A Trindade e Maria n'Os Lusíadas

e na Lírica de Luís de Camões

 

Geraldo Morujão *

 

1. Introdução

Camões não é apenas o épico de renome mundial e o grande "poeta do amor". Ele é também o "poeta da fé". Este génio ímpar não é somente um humanista que se interessa por todos os temas da cultura, e tanto os da Antiguidade clássica como os da fé cristã. Para ele a fé cristã não é um simples adorno ou tema de inspiração, um mote ou um leitmotiv para as suas composições. A sua obra é radicalmente cristã.1 A "divina fé, que tudo excede"2, estrutura o seu pensamento e dá-lhe o sentido da vida. Ele é uma alma profunda e sinceramente cristã3, mais ainda, ele é um homem dotado duma fé esclarecida em alto grau, ao mesmo nível da sua vasta e profunda cultura, tornando-se, neste aspecto, um repto para todos os intelectuais dos nossos dias que se dizem cristãos. A profundidade e a justeza dos seus conceitos religiosos permitem-nos falar do "teólogo" Luís de Camões4. Como "poeta da fé", ele "soube exaltar e erguer bem alto o ideal religioso, a doutrina pura e sublime do Cristianismo, cantando alguns dos seus mistérios mais augustos de forma enternecida, em que se aliam os voos grandiosos da inteligência aos belos afectos duma alma simples".5

É digno de nota o zelo religioso6 de Camões, apesar das suspeitas que alguns críticos camonianos levantaram à sua perfeita identificação com algumas concepções tradicionais da fé cristã, para não falarmos de que até se chegou ao ponto (incredibile dictu!) de interpretarem o maravilhoso pagão e mitológico da sua obra como uma forma velada de rejeição da própria fé e um intento de superar as peias da religião7. Mas a verdade é que até os paradoxos8, de que Camões sabe tirar hábil partido literário, quando relativos ao âmbito religioso, não indiciam qualquer espécie de incredulidade ou rejeição da fé; os paradoxos e o "desconcerto do Mundo" não fazem mais do que pôr em relevo a transcendência dos mistérios em que ele crê:

Mas o que a Deus é justo e evidente

Parece injusto aos homens e profundo.9

Perante o deslumbramento e a confusão dos novos conhecimentos e das luzes da razão humana, não consideramos que alguma vez se dê em Camões o "naufrágio da razão" num sentido absoluto; a sua atitude de fé não prescinde de sólidos fundamentos, pois a sua alma religiosa não crê cegamente; o poeta nunca renuncia à sua própria razão, mas esta encontra a firmeza e a segurança na luz da fé em Cristo10:

 

Doutos varões darão razões subidas,

Mas são experiências mais provadas,

E por isto é melhor ter muito visto.

Cousas há i que passam sem ser cridas,

E cousas cridas há sem ser passadas.

Mas o melhor de tudo é crer em Cristo.11

E chega ao ponto de apresentar a fé como algo claro e evidente como a luz do Sol, o que justifica plenamente "o zelo de salvar almas":

Pois o zelo, em virtude só fundado,

De salvar almas da tartárea flama,

Com a água salutífera de Cristo,

Poderá porventura ser malquisto?

 

Quem quisesse negar tão grã verdade

Qual é o seu efeito santo e pio,

Negue também ao Sol a claridade,

E certifique mais que o fogo é frio.

Que o sucesso é contrário da vontade;

As obras, que são boas, e o desvio,

Está nas mãos dos homens cometê-las,

E nas mãos de Deus está o sucesso delas12.

 

Por outro lado, bem longe do seu pensamento crer em qualquer espécie de determinismo ou fatalismo cego:

 

Ocultos os juízos de Deus são;

As gentes vãs, que não nos entenderam,

Chamam-lhe fado mau, fortuna escura,

Sendo só providência de Deus pura13.

 

Sendo Camões reconhecido pelos estudiosos em geral como um "poeta da fé" e um profundo conhecedor da Teologia14, que então ainda era a alma mater da Universidade de Coimbra, onde estudou, procuramos neste trabalho indagar até que ponto o tema geral do XX Congresso Mariológico-Mariano Internacional realizado em Roma neste ano jubilar de 2000 - "o Mistério da Trindade e Maria" - aparece no conjunto da sua obra, tanto épica como lírica.

Antes de entrarmos neste estudo, queremos chamar a atenção para que, numa sã Teologia, não se pode separar o mistério da maternidade de Maria do mistério da SS. Trindade. Recorde-se a reacção do povo fiel de Constantinopla à pregação do Patriarca Nestório, quando este ensinava que Maria era Mãe de Cristo, mas não se devia chamar Mãe de Deus, pelo facto de apenas ter gerado a humanidade de Jesus; o sensus fidelium sentiu-se, então, agredido ao ver a Virgem Maria desvinculada da sua relação única com a Trindade. Com efeito, Maria, ao tornar-se Mãe de um homem que é a mesma pessoa do Filho eterno de Deus, entra numa relação misteriosa e única com a SS. Trindade, que é a substância da realidade do Deus Uno na pujança infinita da sua própria vida e que de modo nenhum se pode reduzir a algo meramente funcional na ordem da criação e da salvação15. O Filho eterno do Pai, ao assumir a nossa humanidade com a concepção virginal de Maria, inicia uma relação nova e completamente única desta sua criatura com o Criador e também com cada uma das três hipóstases divinas: Maria, a Filha predilecta de Deus Pai, torna-se de facto a Mãe de Deus Filho e com razão é chamada a Esposa de Deus Espírito Santo.

Camões não tem como objecto da sua obra épica os temas da fé, qual foi o caso de Dante, mas propõe-se cantar "as memórias gloriosas daqueles Reis que foram dilatando a Fé..."16. Por outro lado, na sua obra lírica, também aparecem temas da fé católica, a mais conhecida de todas talvez sejam as redondilhas "Sôbolos rios que vão"17. Veremos então como é que esta fé aparece reflectida tanto na epopeia como na lírica, nomeadamente a fé nos mistérios da SS. Trindade e de Maria.

2. O mistério da Trindade e Maria em "Os Lusíadas"

Começamos por apresentar aqueles textos da nossa epopeia18 em que Camões fala expressamente do mistério do ser de Deus uno e trino, para depois anotarmos as referências a cada uma das três pessoas divinas, nomeadamente ao Filho de Deus incarnado. Finalmente, veremos como o poeta se refere a Maria na sua relação com o mistério da Trindade.

2.1. A Trindade de forma explícita

O mistério da unidade e trindade de Deus aparece explicitamente aludido no canto VIII, na oração do Santo Condestável, quando Paulo da Gama descreve ao Catual, ou Regedor de Calecut, as figuras pintadas nas bandeiras, nomeadamente a daquele que "Português Cipião chamar-se deve", Dom Nuno Álvares ("ditosa pátria que tal filho teve, mas antes pai"); este, na batalha de Valverde, afastado dos seus militares,

 

... Capitão devoto, que, apartado,

Orando invoca a suma e trina essência?19.

 

Mas já antes tinha aparecido outra alusão à SS. Trindade, no canto V, estância 68, quase a terminar o discurso de Vasco da Gama ao rei de Melinde, quando descreve a escala no porto dum "largo rio" a que deram o nome de rio dos Reis20, pelo facto de lá terem chegado por ocasião da festa em que

 

Em que três Reis das partes do Oriente

Foram buscar um Rei, de pouco nado,

No qual Rei outros três há juntamente.

 

À primeira vista poderia alguém pensar que aqui há uma falta de rigor teológico, e mesmo até de ortodoxia, pois Camões diz que no Rei Jesus há "outros" três Reis, as três pessoas da SS. Trindade. E, se assim fosse, teríamos um total de quatro pessoas, o Cristo homem (o Rei Jesus), o Pai, o Filho (o Cristo Deus) e o Espírito Santo (os outros três Reis), e isto seria a heresia nestoriana. Mas também não me parece que seja uma explicação plausível pensar que Camões, ao dizer "no qual Rei", entende a natureza humana de Jesus e, ao dizer "outros três", entende as três hipóstases divinas; se fosse assim, haveria uma incoerência, um resvalar do conceito de natureza para o conceito de pessoa.

Esta dificuldade, porém, resolve-se se temos em conta que o adjectivo pronominal indefinido "outros" não faz a contraposição entre Jesus e as três pessoas divinas, mas sim a contraposição entre os três Reis do Oriente e as três pessoas da SS. Trindade.

Sendo assim, neste Rei que é Jesus Cristo estão as três pessoas divinas. É o que a Teologia classifica de pericóresis: uma vez que Jesus é a pessoa do Filho eterno, n'Ele estão simultaneamente as outras duas pessoas divinas: "juntamente". Este advérbio põe em evidência não só a unidade divina, mas também a referida perikhôrêsis ou enypárxis (circuminsessio ou circumincessio), isto é, a mútua imanência das pessoas divinas21.

 

2.2. As pessoas divinas

 

A primeira pessoa divina é designada por "Padre", o mesmo nome que o épico utiliza para Júpiter, o Pai dos deuses, mas com uma diferença bem notável: Júpiter é chamado "Padre poderoso"22, ao passo que a pessoa do Pai, o Deus verdadeiro, é designada como "Padre omnipotente"23.

