"(...) um tal picardo que pinta uns monos e uns grandes sardões."

LUÍS CALHEIROS *

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Património também é preservação do presente, porque é preciso dar um passado memorável ao nosso futuro.

 

Este texto regista o património "de véspera" (da região), ... móvel, ainda que objectual... bens estimáveis, apesar de significativamente mais efémeros do que as construções duradouras!

A ideia de Património releva sempre para um universo de valores de memorabilae excelentíssima, passado preservado, memória conservada, e nomeia, invariavelmente, antiguidades e monumentos.

É de um renovar da nomeação que consta este texto, que se quer interventivo e mobilizador.

Porque a memória historiável, pretérito edificante, de excepção, testemunhal, materializado o seu registo em necessária política de conservação, porque merecedor da posteridade possível, envolve também o passado recentíssimo (a que o marco cronológico do fim do ano, século e milénio, preteriu contudo para o século passado).

Este texto relembra a (injustamente) esquecida obra plástica de um enorme artista da nossa terra - António Quadros, pintor (da segunda metade do século XX)1.

Vai separado em quatro partes:

I - Do Pintor, vida e obra. Considerações críticas consideradas pertinentes. O homem e a sua circunstância (comportamentos, ideais, incompatibilidades e prezabilidades); Subsídios sumários para uma biografia mínima.

II - Divulgação de dois textos de António Quadros, sobre pedagogia (ensino artístico) e sobre pintura: lusart & musa, ld e MANIFESTO DA PINTURA.

III - Bibliografia activa (actualizada e identificados os heterónimos). Artigos de Imprensa recentes. Bibliografias da História da Arte Portuguesa do Século XX (com e sem citação do autor - A.Q.).

IV - Nota final. Propostas concretas para tornar a obra do pintor/poeta visível e memorável, uma homenagem póstuma, inteiramente merecida, que se torne um incontornável marco no nosso património (regional e nacional).

 

I

"AQUI MORA UM TAL PICARDO QUE PINTA UNS MONOS E UNS GRANDES SARDÕES" 2.

DO PINTOR, VIDA E OBRA.

António Quadros. António Augusto de Melo Lucena e Quadros, de seu nome completo. Nascido em Viseu e aí falecido. Ou mais correctamente: Santiago de Besteiros, Concelho de Tondela, Distrito de Viseu, aí nascido em 1933, aí falecido em 1994.

Pertencia a uma velha família tradicional (da fidalguia provincial) de médios proprietários rurais, condição social que nunca alardeou (antes, escondeu sob pobre farpela), simples camponês se apresentando, com sábia e singela lhaneza.

Na descrição sintética dos dicionários (algo redutora, como veremos) é dado como pintor neo-figurativo, de pendor surrealizante, que se abeirou várias vezes de uma certa abstracção lúdica. Autor de obras de plurais media, técnicas mistas e colagens, desenhador de excelência, escultor ceramista3. "Um pintor erudito ao serviço do gosto popular"4.

As biografias sumárias, que constam nos ditos dicionários, alinham os seguintes dados: frequência da ESBAL, posterior transferência para a ESBAP (a velha Escola Superior de Belas-Artes do Porto), onde cursou Pintura, e se diplomou com uma tese - Óleo Sobre Tela de Serapilheira, datado de 1961. (vide iconografia).

A segunda metade dos anos cinquenta foi para o artista polifacetado que era o Quadros, de intensa produção e alguma visibilidade, mais conhecido no Porto, onde vivia e granjeou a fama merecida de talentoso pintor, virtuoso desenhador, inovador esteta e competente pedagogo5.

Estudou ainda pintura e gravura em Paris, onde foi Bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, em 1958 e 19596.

Expôs individualmente: no Porto, JTCS, 1957; em Lisboa, em 1958; em Lourenço Marques, Moçambique, em 1969; e novamente em Lisboa, na Galeria Moira, nos princípios dos anos 90(?)7.

Exposições Colectivas: na Sociedade Nacional de Belas-Artes, SNBA, em Lisboa, em 1956, 1959, 1960 e 1974. Em outras colectivas em Lisboa, também, entre 1956 e 1974. No Porto, entre 1953 e 1961, ainda em 1973. Em Almada, em 1957 e 1958. Em Amarante, em 1960, 1966 e 1969. Nas Caldas da Rainha, em 1960. Em Faro, em 1968. Em Lourenço Marques, Moçambique, em 1969. Em Luanda, Angola, em 1970. Em Oliveira do Conde, em 1960. Em Viana do Castelo, em 1959. E no Estoril, Póvoa de Varzim e Viseu, nos anos cinquenta, sessenta e setenta. Em Viseu, ainda nos anos oitenta e princípios de noventa.

Esteve representado em grandes mostras: I Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1958; Salão dos Novíssimos, no SNI, Lisboa, 1959; II Exposição de Artes Plásticas, da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1961; Artistas Portugueses Residentes no Estrangeiro, na Galeria Almada Negreiros, Lisboa, 1984; Pintura Portuguesa, na Galeria Almada Negreiros, Lisboa, 1985.

Exposições no Estrangeiro: I Bienal de Paris, 1959;V e VII Bienais de S. Paulo, 1969 e 1965; VI Bianco e Nero, Exposição Colectiva em Lugano, 1960; e ainda em 1959, em Roma, em 1960, em Génova, em 1965, em Pretória, em 1966, em Durban, em 1967, em Bruxelas e Hanover, e em 1968, em Madrid, Barcelona e Paris.

Recebeu as seguintes distinções: Prémio Marques de Oliveira, 1955; Prémio Armando de Basto, 1956; Prémio Domingos Sequeira, 1960; Prémio Nacional de Design, 1966; Prémio da Crítica, Paris, 1969. E ainda o Grande Prémio, da Fundação Calouste Gulbenkian de 1958/59.

Está representado em Colecções do Estado (nomeadamente no Ministério da Cultura), na Colecção Permanente da Fundação Calouste Gulbenkian, e em prestigiadas colecções particulares, nacionais e estrangeiras.

Autor de uma linearidade superlativa, de risco paradoxal, virtuoso e imaginativo, inovador, conjugando minuciosa disciplina erudita em engenho figurativo de matriz popular, muito influenciado pelas iconografias folclóricas de genuíno sentido etno-artístico, pela "regressão" propositada da figura e algum brutalismo textural e expressão gráfica vernacular de genuína ruralidade de modelos, alguma (pseudo) ingenuidade infantil, algum "destempero" louco, tudo temperado pelo encanto irónico duma perspectiva erudita, de arte-escola. Denunciava, assim, um conhecimento e consciência pioneiros no Portugal conservador e atávico dos anos cinquenta, da experiência estética europeia do pós-guerra - os figurativismos expressionistas, o movimento CoBrA, a Art Brut, o movimento cultural da Contra-Cultura, o anarquismo figural do "Internacional Situacionismo".

Abordagens exaustivas dos modos vários da figuração renovada (alguma influência adivinhada dos pintores mexicanos, dos surrealistas latino-americanos, Rufino Tamayo, Roberto Matta, Wilfred Lam, do expressionista brasileiro excepcional que foi Cândido Portinari, do Picasso incontornável, do Chagall do primeiro período). Percorrendo o caminho da arte ensinada à arte descoberta - a curiosidade maravilhada pelo universo iconográfico que vai do imaginário românico rural à olaria do "figurado" de Barcelos (por óbvias razões, como veremos). Uma espécie de figuração da figuração, uma figuração de 2 grau, peculiar e muito pessoal, indício certo de afirmada personalidade artística ("temperamento", dirá Amadeo Souza-Cardoso da característica necessária a qualquer artista).

A sua figuração inicial (obras da juventude e aprendizagem, denunciam já, claramente, um artista de assumida e reconhecida vocação, ainda com enamoramentos claramente eruditos, muito soixante) abeira-se depois, cada vez mais, do delirante imaginário fantástico plebeu de origem popular tradicional rural, irmanando-se fraternalmente (sem pose ou sobranceria) da verbe prodigiosa duma Rosa Ramalho (que veremos abaixo foi por ele "descoberta"(!) para a generalizada cultura portuguesa. A sua pintura, efusiva, festiva, exuberante e histriónica, era um olhar gémeo da barrista, uma espécie de aval da alta-cultura à criação, rica de expontaneidade e maravilhamento da cultura popular - uma harmoniosa síntese tornada pelo seu engenho possível, entre o vanguardismo erudito de um Pablo Picasso e o plebeísmo arcaico e brutalista de uma Rosa Ramalho.

António Quadros foi uma das personalidades mais marcantes e originais da arte portuguesa. O dom dos símbolos foi nele inato, ontológico, como o foi nos outros grandes pintores portugueses do Século XX, no panteão superlativo, onde ombreia com uma Paula Rego, um Júlio Pomar, um Amadeo de Souza-Cardoso, um Eduardo Viana, uma Maria Helena Vieira da Silva, um Fernando Lanhas, um Júlio Resende, um Joaquim Rodrigo, um António Dacosta, um Cruzeiro Seixas, um Eduardo Luís, ... e fiquemo-nos por aqui! (uma dúzia de nomes de excepção).

Menos conhecido que os outros onze, por razões que apontaremos adiante, a glória do seu nome e merecida fama, que ele menosprezava com a atitude desprendida e o desapego de um Diógenes beirão, essas têm que ser construídas por nós, que o conhecemos, com ele privámos estimulante amizade e lhe amámos a têmpera - essa grandíssima alma de poeta/pintor8.

Comparado pelos críticos, não raras vezes, com Eduardo Luís, um minucioso e pormenorista surrealista-lírico cultor do trompe-l'oeil, "em ambos, inicialmente se notava o recurso gozoso do grafismo fluído e elegante, a estilização linear dos contornos com sentido lírico-cómico, o gosto italianizante do quattrocento das cores lisas e do sentido serpenteante da linha, a escolha de uma temática que liga o real ao fantástico, o verosímil ao formidável, o quotidiano vulgar e o insólito sobrenatural [sem sombra de misticismo]"9.

