Tábuas pintadas com "Milagres". Uma crónica da vida dos homens.

ALBERTO CORREIA *

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"Milagre que fez Nossa Senhora das Necessidades a António Pinheiro da Rocha, do Granjal, que tendo sua mulher em perigo de vida, ele e seus filhos imploraram o socorro da Nossa Senhora. Logo conheceu melhoras, no ano de 1886"

 

Ex-Voto dedicado à Senhora das Necessidades. Vila da Ponte. Sernancelhe.

 

Houve um tempo em que os Santuários de romaria ostentavam paredes inteiras cobertas de quadros pintados com tintas ainda vivas ou já delidas pela entrada da luz ou o passar dos anos. E era então de ver em dias de festa como os romeiros se detinham, surpresos, face a esses pequenos quadros de género onde se contavam histórias, às vezes a história que um deles vivera e dela assim fizera crónica, sempre histórias de alguém que um dia mergulhara em desgraça e um milagre salvara para espanto de todos.

Dentro do Santuário ou nas suas margens o quadro suspenso não era a única forma de testemunhar um milagre, essa surpreendente alteração do curso de uma vida que, de dor, se transmuta em alegria sem que nenhum homem saiba explicar tal passagem que apenas se deu quando um ente sobrenatural interveio para que tal acontecesse.

Nas paredes do Santuário penduravam-se também velas com a altura ou o peso de um homem. Havia corpos de cera, às vezes retalhados em seus membros, cabeças, mãos, pés, olhos, "ouvidos", todas as partes do corpo, até corações. Havia mortalhas de pobres tecidos que alguns homens e mulheres envergavam em procissões e depois despiam lembrando assim um caminho de morte por onde seguiam já e do qual se libertaram. Também havia ouro sobre os altares ou ao peito de uma imagem da Virgem ou de uma santa porque as arrecadas, os brincos, os cordões eram fruto inteiro de uma vida que agora se trocava por um novo tempo de viver, o seu, ou o de alguém a quem se estendia solidariedade ou amor. Havia tranças de cabelo que mulheres ofertavam como se trocassem a sua vida já vivida por uma nova vida, outra vez.

Objectos como estes constituem-se como lição sobre a condição humana, sobre essa extrema fragilidade do homem que ele não consegue vencer com seus recursos, tendo de recorrer então a mais elevados poderes confiados a uma entidade superior.

E é aqui que encontra sentido primeiro a teoria de um universo religioso, qualquer que ele seja, lá onde o homem é sempre ser criado e dependente.

Também é assim no domínio da religiosidade cristã, ela própria herdeira em seu corpo de doutrina de princípios teóricos e de práticas de outras culturas.

E nestas histórias salvíficas, de milagres, o mais eloquente gesto é aquele que se testemunha nas tabuinhas pintadas que já mal se encontram nos muros das capelas e Santuários de grande devoção coalhados delas ao longo de um extenso período que vai do séc. XVII, de limitados registos, ao fim do séc. XIX, já mais despojado.

Parece coincidir o seu triunfo com o aparato da devoção barroca que privilegia uma liturgia externa, luminosa, e ainda que muitas vezes os quadrinhos de ingénuo fabrico não reflictam o sentir do clero e o pensamento mais ortodoxo acerca desta maneira de proceder, os resultados práticos convocados por aquela quanto à capacidade de arrastamento de crentes e coerente proveito apagavam qualquer menor gesto de discordância de tal uso.

As tábuas pintadas de um dizer comum, milagres da voz popular, ex-votos no mais esclarecido falar dos eruditos, passados quase cem anos sobre o limite da sua factura (que não da eficácia da sua presença no interior de um espaço sagrado)ganharam a dimensão do documento histórico, assumiram o estatuto de bens de um património cultural que se oferece deste modo às mais diversas análises dos estudiosos da cultura.