 

O Espírito Santo aparece de forma explícita em dois lugares24. O primeiro está representado numa pintura por ocasião da famosa cilada armada por Baco, fingindo de sacerdote cristão, o qual

Estava nûa casa da cidade

Com rosto humano e hábito fingido.

Mostrando-se cristão, e fabricava

Um altar sumptuoso, que adorava.

 

Ali tinha em retrato afigurada

Do alto e Santo Espírito a pintura,

A cândida Pombinha debuxada

Sobre a única Fénix, Virgem pura;

A companhia santa está pintada

Dos doze, tão turvados na figura,

Como os que, só das línguas que caíram

De fogo, várias línguas referiram25.

 

Neste quadro do Pentecostes, o Espírito Santo aparece representado com dois símbolos tradicionais: a pomba26 e as línguas de fogo. O símbolo da pomba reveste-se, no texto camoniano, de uma especial força evocativa, ao aparecer associado ao símbolo das línguas de fogo. Esta ligação bem pode estar reforçada com a adjectivação da "Pombinha", que se diz "cândida"; com efeito, Camões, como bom humanista que era, poderia ter tido em conta a raiz latina do adjectivo que é polissémica: o verbo candere tanto significa "estar branco", como "estar em fogo" (incandescente)27.

Por outro lado, pensamos que a pomba é também um símbolo do amor, tendo em conta que o livro do Cântico dos Cânticos compara repetidamente a amada com a pomba28 e com os olhos da pomba29. Isto não passaria despercebido ao "poeta do amor", um profundo conhecedor da Bíblia.

Sendo assim, o Espírito Santo aparece como o Amor, o que corresponde à Teologia Trinitária, que o considera como o amor substancial do Pai e do Filho ad intra, e lhe atribui por apropriação as obras divinas ad extra que mais reflectem o amor de Deus, como é a santificação das suas criaturas.

O segundo lugar onde Os Lusíadas falam do Espírito Santo é nas palavras com que o moiro Monçaide informa o Catual acerca de quem é a navegação chegada a Calecut:

 

Tem a lei dum Profeta que gerado

Foi sem fazer na carne detrimento

Da mãe, tal que por bafo está aprovado

Do Deus que tem do mundo o regimento. (VII, 69)

 

Parece inegável que Camões, ao pôr na boca dum maometano a apresentação dos portugueses como cristãos, adoptou o ponto de vista do Corão acerca do cristianismo. Assim, Jesus é designado como um "Profeta" sem mais, o qual foi concebido no seio de Maria por um "bafo" ou sopro da divindade30. Mas mais uma vez nos parece que o poeta-teólogo Camões jogou com dois sentidos do termo "bafo", o sentido imediato islâmico e o sentido profundo da Teologia católica, isto é, um nome pessoal, que exprime o modo como o Espírito Santo procede do Pai e do Filho, per spirationem; "Bafo" é uma boa tradução do nome latino Spiritus e do grego pneûma, com a vantagem de denotar suavidade e brandura, calor e intimidade.

Mais adiante, em 2.3., comentaremos o alcance mariológico deste texto.

 

A pessoa do Filho, como é compreensível, é a que mais vezes aparece em "Os Lusíadas". Limitamo-nos a examinar aquelas passagens em que se alude à condição divina de Jesus, isto é, ao mistério da Incarnação, que pressupõe o da Trindade.

Temos, antes de mais, dois textos em que se exprime o próprio mistério da Incarnação. O mais célebre encontra-se no canto I, estâncias 65 e 66, posto na boca de Vasco da Gama, quando o nosso herói acolhe no barco o regedor das ilhas junto a Moçambique:

A lei tenho daquele a cujo império

Obedece o visíbil e invisíbil,

Aquele que criou todo o Hemisfério,

Tudo o que sente e todo o insensíbil,

Que padeceu desonra e vitupério,

Sofrendo morte injusta e insofríbil,

E que do Céu à Terra enfim deceu,

Por subir os mortais da Terra ao Céu.

 

Deste Deus-Homem, alto e infinito,

Os livros, que tu pedes, não trazia,

Que bem posso escusar trazer escrito

Em papel o que na alma andar devia31.

 

O outro texto encontra-se no canto IV, estância 87, quando Vasco da Gama, depois de narrar a história de Portugal ao rei de Melinde, conta a partida dos marinheiros da capela de Nossa Senhora de Belém, que então existia no lugar de Restelo; trata-se de uma bela perífrase para designar o nome de Belém:

 

Partimo-nos assi do santo templo

Que nas praias do mar está assentado,

Que o nome tem da terra, pera exemplo,

Donde Deus foi em carne ao mundo dado.

Os restantes textos que aludem à condição divina de Jesus são textos em que se verifica o que a Teologia classifica de comunicação de idiomas, onde se predica de Deus o que se refere a Jesus. Assim:

 

o rio "que viu de Deus a carne em si lavada" (III, 27);

os 30 "dinheiros, por que Deus fora vendido" (III, 54);

a vida "temeu tanto perdê-la quem a dá"32 (IV, 99);

Tomé: "o nome dum que o lado a Deus tocou" (V, 12).

 

2.3. Maria em relação com a Trindade

 

Na epopeia a Virgem Maria é apenas nomeada três vezes:

Em II, 11, como vimos acima33, ao ser descrito o quadro do Pentecostes, Maria é chamada: "a única Fénix, Virgem pura". A fénix era uma ave da fábula, a única da sua espécie, vivendo muitos séculos e que, ao sentir aproximar-se a morte, construía para si um ninho sob o sol ardente para nele morrer queimada, mas da medula dos seus ossos reduzidos a cinzas saía um verme que originava uma nova fénix. Este apelativo simbólico para Maria bem pode aludir à singularidade desta criatura totalmente "única" na sua dignidade, assim como à sua pureza virginal - "Virgem pura" -, que se continua em seu Filho fora de todas as leis da reprodução humana. A fénix também poderia ser um símbolo da Assunção de Maria aos Céus, mas não nos parece que isto esteja dentro do horizonte de Camões.

Em III, 45, quando Vasco da Gama conta ao rei de Melinde a nossa história, ao relatar a aparição do Crucificado ao nosso primeiro rei na batalha de Ourique, refere-se a Jesus designando-o como "o Filho de Maria", mas nada diz sobre a sua Mãe.

Em VII, 69, temos o texto já apresentado acima34, a propósito do Espírito Santo. É pelo seu poder que Jesus, "Profeta", como o consideram os moiros, "gerado foi sem fazer na carne detrimento da mãe". Camões, como acima se viu, situa-se no ponto de vista muçulmano, por isso a virgindade de Maria não é apresentada em primeiro plano, como o sinal de que Jesus é o Filho de Deus, mas como um privilégio singular da Mãe, que é mãe sem perder a virgindade.

De qualquer modo, não obstante a linguagem muçulmana adoptada nesta passagem, alude-se ao mistério da Trindade: o Pai é "o Deus que tem do mundo o regimento" (Camões conhecia a teologia da chamada apropriação); o Filho é "o Profeta gerado"; o Espírito Santo é, como acima se viu, "o Bafo de Deus". E Maria, ao tornar-se "Mãe" daquele Profeta que é o Filho de Deus, entra numa singularíssima relação com toda a Trindade, ficando para sempre como sinal dessa relação a sua incorruptível virgindade, "sem detrimento na carne".

 

3. O mistério da Trindade e Maria na Lírica de Luís de Camões

 

A obra lírica de Luís de Camões tem, como é sabido, problemas de autenticidade de difícil solução, ao tratar-se de publicações póstumas: a primeira edição das Rhythmas é de 1595, quinze anos após a morte do poeta, logo seguida da 2ª edição, as Rimas, de 1598. Nem todas as composições que aparecem nas colecções como sendo de Camões lhe pertencem, como também nem todos os poemas que são excluídos pela crítica moderna deixam de pertencer a Camões35. Vítor Aguiar e Silva, falando do cânone da Lírica, reconhece mesmo que a "sua fixação não é possível no estádio dos conhecimentos actuais"36. A verdade é que o estudo dos cancioneiros manuscritos tem vindo a produzir os seus frutos, já depois da publicação das "Rimas" por Costa Pimpão e de "Obras Completas" por Hernâni Cidade37. Maria de Lurdes Saraiva, na introdução ao 2º tomo da Lírica Completa, afirma categoricamente que "o Cancioneiro de Cristóvão Borges revelou que a crítica moderna errou ao rejeitar em bloco os sonetos religiosos de Camões"38.

Parece haver um certo preconceito contra a poesia religiosa de Camões nos críticos modernos; parece que têm escrúpulo de misturar o amor divino com o profano, cantado na quase totalidade da sua obra lírica. Mas sem razão, pois ninguém põe em dúvida as redondilhas Sôbolos rios; e também é evidente como se enlaçam perfeitamente o maravilhoso pagão e o cristão n'Os Lusíadas. Na formação religiosa do poeta deve ter influído decisivamente a personalidade do seu tio, D. Bento de Camões, Prior do Mosteiro de Santa Cruz e Chanceler da Universidade de Coimbra, onde estudou; a sua vasta e profunda cultura clássica só ali pôde ser obtida, bem como a sua formação cristã e cultura teológica. Por isso não precisamos de recorrer a uma conversão do poeta nos fins da sua vida, e a uma fase final mística, como é frequente entre os camonistas, para explicar a sua religiosidade. Camões, mesmo quando canta o amor humano, transcende, como um místico, para o amor absoluto; ele sente "que o amor não é da esfera dos sentidos humanos, mas que é, sim, da dos sentidos divinos, cumprindo à fé o suprir a falta do perfeito entendimento destas coisas", como afirma o insuspeito António Sérgio39.

