ACERCA DA PRAXE ACADÉMICA *

 

Num primeiro momento, decorridos que são os dias dos rituais iniciáticos dentro de uma instituição de Ensino Superior, e decorrido o período inicial de aulas, lembrámo-nos de perguntar a alunos, professores e funcionários do IPV o que pensam e sentem acerca da praxe.

Reproduzimos, aqui e agora, os depoimentos colhidos. Entre as opiniões expressas pelos alunos, procedemos a prévia selecção, já que algumas se tornavam repetitivas; nestas, a maioria, evidenciava atitudes em prol da praxe e da sua continuação; por outro lado, quisemos representar tanto as posições favoráveis, quanto as não favoráveis, respeitando as devidas proporções.

Por agora, ficamo-nos com esta pequena amostragem... Ipsis verbis e sem comentários. Contudo, tencionamos voltar a esta questão noutra altura, com mais tempo, mais participação e até mais espaço editorial. E com comentários.

 

A PRAXE ACADÉMICA NA GÉNESE DA DINÂMICA DE UMA ACADEMIA.

 

O acesso ao ensino superior marca uma viragem na formação de um aluno, pois é nesta decisiva etapa curricular, para muitos a última, que as opções, as incertezas, as frustrações, os êxitos, assumem um papel decisivo e condicionante no seu futuro perfil profissional. Uma grande percentagem de alunos vê-se obrigada a abandonar a residência de sempre da sua vida, junto dos pais, para, de armas e bagagens, se instalarem numa cidade diferente onde se encontra a instituição de ensino superior.

É neste contexto que a praxe académica assume uma grande importância, no sentido de contribuir para uma melhor adaptação e integração dos novos alunos que ingressam no ensino superior. Mal interpretada por uns, mal exercida por outros, a praxe académica é, e será sempre, um tema controverso e objecto de constante debate.

Na nossa academia este tema tem estado na ordem do dia, uma vez que se assiste a uma interferência excessiva de algumas entidades, nomeadamente os departamentos das escolas integradas do ISPV. Não me parece que uma postura próxima do conflito seja a melhor forma de comunicar com as estruturas estudantis que tutelam a praxe, no caso da realidade Politécnica, o Conselho de Viriato. È fundamental que as pessoas ligadas a esta realidade interiorizem que este tipo de tradição existiu e sempre existirá no meio académico. A própria dinâmica de uma academia depende dela. As diferentes estruturas académicas só serão funcionais se os alunos que as integrarem forem dinâmicos. Exemplo disso, são as Tunas, as diferentes equipas desportivas que representam a Instituição nas competições nacionais, as Associações Académicas e de Estudantes, a Federação Académica, o Conselho de Viriato, o Teatro da Academia e outros grupos académicos dinamizados pelos estudantes. Tudo começa pela Praxe Académica. É nessa fase que os novos alunos dos diferentes cursos se conhecem entre si, assim como passam a conhecer os alunos mais velhos, gerando espaços de convívio e partilha de experiências, tão importantes para o amadurecimento e complemento da formação curricular de cada um.

Ciente que ainda muito falta fazer para que o verdadeiro espirito da praxe académica oriente o exercício da praxe, não tenho dúvidas que já se deram importantes passos nesse sentido. Exemplos disso foi a elaboração e publicação do Código da Praxe do ISPV e a constituição do Conselho de Viriato, enquanto órgão magno de supervisão e tutela da praxe académica desta instituição.

Penso que alguns episódios pouco felizes, protagonizados por algumas "ovelhas ranhosas" que, dando azo às suas grandes frustrações, dando uma péssima imagem e exemplo do verdadeiro espírito do exercício da praxe, não podem, de forma alguma, ser o rótulo do verdadeiro exercício da praxe académica. A filosofia escolhida pelas Associações Académicas e de Estudantes e pelo Conselho de Viriato, que se caracteriza por seriedade, empenho e respeito pelos mais elementares valores da dignidade humana, é, em minha opinião, o garante do correcto exercício da praxe académica e, simultaneamente, o garante da dinâmica da nossa Academia.

Por último, gostaria de referir que a Praxe Académica do ensino superior de Viseu se encontra em plena fase de restruturação e organização, sendo já visíveis sinais positivos, como são o caso da criação, por parte da Federação Académica de Viseu, enquanto estrutura por excelência representativa do ensino superior de Viseu, de uma Comissão de trabalho para as tradições académicas, constituída por dirigentes da Federação e pelos responsáveis máximos das estruturas que tutelam a praxe no ISPV, na UCP e no Piaget. Os seus principais objectivos são a coordenação e organização do desfile dos caloiros de Viseu pelas ruas da cidade, aquando da Semana de Recepção ao Caloiro; a coordenação e organização do Cortejo Académico aquando da Semana Académica; fórum de debate sobre praxe académica nesta cidade e estudo sobre a viabilidade de implementação de um único traje académico para o Ensino Superior de Viseu.

 

Saudações Académicas.

Jorge Garrido - Presidente da Comissão Instaladora da Associação Académica do ISPV

 

PRAXE ACADÉMICA - UMA TRADIÇÃO.

 

É sempre de salientar e de louvar dar-se à Praxe uma oportunidade para ser compreendida, sobretudo quando todos sabemos que ela está a ser fortemente criticada. No meu entender, o que se passa neste momento é que realmente há pessoas que não a entendem ou não a querem entender.