António Quadros permaneceu fiel ao seu mundo de "estranhas" figurações, enraizadas numa imaginária vetusta e arcaica, com contornos medievalizantes - bestiário fantástico, prodigiosa fauna, bichos muitos de desvairada forma e ignorada espécie - um ambiente que cruza o fantástico mais insólito com o quotidiano mais trivial, de modo enigmático e lírico. "Virtuoso desenhador, preciosista e minucioso no traço como na côr"10. Berrante e aberta que era, estridente, fauve e popular. Nos contrastes de valores, as pinturas de António Quadros confirmam a ideia de "desenhos coloridos", mais tarde assumidamente mais matéricos e cromáticos, num jogo hábil de manchas livres e figuras esparsas, construindo uma série de imagens alegóricas intrigantes, simbólicas estranhas, metáforas enigmáticas.

"Os rigores da execução gráfica marcaram a determinação intelectual de avançar por um visionarismo [que conjugava intimamente real e onírico] que tornaria obsoleta a querela entre os neo-realistas e os surrealistas"11, afirmando com exuberância o poder encantatórico do imaginário camponês, para lá de todos os compromissos e obrigações institucionais e académicas, obediências ideológicas e gostos estéticos. "Ganhou prémios a que poucos vanguardistas lisboetas podiam aspirar (...), num aval seguro ao sucesso e respeito no meio exclusivo e exigente da crítica [e no pedante e preconceituoso círculo oficial das artes]. Motivo certo do despeito dos vanguardistas do sul (...)"12, continuando antigo e tradicional divórcio com os artistas do norte, que ainda hoje persiste e faz as duas comunidades ignorarem-se mutuamente. Óbvio motivo dos seus constantes azedumes, justificados, que o afastaram pelo seu pé, da fama que outros iam consolidando nas críticas de arte, que por esses idos apenas eram publicadas em Lisboa13.

Foi a António Quadros que se deveu a "descoberta" pela crítica erudita, da arte-escola, e a sua festiva divulgação no meio culto portuense (e depois generalizada à inteira cultura portuguesa) da imaginária barrista de prodigiosa imaginação, expressiva modelação e álacre cromatismo, da "Ramalha", o "figurado" de Barcelos (lugar da Cova, freguesia de Santa Maria de Galegos), da enorme artista popular que foi a "Ti" Rosa, Rosa Ramalho de sua graça. Foi o António Quadros quem primeiro deu a conhecer os seus sardões, lagartos e licranços, porcos (e a sua matança), os pombais, os paliteiros, os assobios de figura, as cabras, galos na "galação", pássaros de quatro patas, as "pitas", galináceos de três pernas, dragões, diabos, anjos, alminhas, cristos, mas também papões, monstros, bichos informes ("bichos que existem lá para os montes"), animais com cornos e seis pernas, garbosos cavaleiros galantes, gigantões e cabeçudos, figuras com corpo de gente e cabeça de bicho, ou com cabeças com bichos ("são coisas que me saem assim") e mais todo um delirante bestiário, que ele coleccionou religiosamente14. Parte desse espólio pertence hoje ao Estado.

"Foi no seu magistério como monitor e assistente na ESBAP que tomou a iniciativa de, no âmbito do ensino da Escola do Porto, promover a aprendizagem dos ofícios tradicionais portugueses, através do contacto com alguns dos seus mais inventivos praticantes, com o aval do director da ESBAP, o Arquitecto Carlos Ramos, [como ele] sensível à etnologia artística e ao cruzamento da fronteira entre artes eruditas e artes populares (já patente nas obras dos primeiros modernistas, Amadeo, Vianna, ou o casal Delaunay)"15.

Foi António Quadros que levou, várias vezes, a ensinar os seus jovens alunos de belas-artes, nas suas próprias aulas, a barrista na altura obscura, a quem ensinaram a assinar as suas peças - R.R16.

A sua militante acção a favor do reentendimento das tradições populares, a consciência lúcida de que o mais moderno radica sempre no mais antigo, utopia e raiz irmanadas, arte rupestre e "Guernica", minoicos e Vallauris, o contacto e comunhão da arte erudita e da arte popular, proposto e fomentado por António Quadros no seu magistério, em breve ultrapassou o âmbito estrito da escola, para em controvérsia exemplar, com escritos polémicos e apelativos, alertar as consciências de vanguardistas e público fruidor das artes para as raízes arcaicas e vetustas que tinha sempre a mais visionária vanguarda.

As cerâmicas populares de Rosa Ramalho que expõe, fraternalmente, em conjunto com obras suas, dela se considerando humilde aprendiz, constituíram a demonstração cabal da importância iconográfica inovadora da arte tradicional e da abertura a esses novos e inéditos horizontes estéticos de prodigiosa e espontânea fantasia, genuína, de raiz portuguesa tradicional, operada pelo Ensino Superior Artístico da altura.

António Quadros tinha da tradição a mesma opinião de Paul Valery: "celebrar e continuar a tradição não é o conservar as cinzas, mas o reacender das chamas"17.

Existem sinais identificadores de uma imaginária peculiarmente portuguesa, tanto nas tradições artísticas eruditas como nas populares. Há uma arte portuguesa com as duas respectivas genealogias. Tal era o avisado parecer, afirmado com plena convicção por António Quadros, na segunda metade dos anos cinquenta. E, se enfaticamente o disse, logo e melhor o aplicou num cruzamento frutuoso, ele que foi "um erudito ao serviço dos gostos populares"18.

Interessado em transpor para uma figuração peculiar o "maravilhoso" encontrado num imaginário narrativo aforístico e popular, de raízes ancestrais no folclore português, fá-lo numa expressão de delicada ingenuidade conscientemente assumida, com a lucidez acrescida, contida no aviso de que "o maior inimigo da ingenuidade que se tem é a ingenuidade que se quer ter" (Rocha de Sousa). "Um ingénuo voluntário" (como diria o velho Almada). E fará uma pintura narrativa de explícito sentido existencial, e de ambiente telúrico; lúdica, cómica, paródica, satírica, chocarreira, jocosa, pícara, sardónica, bizarra, grotesca, propositadamente tosca e rude, burlesca, sarcástica, faceta, num misto de melancolia dorida e desencantada, traduzindo a ironia, a astúcia, a malícia, a facécia (que é uma dualidade de pessimismo e troça), as manhas e artimanhas da velha sabedoria popular. Uma pintura desinteressada e militante, com uma marca pessoalíssima, coerente e consequente, com necessidade visceral, nunca, de todo, se condicionando às exigências caprichosas (e domesticadoras) do mercado19.

Um pintor que expõe um proselitismo amoroso pelo gosto autêntico do povo, sem condicionalismos nem reivindicações, com um sentimento expresso num lirismo festivo, de comicidade brutalista, viril, alacre e "plebeia", sem moralismos balofos, empolamentos exteriores ou perspectivas distanciadas. Um pintor que para alcançar as apelativas imagens do imaginário colectivo popular se adapta a modos artísticos e disciplinas que o isolarão cada vez mais da pragmática académica. A adivinhar um crescente desprezo sobranceiro do convencionalismo artístico oficial, que as suas atitudes provocatórias mais acirravam (mesmo se assentes em valores genuínos e convictos)20.

António Quadros/Grabato Dias, o pintor/poeta sonhava, desperto, com a efabulada viagem ao futuro (do qual sentiria, como Vieira, "saudades"), ao mesmo tempo que mofava dos desconcertos do mundo do seu tempo, com constantes ferroadas, certeiras e lúcidas. Azedo mas pícaro, melancólico mas sarcástico. Coleccionava projectos caóticos de utopia onde a esperança se finava na amarga rotina dos dias vulgares; construía uma realidade encantatória que nunca se refugiou em escapismos, e que de olhos bem abertos apresentava a visão crua e brutal dos desvarios do mundo. Vivia as suas pintura e poesia com a alma levantada pela lúcida e desencantada visão do mundo e de si. "Fazemos da discussão com os outros retórica, mas da discussão connosco próprios poesia" (W.B. Yeats).

Pintor do (com o) corpo, visceral e apaixonado, achava-se pleno e inteiro na "diferença" que acrescentava. Dizia: "A arte serve para dizer - eis mais uma maneira de ver o mundo. O mundo não pode ser visto de uma única forma, mas através duma catadupa de espelhos"21.

Marginal e raivosamente independente tecia comentários lapidares às vãs glórias mundanais, e provocava mesmo o poder22. São múltiplas as suas irónicas e sábias referências ao tempo nivelador. É sempre com um olhar lúcido e desprendido que enfrenta o fim derradeiro e fatal, perfeitamente consciente do inevitável vazio que viria... um dia, seguido pelo mais que provável esquecimento. Um absoluto "não ser". Para "entreter" a angústia companheira, revisitava constantemente nostálgicas recordações de mundos ideais, desvanecidos pelo acordar brutal perante o quotidiano de desilusão.

Desencantado e desgostoso com o "fechamento" continuado do regime autoritário do seu "portugalzinho" que não o merecia - o sub-desenvolvimento cultural generalizado, o atavismo, o conformismo, a resignação, a reverente submissão dos seus patrícios à insuportável privação da liberdade da iníqua "situação" salazarenta, a pátria travestida de "velha senhora", decrépita, podre e bafienta, o sufoco permanente, fê-lo, pelos últimos idos de sessenta, responder à irresistível imposição de sedutores apelos (estranhos e insólitos que agora pareçam), e ir à procura da (relativa) "liberdade em diferido". A viagem, o ir sempre... para depois voltar. E da periferia que o amarrava a um país cinzento, ei-lo que parte para uma ainda maior periferia, exílio voluntário para Moçambique, na altura começando a abrir-se aos horizontes exaltantes da utopia (mais tarde feita desilusão)23.

