Património Arquitectónico de Viseu - uma réplica desconhecida do claustro renascentista da Sé.

DALILA RODRIGUES *

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O património dos lugares, resultado das muitas acumulações que o tempo foi sedimentando, é feito de presenças visíveis e de valor reconhecido, mas também de existências discretas e pouco valorizadas. A relação entre o importante claustro renascentista da Sé e um desconhecido exemplar da arquitectura civil, cujo valor histórico e artístico aqui se divulga, vem ilustrar esta realidade. Mas vem também esclarecer, pela iniludível proximidade formal que existe entre ambos, um dos fenómenos recorrentes na história da produção artística - o da relação entre modelo e cópia interpretativa ou o do impacte da "obra de arte maior" sobre produções sequentes e universos mais limitados.

O claustro da Sé de Viseu, um dos mais valiosos testemunhos da introdução do renascimento italiano em Portugal, é um dos emblemas mais importantes, para a cidade de Viseu, do que foi o erudito e ambicioso projecto artístico do bispo-humanista, D. Miguel da Silva (1525-1540), na sede do seu bispado. Graças ao ímpeto renovador deste prelado, a cidade transforma-se no cenário de eleição para práticas artísticas de vanguarda e vive um dos momentos mais brilhantes da sua história. A reforma promovida na Sé, não apenas do espaço e das linguagens da arquitectura, mas também dos necessários objectos e suportes figurativos para práticas litúrgicas, a ampliação da quinta episcopal de Fontelo, bem como a reedificação do paço e a construção de deslumbrantes jardins em terraço, com fontes e passareiras, pontuam nesse ambicioso projecto.

À data da eleição de D. Miguel da Silva, em 1525, a velha Catedral, que havia sido renovada poucos anos antes com uma exuberante fachada manuelina (descrita em 1630, escassos anos antes da derrocada), mantinha o claustro trecentista gótico. A construção do actual em linguagem renascentista, o que implicou a demolição daquele, assim como o entaipamento de capelas, portais e arcossólios dos muros (hoje de novo a descoberto), é o melhor indicador do gosto que este magnífico prelado pôde adquirir e amadurecer na cidade eterna, ao tempo em que desempenhava as funções de embaixador do Rei junto da Cúria Romana1.

Francesco da Cremona, arquitecto privativo que o acompanhou na vinda de Roma para Portugal, é o autor do projecto, cujo protótipo, de acordo com Rafael Moreira, "reside no famoso cortile do palácio ducal de Urbino, construído por L. Laurana e Francesco de Giorgio Martini cerca de 1470"2. A sua construção teve início, com toda a probabilidade, em 1528; ano em que o prelado dá também início ao projecto de ampliação e reconstrução da quinta de Fontelo e encomenda ao prestigiado pintor da cidade, Vasco Fernandes, celebrizado no decurso dos séculos com o nome Grão Vasco, uma série de retábulos para a Sé e para os espaços reedificados. Através das informações do cronista Botelho Pereira, no seu valioso manuscrito de 1630-1638, sabe-se que estava concluído em 1534, pois o Rei D. João III, em alvará passado em Évora a 18 de Setembro deste ano3, cedia ao bispo, e a seu pedido para que o projecto arquitectónico pudesse progredir e assumir um outro alcance urbanístico, os arruinados paços reais, contíguos ao muro do novo claustro e a pegar com a velha torre de menagem, que serviu, séculos a fio, de aljube eclesiástico. Todavia, se D. Miguel tinha em mente um projecto de regularização da velha e caótica praça medieval, com a construção «de huas varandas sobre a Praça, cujos altos fossem dos bispos, e os baixos da Cidade para as vendedeiras»4, não o chegou a concretizar. Como refere o mesmo cronista, «Não houve effeito esta obra com estar inda o Bispo alguns años nesta, a causa não sei, mas fora ela muito a propósito»5. Mas a alta e vasta galeria setecentista, que estrutura a praça e marca a fisionomia da cidade, não é de todo alheia ao projecto regularizador que D. Miguel da Silva, dois séculos antes, havia delineado.

Embora a quinta episcopal de Fontelo tenha chegado aos nossos dias profundamente alterada e em estado de completa ruína (excepção feita a alguns troços do desvalorizado jardim e a algumas importantes memórias, como é o caso da fonte inusitadamente trasladada para as traseiras do Solar de Cimo de Vila...), da linguagem renascentista de Francesco da Cremona em Viseu, além da peça fundamental que é o claustro, resta ainda a conhecida Casa do Miradouro, o palácio quinhentista de D. Fernão Ortiz de Vilhegas, que foi chantre da Sé ao longo de várias décadas do séc. XVI6. Embora sensivelmente alterado no decurso dos séculos, o elegante portal deste palácio, nas pilastras estriadas e nos capitéis achatados, com volutas e rosetas bem definidas, mantém uma afinidade evidente com o claustro.

