Ana Maria Marques da Costa Pereira Lopes *

 

Um hino à vida no filme

"O clube dos poetas mortos":

opinião

 

O "Clube dos Poetas Mortos" convida-nos a resgatar emoções tantas vezes caladas em nome do progresso e de uma ordem social instituída.

Do passado ressoam vozes que nos devolvem o perfume e o sabor das sensações inocentes e genuínas de que a vida nos alheou e que não fomos capazes de reencontrar nos horizontes da memória.

É que a vida só faz sentido quando- como nos ensina Thoreau -, lhe soubermos "sugar o tutano", ou seja, quando a fruirmos na sua verdadeira essência. Foi por isso que Thoreau abandonou o Progresso e a Civilização e se refugiou na floresta, perto de Walden Pond, tomando como interlocutora privilegiada a própria Natureza. É por isso que Keating sugere aos seus alunos que quebrem as grilhetas que os acorrentam a uma existência sensaborona e deixem transbordar as emoções que vivem em si. Para isso, importa que saibam acolher o chamamento e os ensinamentos daqueles que melhor souberam celebrar a vida: os poetas, em cuja Arte resplandecem as afeições da Humanidade.

Efectivamente, da frase bíblica" nem só de pão vive o Homem", aplicada ao presente contexto, talvez decorra que "nem só de conhecimentos científicos vive o Homem ", já que, como revela Keating "man writes Poetry not because it is cute, but because he is part of the Human Race." 1

Keating, não obstante o ensino tradicionalista que lhe foi ministrado (na mesma escola aonde, anos mais tarde, viria a ser professor), sempre soube corresponder aos ideais estéticos dos clássicos, como dos românticos, de Shakespeare como de Whitman, sem nunca pactuar com uma visão tecnicista da Literatura, que a reduz a um fenómeno mensurável e quantificável.

Também os seus alunos, depois de terem colhido os ensinamentos do mestre, se predispõem a experimentar a filosofia do carpe diem . Assim , as reuniões dos jovens na floresta (na senda de Thoreau e do próprio Keating) permitem-lhes saborear os aromas e paladares da vida, consubstanciados nas palavras dos poetas do passado. Destas reuniões, os jovens regressam mais solidários e fortalecidos, mais confiantes e autónomos, mais livres e amadurecidos.

Depois do encontro com os grandes mestres da Literatura, os alunos de Keating recusam-se a ser objecto da vontade dos adultos, e atrevem-se a delinear os seus próprios objectivos e percursos existenciais. Lamentavelmente, uma Revolução nunca se faz sem que algumas vidas humanas sejam sacrificadas. A vítima desta Revolução foi Neil, o jovem que voluntariamente se recusou a hipotecar a sua alma de artista a uma carreira médica (provavelmente muito bem remunerada).

A administração da escola apressa-se a encontrar um culpado para a morte de Neil. Recusando auto - penalizar - se por ter, ano após ano, coarctado a liberdade dos seus alunos, convertendo-os, assim, em rebeldes potenciais, o director escolhe um alvo mais vulnerável: Keating, que acusa de ter incutido em Neil o desejo de se insurgir contra as determinações do pai.

A expulsão de Keating não consegue deter a marcha da renovação; os ideais e lições de Keating encontraram guarida nos corações dos seus discípulos, plasmando-se claramente no comportamento destes, no final da história.

Por outras palavras, "aniquilou-se" o "capitão", mas permanecem as suas hostes. Já acontecera com Lincoln,2 o homenageado do poema de Whitman que abre com o vocativo "Oh, Captain, my captain". Como tinha assegurado o próprio Keating, não há nada que se possa opor ao curso da liberdade: "it was always thus, and always thus will be ". 3

 

* Professora Adjunta da Área Científica de Inglês da ESEV

1 Uma tradução possível será : "O Homem escreve Poesia, não pelo facto de ser "giro" fazê-lo, mas pelo facto de ele (homem ) fazer parte da Raça Humana."

2 Abraham Lincoln foi um dos principais responsáveis pela abolição da escravatura nos Estados Unidos da America. Foi eleito Presidente em 1860,e embora tenha sido assassinado em 1865, pouco tempo depois do termo da Guerra Civil, é a ele moralmente que se deve a ratificação, no mesmo ano de 1865, da 13ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos, que decretou a abolição da escravatura.

3 Uma possível tradução será : "Sempre foi assim, e sempre assim o será "

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