado da perscrutação que nos modifica e nos torna diferentes. Se calhar, o pestanejar do depois-do-texto-para-lá-do-texto afirma também que o guardião textual, o autor e a sua fé, não consegue dizer o desejado; da mesma forma sabemos que do texto faz parte o que não foi lido pelo leitor. O texto, nesta luz especular e estratificada, não mera soma de subtextos e intertextos, será também o que se perde na criação e na leitura. E aqui chega o contexto, que ilumina e mostra e ajuda, porque o texto, esse, é palavra de homens-deuses e não de Deus.

Concluo, com Vergílio Ferreira, tirando-lho um asserto dos muitos que nos legou:

 

REVERSO PROVOCATÓRIO

 

" São estes os leitores da minha profunda afeição, porque falam pelo lado de dentro, onde os críticos normalmente não entram. Porque se ficam de fora a admirar o palácio, se acaso o admiram, mas não sabem e não sentem a alma que o habita, nos salões, nos corredores, nos recantos de um maior recolhimento." (Conta-Corrente (Nova Série) , vol. III, Venda Nova, Bertrand Editora, 1994, p. 9)

 

E agora seria o tempo de voltar ao princípio, ou seja, a George Steiner, e mostrar de novo a minha ferida... Mas, não há como sobrepassar a jornada de Leopold Blomm que a seguir se indagará.

 

3. James Joyce nasceu em 2 de Fevereiro de 1882, perto de Dublin, em Rathgar. Seis anos passados, ingressou no Colégio dos Jesuítas de Clongowes. Pouco tempo depois, aí por 1891, ano em que, por razões económicas, foi obrigado a ingressar numa escola mais barata e protestante, descobrem-se-lhe os primeiros tentames literários. Em 1893, deu entrada, gratuitamente, no Colégio Jesuíta de Belvedere, vindo, em 1898, a ser admitido na University College , instituição católica da Universidade de Dublin.

Fascinado por Ibsen, publicou, em 1900 - ano em que, indiciosamente, faleceram vultos culturais importantes como um Eça de Queiroz, um Oscar Wilde, um Nietzsche ou um António Nobre, que aproveito para homenagear - , um artigo dedicado ao escritor norueguês, com quem, aliás, entabulará correspondência. Cumprida a graduação em 1902 (Bachelor of Arts in Modern Languages ), viaja até Londres e Paris, iniciando, no ano seguinte, o também cultuado Dubliners . Em 1904, publicou diversas composições poéticas em revistas e viajou com Nora Barnacle por Zurique e Pola. Em 1905, iniciou a sua carreira docente na Berlitz School de Pola , donde transitou para a homónima de Trieste, surgindo-lhe, enquanto trabalhava uns meses em Roma, as primeiras ideias para The Portrait of the Artist as a Young Man e Ulysses. Como aluno particular, sinal do nível pedagógico de Joyce, conta-se o ainda escassamente conhecido Italo Svevo. No ano de 1907, publica Chamber Music, saindo a lume, volvido quase lustro e meio, Dubliners (1914). No ano anterior, em 1913, fora nomeado para a cátedra de Inglês da Escola Comercial Revoltella , em breve integrada na Universidade de Trieste. Em 1916, deu-se à estampa The Portrait of the Artist as a Young Man, e, em 1918, Exiles .

Em 1920, instalou-se em Paris, onde travará conhecimento, entre outros, com Valéry Larbaud e Ezra Pound. O espírito odisseico do escritor irlandês em breve chegaria ao fim dessa incomparável viagem (VALVERDE, s.d., p. 11) iniciada, ainda seminalmente, no já longínquo ano de 1906, com data de arrancada por 1914 e agora chegada ao tempo do fim. Joyce, em 1921, concluiu o Ulysses, publicando-o na não despicienda data de 2 de Fevereiro de 1922. Afinal, nesse monumento perene estava a sua vida, ainda que, logo de seguida, se lhe tenha colado a ideia do inclassificável Finnegans Wake , que viria a iniciar no ano de 1923.

O tempo vai poendo. Joyce regressou à poesia com Pomes Penyeach (1927) e com Collected Poems (1936). A par dessa incursão lírica, vai publicando fragmento da sua "work in progress" Finnegans Wake , que verá, em curiosa atinência com Dubliners (obra publicada no início da I Guerra Mundial, em 1914), a luz do dia no ano de 1939, ou seja, no dealbar da II Guerra Mundial. E, afinal, a subversão verdadeiramente superior estaria de facto nos textos e na leitura deles.