Como mais à frente vão poder ler nesta minha dissertação, a Praxe actual nada tem a ver com os tempos difíceis de outrora. Se algumas vezes se verificam excessos, nada disso se deve a quem a organiza, nem a ela própria, mas sim a elementos que com a Praxe e o seu verdadeiro espírito nada se identificam.

A Praxe Académica é constituída por um conjunto de costumes e tradições que são a essência e o fruto de uma vida muito própria, especial e diferente, desenvolvida noutras Academias ao longo de séculos e gerações, chegando agora a altura de ela se mostrar nesta já conceituada Academia.

A Praxe existente hoje em dia não passa de um pequeno número de "rituais", tais como os tradicionais cortes de cabelo, mobilizações da "bicharada", o agraciar com algumas ordens de penar, umas "festas às unhas" e algumas pauladas. Este tipo de actividades são geralmente realizadas no início de cada ano lectivo, chegando por vezes a serem praticadas com algum excesso, principalmente por parte dos estudantes na 2ª matrícula, mas acabando sempre por chegar a praxes de consenso e a "saciar" os desejos praxisticos de todos os Doutores e Engenheiros, sendo, por fim, praticada uma praxe que apesar da sua essência praxistica também é humana.

A Praxe actual tem de ser vivida com um espírito de entreajuda e companheirismo e nunca, mas nunca, poderá ser um meio para proteger actos de violência e de cobardia, praticados nas "costas" da Praxe e sempre por pessoas que sobre ela são completamente ignorantes.

Já é sabido por todos que só adere à Praxe quem quer, mas quem o fizer tem e terá sempre de respeitar o Código da Praxe e o que for decretado pelo Conselho de Viriato.

Escrever sobre a Praxe não se pode dizer que seja uma tarefa fácil, principalmente quando observamos certos "movimentos" que contra ela se têm levantado, nomeadamente por uma certa parte da classe dos docentes desta Academia. Aproveito a oportunidade que me é dada para relembrar que, infelizmente, o corpo docente nada tem a ver nem está contemplado no nosso Código da Praxe. É triste quando todos os responsáveis por disciplinar uma Praxe (que, de há três anos para trás, era completamente desorganizada e sem respeito para com os novos membros da nossa Academia, os caloiros, podendo-se verificar, hoje, com o aparecimento do Conselho de Viriato, único órgão que pode regulamentar a praxe) constatam que, em vez de receberem o apoio de todo o corpo docente, pelo contrário, sentem que há professores que contra tão nobre Conselho se levantam. Gostava de deixar uma opinião ao corpo docente, que pode muito bem ser um conselho, que a função de um professor não é formar autênticos autómatos obrigados somente a irem às aulas, cumprir horários, fazer trabalhos e passar nas frequências e nos exames, é também e principalmente a tarefa de mui nobre valor de formar Homens. Mas Homens capazes de enfrentar a vida com sentimentos nobres e humanos e com um verdadeiro espírito de entreajuda e camaradagem.

Penso que após este meu pequeno devaneio de opinião sobre um certo mau funcionamento ou mau entendimento entre corpo docente - Doutores e Engenheiros - e Conselho de Viriato, está na altura de escrever sobre o que realmente interessa , a Praxe, a sua história, as suas raízes, a sua própria tradição ... a tradição de uma Tradição.

A história da Praxe remonta ao século XIV, praticada na altura pelos clérigos monásticos, mas o seu contexto mais conhecido aparece no século XVI sob o nome de "Investidas". A Praxe, à época, era na realidade bastante dura para com os caloiros, o que a levou a ser considerada de "selvagem" pela opinião popular nos finais do século XIX. Felizmente, os "actos selvagens" praticados na altura, e que não será de bom tom nomeá-los aqui, foram abolidos e a Praxe actual tem um contexto muito mais abrangente.

A Praxe de hoje não é só um conjunto de regras e costumes que têm em vista a preservação de uma tradição, é também um princípio moral que deve fazer parte de cada estudante, a inserção do novo estudante na nova vida (muitas vezes longe de casa), a possibilidade de aproximação a esta nova vivência e aos novos "amigos" (quase sempre simples desconhecidos no 1ª dia em que se frequenta o ensino superior), etc, etc, etc.

Falando agora sobre a Praxe em Viseu, que é realmente o que nos interessa, podemos dizer que ela é relativamente recente, mas conforme uma vez tive oportunidade de dizer, é com o passar dos tempos que uma tradição se faz. Para lá caminhamos e ela é já uma realidade completamente solidificada, consolidada e enraizada.

A Praxe, na nossa Academia, sentiu necessidade de uma identificação pessoal e foi por este e alguns outros motivos que foi criado o Conselho de Viriato no ano lectivo de 1997/1998. Apesar de já ser mencionado nos primeiros Códigos da Praxe da Escola Superior de Tecnologia de Viseu, somente nesse ano a ideia foi posta em prática, passando rapidamente a ser o orgão máximo da Praxe de todo o Instituto Superior Politécnico de Viseu. Esse facto levou a que, durante cerca de dois anos, vários estudantes tenham trabalhado seriamente na elaboração de um Código da Praxe para todo o Instituto. Esse trabalho está feito, mas não se pode parar, muito ainda há a fazer.