Mesmo que não se tenha constituído um corpus de ex-votos à escala nacional, a amostra existente no âmbito das circunscrições religiosas que são as dioceses de Viseu, Lamego e Guarda, onde foram identificados mais de meio milhar destes testemunhos, esta relativa abundância e o tempo de mais de dois séculos pelos quais eles se estendem, mesmo que o fluxo tenha sido descontínuo, permite equacionar um sem número de questões e encontrar porventura as convenientes respostas que um historiador da cultura deseja conhecer.

Morfologicamente o ex-voto pintado apresenta-se como um quadro de reduzidas dimensões cuja média rondará os 30x40 cm. O suporte de pintura é habitualmente a madeira de pinheiro ou castanho, a Folha de Flandres, o cartão ou o papel, materiais de imediato encontro que não revelam particular cuidado no talhe, na preparação da superfície a pintar, às vezes na colocação da moldura. E os cânones que estabelecerão o valor artístico da pintura apenas assentarão na inocente forma de contar uma história, quase sempre a mesma, parece, mas onde o estereótipo se rompe bastas vezes com invenções insuspeitadas.

E é este jeito de invenção que delineia o corpo de uma mulher caído de uma árvore ou as cortinas que escondem um leito, que parece situar de forma incompreensível os moradores no seu espaço doméstico preenchido de objectos, são as cores justapostas, simples, definindo os volumes, e às vezes o desenho capcioso de uma renda de fios ou das nuvens que transportam um santo que fazem o particular encanto desta pintura que então e nem sempre se pode dizer naif e que a multidão olha embevecida em dias de festa e romaria.

O quadro de ex-votos integra sempre dois elementos distintos que são o espaço celeste e um espaço terrestre que Bernard Cousin chama o "cenário humano".

O espaço celeste é o espaço do sagrado, do numenal, da manifestação da divindade enquanto tal (caso em que se oferece a representação da Santíssima Trindade ou tão só a figura de Cristo, ele também pessoa da Trindade). Mas quase sempre a intervenção divina é mediada pela Virgem, por um santo e certamente por Cristo em seu entendimento de homem que também foi.

O personagem celeste apresenta-se sempre na parte superior geralmenteà direita, algumas vezes sobre a esquerda e ainda ao centro.

A maior parte das vezes há apenas um personagem celeste. Mas acontece também a invocação de dois personagens que podem ocupar registos diferentes, à esquerda e à direita e há casos em que se invocam três personagens que se situam num único registo central.

Há uma recorrente forma de apresentação do personagem celeste através desse irromper de um rolo de nuvens que deixa ver por detrás a luz dourada de um lugar de paraíso, e quando se trata da Virgem com frequência acontece a presença de cabecinhas de anjos aflorando aos pés da imagem. Casos há em que a figura celeste se apresenta num quadro pendurado na parede de um quarto de dormir como se fora estampa de devoção ou inserido em cartela de desenho barroco.

Outras vezes o pintor desenha um retábulo e entroniza a imagem, escapando assim à sugestão da "visão" ou da aparição, porque tal não é o que se passa na circunstância.

A natureza do personagem celeste permite conhecer a história das devoções e a sua importância, que pode ser testemunhada pela multiplicação de Santuários num território, podendo ainda ser medida a área geográfica de influência de cada um através do local de procedência do ofertante do ex-voto.

O outro elemento do quadro é o desse espaço onde se movimentam os homens, a terra e o mar, a casa, o campo, a montanha, o caminho, sítios sempre onde ao homem se deparam perigos que não pode vencer. As cenografias a que os pintores recorrem são amuidadas vezes fortemente eloquentes e raramente há dificuldade em identificar a natureza do episódio que motivou a factura do quadro.

A situação mais frequentemente representada é a de doença no sentido mais plural da sua motivação, que é também o mais frequente dos males que atinge todos os homens. Já é, no entanto, difícil identificar a espécie de doença porque ao pintor impossível se torna caracterizá-la através de qualquer registo iconográfico e porque a legenda, o texto que complementa a informação ou a mensagem da pintura a não contém ou a ela se refere de forma imprecisa caracterizando-a como grande enfermidade, ou referindo apenas o estado de alguém como de gravemente doente. É ainda mais frequente a expressão em perigo de vida que parece poder atribuir-se sempre a um estado tal de avanço da doença que o povo caracteriza como o estar entre a vida e a morte, nesse limite onde já nem restam forças para pedir o socorro, que tem de ser solicitado por um ou mais membros da família.