Em Moçambique vai desdobrar-se no militante da causa da liberdade, no construtor apaixonado, no pedagogo exemplar, no técnico experiente, criativo, avisado, e no poeta eclético, heterodoxo, nunca deixando a pintura, o desenho, a gravura, as diversas disciplinas artísticas que o completavam... e em última instância lhe justificavam a existência.

Será, via heterónimo, o verdadeiro criador do hino da revolução moçambicana, sendo o poema fundador da nação emergente retirado de Eu, o Povo, livro de poesias, melhor dizendo "livro poético", atribuído a um tal Mutimati Barnabé João, alegado guerrilheiro morto em combate. Embora negue aquela autoria, rezam as crónicas que Samora Machel lhe terá feito o irrecusável repto de escrever O Povo em Nós como glosa de Eu, o Povo.

Irá conhecer, com rigor de antropólogo, os curiosos usos e costumes das diveras etnias de Moçambique, que registará em numerosos escritos. Tornar-se-á um especialista em apicultura, descobrindo uma nova abelha, com particularidades de excepção em toda a etologia da espécie. Fará como técnicas de adobe a sua casa, que não necessita de portas, pois é uma colmeia gigante para as suas abelhas. Tem por isso a casa bem guardada, inventando para ele um óleo repelente com que se besuntava para não ser mordido.

Como pedagogo e técnico, ajuda a fundar a Faculdade de Arquitectura moçambicana, e abre-se ao convívio com o núcleo esclarecido de personalidades que, sem parti-pris colonialistas, olha com uma perspectiva de modernidade para as tradições artísticas brutalistas autóctones.

Foi ele (que já tinha descoberto em Portugal a Rosa Ramalho) o "descobridor" dum pintor local de talento prodigioso - o hoje conhecidíssimo Malangatana Valente. Data dessa altura o convívio mais próximo com Cruzeiro Seixas. São os dois da opinião contrária ao paternalismo de outros, que achavam que aquele pintor seria adulterado, na sua genuína criatividade espontânea, com os conhecimentos artísticos em que o inicia. Ensina-lhe gravura e apresenta-o às formas artísticas mais diversas e eruditas. E essa mais-valia de informação apenas vai enriquecer a alma criativa do Malangatana, e nada lhe retira de autenticidade, de identidade.

É de lá, de Moçambique, que nos vão chegando, "à metrópole", notícias vagas da poesia jubilante de inovação de António Quadros, via heterónimos. Os mesmos rigores de construção expressiva que já lhe eram conhecidos na pintura, a mesma organicidade explícita, ao serviço de efeitos de surpresa inquieta, desconcerto, visionarismo, tudo condimentado com a sátira q.b.

E em Moçambique tempos virão de desencanto, de desilusão... os dias que se seguem à euforia revolucionária são de depressiva ressaca. Nos tempos últimos o desânimo por mais uma utopia falhada é a ordem de marcha para a torna-viagem.

Nos princípios dos anos oitenta, está de novo em Portugal, recomeçando novamente os infortúnios: não é bem recebido na sua Escola, as Belas-Artes do Porto, onde antigos companheiros e discípulos não lhe facultam vaga para a docência. Ensinará Desenho na Faculdade de Arquitectura do Porto. Terá também uma breve estada no Algarve, onde faz cerâmica (em Porches), alguma pintura, e logo Viseu (Santiago de Besteiros), onde leccionou Desenho no Pólo de Viseu do Curso de Arquitectura da FAUP (Universidade do Porto) até ao seu encerramento infeliz. Nos seus derradeiros anos expõe em Viseu (em colectivas) e numa individual em Lisboa. Na sua Casa da Seara, irá ainda experimentar fazer desenhos com o rato do computador, mostrando mais uma vez a inquietude inventiva que foi uma constante da sua vida. Assina "súbdita sucata vimos".

A morte, num dia de verão de 1994, vai encontrá-lo em casa, em Besteiros, de onde nunca terá saído verdadeiramente, ele que foi um cabal cidadão do mundo, andarilho sem eira nem beira (ainda que com raízes certas, beirão que morre em casa!). Ele mesmo dizia: "a tese que o meu trabalho defende (...) é que só existe um universo, e nós com ele"24.

Morreu assim um dos maiores criadores da segunda metade do passado século, o mais polifacetado, sem dúvida, sem que os jornais ou a televisão o puxassem para as manchetes25.

Se calhar era desse modo, simultaneamente discreto (quase incógnito) mas indelével, apenas acompanhado pelos seus verdadeiros amigos e pelos muitos alunos à última morada, coberta a urna com ramos de oliveira, que queria despedir-se deste mundo o poeta/pintor. Sem luzes da ribalta e retóricas de opereta!...

O HOMEM, COMPORTAMENTOS, IDEAIS, INCOMPATIBILIDADES, PREZABILIDADES.

Incómodo, inquieto e inquietante, (inconveniente não raras vezes), inteiro e íntegro pela intensa vivência exemplar e rigoroso respeito pelos outros tanto como por si próprio, com a consciência ética exigente que o não deixava deslumbrar por oportunismos, arrivismos, ou conjunturas favoráveis (que raras terão sido!). Perfeccionista, consciente da incompletude de tudo o que criava, ... a incansável curiosidade e vontade de aprender sempre mais e mais, intuitivo que adivinhava maus carácteres, um separador de águas, incapaz da hipocrisia de falinhas mansas e de mentirosas sociabilidades. Solidário até dar a roupa do corpo, à qual dava pouca monta (aliás). A quase indigência vestuária, que não no porte, (...) o desleixo no trajar, a lembrar semelhante atitude do Guerra Junqueiro, que dizia, quando interpelado sobre a farpela roçada, o vestir (quase) andrajoso: "Oh minha senhora, eu não me visto, cubro-me!26.

As circunstâncias hostis e instáveis que foram a sua (quase) constante vivência conturbada, municiaram-no com uma truculenta ironia e sarcasmo, que sabia compaginar com a prezabilidade reservada para os amigos verdadeiros, que os tinha, ... "poucos mas bons"27!

Era um repentista com alguns "inimigos íntimos", a quem despachava com picardias letais28.

Foi para mim (também pintor como ele - e seu admirador incondicional - e agora também investigador de Teoria da Arte), um Mestre de muito avisado juízo. A ele devo a vontade de concorrer ao concurso para a carreira do Ensino Superior Politécnico. "Vais dar Estética... passas a doutor!".

Aquando da minha primeira conferência que fiz como jovem Assistente do 1 Triénio da Escola Superior de Educação de Viseu, em 11 de Setembro de 1993, com o tema: "O Feio e a Modernidade. Elogio do Feio e das suas Artes" esteve presente, e muito me honrou com a sua presença. No fim teceu os comentários mais pertinentes que naquele dia ouvi. E depois disse: "Oh Calheiros, mas... feios somos todos nós, os modernos!", e acrescentou ainda: "Faltou-te dizer o provérbio - quem feio ama bonito lhe parece".

Presidiu ao júri que me premiou num dos Salões de Pintura da Feira de S. Mateus (filho único!, ... não tive, até agora, mais prémios).

Com fama proverbial de conflituoso imprevisível, intratável de mau feitio, só o contrário posso testemunhar. Foi sempre duma prezabilidade jovial no convívio comigo, nos seus últimos anos, em que privámos mais amiúde.

Quanto mais estudo os seus gostos estéticos e o manifesto artístico implícito na sua obra, mais íntima e humildemente me vejo como (menor) continuador. Comuns vontades e igual circunstância rural, assumida inteiramente, com a naturalidade de quem quer preencher a "terra de ninguém" entre a cultura erudita (a chamada Alta Cultura) e a cultura popular (a chamada Baixa Cultura). Ambos gostámos de nos irmanar com o sentir e gosto do Povo a ele subindo... (nunca descendo!).

II

Lusart & Musa, Lda.

A INDÚSTRIA NACIONAL DOS LACTICÍDIOS

MUS, uris. M. Cícero, o rato. Mus ridiculus, o ratinho.

MUSA, ae. F. Cícero, a musa. Virgílio, a música, o canto, a poesia.

MUSAE, Cícero, as ciências, as belas letras, as artes, o estudo, o estilo.

MUSEUM, i.n. Suetónio: lugar consagrado às musas, o colégio dos sábios, a

universidade. Plínio: a gruta artificial.

MUSCA, ae.f. a mosca. Plauto, homem enfadonho. Petrónio, parasita.

1

Num dicionário de latim, estes belos vocábulos vêm seguidinhos. E, até hoje, a arte é um tal qual. Ratos e moscas, ridículo e parasítas, sabices e artifício, estilo e belas mamudas. Cada poiso, seu coiso.

Musas à música, ao canto, à poesia, à pintura, ao teatro e ao etc.

Para serem dez, esperaram pelos celulóides. De onde lhes virá a celulite, encantador atributo do primitivo dizaine, que faz a prova de qualidade profética que andou sempre ligada a estas coisas.

2

Já nos gregos, Musas eram umas deusas de Segunda, ajudantas de Apolo lá nas sugeiras do seu olimpo. Todos ouviram falar no leite das musas. Não teremos certezas quanto aos processos de produção, mas, ou bem que elas mugiam algo, ou bem que algo as mugia, ou bem que por algo e pra algo se mugiam. Nada nos garante que os trez ou mais modos não tenham coexistido desde sempre e, um tal facto, bem explicaria imensas estranhas loisas.

3

No Lá Então que era o Agora deles, o Homem, jovial caçante, não pascia gados, não furanchava a horta, nada: exdustriava e lazia. Nestlavam as ribeirinhas de leite e mel. Não era ainda o tempo das vacas gordas, as mimusas, e o leite estaria correndo de outra mais vária origem: Apolo, as Musas ou Iço Mesmo, o grande Pai. E em tal abundância, excedida a taxa do consumo celeste, caída a zero a cotação láctea, havia no céu leite divino escorrendo.