Como Viriato do Instituto Superior Politécnico de Viseu, tão só a maior Academia desta cidade, sei bem das dificuldades que a sobrevivência da Praxe em certas alturas atravessa, e que somente com a colaboração de todos os estudantes ela se pode manter viva. Gostaria, um dia, de ver um Conselho de Viriato que não tivesse interferência directa nas praxes, pois a função de qualquer Conselho, ao contrário do que se tem passado e do que se possa pensar, não é a de organizar praxes, mas sim de fiscalizá-las.

Já que comecei a frisar as competências do Conselho de Viriato gostaria de indicar mais algumas delas, porquanto competências há que passam despercebidas aos olhos da maior parte dos estudantes da nossa Academia. É ao Conselho de Viriato, juntamente com os seus congéneres das outras Academias de Viseu, que compete organizar o Desfile do Caloiro e o Cortejo Académico. A partir deste ano, vão ter também a responsabilidade de organizar a Missa da Benção das Pastas e têm, indirectamente, participação em eventos como a Serenata Monumental e o Baile de Gala, frisando somente os de mais importância. Já no aspecto interno, compete ao Conselho de Viriato verificar todos os assuntos relacionados com o Traje Académico, Pasta da Praxe, Insígnias Pessoais (o Grelo e as Fitas), cores de cursos, hierarquias, Hostes (vulgarmente chamadas Trupes), Conselho de Castelões (as conhecidas Repúblicas) e um número infindável de pequenas coisas. Conta, pois, o Conselho de Viriato com um número já respeitável de organizações. Não querendo indicá-las todas, foco-as de uma maneira geral.

E foi em quase três anos de existência que se organizaram "Cascos-Papers", uma parte praxistica mais dura, "Pedi-Papers", apresentação da cidade aos novos caloiros, "Tardes da Cultura", sempre divertidas e bem aceites por todos, "Palestras de Sapiência", onde, normalmente, os caloiros têm o prazer de ficar a conhecer o Presidente do Instituto e os Presidentes e Directores das Escolas, o Presidente da Associação Académica do I. S. P. V., os presidentes das Associações de Estudantes e o próprio Viriato; Organizaram-se também "Rituais de Purificação", onde os Caloiros Estrangeiros têm o seu Baptismo e, por fim, os tão esperados Tribunais de Praxe, uma das instituições mais ansiosamente esperadas por todos os Doutores e Engenheiros e que tantos receios causam aos caloiros.

Mas voltando ao tema Praxe, muita gente tem dito que a Praxe se deve adaptar aos novos tempos; de facto, ela adapta-se, e está a adaptar-se, talvez até mais rapidamente e mais sabiamente que as próprias pessoas que dizem tal coisa. Bem sei que ela tem que se adaptar mas ,enfim, todos nós temos.

Não gostaria de terminar sem deixar de utilizar certas palavras, uma vez escritas por um Grande Amigo meu, a quem esta Academia muito deve, o João Teixeira:

"A minha chamada de atenção através desta minha dissertação vai para todos aqueles que, estando ou não em posição de relevo, descubram os princípios mais básicos, as regras mais simples, que são a humildade, o cuidado e a preservação de um bem estar comum entre os estudantes."

Somente com um reconhecido organismo superior que a regulamente, o Conselho de Viriato, a praxe pode realmente ser algo de salutar, de bom, de saudável e útil à vida social, cultural e Académica de todos os estudantes.

É como Viriato desta Academia que a todos peço que o verdadeiro espírito Académico fique sempre vivo dentro de vós.

As tradições Académicas são parte integrante da vida e da cultura Portuguesa, devem, por isso, ser vividas, respeitadas e preservadas por todos aqueles que fazem parte desta Academia.

P'la Academia e p'la Praxe,

 

Saudações Académicas e um F. R. A..

Heitor Castel' Branco

-O Viriato-

 

Nota final - Terminando, agradeço a todos aqueles que muito deram das suas vidas Académicas em prol da construção da tradição Académica do e no I. S. P. V., e, não podendo a todos nomear, gostaria de deixar o meu agradecimento ao Carlos José Mendes, Sérgio Goulart, António Lopes, Jorge Garrido, João Teixeira, Ricardo Silva, entre muitos outros, aos quais peço desculpa por os não ter indicado, mas que igualmente merecem o meu reconhecimento. São para todos eles estas últimas linhas, são-no porque a vida, como já alguém disse, é feita por Homens.

 

A PRAXE

 

É, sem sombra de dúvida, a Praxe o elemento que o recém chegado aluno mais teme no momento da inserção no ensino superior. É o caloiro, a ordinária besta que, no principio de cada ano lectivo, traz alguma animação a todo o meio estudantil e até urbano.

Embora por vezes levadas ao extremo, as praxes nada mais são do que divertidos meios de conhecermos colegas, quer eles sejam engenheiros ou caloiros, o que, de outro modo, levaria bastante mais tempo a concretizar.

Como em todas as coisas da vida, haverá sempre quem esteja contra tais rituais e quem se recuse a participar em tais iniciações. E, claro, num país livre ninguém obriga ninguém, mas saberão eles o terrível erro que estão a cometer?

