Millenium n. 22 - Editorial

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Mais um número especial de MILLENIUM. Na linha de uma orientação de estreita e multímoda ligação com a vida da região. Dedicado, desta vez, ao património cultural, com brevíssimas incursões, embora, nos distritos vizinhos da Guarda e de Aveiro, por força da delimitação mais setentrional do Douro-Sul e mais ocidental da terra de Lafões. Pela palavra e, em alguns casos, também pela imagem, de destacados investigadores e especialistas do distrito, nomeadamente nos domínios da arte, da história, da literatura, numa colaboração pronta e amiga que o ISPV muito agradece e com a qual se sente muito honrado.

Sedimentações do tempo, do paleolítico aos nossos dias, na arte sacra, na ancestralidade das artes populares, na inter-relação do profano e do sagrado das festas e das romarias, presentes na descrição irremediavelmente pedagógica, aqui e ali salpicada com algumas pinceladas mais poéticas, como escreve Agostinho Ribeiro, do património cultural das terras do Douro Sul, zona de transição entre o centro e o norte interior de Portugal, da sua natureza alcantilada, áspera e indomada das alturas e dos vales férteis e profundos, das culturas da terra e da criação artística dos homens.

Romagem por santuários recônditos decorados com quadros pintados com tintas ainda vivas ou já delidas pela entrada da luz ou o passar dos anos, velas, corpos de cera às vezes retalhados em seus membros, mortalhas, arrecadas, brincos, cordões, tranças de cabelo trocados por um novo tempo de viver, simultaneamente demonstração da fragilidade humana e da sua religiosidade ingénua.

Reflexão mais demorada sobre as tabuinhas pintadas que coalham os muros de capelas e de santuários, milagres da voz popular, ou ex-votos, para os entendidos, formas inocentes de contar histórias da relação e do diálogo constante entre o sagrado e o humano em situações limite, nessa linha de fronteira que separa a vida da morte, na doença, no desastre, no apartamento daqueles que se amam... Para a obtenção de uma graça divina... Corpus que bem poderia constituir, no dizer de Alberto Correia, uma maravilhosa aventura de descoberta desses caminhos que são de Deus e dos homens.

Memórias do extinto mosteiro de S. Francisco do Monte de Órgens, investigação criteriosa e profunda de Alexandre Alves, com documentação inédita de Frei Joaquim de Santa Rosa Viterbo. Da sua fundação franciscana, no início do séc. XV, com o apoio da coroa, sobretudo de D. Afonso V, da fidalguia local e dos prelados diocesanos; da vida pacífica de pregação e de confissões nos dois primeiros séculos de existência; do movimento de opinião favorável à transferência do convento para Viseu, que se desencadeou no final do séc. XVI em consequência da degradação do edifício e por razões de carácter sanitário, e da oposição a esta ideia e a esta decisão; do ressurgimento do convento das próprias ruínas no séc. XVIII; do seu encerramento e da sua extinção, por força do decreto de 1834, assinado por Joaquim António de Aguiar, pondo termo a mais de quatro séculos de actividade; da descrição rica da Igreja Monástica, Imóvel de Interesse Público, o único edifício que permaneceu do todo do conjunto monástico.

Viagem de António Nazaré Oliveira no espaço e nas memórias que as gentes de Lafões laboriosamente criaram em cada idade na sua formosíssima região, escondida, como disse Amorim Girão, entre o maciço da Gralheira e o Caramulo, cortada pelo rasgão do Vouga. Por dólmens e mamoas, por castros antiquíssimos, por igrejas, mosteiros e conventos, por palácios, solares e torres senhoriais. Por essa jóia preciosa que é o Balneum romano, cuja vida Afonso Henriques impulsionou, e onde a Cúria Régia reuniu. Termas que a última rainha de Portugal procurou, transformando momentaneamente o Palácio do Marquês de Reriz numa pequena corte.

Terra de D. João Peculiar, uma das maiores figuras portuguesas do séc. XII, tanto no plano religioso como no campo diplomático, verdadeiro ministro dos negócios estrangeiros procurando garantir em Roma as conquistas militares do nosso primeiro rei.

Terra, também, de gente de resistência à opressão, como bem o demonstrou, nas palavras e nas obras, no levantamento popular de Arcozelo, juntando a sua coragem e a sua voz contra a presença filipina em Portugal.

Reavivação da memória de uma ilustre figura feminina de Viseu, cantora lírica que foi, neste ano em que se perfaz o centenário sobre a sua morte Maria Augusta Correia da Cruz.

Contemporânea de outras personalidades viseenses, igualmente mais ou menos esquecidas, e que valerá a pena lembrar: Josefa de Oliveira (actriz), Manuel Casimiro de Almeida (cavaleiro tauromáquico) ou Augusto Hilário (actor/compositor/ cantor). A par de uma longa lista de muitos nomes de alguns ilustres viseenses que no séc. XIX se destacaram nas mais diversas actividades, e que pela mão e pela pena de Artur Valente da Cruz são relembrados. Por isso, o autor deixa um apelo aos jovens estudantes de História do nosso ensino superior viseense e aos nossos professores de História nas escolas secundárias para investigarem e darem a conhecer este património histórico e cultural que é o nosso: Honremos os nossos antepassados, cresçamos em sentido crítico na nossa cultura local...