A ausência deste enunciado reflecte o geral desconhecimento do nome da doença, pelo menos do nome científico, já que algumas vezes surge a designação popular, como é o caso da referência a nascidos, etc.

Uma outra situação que explica a presença de ex-votos é a de acidente que pode acontecer em diversas situações. É a queda de uma árvore, de uma pedra, a queda a um poço, o ser pisado por um cavalo ou pelo rodado de um carro de bois, é o desgoverno de um barco no rio ou uma tempestade no mar, tudo situações-limite a que justamente só poderia encontrar-se resposta numa intervenção sobrenatural. Era o caso também da situação concreta de calamidade que um ex-voto regista quando uma comunidade inteira vê as searas todas a ser destruídas dos bichos e só o apelo solidário dos moradores circunvizinhos à Senhora dos Verdes consegue travar.

Merece ainda referência especial a situação de vida militar onde o soldado pode sentir sempre a iminência do perigo, verdadeiramente tornado real quando convocado para a frente de batalha. E é ele próprio quem manda pintar uma memória, quando não é a mãe que agradece desse modo o regresso do filho .

Estes quadros de milagres, quer se suspendam ainda nos muros de capelas onde se constituem como vivos instrumentos de uma eficaz catequese, quer se guardem em depósitos de sacristias ou desusadas Casas de Milagres nas vizinhanças de Santuários ou encontrem a melhor sorte de perdurarem num verdadeiro espaço de Museu são, como se disse, manancial de informação preciosa, diversificada e abundante. Eles constituem-se como espelho de uma sociedade e podemos dizer que é ela, metaforicamente, que se revê neles quando o anónimo romeiro, em dia de festa, se detém, surpreso, frente a essa teoria de quadrinhos onde parece contar-se toda a sua vida, como em livro aberto, onde, de outro modo, colhe exemplo daquilo que pode vir a acontecer-lhe.

A lição primeira é a de um diálogo fecundo entre o homem e a divindade. Homem e Deus mantêm-se em relação constante. Imprescindível, parece. Cada um carecendo, se da divindade tal pode dizer-se, do outro. Porque no extremo há uma reciprocidade de dons. A graça recebida equilibra-se com a simbólica presença do quadrinho que a testifica junto da inumerável multidão de frequentadores do Santuário onde a divindade é honrada na figura de seus mediadores, Cristo, a Virgem, um santo.

Depois há quase o retrato em corpo inteiro de uma comunidade feita desses retalhos de informação que é possível cerzir ou unir à maneira de puzzle.

São camponeses a maior parte, decerto. Isso se lê no interior da casa arrumada, nos carros de bois que circulam, no solícito pedido pelo regresso do soldado pois que são braços que faltam na terra, no empenho que há em solicitar a Santo António a cura de um porco doente, de uma junta de bois em perigo, de um animal quase perdido, porque estes seres, como o filho, são preciosos no quadro da vida doméstica que se carrega sempre de afectividades também.

Não há marinheiros na montanha mas houve embarcadiços que partiram rumo à Índia ou ao Brasil e a tempestade os apanhou no mar e lá estão bradando pela Senhora da Lapa ou pela Senhora do Castelo, onde vieram depois entregar um voto.

Há sacerdotes que procuram retardar um pouco a sua entrada no Paraíso e pedem um pouco mais de tempo e o abrandar das suas dores. Há fidalgos. Reconhecem-se de longe pintados nos quadros. Doentes repousam em camas de estado. Têm cirurgiões ao pé, cuja vã ciência nada pode valer, e cadeiras de couro com pregaria. A mulher e os filhos vestem roupagens preciosas à moda do tempo. Se se deslocam a cavalo identifica-os o porte solene e o animal ajaezado.