Ser-se praxado é olhar para o passado e recordar as loucuras dos primeiros dias, os bons momentos e até os maus, com saudade. Os momentos em que andámos com as calças vestidas ao contrário, os momentos em que a nossa cabeça mais parecia uma receita culinária e em que usávamos mais maquilhagem que algum dia usaremos. Infelizmente, os maquilhadores deviam sofrer da doença de Parkinson ... Os momentos em que nos fingíamos de animais, de soldados camuflados, (em condições normais jamais fariamos tal coisa); a loucura assume a realidade.

Os caloiros do próximo ano que se cuidem - aí terá chegado a nossa vez!

"Os Caloiros de G.C.P. atacam a E.S.T.V."

 

Algures na galáxia existia uma espécie terrível. Uns diziam que deviam ser ET's, outros diziam que era algo muito pior. Essa espécie tinha a designação de caloiros.

Devido às constantes modificações da camada de ozono e à poluição provocada pelos caloiros, abriu-se no tempo um buraco que engoliu a terrível espécie, só que, por infortúnio do destino ou talvez por justa causa, os caloiros foram enviados para a Escola Superior de Tecnologia de Viseu.

Vocês deviam ter visto a cara aterrorizada dos terrestres que estudavam nessa escola ao ver, de repente, um buraco enorme abrir-se diante deles e dele sair a tão terrífica espécie.

O pessoal da E.S.T.V. fez tudo o que estava ao seu alcance para tentar pôr fim a esta "praga" que, de repente, tinha surgido do nada, e tentou explicações para como poderia ter acontecido tal fenómeno. A explicação mais plausível que encontrou foi o surgimento da passagem do milénio.

Como se verificou que não se conseguia pôr fim a esta praga, "aceitaram-nos", mas sempre com um pé atrás, com medo que aprontássemos alguma.

O tempo foi passando e constatou-se que, afinal, os caloiros não eram assim tão maus e até se tornavam bastante populares em pouco tempo. A popularidade dos caloiros deve-se principalmente às atitudes, umas vezes engraçadas e, outras vezes, de repugnância perante a tradição dos terrestres que se designa de Praxe.

O caloiro torna-se popular pela cara aterrorizada que faz perante algumas praxes; pelos momentos de alegria que passa com os "Doutores"; pela alegria pintada na cara com cores diversas; pelo convívio com todos os praxantes e praxados; pela vontade de levar com um ovo na cabeça e principalmente por ser "aterrorizado"; "maltratado" por brincadeira, pintado, suporte de receitas culinárias, objecto de brincadeira, de gozo, de repugnância e satisfação.

Mas em tudo o que fazemos (GESTÃO) e que colocamos perante os outros (COMERCIAL), nós procuramos na essência das coisas (PRODUÇÃO), a solução.

Aqui salvaguardamos a opinião de alguns colegas nossos que, por burrice própria, não estão de acordo com algumas ideias que sobressaem da Praxe.

Ficamos assim pela análise dos "ditos" populares, bem "pr'a pular":

 

* Praxe a praxe enche o caloiro o saco;

* Quanto mais me praxas mais gosto de ti;

* Mais vale uma praxe na mão que um caloiro a voar;

* Caloiro que cala ... consente;

* A praxe dada não se olha o dente;

* Caloiro mole em praxe dura tanto dá até que fura;

* Praxes de burros não bradam aos céus;

* As praxes morrem de velhas ... felizmente;

* Quem não quer ser praxante não lhe veste a pele;

* Caloiro que espera ... desespera;

* Se o caloiro não vai à praxe, vem a praxe ao caloiro;

* Praxante com rabo comprido não salta ao lume;

* Depois da praxe vem a bonança;

* Em tempo de praxes não se limpam caras;

* Praxantes em terra ... tempestades no bar;

* Não praxes p'ra amanhã o que podes praxar hoje;

* Quando a praxe bate à porta quem se lixa é o caloiro;

* Os caloiros não se medem aos palmos;

* Contra caloiros não há argumentos.

Reservam-se os direitos de autor ao Curso do 1º ano de Gestão Comercial e da Produção 1999 - 2000. Para qualquer esclarecimento é favor deslocar-se ao secretariado dos caloiros.

Saudações Caloirosas

 

Licenciatura em Educadores de Infância - 3º Ano

A praxe é para mim o outro lado da vida académica, ou melhor, uma actividade que faz parte do lado mais lúdico da vida académica. Entrar para o Ensino Superior é um sonho que uma vez realizado deve ser festejado. O convívio com outros colegas na mesma situação provoca uma sintonia de emoções que torna a celebração muito mais agradável. A praxe é também um meio para conhecer pessoas do curso e de outros cursos.

É claro que há praxe e praxe, mas ninguém é obrigado a deixar-se praxar (previsto no código de praxe).

Viva a praxe, vivam os caloiros e saudações aos doutores ...

A praxe académica é para mim uma forma de socialização, fundamental para todos aqueles que iniciam o Ensino Superior e, também, para aqueles que já lá estão.

As pessoas deixam os seus habituais amigos e, muitas vezes, a família e vêm para um local onde não conhecem praticamente ninguém. Através da praxe fazem-se novos conhecimentos e, sobretudo, fica-se a conhecer a própria turma que acompanha a pessoa ao longo do curso.

É necessário ter em conta que há praxes que são utilizadas para somente humilhar e ridicularizar as pessoas. Enfim, há quem exagere e não cumpra as normas.