4

Todo excesso traz desordem. São as Musas, ordeiras, ordenháveis, amplas (...e rasto histórico, ficou: Um tal, músico, amigão de Ariane e Penépole, as sagazes inventoras do tele novelo, teria afirmado: Bundantes & Bundosas! Res Pectus é bom e eu gosto! gritaram as boazonas das Ah! Mázonas, madamas de uma mama de ama e um olho de brazilisco: -Seu orfeão filho da muda!... E vai, retruca o expósito lambadista: -Orfe, eu?...Eu, ri disso!) solenes, lactescentes...

5

O cheiro a leite fazia fundo ao mundo. Bons pastos. O leite ficava pastoso, talhava, coalhava, amanteigava, queijava, iogurtava, quefirava e amar garinava. Caim te viu, diz Persópia... E Caim TV. Façamos a prova dissabor pilantra. Quem quer queijadas? adas, adas... Olha a bela queixada oxidental al,al,al... Eram deuses é certo, mas o horror do momento não escapou a ninguém: Ecomania virava Economia... Ecoar, era o mais, pecébe?, criativo.

6

A variedade de produtos, criando criando uma variedade de odores, mais desacreditava os apetites. Para que nem tudo se perca, conciliam os deuses e, desejando escoar o excesso, decidem criar o humano. Isto prova que o homem já nasceu vocacionado a teobiodigestor. Comer a merda dos deuses é mais que um destino inato, foi

sempre

a vocação das natas. Pense-se, por um só momento, o porquê de, a uma dieta tão parca, se atirarem tantos péralos com tanta fúria...

7

Uma vez que Ele estaria escorrendo para os eleitos, a natureza da verdadeira origem do leite, desde sempre preocupou ninguém. Se o leite corria no leito, o eleito discorria nas calmas. Os demais deuses esperavam a sua hora numa civilcultura de tucaliptos. E como a ex-cultura estava a dar, ninguém sabia quê, e porque trair é de homem o atrai-me his man (amo seu marido) estava tão à moda como o insondável taime is moony (o tempo é dos simples, ou dos aluados).

8

Estar a dar & estar à moda são sinónimo de acumudar, seja: mudar de banco por mudança de cú, também sinónimo de acósmudar em erudito expurgado. Sem preocupados na escorrência láctea, havia por todo o Olimpo um torrencial desperdício. Somando isto ao culto do nú e à falta de nível, originou-se a figura do disponível. Em termos leiteiros corresponde ao arrependido em termos jurídicos. Disponível é um folhado de iogurte cremoso acertado a xizato. É doce. É bom.

9

A disponibilidade é um dão. Embriaga. Porque vindo das

terras altas,

faz olhar de cima quem babuja por baixo. Como só o desiquilíbrio é a porta sagrada do belo e mutante, com o disponível funâmbulista nada muda. Nada muda foi aliás a sorte de Cinétia, a décima musa.

Quando aprendeu a falar, já tinha uma ideia do que Iria diria

a Leiria

e, porque os tempos eram das massas, criou-se a aletria, o ruído de fundo, a basófia em vózzoff, o Tavares rico e a boémia rennie/eno.

10

Pasta és e à pasta voltarás. A esta voz da origem respondeu-se em dois tons: ora comendo muito, ora bicando tudo. Isto é, comendo o que é dos outros na sua vez e lugar. Para evacuar, abriram por todo o lado lojas de ecos: sim, Amo!... sim, amo... sim,

amo... com vocativos

travestidos de presentes do indicativo. Ecologística e

Excultura eram

máscaras opostas vídeo & verso uma da outra, desconhecendo-se com a inocência de dois olhos na mesma face... Amo, Amo o Amo...

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bostos não se discutem. Que seria dos ama reles... Ao tempo surgiu a lei chamada a voz do dono ou voz do povo. Sublimava o anexim, o ditado, o provérbio, o dize tu direi eu, o dito por não dito, o cola-te à baca e, ainda, dichote & chicote ou humortuguês. Este saber, chamado a ciência do irresistível, guia, à minucia, o comportamento

colectivo e resume-se na frase patrão: crer, é poder. Uma

etogenia

lusíada de velha cepa, transgride, extendendo: querer, sem

pudor...

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Umas Musas são filhas da Memória, de Zeus e de nove noites de Zelo. Outras, de Urano e Geia. Outras ainda da Harmonia. Vergonhas das grandes famílias cesteiras. E cesteiro que faz sem Sento, faz incesto. Ubíquas e omniscientes, primas de Apolo por parte dos Pais, eram as cortezãs da sua corte. Teriam o dom de restabelecer a paz entre os humanos e, apenas cantando, alijá-los de preocupações: As Cigarras formigueiras! Um Som com tom. (Sony..., soit. que animal não pensa.)

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O templo das Musas chama-se Museu. E para lá carreiam um ror de urrores chamados produtos predictor: os já anunciados por Mercúrio nas revistas da especialidade, da propriedade da undécima Musa, a

PhotoKuché. Sendo formas de arte avançada, e as únicas modernas, exigem um mínimo de existência para existir: um foto ógre (FO), um SIC (sistema impressor computarizado) e um QUID (Quédeficiente de

Unívoca Inteligência De monstrados). São brilhantes, com Brill antes.

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Museu foi ainda nome de um lendário fazedor de oráculos, (umas toscas orelhas artesanais que ampliavam o sentido da frase feita, as arcaicas precursoras das nossas escolas de arte) e o bom amigo de Orfeu. Augurava aléns de pitança perpétua onde encher a mula era a Mãe Geradora de todas as artes. Entenda-se: a poesia órfica foi sempre um rol de receitas e mesmo o Ínclito Pétrio Épico escolhia, na noite lisboeta, o Mal Cozinhado(***) como referência astronómica.

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Os Museus, FFFASF! (Fecham, Faz Favor, Às Segundas-Feiras). Possuem

Conserva Dores, Retoca Dores, maçadores e pessoal minorca. Alvos

De cobiça e desejo por parte dos aspirantes à glória eterna, desenvolvem-se a partir de um conceito criogénico, "quanto mais frio,

Melhor", cuja cria lógica é: iskas onda rocas para o seu gato. Musas, são grandes domésticas e, no Olimpo, há mesmo um vulcão lactivo com imensa lava mais branco por onde as almas mortais se poluem.

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Artes não se ensinam (J.R.& S.N.& Outros, dixit). Mamam-

se (perversão)

e (versão económica) herdam-se nos génes, uns géniozinhos

peludos

e cociguentos aparentados com os bichos carpinteiro. Este duvidoso aprendizar curresponde (pum) às versões menos nobres. O nascerl com estrela na testa (para poder ser reconhecido pelos seus bares, um dia ou outro, por aí) é o supremo canto da merenda. O ramalhete rubro das papoilas, entre teus coisos como duas rolas, vem a seguir...

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As Artes odeiam Hercules. A memória dos doze trabalhos excede o apetite por bonitos peitorais. Assim, correndo voz que todo o trabalho

tráva-lho e dá em desvios de menores, quem bem arta

defende que

escravo é escravo por ser burro. O Artista é arteiro. Pensa com os artelhos, logo, trabalhe o boneco. Tem nariz por via da inspiração, de tics de nojo e pinocadas... o material suja imenso, as cãodicções

são oh! Ríveis, o ar tem pósluidos, hoje não estou

aspirado... etc, etc.

18

Os leites eram de desvairadas cores, sabores, textura e consistência, consoante a origem divina, os rituais de pasto e ritmos de ordenha. Tempos houve em que a qualidade não era coisa mítica mística mirífica: decorria de sã simples saúde ofídica e metálica. O leite era coisa viva. Mamava-se no sentido directo, sem perder natureza. Vivo, era integrado no fazer coisas vivas. Matar os leites, o alimento, virou condição do sentir, onde todo lacticínio resultou de um lacticídio...

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As crias fomecam? Estendem os bracinhos? Negue-se-lhe o alimento directo. Transformá-los, sob o signo "erva-em-conserva" ou transerva, (útilérrima noutro horizonte das coisas) é o que o costume chama de ciência da arte de amestrar. Haverá um superlativo ajustado a este real? Ensino Ensinão? Em si, não? Nú? em si, não... Novos en sinos de bronze, badalem: O corpo do de litro é a alma do negócio. Fuja prá frente, ó senhor tenente... E é deste térreno iludir que sai a ludomania.

20

Ludico ou lúdico é o outro nome de Luso, compincha de Baco, cria- dor do bacon ó matabicho e bá cão deus. Reversamente (por força da língua, o músculo sagrado) Luso é o iludido, o iluso. Dono de múl-tiplos sentidos, só no sentido do jogo busca sentido. Aposta ora nisto ora naquilo, nunca naquilo e nisto, e será nas postas do meio onde melhor se revê: Curação e cuzinho, os belos orgãos que os cantores pesados e, por igual, os ligeiros, chamam qu`oras são e que Ózinho!

21

Alguma da moderna tecnologia que povos arrogantes chamam sua pertence desde sempre às gentes desta banda da Ibéria. Veja-se: Sonar? S o r n a r, estar ensonado. Laser?

L a z e r. Computasdores? Raio de sorte & Fado Maior. Radar? Radiar, o andar radiante adian-te, adiando adiar. Parabólicas? Carasbélicas? Desplantes cardíacos? Indústria de fogos fátuos? Já tínhamos. Tudo isso. É um dom nosso. E até, por aí, há uns senhores condom e, só isso, já os preserva activos.

22

O ensino das artes só existe em superlativo: o Assim não. As variantes assim nunca e assim sim coexistem em 2 sistemas galÁticos diferen-tes: os galantes e os galados. Os membros superiores galantes (mais conhecidos pelo número e atributo dos seus membros inferiores) são os Mexetrez (ou Maxistas dixit). Os galados ou dixi plus (antropos non tropo, mais de dez ou não digas mais) vão nos excolhos de abelhas artes onde nausfragam, atraz de um denso estore trágico-caríssimo.

