A Educação de Luíza e Celestina

para Influenciar os Homens *

 

Jane Cristina Franco de Lima**

Terezinha Oliveira***

RESUMO: Este estudo tem por objetivo compreender e identificar como se desenvolve o processo educacional da mulher francesa no período de 1815 a 1848, bem como os agentes envolvidos, os valores assimilados e a amplitude da influência feminina na sociedade francesa no século XIX, através dos romances Memórias de Duas Jovens Esposas e Os Funcionários, de Honoré de Balzac. A educação das protagonistas Luíza de Chaulieu e Celestina Rabourdin revela que a mulher aprende, no convívio familiar e social, a realçar a beleza com uma toalete impecável, a utilizar o vestuário da última moda, a recepcionar convidados em seu salão, a freqüentar outros salões e a articular encontros com pessoas influentes e importantes com o intuito de alcançar os objetivos que almeja.

Palavras-chaves: Educação; Mulher; França

ABSTRACT: The goal of this article is to comprehend and identify the educational developmental process of the French woman in the time frame between 1815 through 1848. Other objectives of this study include the feminine amplitude and influence in XIX century French society through two romantic works, The Memoirs of Two Young Wives and The Employees of Honoré de Balzac. The education of the protagonists, Luíza de Chaulieu and Celestina Rabourdin, reveals that through the family and social order the women learn to: accentuate beauty with an impeccable style of dress, utilize the latest fashions, entertain guests, visit others within appropriate protocol, and meet important and influencial people with the intention of reaching personal objectives.

Key-Words: Educacion; Woman; France

1. INTRODUÇÃO

A capacidade de aprender é uma das características inerentes ao ser humano, que se realiza em todos os momentos de sua vida, de uma forma constante e contínua. Em diferentes circunstâncias o homem tem a possibilidade de aprender e de ensinar. Simples atos como os de alimentar-se, vestir-se e andar são aprendidos pelo homem através da educação, o que implica a convivência com outros homens. Nesse sentido, a educação possibilita a transmissão dos costumes, hábitos e valores, bem como pode favorecer mudanças nos comportamentos dos indivíduos que participam de uma determinada sociedade.

Homens e mulheres, por meio da educação, aprendem determinadas formas de comportamento e adquirem os conhecimentos existentes em uma sociedade, com a finalidade de preservar a existência humana e a organização social da qual fazem parte. Os comportamentos e os conhecimentos existentes passam por constantes transformações, em função da capacidade dos homens influenciarem-se mutuamente. "[...] Em outras palavras, é a capacidade de os homens reagirem, de serem capazes de atuar junto a outros homens, aprendendo e ensinando, que torna possível a educação". (KRUPPA,1994:23)

Nesse processo educacional, aos poucos, cada membro compreende sua posição no conjunto social e adota as atitudes socialmente julgadas adequadas, assimilando os hábitos correspondentes. A maneira como a educação de homens e mulheres realiza-se depende da sociedade e do momento histórico a ser analisado, o que implica maneiras de proceder e cultura diferenciados. Conforme BRANDÃO (1981:11), estudioso da educação no século XX, "[...] a educação participa do processo de produção de crenças e idéias, de qualificações e especialidades que envolvem as trocas de símbolos, bens e poderes, que, em conjunto, constróem tipos de sociedades". Dessa maneira, cada sociedade está estabelecida de uma determinada forma, de acordo com a organização desses elementos. É isso que confere a especificidade das sociedades diante da diversidade cultural existente, inclusive da França no século XIX que apresenta suas peculiaridades quanto à educação de homens e mulheres.

 

2. LUÍZA CHAULIEU E CELESTINA RABORDIN: EDUCAÇÃO E INFLUÊNCIA FEMININA

No que diz respeito a educação da mulher francesa no século XIX, é possível perceber que a mesma assume características peculiares, especificamente no tocante a formação da mulher para influenciar o mundo dos homens. A mulher influencia o homem se, em primeiro lugar, detiver as minúcias que o comportamento exige e, em segundo lugar, exercer prestígio, preponderância e ascendência sobre o sexo masculino. Uma mulher, em seu papel de esposa, mãe ou irmã, pode ser capaz de persuadir o homem a mudar de decisão, convencendo-o de que o próprio homem, seus filhos ou outros parentes serão beneficiados com a mudança (LAMPHERE, 1979:124). Assim, influenciar significa inculcar, incutir e preponderar sobre a opinião do homem de maneira sutil, fazendo-o adotar uma outra conduta mais favorável aos interesses femininos.