A praxe tem que ser divertida, pois se assim não for só servirá para inibir as pessoas e fazer com que estas fujam à praxe ou se declarem anti-praxe.

O que eu penso sobre a praxe académica?

Penso que a praxe académica, em termos gerais, tem como principal objectivo integrar os alunos novos (caloiros) na escola. Neste sentido, concordo com a existência de praxe.

Apenas sou contra as praxes em que os doutores se servem dos caloiros para fazer as limpezas, ou os almoços, pois penso que isso é "escravidão" e não beneficia em nada a integração na sociedade escolar.

Por último, acho que cada "caloiro" tem o direito de se declarar totalmente contra a praxe académica sem nenhumas consequências ou represálias.

Quanto às praxes, penso que somente deveria haver 2 dias com algumas brincadeiras, sem maldade, a fim de integrar os novos alunos.

Muitas das brincadeiras que se fazem deixam as pessoas humilhadas. Isto deveria acabar.

Pessoalmente não gosto das praxes.

Penso que a Praxe Académica, quando não exagerada, é uma forma de integração do aluno.

No meu caso, penso que foi útil, conheci bastante gente e integrei-me. Caso contrário, penso que seria um pouco desmotivador. Já que se vem de longe e não se conhece mais ninguém e que só apetece é ir para casa.

Por isso considero importante a praxe, sendo esta um meio de socialização.

Embora não deixe de realçar a minha indignação em relação a determinadas "práticas" de praxe. Muitas vezes, um momento que, supostamente, deveria ser agradável e divertido, acaba com um final infeliz.

Não tenho uma opinião bem formada acerca das praxes, uma vez que nunca participei em nenhuma. No entanto, julgo que se há exageros estes devem ser erradicados para que o bom nome da escola se mantenha.

Julgo que a "tradição" deve ser mantida, mas "vigiada", para que aqueles que entram pela primeira vez se sintam integrados.

Concordo com a praxe, no sentido de ela ser uma forma de socialização dos "caloiros", e umas pinturinhas não fazem mal a ninguém!?... Contudo, julgo que muitas vezes, e por tentativas de conquista de popularidade por parte daqueles que se dizem "Doutores". Se levam certas brincadeiras ao exagero: - não é necessário humilhar um caloiro, se este se sentir humilhado e não gostar de certas "brincadeiras", não é necessário partir ovos nas roupas, ... Penso que é necessário, sobretudo, saber respeitar o "outro" e não interferir no seu espaço, nos limites de compreensão e aceitação pessoal que cada um tem. O caloiro deve ter o "direito" a dizer "não quero" fazer isto e de se fazer respeitar enquanto ser humano e colega.

A minha opinião sobre a praxe é que deve existir. Mas deve-se ter em conta que os caloiros são pessoas e não animais. Quero com isto dizer que não se devem fazer praxes que, de algum modo, prejudiquem os caloiros. As praxes devem ser só uma forma de não se perder a tradição e devem ser "brincadeiras decentes".

Eu, pessoalmente, gostei muito do meu primeiro ano e das praxes que me fizeram.

Penso que se as praxes forem bem organizadas tornam-se uma boa recepção aos caloiros.

 

DEPOIMENTOS DE ALUNOS DA ESEV SOBRE A PRAXE

Praxe académica. Adorada por uns, detestada por outros. Considerada como imprtante na integração dos nossos novos colegas (caloiros), acaba, por vezes, por provocar o inverso, uma não integração dos mesmos. Esta dualidade que aqui tento evidenciar (integração/não integração) deve-se ao facto de se terem várias interpretações de praxe académica. A praxe não serve para mostrar a superioridade dos "Doutores", nem deve ser considerada como uma prova a ser ultrapassada pelos caloiros. Eu definiria a praxe como convívio com novos colegas. Para finalizar, deixo aqui um apelo, um apelo de um aluno que já está de saída e já com saudades: "Não deixem acabar a Praxe Académica e promovam-na, mas de forma salutar", porque o convívio é essencial à nossa vida, para não nos sentirmos sós neste mundo que, às vezes, parece tão frio.

Saudações Académicas.

"Um caloiro para o resto da vida"

 

***

É a melhor coisa que temos quando entramos para o Ensino Superior, desde que seja feita pelas pessoas certas e com certas regras.

A praxe é, nada mais nada menos, uma forma de integrar as pessoas novas na escola e no ambiente académico.

É pena esta tradição estar a perder-se, pelo menos nesta escola.

Este ano muitos caloiros não souberam o que era a praxe, o que para mim é muito triste.

DIGO SIM À PRAXE E SOU CONTRA AQUELES QUE DIZEM NÃO À DITA CUJA.

***

Para mim a praxe académica tem coisas boas, mas, por vezes, há excessos. Acho que é bom, pois ajuda a criar um ambiente de acolhimento e de alegria. É útil para nos conhecermos melhor uns aos outros e fazermos futuras amizades.

A praxe é uma tradição que não deve acabar nunca.

***

A praxe é uma tradição que se verifica no início do ano lectivo e algumas vezes durante o ano para "comemorar" a entrada dos caloiros na instituição. Deve ser mantida dentro de certos limites pois é uma forma de os caloiros se divertirem e festejarem o tão esperado ingresso no Ensino Superior. Apesar de, por vezes, não gostarmos de ser tratados por bichos, a verdade é que depois todos são colegas e, mais tarde, acabamos por recordar estes bons tempos. No entanto, há praxe e praxe...