23

De um modo totalmente particular e extensivo, as nossas escolas de artimusas cultivam a mais vergonhosa exploração do trabalho senil. Pobres exploradores sorrydentes, já gastos aos trinta, multaplicando o erro, putenciano o berro, dúvidindo Era e Eros, somatraíndo o mero... Que este horror te macule ó aluno tirano, tu que alunas, que anulas, lula que ulula, ânulo nulo, mulo, caça-canudos. E Tu, Nassão, cadeia sem elos, acolhe o avôprimigéneo e mata-o vite, ele o mais gordo...

 

ABISO

Texto, produzido em moca & tacha (porrada e sorrisos). Pretende-se

Não ter, em absoluto, qualquer erro ortográfico, semântico, estilístico, gráfico ou mesmo ideológico. É ilegível. E inelegível, como doutrina.

Óbvio produto da circunstância, só pode ser seu espelho e inverso. É

um testemunho de pouca fé e muita vergonha do signatário, para-lelas à má fé e vergonha nenhuma com que Estas Coisas se fazem. Tão inútil como ineficaz. Quis-se lúbrico, injuntivo. Ei-lo, inhenho, ínscio.

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De um modo totalmente particular e extensivo, as nossas escolas de artimusas cultivam a mais vergonhosa exploração do trabalho senil. Pobres exploradores sorrydentes, já gastos aos trinta, multaplicando o erro, putenciano o berro, dúvidindo Era e Eros, somatraíndo o mero... Que este horror te macule ó aluno tirano, tu que alunas, que anulas, lula que ulula, ânulo nulo, mulo, caça-canudos. E Tu, Nassão, cadeia sem elos, acolhe o avôprimigénio e mata-o vite, ele o mais gordo...

25

Desígnio bestial tomou algures o matadores de leite: apagar todos os rastos da ideia do Outro, rematando, da mesma queijada, a dois coalhos: o Eu do ó égua e o Mim do jasmim, o fazedor de vocativos e a trepadeira dos sentidos, a argúcia e a balbúcia... Eis o Metro colectivo do sono sorno que nos transporta e mede nesta balbúrdia de baldrocas, esta feira de bossas senhoras plásticas falando aos pasteurizados, numa azelheira do iria e não vai e baldios maninhos...

26

Naquele ponto precioso de odor em que o leite sublima, corrosivo, e talha em dourado (estilo João Quarto, Diablo-Si y Kitsh-net, mínimos pré-ólímpa cús) quer o matador meta cardo coelheiro, ou corredor, quer não méta, fica a prosa Henrique Cid a sem prosento, uma vez que, coisa picante, uma tártara às rugas corre fabulosamente se a picam. Moral: A divagar ao Vai-Se Longe perdem os belozes para os buldozers... Nestleite morto chama-se, sic, queijo das Belas partes.

27

Baca Estética, (aos Prazeres), geral e mastigadamente partilhada, onde fica esta rua?

Logo em pepino se troça o destino: Há eleites e

Deleitados e deleituosos e há os que sofrem lacteação das trompas para extirpação do bedelho. E só se safará o pastorinho em escolar idade, com canivete, padrinho textil, por via dum atalho de bouças, da funda acção (calou-se-te a gula? Hão-de calar-ta, bem qui hão)

de bíblica névoa de perdigotos e, ah! que arte, um só e mero ribeiro.

28

Os macróbios lácteos estão por todos os lados fermentindo entre um posso e quero e o bravo! Continue!... dos afoucinhos seus maiores. A saciedade nacional por belas hortas é um barato saldeiro. Tem de tudo e, ainda por cima, uma luge genital superior (o fiat na lux e não corras) e enjoou as farturas. Ter Cãoservatório e cães ervanários é o mesmo: vivem ambos de xás diz persas e gaitos de bofes. E o que vale é a saúde-háde vir-se, a pôrnos na alma o código de barras...

29

Aqueles que comem a nicação destes que não sabem como nicar ou não têm cão que nique, vivem da picha solitária em que se vêm & revêm vindo vir, no círculo cicioso de alfas Y óméga bais-te? Baaú,

Os si si si si cães venientes dos báubáu HiFieis ao baú de promessas...

-Não fieis nos fiéis. Só os desiqui librados procuram o equilíbrio. E essa bailansa é só o bái-le! de mãos no Sinto, o Chaguei, BiBi & Vínci, uma

Geo-esconda no lugar da morte, um final de acto: Filhos, morramos...

 

De um conjunto de Textos

Antologia de vários autores

Colectânea de ensaios

In 7 ENSINO ARTÍSTICO

Vários Autores

Cadernos Correio Pedagógico

Edições ASA, Porto, 1992

(com a devida vénia)

III

OBRAS DE BELAS-LETRAS (POESIA E ENSAIO HETERODOXOS) PUBLICADOS E PRÉMIO NÃO RECLAMADO POR ANTÓNIO QUADROS, POR INTERPOSTOS HETERÓNIMOS:

- Prémio Reinaldo Ferreira, 1968, Lourenço Marques (hoje Maputo), um tal "Grabato de Tete", que nunca dera notícia e jamais reclamará a distinção.

- 40 e tal Sonetos de Amor e Circunstância e uma Canção Desesperada, sob heterónimo João Pedro Grabato Dias, Edição do Autor, L.M. Moçambique, 1970.

- A Arca - Ode Didáctica na Primeira Pessoa. Tradução do sânscrito ptolomaico e versão contida do autor, sob heterónimo João Pedro Grabato Dias, Edição do Autor, L.M. Moçambique, 1971.

- O Morto. Ode Didáctica, sob heterónimo João Pedro Grabato Dias, Edição do Autor, L.M., Moçambique, 1971.

- Uma Meditação, 21 Laurentinas e Dois Fabulírios Falhados, sob heterónimo João Pedro Grabato Dias, Edição do Autor, L.M., Moçambique, 1971.

- As Quybyricas. Poema éthico em outavas que corre como sendo de Luís Vaaz de Camões, sob heterónimo de Frei Joannes Garabatus, Edição do Autor, L.M., Moçambique, 1972. 2 Edição, Ed. Edições Afrontamento, Porto, 1991.

- Pressaga (Ode didáctica da primeira singular à segunda plural sobre as terceiras, segundas e primeiras pessoas), sob heterónimo João Pedro Grabato Dias, Edição do Autor, Machava, Moçambique, 1974.

- Eu, o Povo, sob heterónimo Mutimati Barnabé João, Ed. Serviços Culturais da Frelimo, Maputo, Moçambique, 1975.

- Facto/Fado. Pequeno Tratado de Morfologia. Parte VII, sob heterónimo João Pedro Grabato Dias, Edição do Autor, Moçambique, 1982, 2 Edição, (tb. do Autor), Porto, 1985.

- O Povo em Nós, sob heterónimo João Pedro Grabato Dias, Ed. Edições Pouco, L.M., Moçambique, 1991.

- Saga Press, sob heterónimo João Pedro Grabato Dias, Ed. Edições Pouco, L.M., Moçambique, 1992.

- Sete Contos para um Carnaval, sob heterónimo João Pedro Grabato Dias, Ed. Edições Pouco, L.M., Moçambique, 1992.

- Guerrilha em Horas Extraordinárias, Edição do Autor, de número de exemplares escasso, s/d, Lisboa.

- Introdução e um Pedido de Asilo Poli Ético, Edição do autor, de número de exemplares escasso, s/d, Lisboa.

A que se juntam os presentes textos soltos: um (pseudo) ensaio crítico - Lusart & Musa, ld. A Indústria Nacional de Laticínios, pequeno texto editado em colectânea de ensaios sobre ensino artístico pela editora Asa em 1992, e o Manifesto da Pintura, o que se pensa ser um inédito ou então texto de muito diminuta divulgação oferecido, já encadernado, sem nota de edição ou data, em 92 ou 93(?), ao autor destas linhas pelo próprio António Quadros, e que se publicam agora, com mais destaque.

IV

NOTA FINAL

Imperativo patrimonial. Devidas acções de preservação, registo e ampla divulgação da obra plural de António Quadros/Grabato Dias, (que como já vimos é) quase desconhecida do grande público, e (imerecidamente) ausente do espólio preservado da cultura portuguesa.

Quatro propostas concretas (ainda que ambiciosas) para tornar a obra notável de inovação marginal e sábia do pintor/poeta, pedagogo, teórico da arquitectura... apicultor especialista de fama, letrista de canções muito populares (de Zeca Afonso, de Amélia Muge), antropólogo... andarilho, um "moimento" do nosso incontornável património (regional e nacional). Para que não se cumpra outra e ainda mais uma vez o velho ditado popular, repetida maldição: "ninguém é profeta na sua própria terra". São as ditas propostas, a saber:

1. A reedição integral dos seus escritos e da sua obra de poesia completa, empreendimento necessário e urgente (por serem as primeiras edições, de autor, muito modestas na tiragem), a merecer o indispensável concurso mecenático e o esforço editorial que, por especialização vocacionada, se deseja com a chancela da Editora Assírio & Alvim. Assim haja vontade e recursos. E também o apoio e coordenação de especialistas (que os há).

2. A publicação de um catálogo (raisonné) com exaustiva e completa reprodução iconográfica da sua obra de pintura, desenho, gravura e cerâmica, com superior impressão e edição. Com o apoio mecenático e o concurso financeiro da inevitável Fundação Calouste Gulbenkian e de outras entidades (mesmo estatais) a quem o generoso patrocínio prestigiaria.

3. Um estudo académico de aprofundado fôlego, exaustivo retrato biográfico e artístico/crítico - tese de mestrado (ou mesmo de doutoramento) - a apresentar na sua escola: a Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto. FBAUP (Sucessora da velha ESBAP - Escola Superior de Belas Artes do Porto, onde foi brilhante aluno, monitor e assistente).