Em toda a vasta e variada lírica de Camões, vamos fixar-nos naquelas composições, dotadas de certa garantia de autenticidade, que mais se distinguem pelo seu valor religioso, nomeadamente os Sonetos e as Elegias. Vamos limitar-nos àquelas rimas que se referem à Virgem Maria e aos mistérios da Trindade e da Incarnação, analisando cada composição em separado. Algumas destas rimas não têm a autenticidade reconhecida por todos os críticos modernos; tendo em conta o seu interesse para o tema que tratamos aqui as apresentamos, considerando, também, que "mais do que dum autor, esses poemas são de uma escola e de uma época"40 intimamente ligada à figura de Luís de Camões. Ainda que algum poema possa não pertencer ao corpus minimum, segundo a classificação de Leodegário Azevedo Filho, basta-nos, para o nosso objectivo, a pertença ao que este crítico chama o corpus additicium, ou simplesmente ao corpus possibile41.

 

3.1. A Trindade e Maria nos Sonetos

 

3.1.1. Soneto: "Para se namorar do que criou"42

 

Começamos por apresentar este rico soneto, com o título de "À Conceição da Virgem Nossa Senhora", na colecção de Faria e Sousa, pelo seu interesse "teológico", não obstante as dúvidas acerca da autenticidade. Pena é que seja banido, em geral, das edições críticas modernas, que não o consideram autêntico. No entanto, ele foi publicado, como sendo de Camões, a primeira vez na edição de 1616 (soneto 33), e transcrito por Faria e Sousa (ano de 1685, soneto 97/III). Segundo Maria de Lurdes Saraiva, a sua exclusão do cânone camoniano deve-se a Carolina Michaëlis que o encontrou numa publicação feita em 1588 para as festas então realizadas em Lisboa para a trasladação das relíquias de S. Roque, em nome de André Falcão de Resende. Mas esta atribuição não deve ser considerada digna de crédito, pois a sua "publicação no Cancioneiro de Cristóvão Borges (soneto 13, pág. 44) vem mostrar que já em 1578 se sabia que Camões era o autor do poema, isto é, que existia uma fonte manuscrita dez anos anterior à publicação em nome de Falcão de Resende"43. O maneirismo barroco que se nota na composição não é uma argumento decisivo contra Camões como seu autor.

 

Para se namorar do que criou,

te fez Deus, santa Fénix, Virgem pura.

Vede que tal seria esta feitura

que a fez quem para si só a guardou.

 

No seu santo conceito te formou

primeiro que a primeira criatura,

para que única fosse a compostura

que de tão longo tempo se estudou.

 

Não sei se direi nisto tudo quanto baste

para exprimir as santas qualidades,

que quis criar em ti quem tu criaste.

 

És filha, mãe e esposa. E se alcançaste,

ûa só, três tão altas dignidades,

foi porque a três e um só tanto agradaste.

 

Note-se, antes de mais, o mesmo título de Maria que já vimos n'Os Lusíadas II, 11: Fénix, Virgem pura44. Na 2ª quadra parece-nos bem clara a alusão aos textos da literatura bíblica sapiencial que os Padres e Doutores da Igreja, assim como a Liturgia, referem a Maria num sentido acomodatício: "O Senhor me criou como primícias das suas obras, desde o princípio, antes que criasse coisa alguma; desde a eternidade fui constituída, desde as origens, antes dos primórdios da terra..." (Prov 8, 22-31).

Este soneto não é uma simples homenagem às "santas qualidades" daquela que é concebida na mente divina como o arquétipo de toda a beleza, "a primeira criatura" de Deus. Por um lado, o poeta contempla, deslumbrado, a obra feita para ser o encanto do próprio Deus: "para se namorar do que criou" (1ª quadra), uma obra pensada desde toda a eternidade: "primeiro que a primeira criatura" (2ª quadra). Por outro lado, Maria é posta não apenas em relação com o seu Feitor, o Deus Criador, mas com o mistério do ser íntimo de Deus, o mistério da SS. Trindade: Ela foi a única - "uma só" - a ter simultaneamente a dignidade de ser Filha de Deus Pai, Mãe de Deus Filho e Esposa de Deus Espírito Santo, pois tanto agradou "a Três e Um só", isto é, às três pessoas do único Deus. Não pensamos que haja aqui qualquer intuito de tomar uma posição em face do exacerbado monoteísmo judaico45. A verdade é que estamos diante de uma belíssima profissão da fé católica, numa linguagem poética intensamente evocativa, comum a autores de várias épocas, numa intertextualidade que vai, pelo menos, de Dante Alighieri ao nosso João de Deus46.

3.1.2. Soneto: "Dece do Céu imenso, Deus benino"

 

Embora se trate de uma composição discutida, pelas razões aduzidas para o soneto anterior, não queremos deixar de o transcrever. Apareceu publicado com o título: "À Incarnação do Verbo Eterno". Embora este soneto seja excluído das edições críticas modernas, Maria de Lurdes Saraiva, seguindo Roger Bismut47, pretende que seja reintegrado no corpus camoniano, tendo em conta os numerosos contactos com a linguagem de "Os Lusíadas". A sua publicação no Cancioneiro de Cristóvão Borges (soneto 22, p. 24) "vem colocar a autenticidade acima de toda a dúvida"48. Quero chamar a atenção para o facto de que, noutros sonetos que a crítica moderna atribui a Camões, é frequente este mesmo recurso das perguntas retóricas à boa maneira da diatribe grega49.

 

Dece do Céu imenso, Deus benino,

para encarnar na Virgem soberana.

«Porque dece divino em cousa humana?»

«Para subir o humano a ser divino».

 

«Pois como vem tão pobre e tão minino,

rendendo-se ao poder da mão tirana?»

«Porque vem receber morte inumana

Para pagar de Adão o desatino».

 

«Pois como? Adão e Eva o fruto comem,

que por seu próprio Deus lhe foi vedado?»

«Si, por que o próprio ser de deuses tomem».

 

«E por essa razão foi humanado?»

«Si. Porque foi com causa decretado,

Se o homem quis ser deus, que Deus seja homem».

 

Consideramos que, também aqui, o maneirismo não é o elemento a ter mais em conta, mas antes o seu classicismo, pois Camões lança mão de um recurso literário tão típico da retórica grega, o processo da diatribe cínico-estóica, utilizado por Séneca e Epicteto: aprecie-se a beleza do diálogo com frases curtas e incisivas com um interlocutor imaginário; as perguntas fortemente interpelativas, mais do que objecções da razão humana, aparecem como um convite à contemplação e ao deslumbramento perante a maravilha do mistério da Incarnação do Filho de Deus na pobreza e na humildade.

A referência a Maria é clara: é a Virgem soberana. A Trindade só indirectamente está aludida, ao falar de Deus que se faz homem.

3.1.3. Soneto: "Porque a tamanhas penas se oferece "

Este soneto - intitulado na edição de 1616 do livreiro Domingos Fernandes: "À Paixão de Cristo Nosso Senhor" - também faz parte da obra lírica de Camões segundo Maria de Lurdes Saraiva50, pois, tal como o anterior, aparece no Cancioneiro de Cristóvão Borges (1578) entre os poemas de Camões, o que acabou por desfazer todas as dúvidas da camonista. Se não é incluído, assim como os dois sonetos anteriores, no corpus minimum camoniano por Leodegário Azevedo Filho, é para ser consequente com o critério adoptado para o seu trabalho51.

 

«Porque a tamanhas penas se oferece

pelo pecado alheio, e erro insano,

o Trino Deus?» - «Porque o sujeito humano

Não pode co castigo que merece».

 

«Quem padecerá as penas que padece?

Quem sofrerá desonra, morte e dano?»

«Ninguém, senão for o soberano

que reina, e servos manda, e obedece».

Foi a força do homem tão pequena

que não pôde suster tanta aspereza,

pois não susteve a lei que Deus ordena.

 

Sofre-a aquela imensa Fortaleza

por puro amor; que a humana fraqueza

foi para o erro, e não para a pena.

 

Também aqui está em foco o sublime paradoxo que envolve o mistério da Incarnação e da Redenção: soberania e obediência, imensa fortaleza e humana fraqueza. Maria de Lurdes Saraiva comenta: "A condição humana, frágil como é, não aguentaria a dureza do castigo. E por isso Deus se humanou e morreu pelo homem"52.

Não alude a Maria, mas apenas à Trindade. A obra da Redenção aparece como obra da Trindade, ao apresentar o Trino Deus a oferecer-se para sofrer o castigo que homem pecador merece. Não se pense, no entanto, que o poeta partilha do erro dos chamados patripassianos: não é o Pai (nem o Espírito Santo) quem padece, pois também é apenas o Filho que incarna assumindo a natureza humana. Pensamos que Camões não emprega a expressão o Trino Deus apenas guiado pelas leis da métrica, mas para pôr em relevo a obra salvadora em que está empenhada a SS. Trindade, sendo as pessoas divinas inseparáveis e havendo nelas uma imanência mútua, a que já nos referimos acima.