***

A praxe académica engloba um conjunto de actividades que faz mover uma comunidade estudantil, envolvendo o seu meio escolar e local. Essas actividades visam, sobretudo, a integração dos novos membros na nova comunidade escolar. Durante essas actividades poderão distinguir-se "os caloiros", sendo estes conhecidos como : "o caloiro fixe", "o caloiro estúpido e chato". Os primeiros são aqueles de espírito aberto, candidatos a dar continuação à praxe nos próximos anos. Os segundos encaram a praxe como uma obrigação, por isso a praxe, com eles, começa e acaba no primeiro ano.

Assim sendo, penso que é a forma como os caloiros encaram a praxe que a faz prosseguir ou não.

***

A praxe académica deve ter continuidade, mas com juizinho.

 

***

A tradição académica é algo que deve existir em qualquer curso do Ensino Superior. Como tal, dizem os "Senhores Doutores" que a praxe é uma tradição académica!... Pintar, humilhar e fazer dos caloiros uns autênticos palhaços, faz parte de um ritual de boas vindas aos inocentes estudantes!...

Com toda a franqueza, eu não concordo nem um pouco com a dita praxe! Há muitas maneiras de dar as boas vindas aos caloiros e muitas maneiras de valorizar a tradição académica, bem como o orgulho de ser estudante do Ensino Superior, algo que aqui em Viseu não existe nem um pouco!

É bonito que os "Senhores Doutores" acolham os caloiros, que os integrem no seu novo meio escolar, agora fazer deles uns bonecos não tem absolutamente piada nenhuma. As praxes são, hoje em dia, "brincadeiras" frias, nojentas e, muitas vezes, perigosas. Na minha opinião, quem acaba por fazer um papel de palhaço (e digo isto sem querer ofender esta digníssima profissão) são os próprios "Doutores".

 

***

Praxe académica é sinónimo de palhaçada, cujos maiores palhaços são os Doutores. Isto porque os Doutores mandam fazer actividades aos "caloiros" sem graça nenhuma e muitas, por vezes, chegam a ser violentas, fazendo com que os caloiros se aborreçam daquilo que são.

Na minha opinião, os Doutores podiam dar as boas vindas aos caloiros sem terem que os humilhar e fazerem deles "gato sapato".

Eu, pessoalmente, sou contra a praxe académica, uma vez que, hoje em dia, não sabem praxar devidamente, isto é, com civismo, divertimento e sem humilhação.

 

***

A praxe, é uma iniciação, uma parte fundamental para o começo da vida académica.

Ter sido praxada foi fantástico, porque deu a oportunidade de conhecer os colegas e conhecer pessoas de outros anos e cursos.

 

Cláudia Durão

Curso de Matemática/Ciências, 1º Ano

Praxe ! Que Futuro????

 

A Praxe pode e deve ser uma forma de integração dos novos alunos no ambiente académico da Instituição que os acolhe. No entanto, a forma "desregrada", desproporcionada, e até violenta, como esta tem sido aplicada, tem levado a uma crescente desacreditação, ao crescimento de movimentos de contestação e a um alheamento dos novos alunos para este tipo de práticas, o que tem como consequência natural, num futuro próximo, o fim das mesmas.

A morte anunciada da Praxe pode ser travada através de uma rigorosa regulamentação das actividades de praxe, onde:

 

.Genericamente, se definam os tipos de actividades a implementar, tendo sempre em conta o objectivo de integração acima enunciado, o respeito pela liberdade individual da não participação, e a utilização do bom senso na aplicação das mesmas (jamais podem ser admitidas práticas que ponham em risco a integridade física e psíquica dos aderentes ao código da praxe).

 

. Se definam punições duras para os infractores dos respectivos códigos de Praxe.

 

Artigo de opinião de

António Alberto Ferreira

Director do Departamento de Engenharia Electrotécnica

Escola Superior de Tecnologia de Viseu

 

A PRAXE ACADÉMICA

 

Eu nunca vivi a praxe. Nunca a senti, nem na pele nem na alma.

Quando entrei para a Universidade (aquela que foi fundada por El-Rei D. Dinis, que em 1308 começou a funcionar, pela primeira vez, em Coimbra e, porque a primeira, também a mais antiga Universidade portuguesa), corria então o ano da graça (ou seria ainda da desgraça?) de 1972, vivia-se ainda o luto académico, na sequência dos acontecimentos que instalaram a crise de 1969. Quando se retomou a tradição da praxe, já eu tinha concluído o curso, - até já estava a trabalhar! - embora Coimbra fosse ainda a minha cidade. Por isso, a minha experiência destas tradições nunca foi uma experiência vivida nem vivenciada, mas sempre uma experiência indirecta, chamemos-lhe assim, por ver e ouvir; mero espectador, passivo, distante e alheio ao espectáculo, que apenas se limita a ver, de fora, mas que não participa nem vive intimamente, do interior, que nem sequer convive, com o que se passa no palco e se desenrola diante dos seus olhos.