A nova linguagem introduzida pelo arquitecto italiano não podia ter deixado de exercer um impacte directo na prática dos lavrantes do período manuelino, que haviam trabalhado na fachada da Sé e se detinham a ornamentar portais e janelas das casas do envolvente. De facto, em nada surpreende que estes exemplares eruditos da arquitectura religiosa e civil tenham servido de modelo a projectos sequentes, como sucede com uma casa actualmente em estado de ruína, localizada na Rua do Chantre, à Prebenda. Na fachada virada a Norte (e sem visibilidade a partir da rua, rasgada a Nascente), conserva este desvalorizado exemplar quinhentista um portal com balcão em madeira, resguardado por uma balaustrada e um muro contínuo ao longo de uma escadaria de acesso, sustentado por duas colunas e arquitrave.

As semelhanças formais entre os capitéis destas duas colunas inferiores com os do claustro da Sé e os da Casa do Miradouro, tanto nas volutas dos ângulos, como na roseta com pétalas volumetricamente bem definidas (fig. 3,4), são evidentes a ponto de se poder afirmar que o mestre ou os mestres que trabalharam nesta casa se inspiraram na linguagem renascentista de Francesco da Cremona. Com efeito, as diferenças sensíveis que se identificam, sobretudo visíveis na ausência das caneluras do fuste e no maior desenvolvimento e decoração do cesto de ambos os capitéis, devem-se a condicionalismos da estrutura do edifício e, por certo, à liberdade interpretativa do lavrante (ou dos lavrantes) face ao erudito modelo.

Note-se que as duas colunas em questão são também elas diferentes - enquanto a da esquerda se apresenta autónoma relativamente ao muro, apresentando um grosso fuste monolítico, a da esquerda surge integralmente, desde a base ao capitel, sob a forma de ressalto da estrutura (fig.5). Por outro lado, as diferenças entre as dimensões e a qualidade dos dois capitéis sugerem que a da esquerda seja uma cópia, algo grosseira e simplificada, da coluna da direita, sem dúvida inspirada directamente na linguagem de Francesco da Cremona e, também sem dúvida, da época da construção desta fachada, como o prova a sua relação estrutural com o balcão. Embora os elementos decorativos se repitam, o nível manifestamente distinto da formulação da roseta, das volutas e das folhas que decoram o cesto, aqui bem desenvolvido, levam a supor que a da esquerda resulte de uma alteração, (fig. 6) porventura mais tardia, dos elementos da fachada. Enquanto hipótese, a ideia de um desempenho de dois artistas, com capacidades manifestamente distintas no trabalho da pedra, não é despicienda.

O portal superior, a que dá acesso um conjunto de doze escadas em granito, protegidas por um muro em cantaria, que se transforma em balaustrada no patamar de acesso, rematado por uma máscara já profundamente desgastada, remete também para um trabalho francamente desigual, quando se comparam os capitéis e molduras das duas pilastras laterais, (fig. 7,8) já sem os elementos vegetalistas dos inferiores. Apesar da pedra se encontrar em diferente estado conservativo, o que pode ser interpretado, também, como indiciador de alterações ocorridas posteriormente, verifica-se no da direita uma definição mais correcta e elegante das volutas e das molduras.

As esquinas chanfradas da moldura de uma porta inferior ao balcão, e um outro vão em forma de arco junto à escadaria, também para acesso ao piso inferior, são outras tantas formas e "cicatrizes" do edifício que permitem definir a cronologia desta construção, ainda datável da primeira metade do séc. XVI.

A sua origem e função, bem como as vicissitudes no decurso do tempo, são em rigor desconhecidas. Numa das várias obras que Maximiano de Aragão dedicou a Viseu respiga-se uma passagem que indirectamente lhe diz respeito. A propósito do local de nascimento do Rei D. Duarte, escreve o investigador:

"há mais de trinta anos, andando eu a fazer investigações no Arquivo do Cabido, li num velho documento, de que na ocasião não tomei nota e deixei no monte de papéis que estive folheando, que D. Duarte nascera na Casa do Almoxarifado. Onde se deve situar esta Casa? Ignoro-o, e neste particular as trevas são impenetráveis. Seria a que depois foi chamada Casa do Ducado? Ou seria o edifício de que restam imponentes vestígios, com face para a Rua Direita e Rua da Árvore, que conduz ao terreiro de Santa Cristina?"7

Os "imponentes vestígios" notados por Aragão, que aventa a hipótese do edifício em questão poder corresponder à Casa do Almoxarifado, deveriam ser bem mais significativos naquela época, já que dá conta que as suas faces se estendiam ainda à Rua Direita e à Rua da Árvore. Ainda que não seja fácil reconstituir com rigor a sua extensão original, já que o quarteirão em que se inscreve foi profundamente alterado com sucessivas partilhas, demolições e reconstruções, não é difícil perceber que os vestígios que actualmente sobrevivem são uma parcela ínfima do que teria sido originalmente esta casa e do que era ainda, de acordo com o investigador citado, no início do séc. XX.