Através de um percurso escrupuloso pelos documentos da época, oficiais, paroquiais e jornalísticos, retrata-se a vida e a actividade de Augusta Cruz, primeiro, como aluna de mestres destacados, e depois, como artista lírica que actua triunfantemente em Portugal Teatro de S. João, no Porto e adquire renome internacional actuando nos palcos italianos de Pádua, Milão, Roma, Trieste, Savona, Turim, Parma e Génova, ou no Teatro Imperial de Varsóvia ou, ainda, atravessando continentes e actuando no México, em Cuba e no Brasil.

Trabalho, contudo, que o autor considera bastante incompleto, sobretudo por algumas dificuldades (ainda que temporárias) de acesso a alguns documentos oficiais ou por falta de originais da época, publicações e jornais, e, por isso, fazendo tenção de continuar a sua investigação.

Reflexões sobre a construção do claustro da Sé em Viseu em linguagem renascentista, promovida pelo bispo D. Miguel da Silva a partir de um projecto de Francesco de Cremona, e sobre a obra mais ampla do prelado entre outras, a ampliação e reconstrução da quinta de Fontelo, e a encomenda de retábulos para a Sé e para os espaços reedificados ao prestigiado Grão Vasco.

Reflexão, também, sobre a relação entre o modelo e a cópia interpretativa, ou o impacte da obra de arte maior sobre produções sequentes e universos mais limitados, nomeadamente a influência directa da nova expressão religiosa e civil do arquitecto italiano na prática dos lavrantes do período manuelino, visível numa casa (hoje em ruínas) da cidade, de que restam imponentes vestígios, como escreveu Maximiano Aragão, já identificada como lugar possível do nascimento do rei D. Duarte.

Esforços inquestionáveis e inadiáveis, nas palavras de Dalila Rodrigues, exigem-se, em termos da necessidade de classificação, de conservação e de divulgação deste exemplar da arquitectura de Viseu.

Tributo de Luís Calheiros à obra plástica e poética (injustamente esquecida) de António Quadros, autor de uma linearidade superlativa, virtuoso e imaginativo, inovador, de abordagens exaustivas dos modos vários de figuração renovada, para quem a arte serve para dizer eis mais que uma maneira de ver o mundo. Um quadro mental de independência e de liberdade que o convencionalismo artístico oficial da ditadura e dos seus censores repudiava e tentava esconder.

Um desencanto que, em Moçambique, para onde o artista partiu em exílio voluntário no final dos anos sessenta em busca da liberdade em diferido, se renovaria passados os primeiros momentos da revolução.

Perspectiva crítica, sempre fundamentada, o texto de Luís Calheiros e a memória de António Quadros (do homem e da obra) bem poderão constituir-se como fenda na muralha de silêncio que persiste em torno do artista. Viseu e o país têm o dever de a derrubar.

Quatro andamentos no trabalho de Martim de Gouveia e Sousa, próximo da asserção vergiliana de que o sentimento crítico é uma comunicação original com a essencialidade da vida, andamentos que são o influxo de características idiossincráticas do homem beirão: o religioso, a perenidade, o sentimento e a acção. No primeiro deles, Catolicismo & Teofania Literária, vislumbram-se perspectivas católicas em alguns artefactos literários de origem local, sem perder de vista, é certo, o preceito do universalismo a que alude o sublime poeta António Alves Martins, significando tal que é forçosa a convocação e o carreamento de informação decorrente de processos contextualizadores e integradores; no segundo, de nome A Odisseia de Vergílio Ferreira, assiste-se a um banho lustral na obra de um dos vultos maiores da cultura beiroa, aí se salientando a especificidade que faz da citação vergiliana um dos lugares mais sentidos do universalismo português; no terceiro, sob a intitulação Lugar onde ou o lugar da poesia, falar-se-á sobre os poetas que na nossa circunstância ergueram a voz e foram homens de palavras; e, por último, no andamento final, Viseu & valores do mundo: cinco séculos com o pensamento, exalçar-se-á a actividade das gentes de Viseu (e à cidade ligadas) em prol do conhecimento, do labor artístico e do desenvolvimento cultural.

Diversificados são, pois, os textos e os assuntos. Como, aliás, se pretendia. Aproveitará quem os ler, enriquecendo-se seguramente, não apenas em informação, mas, sobretudo, se os mesmos servirem de estímulo e motivação para a preservação do nosso património cultural, local mas comum, e se aguilhoarem e espicaçarem o nosso entusiasmo para a investigação, funcionando como pistas e caminhos possíveis para outras e novas produções.