3.2. A Trindade e Maria nas Elegias

São famosíssimas as duas elegias em tercetos à Paixão do Senhor, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, que, sendo o todo poderoso e inocente, sofre o indizível pela humanidade pecadora; em ambas elegias tem grande relevo a figura da Virgem dolorosa junto à Cruz do seu Filho.

Por mais que a alguns críticos lhes possa custar, todos reconhecem a autenticidade da elegia "Se quando contemplamos"; quanto à outra, "Divino, almo Pastor", mesmo quando alguns partilham dúvidas acerca da paternidade camoniana, não deixam de a transcrever, como é o caso de Costa Pimpão, que a coloca em apêndice na sua obra, "dada a importância do poema"53. A recente e importante obra de Leodegário de Azevedo Pires, camonista de reconhecida perícia ecdótica, não põe qualquer reserva à primeira elegia54. Citaremos o texto destes dois poemas segundo a citada obra de Hernâni Cidade.

Limitamo-nos a transcrever apenas os tercetos em que se alude à Santíssima Virgem e à Trindade, nomeadamente a Jesus na sua realidade teândrica.

3.2.1. Elegia: "Se quando contemplamos as secretas"55

Esta belíssima elegia "de cunho altamente filosófico-religioso, à semelhança do soneto 'Verdade, amor, rezão, merecimento'", é reconhecida como autêntica pela generalidade da crítica moderna. No entanto, ela tinha sido excluída nas duas edições quinhentistas, as Rhithmas (1598) e as Rimas (1598). Leodegário Azevedo Filho pensa que isto se deveu ao receio de incluir, entre poemas profanos uma tão admirável composição lírico-religiosa56. Este autor pensa que o facto de não termos as composições religiosas editadas pelos editores de quinhentos se deve à preocupação de fugirem à censura eclesiástica; para isso, não metendo as composições religiosas no meio das profanas - imensamente mais abundantes -, acautelavam possíveis complicações e atrasos na edição; mas a prova de que estas composições eram conhecidas dos editores quinhentistas é que as composições religiosas figuravam em cancioneiros da época, atribuídas a Camões. Transcrevemos a elegia - apenas a parte que se relaciona com o tema que estamos a tratar - segundo o texto crítico do Prof. Hernâni Cidade57. Mendes dos Remédios anota que "o Poeta imitou Sannazzaro, que versou o mesmo tema numa Lamentação em latim - De morte Christi lamentatio ad mortales - e também em italiano, cujos passos mais aproximados se podem ler em Faria e Sousa"58.

Nos primeiros 42 tercetos, depois de se elevar "aos mais altos conceitos filosóficos"59 "o Poeta recolhe-se na contemplação da matéria do seu canto, onde não se sabe que mais admirar: se o acendrado sentimento da fé cristã, se a superioridade a que se alcandora o seu estro imortal e inexcedível. Os castigos infligidos a Jesus arrancam-lhe doridos queixumes - enumera-os um por um -, e mostra quanta era a bondade daquela augusta Vítima cujos lábios se não abriam para um queixume"60. Mas detenhamo-nos a analisar mais de perto a elegia, fixando-nos naqueles tercetos que põem Jesus e Maria em relação com a SS. Trindade, ao menos de forma implícita, como, por exemplo, quando sublinha a divindade de Cristo, o Filho eterno de Deus.

O Poeta começa por nos situar perante a maravilhosa ordem do cosmos (estrofes 1 a 6), para de chofre apresentar o desconcerto que a razão humana experimenta ao contemplar Jesus (estrofes 7 a 11), o altíssimo Ser que tudo pode, manda, move e cria, humilhado até ao ponto de assumir esta nossa carne miseranda e perder a vida, como se Deus não fosse:

 

Vê bem, se da razão se não desvia,

O altíssimo Ser, puro e divino,

que tudo pode, manda, move e cria;

 

Sem fim e sem princípio: um Ser contino;

Um Padre grande, a quem tudo é possíbil,

Por mais árduo que seja ao humano indino;

 

Um saber infinito, incompreensíbil;

Ûa verdade que nas cousas anda,

Que mora no visíbil e invisíbil.

 

Esta Potência, enfim, que tudo manda,

Esta Causa das causas, revestida

Foi desta nossa carne miseranda.

 

Do amor e da justiça compelida,

Pelos erros da gente, em mãos da gente

(Como se Deus não fosse) perde a vida.

 

Em face disto, vem logo o apelo veemente ao cristão descuidado e negligente para que contemple os sofrimentos atrozes do Senhor, humanamente incompreensíveis, numa atitude interior de profunda compaixão e contrição, tendo bem em conta que não se trata dum simples demiurgo, que, a partir duma matéria preexistente, tenha organizado o confuso caos inicial, como pretendiam as teorias platónicas difundidas pelo árabe Averrois - falsa teologia e povo escuro -; a criação também não pode ser explicada nem pela teoria atómica de Epicuro, nem a partir da água como pretendia Tales. Quem contemplamos na sua Paixão a padecer tanto por nós é o próprio Criador - este grande Deus! - o que dá para pensar (estrofes 12 a 16):

 

Ó cristão descuidado e negligente!

Pondera isto que digo, repousado,

Não passes por aqui tão levemente.

 

Não, que aquele [é] Deus alto, incriado,

Senhor das cousas todas, que fundou,

O Céu, a Terra, o Fogo e o Mar irado,

 

Não do confuso caos, como cuidou

A falsa teologia e povo escuro,

Que nesta só verdade tanto errou;

 

Não dos átomos falsos de Epicuro;

Não do largo Oceano, como Tales,

Mas só do pensamento casto e puro.

 

Olha, animal humano, quanto vales,

Que por ti este grande Deus padece

Novo modo de morte, novos males.

 

Nas estrofes seguintes (17 a 20), o leitor continua a ser interpelado para se comover, quando toda a Criação se mostra comovida em grandiosas prosopopeias, perante o seu Criador que padece, a tal ponto que, na remota e grande Atenas, Dionísio Areopagita no momento da morte de Jesus exclama pasmado com a própria comoção da Natureza: "aut Deus naturæ patitur, aut mundi machina dissolvitur". E, na estrofe 21, o Poeta exclama:

 

Ó sumo Deus! Tu mesmo te condenas,

Polo mal em que eu só sou tão culpado,

A tamanhas afrontas, tantas penas?!61

 

Não resistimos a transcrever a longa série de tercetos que se seguem, onde Lírico continua a dirigir-se a Cristo, acompanhando-o em cada um dos passos da sua Paixão, num diálogo afectuoso e contemplativo. Em notas de rodapé apresentamos algumas referências bíblicas.

 

Por mim, Senhor, no mundo reputado

Por falso e por quebrantador da Lei?!

A fama a ti se põe do meu pecado?!

 

Eu, Senhor, sou ladrão; tu, justo Rei;

Pois como entre ladrões eu não padeço?62

A pena a ti se dá do que eu pequei?!

 

Eu, servo sem valor; tu, sumo preço,

Em preço vil63 te pões, por me tirares

Do cativeiro eterno que mereço?!

 

Eu, por perder-te, e tu, por me ganhares,

Te dás aos homens baixos, que te vendem,

Só pera os homens presos resgatares!

 

A ti, que as almas soltas, a ti prendem;64

A ti, sumo Juiz, ante juizes65

Te acusam polo error dos que te ofendem!

 

Chamam-te malfeitor66; não contradizes.

Sendo tu dos Profetas a certeza,

Dizem que quem te fere profetizes.67

 

Rim-se de ti;68 tu choras a crueza

Que sobre eles virá. A gente dura,

Por quem tu vens ao Mundo, te despreza.

 

O teu rosto, de cuja fermosura

Se veste o céu e o Sol resplandecente,

Diante de quem muda está a Natura,

 

Com cruas bofetadas69 da vil gente,

De precioso sangue está banhado,

Cuspido, atropelado cruelmente.

 

Aquele corpo tenro e delicado,

Sobre todos os santos sacrossanto,

De açoutes rigorosos flagelado;70

 

Despois, coberto mal de um pobre manto

Que se pegava às carnes magoadas

Pera dobrar-lhe as dores outro tanto.

 

Magoavam-no as chagas não curadas,

Um tormento causando-lhe, excessivo,

Ao despir71 polas mãos cruéis e iradas.

 

As santíssimas barbas de Deus vivo,

De resplandor ornadas lhe arrancavam72

Pera desempenhar Adão cativo.

 

Com cordas polas ruas o levavam,

Levando sobre os ombros o trofeu73

Das vitórias que as almas alcançavam

 

Ó tu que passas, homem Cireneu,74

Ajuda um pouco a este Homem verdadeiro,

Que agora, como humano, enfraqueceu!

 

Olha que o corpo aflito do marteiro,75

E dos longos jejuns debilitado,

Não pode já co'o peso do madeiro.

 

E aqui intervêm no drama as vozes dos "Santos Padres", isto é, daqueles justos que no Limbo estavam à espera de que Jesus levasse a cabo a obra da sua Paixão salvadora, a fim de as levar libertas da sua prisão à glória do paraíso: eles animam Cristo a suportar os seus sofrimentos redentores (estrofe 38):

 

Oh não enfraqueçais, Deus incarnado!

Essas quedas, que tanto vos magoam,

Suportai, Cavaleiro sublimado!