Com inconclusos 62 anos de idade, Joyce abandonou o corpo e subiu ao Olimpo. Como um eco de si, voz por sobre a morte e por sobre os tempos, um póstumo Stephen Hero (1944) relembrou, se tal fosse preciso, que o avanço da narrativa joyceana era uma revolução tão completa quanto o era a teoria da relatividade na física, ou o vanguardismo na poesia, ou o cubismo na pintura, ou o funcionalismo na arquitectura... Igual? Mais profunda, porque mais avassaladora e fundacional. A partir de si, desde a flor-da-pele até à alma profunda, o homem é um ser feito de linguagem, que é corpo e é palavra.

 

3.1. Ulysses , 1906-1914-1922. A ideia, a palavra de Trieste e o seu corpo. Mas o dia 16 de Junho de 1904 é também uma data indefectível no imaginário joyceano. Nessa noite, na vida real-real, Joyce saíra pela primeira vez com Nora. No real-ficcional esse dia ficaria gravado no Ulysses , associando-se-lhe, para todo o sempre, o Bloomsday e o Doomsday , libação celebrativa do valor da refundação linguística operada pelo logoteta irlandês.

Ulysses divide-se em dezoito capítulos heterógeneos. A sua acção inicia-se às 8 horas da manhã do Bloomsday e transcorre durante mais dezoito horas, repetindo, gostosamente, as primeiras três horas dos personagens principais Leopold Bloom e Stephen Dedalus.

Romance da deriva da mente e da "palavra interior" - o que corresponde à stream of consciousness de Henry James -, a "angústia da influência" leva-nos à primigénia Odisseia que os capítulos de Ulysses permanentemente convocam.

O entrecho, se tal lhe podemos chamar, é "linear" (leia-se tergiversativo): Stephen avança da fortificação onde vive em comunidade (a ela "não podendo voltar" por não possuir chave, depois de conversa com os seus novos possuidores), esgotando o tempo de "exílio" na regência de uma aula, na errância por Dublin e na compulsão erudita na Biblioteca Nacional; Leopold Bloom, publicitário, nesse mesmo tempo, leva o pequeno-almoço (chá e pão) à cama da sua bela e perversa mulher, sai de casa para assistir a um enterro e trabalhar brevemente, almoça, passeia pela cidade pensando no desvario amoroso da mulher, come de novo ao sabor da música, ouve um nacionalista irlandês, observa na praia uma jovem exibicionista, visita uma maternidade (onde se interessará por uma vizinha) e aí conhece o jovem Stephen, avançam ambos para os bordéis, Stephen é sovado por um soldado, Bloom condu-lo para sua casa e oferece-lhe uma chávena de cacau, antes de o despedir. Em apêndice a esta só aparente monotonia, existe um importante solilóquio de Molly Bloom, em estado de quase-adormecimento, no qual revela os acontecimentos eróticos do dia e a vida passada. E a tudo segue a sua rotina...

 

3.1.1. TELEMACHUS . 8 horas da manhã. Stephen Dedalus e a higiene diária. A paró-dia de uma missa : Introibo ad altare Dei. Duelo ao espelho, enquanto faz a barba: Stephen bent forward and peered at the mirror held out to him, cleft by a crooked crack, hair on end. As he and others see me. Who chose this face for me? This dogsbody to rid of vermin. (p. 6)1 Pequeno-almoço comunal e saída em conjunto. Stephen vai dar uma aula, que se materializará à frente: That phrase the world had remembered. A dull ease of the mind. From a hill above a corpsestrewn plain a general speaking to his officers, leaned upon his spear. Any general to any officers. They lend ear. (p. 24) Presença obsidente da "palavra interior" durante todo o "travejamento", como diria Ezra Pound: Folded away in the memory of nature with her toys. Memories beset his brooding brain. (p. 10)

 

3.1.2. NESTOR . Stephen arrasta a sua aula numa escola de meninos bafejados pela sorte e recebe o salário.

 

3.1.3. PROTEUS . Da escola para Dublin, Stephen, em monólogo pela praia fora, presentifica um dos mais altos momentos da literatura mundial, sentindo-se a plasticidade da palavra, que flutua de leveza em inusitadas associações, memórias, fantasias e musicalidade inaudita: His lips lipped and mouthed fleshless lips of air: mouth to her womb. Oomb, allwombing tomb. His mouth moulded issuing breath, unspeeched: ooeeehah: roar of cataractic planets, globed, blazing, roaring wayawayawayawayawayaway. (p. 47)

 