4. Uma grande exposição antológica, abrangendo os vários períodos da sua produção artística e as várias disciplinas que explorou, organizada com toda a sua bibliografia activa e com todas as obras de arte conhecidas, num apelo a serem cedidas temporariamente pelos seus inúmeros coleccionadores, numa homenagem póstuma que urge ao grande e plural artista que foi António Quadros/Grabato Dias, realizada em Viseu (sua naturalidade, "começo e fim"), sob o inadiável patrocínio autárquico, forma lisonjeira de a actual Câmara Municipal de Viseu se redimir pela imperdoável atitude de (autêntica) comissão liquidatária do Polo de Arquitectura que funcionou na cidade, na segunda metade da década de oitenta e primeiros anos de noventa (em má hora transferida para Coimbra), escola em que o próprio António Quadros foi o competente professor de Desenho, num esforço (desejado) para ultrapassar o generalizado absentismo cultural (verdadeiro grau zero da cultura), que foi o retrato de anteriores mandatos (e que a recuperação do Teatro Viriato e a animação escultórica das rotundas indicia prometedora mudança...). E novamente com o concurso das Fundações interessadas em dar o apoio financeiro, mormente instituições estatais, apoios locais (ao abrigo da lei do mecenato), e outros apoios institucionais da região, nomeadamente do Ensino Superior Público.

Para uma eventual Comissão Organizadora de uma exposição antológica de tamanha ambição apontam-se já o concurso de personalidades intelectuais moçambicanas, o apoio institucional das duas Escolas de Belas-Artes, a FBAUL e a FBAUP, ou da Cooperativa de Actividades Artísticas Árvore, o apoio avisado dos artistas Professores Ângelo de Sousa e José Rodrigues, dos Arquitectos Alves Costa e Alcino Soutinho, do Professor Catedrático de Arquitectura António Jacinto Rodrigues, e de outras personalidades do Porto, que conheceram de perto o artista, e igualmente conhecem os coleccionadores da sua obra; a consulta dos leiloeiros de Lisboa e Porto, que licitaram há não muito tempo obras de António Quadros, igual consulta a Galerias de Arte, de Lisboa e do Porto; a acção de animação do Teatro Trigo Limpo - ACERT, de Tondela, cujo responsável - José Rui Martins - se mostrou vivamente interessado numa acção de homenagem digna ao saudoso artista. Ainda a desejada e preciosa colaboração do filho do pintor, o Engenheiro João Quadros. E, claro, os magros préstimos e a inteira disponibilidade do presente escriba (que conviveu com o António Quadros nos seus derradeiros idos viseenses e que conseguiu a sua amizade cúmplice e conselho avisado).

É, finalmente, o tempo certo de formularmos um sentido desejo: "Que a circunstância mofina da sua morte inesperada e brutal não torne esquecida num silêncio conivente e ignorante ("numa apagada, vil, ruim tristeza") a enorme Obra de Arte que foi a Vida de António Quadros.

ARTIGOS DE IMPRENSA

CABRITA, António, - "Os Limites do Mundo. Grabato Dias", in Expresso, 52R, Revista, Sexta-feira, 9 de Abril de 1993.

CORTEZ, Maria de Lurdes, - "O Fascínio e a Desconfiança da Linguagem", in JL, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Tema: António Quadros/Grabato Dias, Ano XIV/n 632, de 4 a 17 de Janeiro de 1995.

D'OLIVEIRA, Teresa Roza, - "Alguns Antónios que Grabato pintou Quadros em Dias", in JL, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Tema: António Quadros/Grabato Dias, Ano XIV/n 632, de 4 a 17 de Janeiro de 1995.

FORJAZ, Arqt José, - "O António e a Ilha", in JL, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Tema: António Quadros/Grabato Dias, Ano XIV/n 632, de 4 a 17 de Janeiro de 1995.

GONÇALVES, Rui Mário, - "Um pintor erudito ao serviço do gosto popular", in JL, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Tema: António Quadros/Grabato Dias, Ano XIV/n 632, de 4 a 17 de Janeiro de 1995.

J.P., - "Quadros da Vida", in Correio Beirão, Regional, rubrica Roteiro, 31 de Julho de 1994.

KNOPFLI, Rui, - "António GRABATO Quadros DIAS. Homem do Renascimento", in JL, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Tema: António Quadros/Grabato Dias, Ano XIV/n 632, de 4 a 17 de Janeiro de 1995.

NUNES, Maria Leonor, - "Grabato Dias" - Só faz sentido dar mais um passo em cada dia", in JL, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Ano XI, n 494, de 24 a 30 de Dezembro de 1991.

QUADROS, António, - "Poemas Inéditos", in JL, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Tema: António Quadros/Grabato Dias, Ano XIV/n 632, de 4 a 17 de Janeiro de 1995.

SALVADOR, José A., - "Nos óculos, de aros negros, fazia lembrar José Afonso(...) António Quadros (pintor)", in Expresso, ..., Revista, Julho de 1994.

SAÚTE, Nelson, - "Estar vivo é estar à morte. Morreu António Quadros, pintor e poeta", in Público, 39 - Cultura, Domingo, 3 de Julho de 1994.

SAÚTE, Nelson, - "A Tonta Partida dos Deuses. A Morte de António Quadros, pintor e poeta", in Público, 4 - Leituras, Sábado, 16 de Julho de 1994.

SAÚTE, Nelson, - "Os Escritores da Terra de Ninguém" - As Independências, relançaram o debate sobre a nacionalidade literária. Artigo sub-titulado Vinte anos de Literatura Pós-Colonial, in Público, Leituras, 2 - Sábado, 22 de Abril de 1995.

 

BIBLIOGRAFIA DA ARTE PORTUGUESA DO SÉCULO XX, EM QUE É CITADO ANTÓNIO QUADROS (NO TEXTO E/OU NA ICONOGRAFIA):

CARREIRO, Carlos, et al., - ESBAP. FBAUP, catálogo da Exposição, Edifício da Alfândega do Porto, 9 de Junho a 6 de Agosto, Ed. FBAUP, Porto, 1995.

FRANÇA, José-Augusto, - A Arte em Portugal no Século XX. 1911 - 1961, Ed. Bertrand Editora, Lisboa, 1991.

GONÇALVES, Rui Mário, - Pintura e Escultura em Portugal. 1940 - 1980, Col. Biblioteca Breve, Série Artes Visuais, Ed. Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Ministério da Educação, Lisboa, 1991.

GONÇALVES, Rui Mário, - História da Arte em Portugal, Volume 13, De 1945 à Actualidade, Ed. Publicações Alfa, Lisboa, 1986.

GONÇALVES, Rui Mário, - Arte Portuguesa dos Anos 50, Catálogo, Ed. Fundação Calouste Gulbenkian, Câmara Municipal de Beja, SNBA, Outubro de 1992, Janeiro de 1993, Lisboa, 1992.

LUZ AFONSO, Simonetta, et al., Colecção Manuel de Brito. Imagens da Arte Portuguesa do Século XX, Ed. Electa, Museu do Chiado, Lisboa Capital Europeia da Cultura 94, Lisboa, 1994.

PAMPLONA, Fernando de, - Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses, IV Volume, 2 Edição (Actualizada), Ed. Livraria Civilização Editora, Porto, 1988.

PEREIRA, Paulo, et al., - História da Arte Portuguesa, Volume III, Col. Grandes Temas da Nossa História, Ed. Círculo de Leitores, Lisboa, 1995.

PERNES, Fernando (coordenação), et al., - Panorama. Arte Portuguesa no Século XX, Fundação de Serralves, Ed. Campo de Letras, Porto, 1999.

PORTELA, Artur, - Salazarismo e Artes Plásticas, col. Biblioteca Breve, Série Artes Visuais, Ed. Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Ministério da Educação, Lisboa, 1982.

TANNOCK, Michael, - Portuguese 20th Century Artists. A Bibliographical Dictionary, Ed. Phillimore, West Sussex, England, 1978.

VALARINHO, António Júlio (coordenação) et al., O Culto, a Festa e o Quotidiano. Figuras e Figurado, Catálogo da Exposição realizada na FIL, Ed. Instituto do Emprego e Formação Profissional, Ministério para a Qualificação e o Emprego, FIL, 5 a 9 de Novembro de 1997, Lisboa, 1997.

 

BIBLIOGRAFIA ANTOLÓGICA E GERAL DA ARTE PORTUGUESA DO SÉCULO XX, EM QUE É TOTALMENTE IGNORADA A OBRA ARTÍSTICA DO PINTOR ANTÓNIO QUADROS:

FRANÇA, José-Augusto, - A Arte e a Sociedade Portuguesa no Século XX (1910 - 1990), 3 Edição Actualizada, Col. Horizonte Histórico - 39, Ed. Livros Horizonte, Lisboa, 1992.

FRANÇA, José-Augusto, - Pintura Portuguesa do Século XX. 20th Century Portuguese Painting. De Amadeo a 1990. From Amadeo till 1990, Ed. Correios de Portugal, Lisboa, 1990.

GONÇALVES, Rui Mário, - A Arte Portuguesa do Século XX, Ed. Temas & Debates e o Autor, Lisboa, 1998.

GONÇALVES, Rui Mário, - 100 Pintores Portugueses do Século XX, Ed. Publicações Alfa, Lisboa, 1986.

GONÇALVES, Rui Mário e SILVA DIAS, Francisco, 10 Anos de Artes Plásticas e Arquitectura em Portugal. 1974 - 1984., Col. Nosso Mundo, Ed. Editorial Caminho, Lisboa, 1985.

HENRIQUES DA SILVA, Raquel, et al., História das Artes Plásticas, Comissariado para a Europália - 91 - Portugal, Ed. IN.CM - Imprensa Nacional, Lisboa, 1991.

MELO, Alexandre, Artes Plásticas em Portugal. Dos Anos 70 aos nossos dias, Ed. Difel, Lisboa, 1998.

MELO, Alexandre e PINHARANDA, João, Arte Contemporânea Portuguesa. Portuguese Contemporary Art, Ed. SEC, Galerias de Lisboa, JL, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, 1986.

