EDITORIAL

 

MILLENIUM propõe hoje aos seus leitores o olhar da X Conferência Anual da EURASHE (Creta, 2000) pelos caminhos do futuro da educação na Europa. Por aqueles que se lhe deparam, mas também pelas potencialidades que inegavelmente possui. A começar pela necessidade da criação de um espaço europeu de ensino superior.

Um espaço onde as instituições se assumam não apenas como "produtoras de conhecimento" mas também como "fornecedoras de serviços", em interligação íntima com a vida, oferecendo respostas mais variadas e mais flexíveis a um mundo sempre mais diversificado em necessidades e sempre mais rico de oportunidades, e onde o trabalho de projecto e a resolução de problemas na interdisciplinaridade, na criatividade e na capacidade de empreendimento se apresentam como determinantes.

Um espaço, também, onde as instituições se distribuam melhor, por forma a ficarem mais próximas dos núcleos urbanos, mais dispersas regionalmente, e comecem a superar o atraso actual do continente relativamente aos Estados Unidos da América no que se refere às tecnologias da informação e da comunicação.

Um espaço, enfim, onde as instituições possam sobreviver no mercado global de ensino superior.

Desafios para os quais, segundo Alan Smith, as instituições de ensino superior não-universitário se encontram "comparativamente bem posicionadas", uma vez que "a sua filosofia de criação privilegia como vocação específica uma orientação fortemente local e regional"; também, porque menos burocratizadas e mais flexíveis em termos de oferta de formação, mais abertas às abordagens modulares, à creditação de aprendizagens experimentais, mas que carecem de investir, com urgência, no planeamento estratégico e na diversificação da sua cooperação.

Um olhar, como faz Ulrich Teichler, pela diversidade do ensino superior europeu, em termos institucionais, de programas, de graus, de duração dos cursos, de reputação e de prestígio, a universidade regendo-se, genericamente, por conceitos de natureza vertical, a homogeneidade paradigmática perspectivada como uma das suas maiores fortalezas; as instituições do sector não-universitário, "mais favoráveis a abordagens horizontais".

Reflexão, ainda, sobre o posicionamento do mundo dos negócios e dos governos relativamente à necessidade de conjugação dos diferentes modelos de formação para o aparecimento de perfis distintos que contemplem uma maior validade curricular pela introdução de uma componente mais prática na formação. Uma característica que, com alguma frequência, se encontra já nos politécnicos e nos colleges.

A perspectiva de László Dinya da grande proximidade actual entre cooperação e competição, a primeira entendida como forma de nos "tornarmos mais competitivos na luta pelas fontes limitadas com actores que se colocam fora das parcerias", e das consequências na (e para a) educação dos grandes desafios actuais materializados na globalização, na sociedade do conhecimento, nas tecnologias da informação e da comunicação: relações mutáveis com o tempo, o trabalho, a vida social; criação de mais benefícios e oportunidades, mas também de maior stress; adaptação muito rápida às alterações ambientais; necessidade de "desviar a nossa atenção do emprego para a empregabilidade", de fazer investigação fundamental em educação; de criar para os actores futuros do palco do mundo organizações de ensino superior que os preparem para o rigor e a criatividade, para o trabalho árduo, mas imaginativo, para os riscos inevitáveis que irão encontrar. Através do desenvolvimento de um espírito aberto à tecnologia, às ideias de partilhar para aprender e de aprender para partilhar. Um espírito capaz de resistir ao stress pela flexibilidade e pela capacidade de decisão rápida.

Para a integração destes novos "valores", preconiza Dinya uma operação de transformação das instituições actuais em centros de aprendizagem onde as preocupações de formação profissional inicial se desloquem para o "envolvimento contínuo na aprendizagem ao longo da vida"; onde se possa transitar "da explicação de conceitos e teorias gerais para a concepção de abordagens ajustadas individual e organizacionalmente", e " do conhecimento funcional para o apoio a aprendizagens integradoras".

Tarefas complexas, mas possíveis se os centros de aprendizagem definirem o seu perfil pela via de "parcerias de longo prazo com os clientes", se privilegiarem a "centralização no trabalho em rede e na padronização", se se desenvolverem na "perspectiva multifuncional e global", e se privilegiarem o "uso alargado da tecnologia, a relação mercado - gestão da clientela, o relacionamento de colaboração entre fornecedores, a aprendizagem ao longo da vida". E, naturalmente, "a qualidade como valor central".