3.1.4. CALYPSO . 8 horas da manhã de novo. Leopold Bloom, de negro vestido, pronto a assistir em breve a um enterro, prepara o pequeno-almoço para si e para a mulher Molly, ainda na cama. O repasto consta de um chá, que ferve ao lume, e de um rim que se apressa a ir comprar para reforçar a primeira refeição da manhã. De volta, um postal da filha e uma carta de um promotor musical anunciando a sua visita. O rival, pensa Bloom. Molly indaga Bloom sobre o significado de metempsicose. A palavra fica em ritornelo. Cumprido o ritual da manhã (Cup of tea now. He sat down, cut and buttered a slice of the loaf. He shore away the burnt flesh and flung it to the cat. Then he put a forkful into his mouth, chewing with discernment the toothsome pliant meat. Done to a turn. A mouthful of tea. Then he cut away dies of bread, sopped one in the gravy and put it in his mouth., p. 63), Leopold sai para o jardim e lê, na retrete, um conto pre-miado (do seu fim inquira o leitor...).

 

3.1.5. OS LOTÓFAGOS . Errância de Bloom pelas ruas de Dublin duas horas antes do enterro. Na segunda há-de tomar banho. Vai até ao correio onde, sob nome falso, recebe uma carta de uma correspondente. Encontra amigos, lê jornais, entra numa igreja para não deixar subir a temperatura.

 

3.1.6. HADES. O funeral de um amigo. Para lá se desloca Bloom num automóvel juntamente com o pai de Stephen Dedalus e dois homens que o ostracizam por ser judeu e casado com Molly. Meditação sobre a imortalidade da alma. Enterra-se o morto. Bloom não esquece a morte e a putrefacção. O capítulo é arrepiante e poderosíssimo: I daresay the soil would he quite fat with corpse manure, bones, flesh, nails, charnelhouses. Dreadful. Turning green and pink, decomposing. Rot quick in damp earth. (p. 104)

3.1.7. AEOLUS . O ruído da maquinaria tipográfica e as vozes nele embrenhadas. Bloom procura, via telefone, intrometer um anúncio.

 

3.1.8. OS LESTRIGÕES . Bloom acumula ideias, ou melhor, as ideias sucedem-se. O pregador americano, a irmã de Stephen, as dúvidas (paralaxe, metempsicose...), o almoço transformado numa sande de queijo e numa borgonha pelo visionamento, no restaurante, de um repugnante espectáculo de voracidade (Perched on high stools by the bar, hats shoved back, at the tables calling for more bread no charge, swilling, wolfing gobfuls of sloppy food, their eyes bulging, wiping wetted moustaches. A pallid suetfaced young man polished his tumbler knife fork and spoon with his napkin. New set of microbes., p. 161) ou a ida à Biblioteca Nacional são exemplo deste natural suceder-se.

 

3.1.9. SCYLLA ET CHARYBDIS . O vezo shakespeariano.

 

3.1.10. OS ROCHEDOS FALANTES. A súmula da obra ou a aplicação do método disseminativo-recolectivo. Dezanove personagens em marcha numa Dublin relacional. Bloom deixa-se prender por um romance infraliterário.

 

3.1.11. AS SEREIAS . Um bar de hotel com duas camaristas de atraente beleza atrás de um emergente balcão. Bloom entra para jantar com um amigo. Encontro que é reencontro duplo com o seu adversário Boylan. Música e enlanguescimento voraz.

 

3.1.12. CYCLOPS . O nacionalismo é uma cegueira. Bloom escapa da ira de um nacionalista irlandês.

 

3.1.13. NAUSICAA . A paródia atinge a literatura ultra-sentimental e Bloom procede à mostração da "corrente de consciência", perdendo-se a contemplar uma rapariga na praia que, por fim, se afasta coxeando, enquanto ressoam cantos eclesiais.

 

3.1.14. OS BOIS DO SOL . Bloom visita uma vizinha que se encontra na maternidade à espera do parto e aí encontra, em convívio, Stephen Dedalus, logo resolvendo protegê-lo na incursão ao bairro de má reputação.

 