PINTO DE ALMEIDA, Bernardo, Pintura Portuguesa do Século XX, Ed. Lello & Irmãos - Editores, Porto, 1993.

 

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Notas:

* Pintor, Professor e Investigador de Teoria da Arte.

1 Texto crítico que inside prioritariamente sobre a actividade de António Quadros no universo das belas-artes, complementa e completa, espera-se, o que sobre o mesmo António Quadros das belas-letras, da poesia, (João Pedro Grabato Dias ou frei Joannes Garabatus, ou Mutimati Barnabé João, seus alegados heterónimos - o Grabato de Tete), já se publicou nesta revista, no Ano 4, n 17, de Janeiro de 2000, texto da Série "Daqui Houve Gente de Portugal", da Rubrica Spectrum, da autoria do prezável colaborador e nosso amigo Martim de Gouveia e Sousa. (Vide o referido texto: "João Pedro Grabato Dias ou a ousadia expressional: um grito neo-medieval de um poeta excepcional a inscrever no futuro").

2 Escrito popular anónimo (muito explícito e vernacular) que apareceu um dia à porta do pintor, grafado numa caligrafia insipiente e sobre cartão de embalagem, que ele assumiu com jovial galhardia, apropriadamente protegido com um auto-colante transparente, e pendurado da janela, à vista de todos, à laia de letreiro ou cartaz de publicidade. De notar que "picardo" não parece ser juízo de valor sobre a veia satírica (pícara) do pintor, mas provável corruptela de Picasso.

3 Texto sintético pelo qual é nomeado, nos dois dicionários de artistas portugueses, a saber: Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses, de Fernando Pamplona, IV Volume; Portuguese 20th Century Artists. A Biographical Dictionary, de Michael Tannock.

4 Título de um artigo publicado sobre A. Q., pelo crítico de arte Rui Mário Gonçalves, no tema: António Quadros/Grabato Dias, do JL, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Ano XIV, n 632, de 4 a 17 de Janeiro de 1995.

5 Ainda aluno veterano foi convidado para monitor, sendo respeitado conselheiro dos seus colegas. É contada a lapidar resposta que dava, com ironia despida de soberba ou pedantismo, aos que lhe mostravam os insipientes desenhos: "Não está mau!... Mas faz mais cem como esse!".

6 Aí privou com alguns artistas portugueses, (como ele) voluntários exilados, que lá iam procurar a renovação artística que a pátria madrasta proibia, negava, impedia. Conviveu com pintores "da sua creação" - René Bértholo, João Vieira, Lourdes Castro, e sobretudo Eduardo Luís, também Bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, como ele, com quem privou mais amiúde e com quem consolidou uma sólida amizade. De António Quadros pintor diz Rui Mário Gonçalves, referindo-se também àquele último, seu amigo e companheiro parisiense: " (...) foi no Porto que encontrou o seu primeiro núcleo de admiradores que frequentemente o ombreavam com o lisboeta Eduardo Luís. (...) e se o primeiro [Eduardo Luís] foi um exímio e meticuloso cultor do trompe l'oeil voyeur-poético, António Quadros permaneceu fiel à sua peculiar figuração, minuciosamente estranha e desconcertante." In JL, Ano XIV, n 632, de 4 a 17 de Janeiro de 1995.

7 Da amiga Moira Forjaz, ex-mulher do Arquitecto Zé Forjaz, seus amigos do Porto e dos tempos de África, com quem se incompatibilizou por quebra de trato - uma venda de obra indesejada pelo artista.

8 Encarnação viva do horaciano UT PICTURA POESIS. Pintura é Poesia muda, encanto para os olhos; Poesia é Pintura feita de palavras, canto para os ouvidos.

O lirismo (pseudo) epopeico, picaresco e satírico dos textos, semeados de vernaculidades e arcaísmos, tinha como gémeo iconográfico o sentido metafórico e o brutalismo popular e ingénuo de raízes românicas ou do figurado minhoto dos seus desenhos e pinturas. Conjugava e comungava intimamente, e de modo literal, poesia e pintura, nas inscrições, nos letreiros, que acrescentavam paradoxal ou ironicamente redundante comentário à figuração, no campo visual pintado ou em pseudo-molduras.

9 Rui Mário Gonçalves, in JL, idem, ibidem.

10 Rui Mário Gonçalves, idem, ibidem.

11 Rui Mário Gonçalves, idem, ibidem.

12 Rui Mário Gonçalves, idem, ibidem.

13 Condenado ao silêncio (imerecido), ao esquecimento (excessivamente penalizante), a sua obra, tanto a plástica como a poética, riquíssima de originalidade, peculiar, plural e complexa (mesmo se algo irregular) permanece ignorada do grande público. Considerado pelos críticos de Lisboa um poeta/pintor intratável, tinha um azedume compreensível por "aquela fauna" como dizia depreciativamente. A sua atitude de reserva orgulhosa, sem vaidade vã, mas antes sábia da efemeridade das mundanidades, avesso ao estrelato das consagrações domesticadoras, traduzia-se num trato propositadamente conflitual, provocatório, truculento (não raras vezes escandaloso, imprevisível de exaltação inconveniente!...) no contacto e no escrito. António Quadros alimentou profundo desafecto pela "fauna pederasta das altas Artes", um desprezo olímpico pelos círculos do elogio mútuo, na sua afirmação de que os críticos "encartados" pervertem a função da arte, pois "estão convencidos de que os artistas existem porque eles o dizem. Eles tocam trombetas e gritam: vejam como somos inteligentes. Julgam que só eles sabem o que é bom e por isso devem ser seguidos. Mas são quase sempre insensíveis e não aceitam aquilo que se lhes dá" (in JL, Ano XI, n 194, de 24 a 30 de Dezembro de 1991).

A ambição da fama e glória ou o convívio pedante com os elitistas círculos da "intelligentzia" lisboeta carece de sentido para um homem que se dizia "ser do campo na cidade, e da cidade no campo". Mente vagabunda, atópica, eterno andarilho, um literal cidadão do mundo, que foi prezável para quem lhe merecia a aberta, cordial, desprendida, sólida amizade, um sátiro amável que era, um bom selvagem esclarecido, uma "fera de bom coração". Desapegado e indiferente ao elogio leviano, recusando solenes louvores académicos ou pomposos discursos de cátedra, António Quadros revelava-se um homem simples, chão, um beirão (iluminado, não atávico) que nunca alinhou um oficial e conveniente curriculum vitae. Nunca procurou a espuma frágil da fama, as honras da prosa laudatória passaram-lhe ao lado (embora bem merecesse consagração pública), mas é talvez com alguma mágoa sentida que, a propósito ainda dos críticos e historiadores de arte portuguesa do século XX, se refere ao facto do manifesto desconhecimento geral da sua pintura no seu país (distinguida que tinha sido internacionalmente, mesmo com alguns prémios prestigiantes), que nunca mereceu a mais rudimentar referência nos jornais portugueses (numa surda morte antecipada pelo silêncio ofensivo de quem devia divulgar e não silenciar).

O desconhecimento geral da sua obra foi alegadamente fruto de desencontro fortuito com o decano dos críticos e historiadores de arte - o Professor Catedrático Jubilado da Universidade Nova - José-Augusto França, e na sua sequência o dos seus discípulos, críticos lisboetas conhecidos (vide Bibliografia final, sem nenhuma citação a António Quadros). E é ele próprio que dá a razão desta notória omissão, uma severa condenação ao silêncio (acatada por todos) por parte do "Papa da Crítica", o citado José-Augusto França. Na base está possivelmente um qui-pro-quo conhecido. É o próprio António Quadros que o conta: "Quando abriu a Galeria Pórtico, no Largo de Camões (Lisboa), foram convidados vários alunos da Escola de Belas-Artes para exporem os seus trabalhos. Eu, o Bértholo, a Lourdes Castro, o João Vieira, e outros, resolvemos fazer uma exposição colectiva. Houve atrasos e, no dia da inauguração, enquanto andava a montar a mostra, José-Augusto França, que eu não conhecia, andava atrás de mim, fazendo-me perguntas. Pedi-lhe desculpa, porque não tinha tempo, e perguntei-lhe: o senhor também pinta? Ele respondeu que fazia uns pastéis. E eu disse: Ah, ... então é pasteleiro! A partir daí, o meu nome era sistematicamente omitido nas suas críticas, mesmo no caso das exposições colectivas". (in JL, n 494, de 24 a 30 de Dezembro de 1991).

14 É contada no Porto a comovente história do encontro entre os dois - António Quadros e Rosa Ramalho, na sua casa naquela cidade. Algumas mentes perversas de inveja e ciúme, foram dizer à barrista que o "senhor António" andava a enriquecer à sua custa, vendendo a bons preços, o "figurado" que ela lhe tinha dado ou vendido a preços irrisórios. A barrista foi ao Porto saber do caso e descobriu com os olhos marejados de lágrimas, que os seus "bonecos" estavam todos ali perfilados, como preciosidades de colecção. Caíram nos braços um do outro. Depois disse a barrista, diante daquele quase milhar de peças suas: "um dia pensei - gostava de ver todas as coisas que fiz juntas, pô-las em carreirinha. Só para ver até onde ia..."

15 Rui Mário Gonçalves, idem, ibidem.

16 Foram extremamente vivas, genuínas, desconcertantes, exaltantes de cultura, vindas de uma mulher astuta, de grande saber (mesmo se iletrada, são sabia ler nem escrever), as aulas que deu aos jovens estudantes de belas-artes do Porto. Tinha o linguajar despachado de minhota, entremeado de arcaísmos, que dizia sempre "com sua licença o porco", logo seguido de destravadas vernaculidades (sem pedir igual licença). Quando tratada por Dona Rosa, dizia: "Rosa, apenas Rosa. Ou Ramalha, como quiser". São ditos da "Ramalha", gravados por António Quadros, na diversas aulas da ESBAP:

"No cercar da peça boto-me e reboto-me às voltas das minhas mentiras. Truca-truca, truca-truca. Eu, na minha e o mundo todo num devagarinho, numa sesta de agosto, numa manhã de pouco faz...