O olhar penetrante de Guy Haug sobre o significado da Declaração de Bolonha para o sector Colleges / Politécnicos; do programa de acção do documento em termos de objectivos comuns e objectivos específicos; de uma continuidade organizada, da estrutura e do processo de implementação; equacionando os resultados que devem emergir do processo de convergência na estrutura dos sistemas e das qualificações conducente à não-diferenciação entre sub-sectores de ensino superior; sublinhando algumas das alterações previsíveis mais significativas com a implementação dos princípios de uma competição mais alargada a todos os níveis; do crescimento, mais do que provável, de um ensino transnacional, quer através da Internet, quer de campuses afiliados, de acordos concessionados; do papel crescente do emprego na "moldagem de políticas educativas"; de um impulso vigoroso na acreditação.

Para o sector Colleges / Politécnicos, e ainda na perspectiva de Haug, as principais implicações da Declaração situam-se na necessidade de as suas instituições atingirem uma "dimensão crítica" e oferecerem "uma amplitude mínima de cursos e de serviços"; na imprescindibilidade de uma designação comum e de se conseguir, através dela, uma voz forte "no debate sobre a estrutura do espaço europeu de ensino superior"; na oferta de "curricula compatíveis com o emergente quadro europeu de qualificações", um objectivo de obtenção possível através da distinção entre sub-graus, primeiro grau e nível de post-graduação; na creditação de todos os cursos; no reconhecimento apropriado da aprendizagem anterior; na atenção dos curricula à possibilidade de emprego no mercado de trabalho europeu. Características, todas elas, que constituem uma parte dos "esforços no sentido da garantia da qualidade e da sua certificação", isto é, da acreditação.

Acreditação, que foi o tema abordado por Socrates Kaplanis, um processo para o qual é necessário encontrar urgentemente um sistema de medição efectiva e fidedigna da excelência da cooperação numa perspectiva global, o que Kaplanis designa de Pan Metron Ariston, que encoraje uma cooperação assente na "transparência da gestão a nível administrativo e académico", no "conhecimento dos padrões de aprendizagem e da Cultura Institucional".

O olhar de Widar Hvamb para os caminhos novos, pragmáticos, do ensino superior na Noruega, em especial para o fenómeno da diluição progressiva, pela via legislativa, das fronteiras entre os distintos sectores. Através da oferta de diferentes programas similares conducentes aos mesmos graus, da simplificação da mobilidade inter-institucional. Diluição que abre ao sector de ensino superior não-universitário perspectivas de um envolvimento mais visível no âmbito da cooperação internacional e um vigor renovado na competição interna. Um processo, finalmente, capaz de manter, numa lei comum, a desejável diversidade de um sistema.

As perspectivas de Paul Cottenie sobre o significado do alargamento da missão do ensino superior na região da Flandres, apoiada pelo governo, nomeadamente na área de projectos de inovação no âmbito de acordos de cooperação entre instituições dos dois sectores - universidades, politécnicos, colleges.

Para Gay Corr, presidente da EURASHE, a associação tem a grande responsabilidade da articulação dos valores fundamentais e do ethos das instituições que representa por forma a poder consagrá-los no que quer que emirja das propostas da Bolonha. Pela sua parte, os colleges, os politécnicos e outros tipos de instituições EURASHE merecem, nas palavras de Edward Dhondt, ex-Presidente, "uma associação forte que explore e desenvolva melhor as suas manifestas e indesmentíveis oportunidades e capacidades", não havendo atingido ainda todo o seu potencial.

Conferência rica nas propostas e no debate que originaram, merece, do nosso ponto de vista, de todos os que se encontram envolvidos na vida actual do ensino superior na Europa uma leitura global e uma reflexão profunda. Dos governantes às instituições e ao sector empresarial; dos docentes aos estudantes.

Dela, deixamos aos leitores de MILLENIUM tanto a versão inglesa original das Actas, da responsabilidade da EURASHE (Associação Europeia de Instituições de Ensino Superior), como a versão portuguesa. Na linha definida pelo I.S.P.V. para esta área específica da sua intervenção. No respeito pelos acordos celebrados com a EURASHE.

SUMÁRIO