 

Mas o Poeta intervém, primeiro dirigindo-se a Jesus explicando-lhe que gritos são aqueles:

 

Que aquelas altas vozes que lá soam,

De Padres são que estão no Limbo escuro,

Que já de louro e palma vos coroam.

 

Todos vos bradam, que subais ao muro

Da cidade infernal, e que arvoreis

Em cima essa bandeira, mui seguro.

E depois o Poeta dirige-se aos encarcerados no Limbo, dizendo-lhes que não tenham pressa, pois a suas duras prisões, por mais duras que sejam, não têm comparação possível com a prisão dos duríssimos pregos da cruz de Jesus:

 

Oh Santos Padres, não vos apresseis!

Que muito mais a Deus que a vós custaram

Essas duras prisões em que jazeis.

 

Aquelas mãos, que o Mundo edificaram,

Aqueles pés, que pisam estrelas,

Com duríssimos pregos se encravaram.

 

Em todos estes tercetos, Jesus aparece na sua condição de "Deus incarnado", embora sem especificar que se trata da segunda Pessoa da Trindade. A divindade de Jesus não pode ser mais claramente afirmada - sofre "como se Deus não fosse" -; o Poeta vai ao ponto de predicar de Deus o que há de humano em Jesus (o que a Teologia classifica de comunicação de idiomas), pondo assim em evidência o mistério da união hipostática. Neste campo, são especialmente belas e arrojadas as expressões: "este grande Deus padece"; "ó sumo Deus! Tu mesmo te condenas"; "as santíssimas barbas de Deus vivo"; "muito mais a Deus que a vós custaram essas duras prisões"; "aquelas mãos, que o Mundo edificaram"; "aqueles pés, que pisam estrelas".

E o poema termina com a contemplação da Virgem Dolorosa. Parece-nos que a estrutura da composição corresponde ao pano de fundo das cerimónias das Endoenças, que sempre terminam com a evocação das dores de Maria.

Nos 14 tercetos seguintes podem notar-se ressonâncias do hino Stabat Mater, ou diríamos antes que estamos perante "variações sobre um tema", o tema deste hino litúrgico: o Poeta sente com a Virgem Maria as suas dores76, e solta desabafos em forma de exclamações e de perguntas retóricas.

Mas o mais original e comovente na composição é quando se detém no sofrimento de Maria provocado pelo queixume do Filho na cruz: sitio! (tenho sede!)77, sem que ela pudesse saciar-lhe a sede; a Mãe quereria poder aliviar a sede do Filho com o seu leite materno, chegando-lhe aos lábios ressequidos os seus peitos santos; e o poema atinge o ponto culminante quando Camões se dirige à Virgem para lhe dizer que a sede que Jesus tem é acima de tudo uma sede da salvação de toda a humanidade: o verdadeiro poto (ou bebida) é o sangue de Cristo - o Cordeiro -, que lhe mana do peito78. Por isso o Poeta implora à pura e santíssima Maria que lhe alcance uma gota desse sangue salutífero, que de vez lhe mate a sede dura.

 

Mas qual será a pessoa que as querelas

Da angustiada Virgem contemplasse,

Que não se mova à dor e à mágoa delas79,

 

E que dos olhos seus não estilasse

Tanta cópia de lágrimas ardentes

Que carreiras no rosto assinalasse?

 

Oh! Quem lhe vira os olhos refulgentes

Desfazendo-se em lágrimas, regando

Aquelas belas faces excelentes!

 

Quem a vira ir com gritos ir tocando

As estrelas, a quem responde o Céu,

Co'os acentos dos Anjos retumbando!

 

Quem vira, quando o claro rosto ergueu

A ver o Filho, que na Cruz pendia,

Donde a nossa saúde descendeu!

 

Que mágoas tão chorosas que diria!

Que palavras tão míseras e tristes

Pera o Céu, pera a gente espalharia!

 

Pois que seria, Virgem, quando vistes

Com fel nojoso e com vinagre amaro

Matar a sede ao Filho que paristes?

 

Não era este o licor suave e claro

Que, pera o confortar, então daríeis

A quem vos era, mais que a vida, caro.

 

Como, Virgem Senhora, não corríeis

A dar as tetas puras ao Cordeiro,

Que padecer na Cruz com sede víeis?

 

Não só era esse, Senhora, o verdadeiro

Poto que vosso Filho desejava

Morrendo polo mundo num madeiro;

 

Mas [era] a salvação que ali ganhava

Pera o mísero Adão, que ali bebia

Na fonte que do peito lhe manava.

 

Pois, ó pura e santíssima Maria,

Que, enfim, sentistes esta mágoa quanto

A gravidade dela o requeria;

 

Dessa Fonte sagrada e peito santo

Me alcançai ûa gota, com que lave

A culpa que me agrava e pesa tanto.

 

Do licor salutífero e suave

Me abrangei, com que mate a sede dura

Deste mundo tão cego, torpe e grave.

 

O poema termina com uma prece final à Senhora: que, pela virtude da Paixão, toda a criatura sem distinção venha à verdadeira fé: os protestantes (o falsíssimo hereje), os judeus (povo pertinaz no antigo rito), os maometanos (o torpe ismaelita) e os povos pagãos (os idólatras maus):

 

Assi, Senhora, toda a criatura

Que vive e viverá, que não conhece

A Lei do vosso Filho, santa e pura;

 

O falsíssimo herege, que carece

Da graça, e com danado e falso esp'rito

Perturba a Santa Igreja, que florece;

 

O povo pertinaz no antigo rito,

Que só o desterro seu, que tanto dura,

Lhe diz que é pena igual ao seu delito;

 

O torpe Ismaelita, que mistura

As leis, e com preceitos viciosos

Na terra estende a seita falsa, impura;

 

Os idólatras maus, supersticiosos,

Vários de opiniões e de costumes,

Levados de conceitos fabulosos;

 

As mais remotas gentes, onde o lume

Da nossa fé não chega, nem que tenham

Religião algûa se presume;

 

 

Assi todos, enfim, Senhora, venham

Confessar um só Deus crucificado,

E por nenhum respeito se detenham.

 

Mas de todos o vício já passado,

O seu nome co'o vosso, neste dia,

Seja por todo o Mundo celebrado;

E respondam os Céus: JESUS, MARIA.

 

 

3.2.2. Elegia: "Divino, almo Pastor, Délio dourado"80

 

Esta elegia de 116 tercetos, que foi chamada um "díptico de cantar profano e de cantar divino"81, consta de duas peças que Camões, ou um coleccionador, uniu num único poema, para cantar, a par dos desgostos de Apolo, as dores incomparáveis sofridas por Cristo na sua Paixão.

Mendes dos Remédios considera que se trata duma composição da mocidade de Camões, "uma autêntica profissão de fé, singular e estranha, talvez, nalgumas estrofes de exagerado classicismo", em que sobressai a "erudição do admirável estudante"82. Costa Pimpão, embora mostre dúvidas sobre a autoria camoniana, não deixa de a inserir na sua obra Rimas, mas em apêndice, afirmando que, "dada a importância do poema, não nos atrevemos a correr o risco da sua supressão, pura e simples".

Leodegário Azevedo Filho, atendo-se estritamente ao rigor do critério adoptado, o do "duplo testemunho quinhentista incontroverso, sendo um deles procedente da tradição manuscrita", sem se atrever a rejeitar a autenticidade desta elegia, não a integra no cânone mínimo camoniano.

A belíssima elegia, a partir da estrofe 33, é muito semelhante na sua temática à anterior. Limitamo-nos a transcrever - segundo a já citada edição crítica de Hernâni Cidade83 - com breves comentários, alguns poucos tercetos, nomeadamente aqueles em que se nota alguma referência à SS. Trindade, à condição divina de Jesus e à Virgem Maria.

O Poeta, depois de convidar o leitor, nas estrofes 33 a 36, a pôr os olhos da fé nas altas cimas do Calvário monte, por onde irás à glória verdadeira, dirige-se a Cristo, nos tercetos 27 a 41, em exclamações perante o chocante contraste entre a sua bondade e poder de Filho do Padre Eterno e a malvadez e ingratidão daqueles "por que Te dás crucificado". Transcrevemos apenas as estrofes 37 e 38:

 

Ó verdadeira Luz, justo Cordeiro, 84

Jesus benino, manso e piadoso,

Filho do Padre eterno verdadeiro!

 

Que causa te moveu, Rei poderoso,

Tão escondida lá na mente eterna,

A padeceres fim tão desonroso?

 

A seguir, nos tercetos 42 a 46, brada ao mundo, ao mar, aos ventos, à terra, às plantas, aos animais, a fim de que se comovam perante a dor e a profunda humilhação daquele que é o próprio Deus, o Senhor da Majestade, e, nos dois tercetos seguintes, também aos altos Céus:

 

Vós, altos Céus, de lá da mor alteza,

Bem sei quanto sentis a Divindade

Em tal miséria posta e tal baixeza,

 

Pois vedes o Senhor da Majestade,

Que vos criou do nada, submetido,

Por amor puro, aos pés da humanidade.

 

O Poeta passa, então, a dirigir-se, numa oração contemplativa ao próprio Jesus, extasiado perante tanto amor e tanta dor, comovido diante das santas chagas e dos instrumentos de martírio, chamados santos e benditos, certamente por serem fonte de santificação e de bênção para a humanidade pecadora:

 

Senhor, que amor foi este tão crecido

Que tão dobradas forças faz singelas,

Lá de tão alto, baixo e abatido?