3.1.15. CIRCE . Cerne da obra, coração do texto. A chave hermenêutica num avanço capitular longo e problemático. O grande espectáculo perante nós: o dramático-cinematográfico que chama na plurivocalidade o 8 e 1/2 de Fellini e, primigeniamente, La Tentation de Saint Antoine de Flaubert. Por dentro de Bloom, uma torrente de consciência relembra, oniriza, pulsiona e cede ao escatológico. Stephen, depois da briga com Mulligan, sente-se ferido e impossibilitado de voltar à torre Martello. Leopold "encarna" o anjo-da-guarda. Dedalus dirige-se ao bordel de Bella Cohen, diverte-se e sai, logo lançando um piropo a uma rapariga. Um soco do soldado-companheiro dela prostra-o no chão. Não foi nada, acode Bloom. Tudo se passa entre as 23 e as 24 horas. Um dia estafado, pleno de falhas, perpassa em desfilada no cérebro de Bloom. Em riste, obsidente, um dedo acusatório permanente. O tribunal acusa-o de imoral e obsceno. A execução esfuma-se com a pequena boa acção de ter dado de comer a um cachorro esfomeado e a guarda de Stephen reinstaura-se. Na casa onde Dedalus se encontra, novas metamorfoses: Bloom devém edil, líder nacionalista e propugnador da criada Bloomusalém. Requebro de novo, com outras acusações e novas transfigurações: de criada possuída a criado na sua própria casa, assistindo aos devaneios amorosos entre a sua mulher Molly e o "concorrente" Boylan, vai um instante. A fantasia penetra a linguagem. Stephen dança com as prostitutas. Ecos anteriores voltam e revoltam.

 

3.1.16. EUMAEUS . 17 de Junho. 1 hora da manhã. Retracção e arrefecimento face ao fabuloso capítulo anterior. Bloom procura o equilíbrio de Stephen num café sem álcool. Reflexões várias. Dedalus passou o dia sem comer e Leopold convida-o para ir tomar algo a sua casa, enquanto, ufano, ostenta uma foto da "sua" Molly. Clara oposição de tectónica cultural entre Bloom e Stephen.

 

3.1.17. ITHACA . Perguntas com respostas. Bloom aporta a casa com Stephen a quem oferecera uma chávena de cacau. Sem chave, salta a sebe. Câmara que sorve a cozinha, homens que se desintegram em desumanidade. Stephen vai-se, Bloom arranca uma unha dum pé, cheira-a e, ao jeito proustiano, logo as recordações desfilam em cavalgada, passando nós, leitores, a integrar o rídiculo humano que se vai instalando. Bloom deita-se às avessas e a sua cabeça emparceira com os pés de Molly. Infidelidades no pensamento...

 

3.1.18. PENELOPE . Ao contrário. Molly é o inverso de Penélope. Das 2 pràs 3 da madrugada, Molly, com Bloom já deitado, no fluxo da mente, relembra, nem acordada, nem adormecida, os jogos eróticos, a cozinha, o encontro rasteiro com Boylan. Bloom fracassou, "herói" sem nada e acúmulo de derrota. Molly, natureza fecunda e sem ideias, Terra-Natureza-Feminina venceu num claro assentimento de prazer e de memória eufórica que remata esta vastidão experiencial: I put the rose in my hair like the Andalusian girls used or shall I wear a red yes and how he kissed me under the Moorish wall and I thought well as well him as another and then I asked him with my eyes to ask again yes and then he asked me would I yes to say yes my mountain flower and first I put my arms around him yes and drew him down to me so he could feel my breasts all perfume yes and his heart was going like mad and yes I said yes I will Yes. (p. 735)

 

4. Ulysses é um monumento literário escrito, entre 1914 e 1921, no trânsito Trieste-Zurique-Paris. Joyce, antes da sua publicação, disse a Djuna Barnes que nenhuma das suas linhas foi escrita a sério. Depois, diz tê-lo escrito para dar trabalho aos críticos durante 300 anos. Por último, pediu aos seus leitores que dedicassem as suas vida à leitura dos seus textos.

Com Ulysses , como diria T. S. Eliot, descobre-se um novo sentido da literatura. Não há, pois, como ficar de fora, até porque a persistência da "palavra interior" transporta as vivências que algum dia nos aconteceram. A atracção, essa, está ainda na superação flaubertiana de haver prosa com o ritmo do verso ...

Do lado de dentro de sangue, um clarividente e parisiense Stephen James Joyce, corria o ano de 1997, afirmou de forma avisada: Reading a book such as Ulysses is not a challenge, it is a unique face à face between writer and reader. (p. ix)

E, afinal, esta sempre moderna semiologia e este ser-do-mundo são a clara afirmação de que a regionalidade é um primeiro e fundamental passo para a universalidade. Di-lo um Guimarães Rosa contra o brilho fascinante de profundidade dos olhos dos bois sertanejos; di-lo um Hemingway que definitivamente matou a sua natal Oak Park; di-lo Alves Martins na deliciosa epígrafe textual; confirma-o, finalmente, o rumor paisagístico da deambulante poesia de António Franco Alexandre. Paisagens que a memória guarda. Chega o livro, vai-se o sonho e a névoa da minha Ítaca.

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1 Todas as citações textuais deverão ser compulsadas pela edição inglesa supramencionada nas referências bibliográficas.

 

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* Docente na Escola Secundário Emídio Navarro, Viseu

SUMÁRIO