É da arte: se o barro entra em dudas e corações, ponho as mãos a ralhar à obra. Que as dudas, ou são imaginações ou defeitos de preparo. Estremejo, obrar com dudas não tem legítima. É malfeição. E nem as mãos lo consentem, e ora viram raivosas ora desanimadas." (ditos com peças entre a mão e o regaço, 57/59).

"Deus Nosso Senhor fez o Homem de Figurado. Para melhor se ver e melhor entender.

Não sêmos de fôrma nem de sobras e afagados. Sêmos o seu Santíssimo Figurado.

Assim temos veneta e feitio. E temos ignorância. E havemos temor e destemor. E vergonha e desvergonha e sem vergonha.

Se eu rachar agora em duas, passa a meia hora e já não entendo e minha metade. E figurar é pior. É aceitar e agradecer, meninos, é aceitar e agradecer..."

(gravado na mesma aula, na ESBAP, por António Quadros)

"Vai o barro ao forno como vai o pão. Dá-se-lhe quatro horas de lume e depois pôe-se ao sol... (...) os meus bonecos. Afeiçoei-me a eles como aos meus netos. Por isso é que os continuo a fazer...

(...) não lei ler, mas também não precisei. Sei fazer isto - RR - e todo o mundo sabe ler... (...) os bonecos que mais gosto? Olhe, gosto mais de todos que são meus..."

Sobre o preço aproximado das peças pequenas comparadas com as grandes, dizia: "É que esta piçalhada enreda muito, faço um cabeçudo em menos tempo" (ESBAP, 57/59). (in o Culto, a Festa e o Quotidiano. Figuras e Figurado. Ed. IEFP, Lisboa, 1997).

17 Paul Valery, Discurso sobre a estética. Poesia e pensamento abstracto. Col. Passagens, Ed. Veja, Lisboa, 1995.

18 Rui Mário Gonçalves, idem, ibidem.

19 Um realismo mágico, surrealista, de pendor lírico, mas também vernacular, chão e plebeu, povoado de um bestiário peculiar, muito próprio e pessoal, mas com a ambição de geral empatia, conjugando raiz e utopia - dos animais das berças rurais da sua aldeia às mais desvairadas criaturas saídas da sua imaginação prodigiosa ou das múltiplas paisagens (sobretudo as do espírito) de eterno andarilho.

20 Desconcertava os "marchands" e directores de galerias. A galerista D. Laura Soutinho perguntava-lhe o preço a dar a um quadro e ele respondia: "quanto custa uma cabra?... é o preço duma cabra!". E por preços rurais, de feira de gado, se ajustou o preçário duma exposição sua na Cooperativa Árvore.

21 JL, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Ano XI, n 949, de 29 a 30 de Dezembro de 1991.

22 É contada na ESBAP, Porto, a atitude provocatória e desafiante do António Quadros, a uma visita de um burocrático funcionário superior do regime salazarista. Mãos nos bolsos, fumando furiosamente o cachimbo sem a conveniente reverência e desconhecendo olimpicamente a autoridade representada num qualquer sub-secretário arrogante... (foi retirado à pressa por colegas assistentes, receando escândalo... e prováveis represálias).

23 O seu exílio em Moçambique, lonjura de além-mar, periferia afastada, "província" própria para degredos, fê-lo ser, no seu próprio país um quase desconhecido - "quem não aparece esquece". O mesmo não aconteceu em Moçambique, sua segunda pátria e abrigo de exilado, onde publicou em edições próprias, de número escasso, a maior parte dos seus livros, prolixo poeta que foi. E onde fez algumas exposições da arte que ia continuando a criar.

24 JL, Jornal de Letras Artes e Ideias, Ano XI, n 949, de 24 a 30 de Dezembro de 1991.

Teve a coragem de ir, sempre, viver por aí... e arrostar com os ínvios (des)caminhos do mundo e da vida (do seu próprio mundo, da sua própria vida). E teve plena consciência das suas errâncias. "O que produzi de 50 a 64, pelos sucessivos exílios em que andei, e onde o mental não foi o menor, é impublicável, por isso mesmo..." idem, ibidem.

É o seu desprendimento de bens e mundanidades (um comunista libertário, no sentido mais literal e ético dos vocábulos), que proporciona a leveza inefável da liberdade livre que o levou a tantas paragens..., um caminhar sem destino (aparente), rota de um nómada da vadiagem poética e vivencial, andarilho do espírito tanto como de desvairados lugares, absoluto cosmopolita, e contudo um beirão cheirando à sua terra de Besteiros. O genius loci travestido de urbi et orbi. (Só aparente contradição, pois somos o mais possível cidadãos do mundo, quanto mais o formos da nossa aldeia). "O universal é o local sem fronteiras" disse um dia Miguel Torga.

Assim era o Quadros - um rural no mundo (Paris, Moçambique, Lisboa, Porto, Faro, Viseu), um urbano em Besteiros.

O que quis com o seu trajecto de "exílios" foi fazer de qualquer lugar onde parou e descansou a alma inquieta, uma referência existencial, assinalada indelevelmente no mapa das suas vivências e afectos - qualquer local tornado (no seu mundo) universal.

25 Os jornais, a rádio, a televisão, as personalidades avisadas, ignoraram (descaradamente) a sua morte, como repetidamente tinham ignorado a sua vida, as suas criações, escritos e quadros, terracotas, construções, lições e demais sucessos esquecidos e feitos maiores, mais não fazendo do que prolongar uma leviana ignorância (não completamente inocente), velha de anos.

Depois vem o carpir póstumo e tardio de críticos com "pena que a sua obra não tivesse tido a divulgação merecida entre o grande público". É o próprio Rui Mário Gonçalves que justifica mais uma vez no artista, o seu olvido e esquecimento (ele, que em sucessivos livros sobre a arte portuguesa do século XX o ignorou ou raramente citou): "A carreira pictórica de António Quadros caracterizou-se por uma inicial presença intensa e um quase absentismo expositório, no seu final entre nós (segunda metade dos anos oitenta até ao ano da sua morte, 1994)". JL, Ano XIV, n 632, de 4 a 17 de Janeiro de 1995.

A verdade é que os seus quadros só pelo conteúdo peculiar denunciavam a têmpera do artista. Assinava António, ... não datava(!)

E hoje, mistérios insondáveis que passarão provavelmente por impostos, ivas, interesses de marchands e investidores (coleccionadores), aparece em leilões, com inesperada cotação ainda, ... mas enganosamente identificado como "anónimo, assinado António"!!!. Isto nas suas facilmente reconhecíveis figurações passoalíssimas, em desenhos e gravuras, em telas ou cerâmicas (de Porches)... vê-se em revistas de arte e artigos críticos da imprensa, abundantemente ilustrados - uma indesculpável conspiração pelo silêncio mesquinho, feita por todos os interessados (que não distraídos!) - sina, fado, destino desatinado... do Quadros, o "ilustríssimo desconhecido".

Uma lenda feita de desconhecimento efabulado, portanto "famigerado", no sentido mais literal e etimológico.

26 Aquele vestir (quase) andrajoso levou-o um dia em que os achaques de saúde o fizeram encolher-se na escadaria da Misericórdia de Viseu (onde estava instalado o Pólo de Arquitectura) a não ser atendido pelos transeuntes, confundido com um qualquer sem-abrigo em plena crise alcoólica.

27 Publicado no Expresso, cartaz, de 9 de Julho de 1994, são como rezam abaixo os extratos da conversa afável e hospitaleira que António Quadros teve com o jornalista António Cabrita, em casa do pintor/poeta, a Casa da Seara, em Santiago de Besteiros, Tondela, para o texto Os Limites do Mundo, sobre a sua obra, que foi publicado no Expresso, Revista, Sexta-feira, 9 de Abril de 1993: "Falámos de agricultura, por dentro e fora de Vergílio, da abelha africana e do que a distinguia da sua congénere europeia, da arquitectura de adobe, da pintura de Leonardo e dos Tratados de Vasari, de Jorge de Sena e da Coimbra dos anos cinquenta, com José Afonso e Herberto Hélder à ilharga (...) deitámo-nos às três da manhã, com muitos copos e pão e uvas e requeijão deitados abaixo. Quando acordei, pelas onze horas, tinha um bilhete sobre a mesa da cozinha com indicação da hora em que tinha sido redigido, 7 da manhã, pão e mel, leite caseiro e um poema sujeito a mote: "antónio cabrita/não seja c'á bruto/não talhe no homem/retalhe o assunto (...) /a acção na acção/eis o que é bonito/não pergunto o nome/da estripatisa/que me estripa a tusa/bebo-lhe o perfume/a galba, o volume/e afio este gume/de olhos no cume/da sua presença/sei lá se é casada/se faz marmelada/tem mãe entravada, a unha encravada/e anda galicada?/sei o manifesto/que é todo este resto:/ela, é o seu gesto/... em coisas do corpo/uma coisa e porco/e outra, o presunto/antónio cabrita/esqueça o animal/retalhe o assunto".

28 São conhecidos os ditos cruzados entre os dois António Quadros: o lisboeta António (de Castro e) Quadros (Ferro), o poeta (e sobretudo ensaísta), filho de António Ferro e de Fernanda de Castro (e Quadros) e o nosso pintor e poeta, o beirão António (Augusto de Melo Lucena e) Quadros. São assim os madrigais, trocados com algum acinte. Dizia o Quadros lisboeta: "Oh António, é muito desagradável que sejamos conhecidos pelo mesmo nome. Você como é pintor devia chamar-se - António dos Quadros...!" Réplica repentina e perspicaz do Quadros beirão, resposta pronta: "E você que gosta de fazer umas rimas de pé quebrado - o António das Quadras!"

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