 

Ó preciosas chagas rochas, belas,

Luminárias da noite tenebrosa.

De toda luz privada das estrelas!

 

Ó Cruz bendita, cara, preciosa!

Contempla bem o passo que te deram,

Ó coroa de espinhos, amargosa!

 

Vós, santos cravos, quando vos meteram,

À força de martelo, logo à hora

Logo as serpentes e os dragos se esconderam.

 

Nos dois tercetos seguintes fala o coração enamorado e compungido, que não admite que não haja coração, mesmo o dos pecadores, que não derramem lágrimas de dor, ao contemplar tantas dores do Redentor, que é o Senhor dos Senhores (cfr Apoc 17, 14):

 

O coração, a alma que não chora,

Vendo-te, Redentor, com tantas dores,

Em pedra viva de diamante mora.

 

Que não contemplais isto, pecadores,

E derramais mil lágrimas no dia,

Vendo o Senhor tão triste dos Senhores!

 

E o Poeta volta-se agora para a Virgem Maria (estrofes 55 a 62), num rasgo retórico, bem típico dum sermão do encontro nas cerimónias das Endoenças, convidando-a a que corra asinha ao encontro de seu precioso Filho, para o ver antes de morto. Ela é invocada com os altos títulos da sua grandeza juntamente com outros de carácter idílico (há títulos alusivos ao Cântico dos Cânticos85), que exprimem toda a ternura duma alma enamorada, numa espécie de longa paráfrase da Ave Maria:

 

Tu, Virgem pura, santa, Ave Maria,

Cheia de Graça, Esposa, Filha e Madre,

Mais fermosa que o Sol ao meio-dia,

 

Que vás buscando ao Esposo, Filho e Padre,

Qual cordeira perdida da manada,

Sem guarda de pastor, nem cão que ladre;

 

Vai, Rainha dos Anjos mui amada,

E preciosa pedra adamantina,

De perfeições e graças esmaltada;

 

Vai, estrela do mar; vai, luz divina,

Escolhida do Céu; vai, cordeirinha,

Branca açucena e rosa matutina;

 

Vai, caminho da glória; vai, pombinha

Branca sem fel; bendita entre as mulheres;

Vai, mãe da Lei da Graça, vai asinha

 

A o monte Calvário, se ver queres

Ao teu precioso Filho antes de morto,

Desconsolada vai; vai, não esperes!

 

A o qual acharás bem sem conforto,

Posto na Cruz, por partes mil chagado,

Por nos dar sossegado e manso porto;

 

Escarnecido, só, desamparado,

Entre dous malfeitores condenados,

De fariseus e armas rodeado.

Como temos vindo a ver, Jesus é designado em relação com a Trindade: com efeito, aparece como o Filho do Padre eterno, e sempre tratado como Deus: Rei poderoso, a Divindade, o Senhor da Majestade, o Senhor dos Senhores, meu Deus.

No que se refere a Maria, Ela aparece ligada à SS. Trindade, como já vimos e comentámos a propósito do soneto "Para se namorar do que criou". Não vamos repetir o que foi dito acima, no nº 3.1.1., mas queremos chamar a atenção para duas particularidades: ao apor a "cheia de graça" as designações de "Esposa, Filha e Madre", o Poeta parece querer pôr em evidência em que consiste para Maria a prerrogativa de ser cheia de graça; por outro lado, neste poema não se vê tão claramente que cada um dos títulos - Filha, Mãe e Esposa - seja dado em relação com cada uma das distintas pessoas da Trindade, a saber, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, visto que é o próprio Jesus que, no terceto seguinte, é designado como Esposo, Filho e Padre. No entanto, dada a profunda cultura teológica do poeta, não repugna que também aqui estivesse latente um apelo implícito à dita circumincessio das pessoas divinas: em Jesus, pelo facto de ser a pessoa do Filho eterno de Deus, estão presentes de forma imanente também o Pai e o Espírito Santo. De qualquer modo, este recurso não deixaria de ser uma espécie de preciosismo barroco.

Nas 33 estrofes seguintes (63 a 95), o Poeta dirige fortes invectivas, primeiro, à crueldade dos algozes (em que se pode ver implicado todo o pecador), depois, directamente ao pecador, e, por fim, a todos os mortais. Estes tercetos têm o sabor duma parénese típica de sermão de Semana Santa, a culminar num apelo à correspondência a tanto amor de Cristo (estrofe 95):

Dizei, dizei, mortais, que lhe daremos,

Por mais que o amemos ou sirvamos,

Que a mais pequena parte lhe paguemos?

Os versos seguintes constituem como que uma síntese final (tercetos 96 a 102), a terminar com a cena dos anjos (cfr Lc 22, 43) que acorrem para dar alento a Jesus (103 a 111):

 

Contemplo-te, meu Deus, na Cruz subido,

E vejo-te com os olhos verdadeiros

Cercado de mil Anjos e servido (...)

 

E o poema finaliza com uma dedicatória do Poeta ao próprio Cristo (estrofes 112 a 116), num rasgo de humildade, que, pela sua beleza e candura, não queremos deixar de transcrever:

 

Recebe, Pão de vida este pequeno

Sacrifício de mim, à sombra escrito

Dum alto freixo deste vale ameno;

 

E dá-me tanta Graça e tanto esp'rito

Pera que sempre louve, qual espero,

O teu saber profundo e infinito.

 

Tomara ser Virgílio ou ser Homero,

Somente no saber, que foi divino

(que ser o que eles foram não no quero),

 

Pera poder cantar, ó Rei benino,

Em puro choro as chagas que te vejo,

A dor das quais provoca a desatino;

 

Mas, já que ver não posso este desejo,

O qual tomara só pera louvar-te,

Meu Deus, de dar-te pouco não me pejo,

Porque eu pera dar mais sou pouca parte.

4. Conclusão

De tudo o que acabámos de ver se depreende, com toda a força e clareza, a íntima conexão que Camões magnificamente estabelece entre o mistério de Maria e o mistério da Trindade.

A divindade de Cristo é insistentemente posta em relevo em todos os poemas analisados, tanto na obra épica, como na lírica, quer duma forma explícita, quer implícita, através de títulos que o situam num plano divino.

O mistério da Incarnação do Filho de Deus, frequentemente referido, nunca aparece em termos que permitam qualquer interpretação desviada da ortodoxia, de sabor gnóstico, nestoriano, modalista-sabeliano, ou de uma teologia trinitário-cristológica meramente funcional. E é precisamente o mistério da Incarnação, correctamente entendido, que permite estabelecer a mais profunda relação de Maria com a Trindade, de modo a que o Poeta aplique a Maria os títulos que mais a dignificam, nomeadamente, os de "Filha", "Mãe" e "Esposa".

As repetidas expressões camonianas referidas a Cristo, em que se predicam de Deus coisas humanas, longe de serem expressões monofisitas, constituem uma atraente forma de pôr em evidência a sua divindade, o mistério da Trindade e da Incarnação assim como a relação de Virgem Maria com a Trindade; trata-se do recurso que a Teologia chama communicatio idiomatum.

Na obra de Camões, Maria ocupa um lugar singular, bem destacado. Ela, junto à Cruz de Jesus, não aparece apenas como impressionante ícone da dor; podemos dizer que ela também aparece como ícone da Trindade.

Na elegia "Se quando contemplamos as secretas" - de indiscutida autenticidade camoniana - a Virgem Santa Maria é apresentada também na função de "Corredentora", e, não apenas a sofrer as dores do Redentor, mas a ser invocada para que seja ela a fazer chegar os frutos da Redenção a toda a criatura que vive e viverá;86 com efeito, o Poeta suplica-lhe que ela intervenha a fim de que, na unidade da fé, "todos venham confessar um só Deus crucificado, e por nenhum respeito se detenham", tanto os irmãos separados, como os próprios infiéis. Se a linguagem com que se exprime não é a mais ecuménica, para os nossos ouvidos de hoje, ela manifesta a profunda segurança da fé, que nada tem de subjectivismo fideísta, assim como a esperança de que ninguém se detenha até se chegar à unidade de todos na mesma fé. Pensamos que o nosso Poeta bem podia subscrever estas palavras do Concílio Vaticano II, com que nos apraz concluir: "Dirijam todos os fiéis instantes súplicas à Mãe de Deus e mãe dos homens para que Ela, que assistiu com suas orações aos começos da Igreja, também agora, exaltada sobre todos os anjos e bem-aventurados, interceda, junto de seu Filho, na comunhão de todos os santos, até que todos os povos, tanto os que ostentam o nome cristão, como os que ainda ignoram o Salvador, se reunam felizmente, em paz e harmonia, no único Povo de Deus, para glória da santíssima e indivisa Trindade"87.

 

* Capelão do ISPV

 

_________ notas ___________

1 M. VALENÇA, A radicalidade cristã de "Os Lusíadas", Porto, 1980.

2 Os Lusíadas VIII, 47. Vamos citar, ao longo do nosso trabalho, Os Lusíadas pela edição crítica de Hernâni CIDADE.

3 Como bem observa Hernâni CIDADE, Luís de Camões, o Lírico, 3ª ed., Lisboa, 1967, p. 263: "fica, supomos, a evidência que a crença, para o Poeta, não era um luxo ou hábito exterior, a enquadrar nos idolatribus. Incorporava-a na vida mais íntima da sua inteligência e da sua sensibilidade, era uma autêntica e funda vivência, que lhe comunicava o excepcional calor vital, sensível nas criações camonianas à primeira vista de mais filosófica altura e espiritual essência". (Esta obra foi reeditada em 1984).