Se tenho pena? Não! Nem gosto nem desgosto. O que não se vive não nos faz felizes nem infelizes. Nunca, como diz o poeta, ser aquele que olha para trás de si "tendo pena". Não tem sentido lastimarmo-nos do que não aconteceu e gostaríamos que tivesse acontecido, do que não vivemos e quereríamos ter vivido, do que não tivemos e desejaríamos ter tido, do que não fomos e podíamos ter sido. Tudo foi como foi, tão só. E como foi, é exactamente como deveria ter sido.

Nunca vivi a praxe. Nunca a senti, nem na pele, nem na alma, nem no coração.

O que não quer dizer que não a considere significativa enquanto tradição, porque, como tradição, faz parte da nossa cultura, da nossa história e de nós próprios, constituindo-se como elemento construtor e definidor da nossa própria identidade. Pelo menos, da nossa identidade como estudantes do Ensino Superior. É, a este nível, comparável com ritos de iniciação, sejam eles quais forem, de carácter mais religioso ou mais laico, e possui a importância social e cultural que se lhe reconhece.

Não posso deixar de lamentar a observância, ano após ano, de alguns desses ritos; não posso deixar de me desgostar com algumas praxes da praxe. Não vejo qualquer sentido em algumas práticas. Por exemplo, não percebo o significado que pode ter pintar o rosto dos caloiros, enchê-lo de riscos rabiscados a marcador. Detesto ver os alunos do 1º ano, quando me entram sala adentro, assim praxados, e de rostos alegres e sorridentes como se se sentissem muito bem, como se tudo fosse muito natural, como se tudo fizesse sentido.

Mas eu nunca vivi a praxe. Nunca a senti nem na pele, nem na alma, nem, portanto, no coração...

 

M. J. F.

 

PRAXE ACADÉMICA VERSUS LIVRE ARBÍTRIO

Enquanto obrigatórias, certas praxes académicas mais não são do que aberrantes actos de obsoleto caciquismo. No entanto, se livres e opcionais, tornar-se-iam, sem sombra de dúvida, na pré-lavagem da alma académica. Esta é a minha opinião. Contestada, não duvido. Mas é minha! Fundamentalista, dirão alguns. Talvez. Mas continua a ser minha!...

Nunca gostei de fazer nada de forma compulsiva! Chateia-me solenemente e fico pior que estragada quando me voluntarizam para fazer algo que vai contra a minha maneira de pensar ou contra a minha vontade própria. Por isso, presumo que os caloiros, pelo menos alguns deles, também não ficarão lá muito satisfeitos com certas figuras que têm que fazer. Ainda por cima perante ruidosas plateias que os vaiam e cobrem de piropos e enchem de epítetos, alguns muito pouco ortodoxos. Ou será que alguém acredita que todos os caloiros estão satisfeitos da vida quando os vemos em fila, caras borradas com tinta de cores estabanadas, cabeças repletas de restos de comida e travestidos de bebés? Ainda por cima artilhados de fraldas que, apesar de aparentarem ser de criança, não o são na realidade. Esquecer-se-ão, porventura, os mentores destas pueris ideias que, quem se vê obrigado a usá-las, na crueza da vida real, fá-lo por imperativo de saúde?...

Estarão a divertir-se os caloiros que são convidados a andar de quatro e a pastar como se de bovinos ou caprinos se tratassem? Ou quando, em pleno inverno, são levados a gélidas fontes e bicas para serem baptizados? Ou ainda quando são brindados com horripilantes cortes de cabelo? Alguém, no seu juízo perfeito, acredita que todos os caloiros o fazem de livre e expontânea vontade? Como diria o Kevin do Sozinho em Casa "I don't think so". Então, e a vontade de poder decidir se querem ou não participar, não tem valor? Não deveria ser-lhes assegurada? Pessoalmente, penso que sim. Mas sem represálias, se por acaso disserem Não!...

Nada tenho contra as praxes. Muito pelo contrário! Só me insurjo contra algumas, bárbaras, ridículas e descabidas, oriundas de intelectos que, por certo, só se satisfazem com a humilhação que infligem a quem lhes está imediatamente abaixo. Mais, abomino o facto de serem obrigatórias e a elas terem que aderir todos os caloiros, queiram ou não queiram, sob pena de sofrerem retaliações. Algumas bem lamentáveis e troglodíticas, diga-se de passagem...

Imaginemos agora que esta situação de obrigatoriedade se alterava e estas passavam a ser inteiramente livres e abertas apenas a quem nelas quisesse participar. Ganharia a academia, a festa e a coesão estudantil. Também os mirones que habitualmente se juntam nas praças e largos citadinos para ver as farras da estudantada.

Mas se algumas são absurdas, outras há que, por via da sua originalidade e brejeirice, emprestam às cidades de colhimento um brilho e uma jovialidade que, se calhar, é pena que aconteça só uma vez por ano, por altura da recepção ao caloiro.

Se buscarmos no dicionário o significado da expressão praxe académica, veremos que se trata de um conjunto de costumes especiais e convenções a que, de certo modo e com ligeiras excepções, aderem todos os estudantes, voluntariamente na maior parte das vezes.1 Desta leitura depreende-se que, de facto, não há unanimidade na adesão à festa. Nem todos participam voluntariamente. Fazem-no porque a isso são obrigados. Mas, mesmo sendo uma minoria, têm direitos e, como tal, devem ser respeitados.