Através da relação entre a designação da Rua (do Chantre, alto dignitário eclesiástico do cabido, sediado na sede do bispado), e de referências em documentação específica disponível no Arquivo Distrital de Viseu, é provável que correspondesse à propriedade que o cabido da Sé mantinha na Prebenda. No livro Apontadoria do Coro, relativo ao ano de 1514, sob o título «seguemse as despesas que se fezeram de que passey alvarays», em fólio não numerada, surge o seguinte lançamento: «a xx de novembro pasou alvara pera darem a Joam pirez pedreyro pera ho portall da prebenda»8. A informação confirma-se nas fólios seguintes, através de outros lançamentos relativos a pagamentos ao mesmo pedreiro, João Pires, por conta da construção do portal, de despesas com calcetamento e cal, bem como a um serralheiro e a um carpinteiro, também por conta de obras na mesma casa da Prebenda9.

É evidente que esta campanha, em curso no ano de 1514, pela linguagem arquitectónica em questão, pela relação com o claustro e a Casa do Miradouro, não corresponde aos vestígios que actualmente se conservam. Já que estes exemplares, os modelos em que se inspira, não estariam concluídos antes de 153510, o que resta é, sem qualquer margem para dúvida, o resultado de uma intervenção posterior a este ano.

A classificação, a conservação e divulgação deste importante exemplar do património arquitectónico de Viseu, seja enquanto testemunho do impacte que o projecto de D. Miguel da Silva teve na cidade e na linguagem dos lavrantes locais, seja enquanto memória de um lugar (a única presença que dá sentido à designação «Rua do Chantre»), é inquestionável e inadiável.

 

Imagens:

Fig. 1 - Claustro Renascentista da Sé de Viseu -Francesco de Cremona, ca. 1530

Fig. 2 - Casa Quinhentista da Rua do Chantre - Vista Geral

Fig. 3 - Claustro Renascentista da Sé de Viseu - Pormenor

Fig. 4 - Casa Quinhentista da Rua do Chantre - Pormenor

Fig. 5 - Casa Quinhentista da Rua do Chantre - Pormenor

Fig. 6 - Casa Quinhentista da Rua do Chantre - Pormenor

Fig. 7 - Casa Quinhentista da Rua do Chantre - Pormenor

Fig. 8 - Casa Quinhentista da Rua do Chantre - Pormenor

Fig. 9 - Casa Quinhentista da Rua do Chantre - Pormenor

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Notas:

* Prof.-Adjunta da ESEV

Directora do Museu de Grão Vasco - Viseu

1 Para o período de D. Miguel da Silva em Roma, veja-se especialmente José Sebastião da Silva Dias, A Política Cultural da Época de D. João III, vol. I, Coimbra, Universidade de Coimbra, 1969, pp. 76-106; Sylvie Deswarte,"La Rome de D. Miguel da Silva (1515-1525)", O Humanismo Português 1500-1600, Lisboa, Academia das Ciências, 1988, pp. 198-200; Idem, Il «Perfetto Cortegiano» D. Miguel da Silva, Roma, Bulzoni, 1989.

2 Rafael Moreira, "Origens da Arquitectura do Renascimento em Portugal", Mundo da Arte, n.º 1, II série, Lisboa, 1988, p. 21; Idem, "Uma Corte Beirã: D. Miguel da Silva e o Paço de Fontelo", Monumentos n.º 13, Lisboa, DGEMN, 2000, pp. 83-91.

3 Manoel Ribeiro Botelho Pereira, Dialogos morais historicos e politicos (...), Viseu, Assembleia Distrital de Viseu, 1955, p. 475.

4 Idem, Ibidem.

5 Idem, Ibidem.

6 Alexandre Alves, A Casa do Miradouro, Viseu, Assembleia Distrital de Viseu, 1984.

7 Maximiano de Aragão, Viseu. Letras e letrados viseenses, Lisboa, Seara Nova, 1934, p. 3 (sublinhado meu).

8 ADV, Apontadoria do Coro, Cvis/4/Lv.5/94. Inédito.

9 Idem.

10 A relação de D. Fernão Ortiz de Vilhegas com a Casa do Miradouro remonta ao ano de 1528. Todavia, é provável que as obras de reforma não estivessem concluídas antes de 1535. No ano económico de 1530-1531, de acordo com um lançamento sob o título «aqui estam as propriedades do Cabido que não estam assentadas no livro do cabido novo», surge a seguinte referência: «hum olivall que esta de tras ho muro do myradouro de tras as casas em que a ora vive o chantre» (ADV, Livro da Apontadoria do Coro, 4/Liv. 13 /102. Inédito). Na carta de emprazamento desta mesma casa ao dito chantre, com a data de 22 de Abril de 1536, alude-se expressamente à «frontarya das casas novas» (ADV, Pergaminhos, maço 19, n.º 62 e maço 30, n.º 31).

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