A sinceridade da fé do poeta é muitas vezes posta em evidência; veja-se o final da Elegia X (recensão de Hernâni CIDADE):

Tomara ser Virgílio ou ser Homero,

Somente no saber que foi divino

(Que ser o que eles foram não no quero).

4 A. AZEVEDO PIRES, A Teologia em Camões, Lisboa, União Gráfica, 1970: "Poeta da Teologia", assim lhe chama (p. XVII).

5 MENDES DOS REMÉDIOS, Camões, Poeta da Fé, Coimbra, Coimbra Editora, 1924, p. 1.

6 Ver, por ex., na estância 119 do canto X de "Os Lusíadas" o fortíssimo apelo aos pregadores cristãos:

E vós outros, que os nomes usurpais

De mandados de Deus, como Tomé,

Dizei: se sois mandados, como estais

Sem irdes a pregar a santa Fé?

Olhai que, se sois sal e vos danais

Na Pátria, onde profeta ninguém é,

Como se salgarão em nossos dias,

(Infiéis deixo) tantas heresias?

7 Assim pensava A. J. SARAIVA, Luís de Camões, Lisboa, 1959, mas o seu pensamento evoluiu sobremaneira no ensaio A Fábrica de Os Lusíadas, em: "Arquivos do Centro Cultural Português", XVI, Paris, F. C. Gulbenkian, 1981, considerada a melhor síntese do especialista sobre a nossa epopeia.

8 Ver, por ex., o soneto "Correm turbas as águas deste rio", em: H. CIDADE, Luís de Camões. Obras completas, vol. I: Redondilhas e Sonetos, 4ª ed., Lisboa, Sá da Costa Ed., 1971, pp. 259-260: ... Tem o tempo sua ordem já sabida;

O mundo não; mas anda tão confuso,

Que parece que dele Deus se esquece.

Casos, opiniões, natura e uso

Fazem que nos pareça desta vida

Que não há nela mais que o que parece".

9 Soneto "Vós outros, que buscais repouso certo", ibidem, p. 256. Lembrem-se os paradoxos tão do gosto de Petrarca.

10 Cfr V. M. AGUIAR E SILVA, Camões: Labirintos e fascínios, Lisboa, Cotovia, 1994, pp. 228 e 238.

11 Soneto "Verdade, amor, razão, merecimento", em H. CIDADE, ibid., pp. 242-243.

12 Oitavas, A D. Constantino, Viso-Rei da Índia. Cfr Hernani CIDADE, o. c., vol. II, p. 182.

13 Os Lusíadas X, 38.

14 "O cristão que no Poeta vive conhece em profundidade as verdades da Fé que abraçou e adere a elas com ardente e indefectível vigor. - Conhecimento da Teologia católica? Sim, indubitavelmente. Camões tem-no, e muito seguro e profundo"; estes conhecimentos seguros e vastos justificam-se pelo ambiente de Coimbra onde viveu largos anos da mocidade: junto com o estudo das Humanidades estudava Teologia. Cfr AZEVEDO PIRES, A Teologia em Camões, o. c., pp. XIV e XVII. Com razão Camões afirma em Os Lusíadas X, 154: "Nem me falta na vida honesto estudo".

15 Cfr D. MUÑOZ-LEÓN, El principio trinitario inmanente y la interpretación del Nuevo Testamento, em "Estudios Bíblicos" 40 (1982) 19-49; 277-312; 41 (1983) 241-283; cfr tb. G. MORUJÃO, Relações Pai-Filho em S. João. Subsídios para a Teologia Trinitária a partir do estudo de sintagmas verbais gregos (Jo 5 e 17), Viseu, Ed. ISPV, 1989.

16 Os Lusíadas I, 2.

17 Cfr G. MORUJÃO, El Salmo 137 (136), Super flumnia Babylonis, en la lírica de Luís de Camões, comunicação ao "V Simposio Biblico Español" (Asociación Bíblica Española).

18 Para a pesquisa de textos utilizámos a obra de António Geraldo da CUNHA, Índice analítico do vocabulário de Os Lusíadas, 2ª ed., Rio de Janeiro, Presença, 1980.

19 Os Lusíadas VIII, 30. O relato desta atitude do "Capitão devoto" corresponde a um dado histórico: cfr Fernão LOPES, D. João I, II, 57.

20 Este rio dos Reis não está identificado com segurança; pode tratar-se do rio Limpopo.

21 Cfr G. MORUJÃO, A "imanência mútua" do Pai e do Filho em alguns sintagmas verbais gregos do IV Evangelho, em "Theologica" 22/23 (1987/1988) 13-25.

22 Assim, em Os Lusíadas I, 41; II, 39; em IX, 18 também é chamado "Padre eterno".

23 Assim, em Os Lusíadas IV, 47; X, 90 e 114; em VIII, 99 aparece "Deus omnipotente".

24 Os Lusíadas II, 11 e VII, 69.

25 Os Lusíadas II, 10 e 11.

26 Já os rabinos do tempo de Jesus imaginavam que o Espírito de Deus, no início da criação, pairava sobre as águas como uma pomba (o verbo que traduzimos por "pairava" - em hebraico, merahiéfet - também pode traduzir-se por "incubava", o que condiz bem com uma ave). No Baptismo de Jesus, ao inaugurar-se a nova criação, o Espírito Santo manifesta-se sobre Jesus em forma de pomba (Mt 3, 16 par).

27 AZEVEDO PIRES, A., o. c., pp. 35-36, põe esta hipótese deveras interessante: "As sabedorias poéticas e as opulentas humanidades de fundo clássico, acrescidas da forte cultura teológica de Luís de Camões, conferem-nos o direito de não enjeitar tal hipótese.

28 Cant 2, 14; 5, 2; 6, 9.

29 Cant 1, 15; 4, 1; 5, 12.

30 Cfr Alcorão, tradução directa do árabe e anotações de José Pedro MACHADO, Lisboa, Junta de Investigações Científicas do Ultramar, 1979, Sura IV, 169: "Certamente Jesus, o Filho de Maria, é o Enviado de Deus e o Seu Verbo que Ele insuflou em Maria. É um Espírito vindo d'Ele"; Sura XXI, 91: "E aquela que conservou intacta a sua virgindade e em quem inspirámos o Nosso Espírito"; Sura LXVI, 12: "E Nós insuflámos nela uma parte do Nosso Espírito".

O Corão nega categoricamente a divindade de Jesus e não o reconhece como o Filho de Deus (ver, por ex., Sura V, 19; XIX, 36), mas apenas como "um dos familiares de Deus" (Sura III, 40), um "Profeta" (Sura XIX, 31) e "Enviado de Deus" (Sura V, 79).

31 O suspicaz e traiçoeiro Regedor maometano tinha perguntado pelos "livros da fé" (estância 63), pois queria tirar a limpo se os navegadores eram cristãos, a quem os maometanos chamam "os homens do livro" (ver, por ex., Alcorão, Sura IV, 169). O Gama não apela para os livros da Bíblia, mas para a fé que traz na alma. Com esta sua resposta poderia o "teólogo" Camões pretender rebater a ideia islâmica de que o cristianismo é "a religião do Livro". De facto, segundo uma sentença dos Padres, "Sacra Scriptura principalius est in corde Ecclesiæ quam in materialibus instrumentis scripta" (cfr Catecismo da Igreja Católica, nº 113).

32 Cfr 5, 7; Jo 12, 27; Mt 26, 38 ss par.

33 Supra, nº 2.2.

34 Ibidem.

35 "A repulsa sistemática é número simétrico da sistemática aceitação", como bem diz Hernâni CIDADE, em: LUÍS DE CAMÕES, Obras completas, com prefácio e notas do Prof. Hernâni CIDADE, vol. I, Redondilhas e sonetos, 4ª ed., Lisboa, Liv. Sá da Costa Ed., 1971.

36 V. M. AGUIAR E SILVA, Camões: Labirintos e fascínios, Lisboa, Cotovia, 1994, p. 11.

37 Ibid., p. 41: "A importância atribuída por HERCULANO DE CARVALHO às fontes manuscritas, retomando, afinal de contas, o rumo aberto por Carolina Machaëlis, representam um dos vectores fundamentais da investigação sobre a problemática do cânone da lírica camoniana durante os últimos 30 anos e contrasta fortemente com o relativo menosprezo com que tanto COSTA PIMPÃO como HERNÂNI CIDADE consideram os cancioneiros manuscritos". Mais recentemente, o Professor Leodegário AZEVEDO FILHO apareceu com um "estudo de fôlego" (assim saudado por Aguiar e Silva), em oito grossos tomos, que pretende estabelecer rigorosamente umas bases mais seguras para poder chegar ao corpus camoniano da lírica, fazendo finca-pé precisamente na tradição manuscrita.

38 Luís de CAMÕES, Lírica Completa, Prefácio e notas de Maria de Lurdes SARAIVA, t. II, 2ª ed., Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1986, ad loc.