Longe vão os tempos do recolher obrigatório que era imposto aos caloiros. Pelo menos em Coimbra, onde, ao soar da velha cabra, todos deveriam regressar à base. Para que o cumprimento dessa ordem fosse observado, instituiu-se uma polícia que, em bandos embuçados e armados de mocas e colheres de pau, calcorreavam as ruas distribuindo bordoada a todos quantos tivessem a ousadia de a desrespeitar. Valentes palmatoadas e cortes de cabelo à escovinha eram os prémios que lhes estavam destinados. Poderiam os caloiros gostar de tal mimo? Também o canelão não consta que tenho sobrevivido. Para quem não sabe, esta meiguice consistia em reunir os caloiros no primeiro dia da aulas e fazê-los passar por entre alas de alunos mais velhos que, à sua passagem, os agrediam o mais violentamente possível com pontapés nas canelas. Só escapavam às torturas e lesões dolorosas, por vezes com sequelas, os que, fiando-se na sua agilidade e resistência física, galgavam o curto espaço com pulos e saltos acrobáticos, desafiando descaradamente as leis da física. Volto a perguntar: poderiam os caloiros gostar de tal carícia?

Mas se estas desapareceram, outras mantiveram-se. Algumas bem engraçadas. Como o direito dos mais velhos exigirem aos caloiros grandes prelecções, longos discursos e burlescas conferências em público, quase sempre em caricatas posições anatómicas. Ou ainda, às mais belas raparigas, dirigirem longos e melados galanteios sob a forma das mais languinhentas declarações de amor. Em todas estas práticas é obrigatório, por parte dos mais velhos, o uso da capa ou batina, que alguns afirmam ser o reviver de costumes clericais. Talvez possa entender-se como uma tentativa de ultrapassar as diferenças de classe no meio estudantil. Isto porque, eliminando os luxos indumentários a que nem todos podem aceder, os estudantes estarão em pé de igualdade. Tanto mais que se instituiu como mais digna de apreço e graciosa a capa ou batina que mais rasgões e remendos tenha no seu curriculum. É o chamado luxo lixo. Ou vice-versa...

De entre as tradições da academia, persistem, ainda e felizmente, as serenatas nas escadarias de igrejas e claustros de catedrais. Quiçá reminiscência dos tempos em que eram feitas ao luar sob as janelas das eleitas do coração dos trovadores. Todos os elementos intervenientes estão trajados a rigor e ostentam nas capas e batinas pins e emblemas oriundos das mais díspares proveniências. Uma palavra para os orfeões e tunas universitárias onde o gosto pela música popular e de cariz trocista une melómanos em todas as faculdades e universidades. Através deles e das suas incessantes recolhas junto dos meios rurais, muitas peças chegam ao grande público e são reabilitadas para a posteridade.

Em tempo de festejos académicos, as tradicionais queimas das fitas, levadas a cabo pelas instituições de ensino superior um pouco por todo o lado, são inúmeras as actividade lúdicas desenvolvidas. É o caso dos cortejos académicos, que integram carros alegóricos de todas as faculdades e cursos, onde a irreverência estudantil, aliada à crítica mordaz a tudo quanto é criticável, com mais ou menos respeito, concebe, por vezes, verdadeiras obras de arte. Outros, contudo, primam pelo gosto duvidoso e pela má educação, confundindo liberdade de expressão com achincalhar de ideologias e crenças, individuais ou colectivas. Também, de há uns tempos a esta parte, a praga dos erros ortográficos veio para ficar...

Falo agora das tradicionais garraiadas, cujo étimo - garraio - significa, entre outras coisas, novato, inexperiente2, que é como quem diz, caloiro. Em jeito de chacota às lides taurinas nacionais, vulgo touradas, adquirem-se, a título gratuito, as mais belas nódoas negras e hematomas por entre corridas desenfreadas à frente do espécime taurino, quase sempre um reles e remeloso novilho, ao invés do possante e majestoso touro.

Para terminar, uma referência ao rally das capelas. À noite, a malta em magotes, já tocada pelos vapores etílicos do vespertino cortejo académico, corre as tascas e bares da urbe emborcando, aqui e ali, litradas de vinho e cerveja. Autênticas chicotadas psicológicas a fígados incautos. Este périplo termina, como não podia deixar de ser, em valentes e ruidosas carraspanas. Tudo se paga no dia seguinte com colossais arrevessos e monumentais dores de cabeça. As bocas, então sequiosas, sabem agora a papel de música.

Vale tudo, a bem do bom nome da velha praxe académica. Afinal, a festa é só uma vez por ano e perdoa-se o mal que faz pelo bem que soube...

 

MARIA DA CONCEIÇÃO PEREIRA

Assistente Administrativa Principal do ISPV

 

 

on line em www.ipv.pt/millenium

 

______________________

NOTAS

* Diculdades surgidas com algumas alterações à programação de Millenium no decorrer do ano 2000 estiveram na origem da publicação dos textos ACERCA DA PRAXE ACADÉMICA apenas neste número. Pelo atraso, as nossas desculpas aos seus autores.

1 Machado, José Pedro - Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Lisboa, 1991. Vol. VI, pág. 193.

2 Idem, Vol. III, pág. 197.

SUMÁRIO