Reconhece-se pelo trajar o estatuto de todos e cada um. E pelas roupas da cama, onde se estendem colchas coloridas guardadas nas arcas do enxoval. E o soldado reconhece-se na sua farda de gala e de combate.

A intimidade da casa desvenda-se nesse quarto de dormir resguardado onde se abriram gavetas de armário para retirar lençóis com rendas onde se arranjou, para as visitas, a vinda do padre ou do médico, se vem, a cama de madeira, ou de ferro em tempo mais próximo, e se pendurou no frontal uma litografia barata do Coração de Jesus.

E fica a saber-se, ao ler as legendas inscritas dos quadros, essa necessária componente da pintura, quase sempre presente, o nome do doente que foi miraculado elo suficiente, às vezes, para conhecer toda uma família. Pelas legendas fica a conhecer-se, às vezes, a doença, a residência, uma data que não é muito frequente, elementos de ancoragem, preciosos, para o historiador que fica a conhecer ainda a fama do Santuário através da dispersão geográfica para que aponta a proveniência dos ex-votos.

A caligrafia insegura e os erros de sintaxe espelham esse tempo longo do Antigo Regime onde a escrita é privilégio de alguns e que, depois ainda, tanto demorou a democratizar-se, como prova essa inabilidade de desenho da letra, tanto quanto se prova a ingenuidade do "artista", oriundo sempre, quase sempre, do povo, conhecido de todos por léguas ao redor, muitas vezes, tanto que nem carecia de assinar o seu nome que só, por acaso, mencionou uma vez como se passou com alguns.

***

São quase mil os ex-votos pintados que se guardam, a maior parte em Santuários e capelas, outros em casas de mordomos e residências paroquiais, muitos poucos em museus, neste território de interior circunscrito às dioceses de Viseu, Lamego e Guarda.

Um corpus deveras singular, quase virgem ainda, disponível, se as instituições a que pertencem tal entendam, para uma maravilhosa aventura de descoberta desses caminhos que são de Deus e dos homens.

 

Imagens

Fig. 1 - Ex-voto dedicado a Nossa Senhora das Necessidades. Vila da Ponte. Sernancelhe

Fig. 2 - Ex-voto dedicado a Nosso Senhor dos Aflitos e Nossa Senhora dos Carvalhais. Antas. Penedono.

Fig. 3 - Ex-voto dedicado Nosso Senhor dos Aflitos. Sé. Lamego.

Fig. 4 - Ex-voto dedicado a Nossa Senhora da Lapa. Lapa. Sernancelhe.

Fig. 5 - Ex-voto dedicado a Nossa Senhora da Lapa. Lapa. Sernancelhe.

Fig. 6 - Ex-voto dedicado a Nossa Senhora do Castelo. Mangualde.

 

BIBLIOGRAFIA

CORREIA, Alberto As Promessas ou Votos no Concelho de Sernancelhe, Edição Do autor, Viseu, 1994.

CORREIA, Alberto Carlos Massa, Pintor de "Milagres", in «Beira Alta», Viseu, Assembleia Distrital de Viseu, 1982, vol. XLI, 2º. Fascículo, 2º. Trimestre.

COUSIN, Bernard Ex-voto provençaux et histoire des mentalités, in «Revue Regionale D'Ethnologie», Centre Alpin et Rhodanien D'Ethnologie, 1977, nº. 1-4.

COUSIN, Bernard Le miracle et le quotidien: Les ex-voto provençaux, images D'une societé, in «Societés, Mentalités, Cultures», Aix-en-Provence, 1983.

SANCHIS, Pierre Arraial festa de um povo. As romarias portuguesas. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1983.

Do Gesto à memória. Ex-Voto. Lisboa, Instituto Português de Museus, 1999

Milagre q fez. Coimbra, Museu Antropológico da Universidade de Coimbra, 1997.

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* Ex. Director do Museu de Grão Vasco - Viseu

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