39 António SÉRGIO, Obras Completas. Ensaios, t. IV, Lisboa, Liv. Sá da Costa Ed., 1934, p. 26. É por isso que ele critica a investigação acerca das amadas de Camões como chave para a interpretação da sua lírica. Cfr João MENDES, O platonismo de Camões, em: "Brotéria" 96 (1973) pp. 503-529.

40 Luís de CAMÕES, Lírica I. Edição comemorativa do IV centenário da morte do Poeta, Lisboa, Ed. Verbo, 1980, p. 5: "Feliz época essa em que era possível atribuir a Camões o que porventura não será de Camões".

41 Cfr Leodegário AZEVEDO PIRES, Lírica de Camões. Texto estabelecido à luz da tradição manuscrita, em confronto com a tradição impressa, vol. 4, tomo I, Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1998, p. 42.

42 Luís de CAMÕES, Lírica Completa, Prefácio e notas de Maria de Lurdes SARAIVA, t. II, 2ª o. c., p. 317.

43 Maria de Lurdes SARAIVA, ibidem, onde a investigadora acrescenta: "O facto reveste a maior importância do ponto de vista biográfico e do cânone da Lírica, visto que obriga a olhar com novos olhos toda a poesia religiosa atribuída a Camões. Torna-se agora indubitável que Camões consagrou versos à encarnação de Cristo, tomando assim posição no debate que no seu tempo se travava entre as duas concepções religiosas. A análise estilística de ambos os sonetos sugere peças da última fase literária, com proselitismo catequístico, animadas pelo fervor da Contra-Reforma e, sob o ponto de vista estilístico, caracterizadas por um maneirismo que está muito distante da fase petrarquista".

44 Supra, 2.2. Cfr o comentário que então fizemos. Também consideramos que Virgem pura é um simples aposto ao vocativo santa Fénix, e não um predicativo de te fez. Com efeito, Camões não identifica a Concepção Imaculada de Maria, com a concepção virginal de Jesus, como sucede por vezes entre as pessoas pouco esclarecidas.

45 Assim pensa Maria de Lurdes SARAIVA, na obra citada na nota 33, p. 318.

46 Assim, lemos no célebre terceto de DANTE ALIGHIERI, Divina Commedia di Dante, Paradiso, Canto XXXIII, 1, em "The Project Gutemberg Etext", ad loc.:

Vergine Madre, figlia del tuo Figlio,

umile e alta più che creatura,

termine fisso d'etterno consiglio;

e em JOÃO DE DEUS, num poema que entrou no Breviário (hino de I Vésperas de Nª Senhora):

Virgem Mãe do mesmo Deus,

Virgem filha do teu Filho,

Não há estrela de mais brilho

Nesses céus. (...)

Meu farol, refúgio meu,

Sol que dia e noite brilha,

Mãe de Deus e de Deus filha,

Mãe do Céu.

47 Cfr. Roger BISMUT, La lyrique de Camões, Paris, PUF, 1970.

48 Maria de Lurdes SARAIVA, o. c., p. 311. Já não se pode dizer o mesmo do soneto com o mesmo tema "Porque a terra no céu agasalhaste" (neste não se faz alusão à Virgem Maria), que a autora coloca no apêndice desta sua obra ("Sonetos apócrifos e de autoria problemática atribuídos a Camões"), ao não ter a segurança acerca da autenticidade.

49 Cfr H. CIDADE, Luís de Camões. Obras completas, vol. I: Redondilhas e Sonetos, o. c., Sonetos 57 (p. 218); Sonetos 58 (p. 219); Sonetos 90 (p. 238); Sonetos 165 (p. 283). No entanto, este autor não recolhe este soneto que aqui apresentamos.

50 Maria de Lurdes SARAIVA, o. c., p. 313.

51 O critério do "duplo testemunho quinhentista incontroverso, sendo um deles procedente da tradição manuscrita".

52 Maria de Lurdes SARAIVA, o. c., ibid.

53 LUÍS DE CAMÕES, Rimas. Texto estabelecido e prefaciado por Álvaro J. da COSTA PIMPÃO, Coimbra, Almedina, 1994, pp. 385-393.

54 Leodegário A. de AZEVEDO FILHO, Lírica de Camões, 4, t. 1, Elegias em Tercetos. Texto estabelecido à luz da tradição manuscrita, em confronto com a tradição impressa, Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1998.; cfr pp. 418 e 479-480.

55 Esta elegia , recolhida por Domingos Fernandes, na edição das Rimas de 1616, aparece como epigrafada pelo próprio Camões com o título: "À Paixão de Cristo Nosso Senhor".

56 Leodegário A. de AZEVEDO FILHO, o. c., p. 418: "Por certo, os editores quinhentistas conheciam ambos os textos, pois figuram em cancioneiros da época, sempre atribuídos a Camões. Portanto, a omissão só pode ter sido intencional, talvez com o receio (censura religiosa preventiva) de incluir poemas de carácter manifestamente religioso no meio de poemas profanos. Seja como for, é estranho que os dois textos aqui mencionados não apareçam em Rhythmas (1595) e em Rimas (1598), sendo impressos apenas no século XVII, a despeito da tradição manuscrita conhecida no século XVI, com atribuição camoniana incontroversa".

57 H. CIDADE, Luís de Camões. Obras completas, vol. II: Géneros líricos maiores, 3ª ed., Lisboa, Sá da Costa Ed., 1968, Elegia VI, pp. 223-229.

58 MENDES DOS REMÉDIOS, o. c., p. 210.

59 Cfr Ibid., pp. 26-27.

60 Ibid., p. 28.

61 Cfr 1 Pe 2, 21-24.

62 Cfr Lc 23, 32-33 par.

63 Cfr Mt 26, 14-15 par; Zac 11, 11-13. O preço de 30 moedas é chamado "vil" não só por ser a paga da vileza da traição, como também por ser irrisório: era o preço dum escravo (cfr Ex 21,32).

64 Cfr Mt 26, 50 par.

65 É S. João que descreve com pormenor o processo de Jesus perante Pilatos (Jo 18, 28 - 19, 16), depois dum interrogatório por Anás (18, 19-23); os Sinópticos é que se detêm no processo perante Caifás e o Sinédrio.

66 Cfr Jo 18, 30 par.

67 Cfr Mt 26, 67 par.

68 Cfr Mt 27, 27-31 par.

69 Cfr Mt 26, 67; 27, 30; Jo 18, 22; 19, 3; par. Cfr tb. I s 52, 14.

70 Cfr Mt 27, 26; Jo 19, 1; par.

71 Cfr Mt 27, 28.31 par.

72 Cfr Is 50, 6: "Aos que me batiam apresentei as espáduas, e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me ultrajavam e cuspiam".

73 Cfr Jo 19, 17 par.

74 Cfr Mt 27, 32 par.

75 Marteiro = martírio.

76 É uma dor "pungente e assume dimensões realistas, em plano patético e místico": Leodegário A. de AZEVEDO FILHO, Lírica de Camões, o. c., p. 481.

77 Cfr Jo 19, 28.

78 Cfr Jo 19, 34.

79 Cfr hino Stabat Mater:

"Quis est homo qui non fleret

matrem Christi si videret

in tanto suplicio?

Quis non posset contristari

piam matrem contemplari

dolentem cum Filio?"

80 Esta elegia, como anota Maria de Lurdes Saraiva, figura no Cancioneiro de Luís Franco com o título: "Sexta-feira de Endoenças". Este título só pode dizer respeito aos tercetos a partir do nº 33, pois até aí o tema é completamente outro; o Poeta dirige-se a Apolo (esta divindade pode ser uma alegoria do destinatário do poema) para averiguar as razões da sua tristeza. A esta elegia está anexo um soneto - "A ti, Senhor, que as sacras musas", que uns editores colocam antes e outros depois da elegia.

81 Maria de Lurdes SARAIVA, o. c., p. 203. Hernani CIDADE (cfr o. c., vol 2, Géneros líricos maiores, p. 246) transcreve, antes desta elegia, o soneto "A ti, Senhor, a quem as sacras musas" e anota que "é o manuscrito de Luís Franco que traz este soneto, que Joromenha supõe dedicado pelo poeta a seu tio D. Bento, chanceler da Universidade".

82 Cfr MENDES DOS REMÉDIOS, o. c., p. 23: "Nela aparece a erudição do admirável estudante, que o foi Camões, sem rival entre os poetas seus contemporâneos, dos quais nenhum, nem na espontaneidade do talento, nem na sublimidade da inspiração, nem na pujança do saber, nem na fecundidade, há que se lhe avantaje, ou, sequer, o iguale". Este autor considera que o próprio Camões intitulou o seu famoso poemeto com a epígrafe de Sexta-feira de Endoenças (ibid., p. 24).

83 H. CIDADE, o. c., vol. II: Géneros líricos maiores, Elegia X, pp. 246-259.

84 É fácil de notar uma alusão à profecia do IV canto do Servo de Yahwéh: "Era maltratado e ele sofria, não abria a boca; era como cordeiro levado ao matadouro, e como ovelha muda nas mãos do tosquiador, e não abriu a boca" (Is 53,7).

85 Cfr Cant: pomba: 1, 15; 2, 14; 4, 1; 5, 2; 6, 9; açucena: 2, 2; cordeira: 4,2; 6, 6.

86 Cfr estrofes finais da elegia - 57 a 64 - analisadas supra, nº 3.2.1.

87 CONCÍLIO VATICANO II, Lumen Gentium, nº 69.

sumário