Aristocrata ou burguesa, a mulher francesa encontra possibilidades, estratégias e motivações, que podem tornar-se fontes de poder, se obter na infância e na juventude os conhecimentos que necessita para tornar-se uma mulher influente. Trata-se, portanto, de um comportamento que requer o desenvolvimento de determinadas habilidades, em que o encanto, a sedução e a magia precisam sobressair-se. Essas mulheres buscam a supremacia em suas casas, nos salões, nos teatros e nos bulevares. Seu cabelo, sua pele, sua roupa e sua jóia contribuem para torná-la o centro das atenções, tanto na vida privada, quanto na vida pública.

Para adquirir supremacia e atenção, é necessária a aquisição de habilidades que não nascem ao acaso. Elas são produzidas e aprimoradas nas relações sociais, o que pressupõe um processo de educação dessa mulher para desempenhar os papéis que lhe são atribuídos. Segundo GASTALDI (1940:180), a mulher para triunfar na sociedade tem necessidade de adestrar seu espírito e aguçar sua sensibilidade. Assim, o homem é domesticado e seduzido pelo domínio dessas qualidades que a mulher tão bem desenvolve.

Os modelos e os exemplos mais próximos ensinam a jovem a utilizar-se dos meios disponíveis e a comportar-se sedutoramente nas mais variadas circunstâncias. Alguma pessoa (mãe, irmã, parente, amiga, professora ou até mesmo o pai e o marido) precisam ensinar a mulher as atitudes e a linguagem para influenciar os homens. Trata-se, portanto, de um comportamento produzido e transmitido no cotidiano, que se origina, a princípio, na família. O desempenho da mãe ou de outra pessoa é muito importante para que a mulher aprenda a influenciar os homens que fazem parte de seu círculo de relacionamento. As atitudes e os diálogos que a mãe e o pai estabelecem com a filha nas relações familiares tornam-se, dessa forma, momentos de aprendizagem. Esse comportamento passa a ser reforçado, também, pelo relacionamento entre homens e mulheres no meio social. É esse processo educacional contínuo que possibilita à mulher possuir determinadas "características", que podem ser analisadas nos romances Memórias de Duas Jovens Esposas e os Funcionários de Honoré de Balzac.1

Em Memórias de Duas Jovens Esposas, BALZAC retrata a amizade existente entre duas amigas, Luíza e Renata, que se conhecem no convento. Armanda Luíza Maria de Chaulieu, filha do duque de Chaulieu, vai para o convento com dez anos de idade. Renata de Maucombe é enviada para o convento com nove anos. Ambas permanecem no convento durante oito anos. É o retorno de Renata para a província, em função de seu casamento, que provoca a volta inesperada de Luíza ao seio de sua família em Paris. A amizade iniciada no convento tem sua seqüência mesmo depois do retorno de ambas para a casa paterna. Por meio de correspondências, Luíza vai revelando à Renata os "agentes" responsáveis por sua educação.

Essa jovem é ensinada na infância pela avó, depois permanece por algum tempo em um convento e mais tarde retorna ao lar, onde a mãe e a sociedade completam sua educação. É a avó, a Princesa de Vaurémont, que mais contribui para a formação da sua personalidade. Ao retornar para casa, Luíza revela a relação que mantinha com ela.

Esses aposentos são os daquela avó tão querida, a princesa de Vaurémont, a quem devo uma fortuna qualquer, da qual nunca ninguém me falou. Neste ponto partilharás a tristeza que me empolgou ao entrar naquele lugar consagrado por muitas recordações. O apartamento estava tal como ela o deixara. Ia deitar-me no leito em que ela morrera. Sentada à borda de sua espreguiçadeira, chorei sem ver que não estava só; lembrei-me que me pusera, ali, de joelhos, muitas vezes para ouvi-la. Dali vira seu rosto perdido entre as rendas velhas e emagrecida tanto pela idade, quanto pelas dores da agonia. O quarto parecia-me ainda quente do calor que ela nele mantinha. Como pode ser que a senhorita Armanda Luíza Chaulieu seja obrigada, como uma camponesa, a deitar-se na cama de sua mãe, quase no dia de seu falecimento? [...]. (BALZAC, 1955:146)

Luíza mantém estreitos laços de afeto e carinho com a avó. O fato de entristecer-se ao entrar nos aposentos que essa ocupava em vida demonstra a importância do papel da princesa de Vaurémont na vida da neta. A estima de Luíza é maior pela avó do que por sua própria mãe. Embora tenha uma mãe biológica é a avó que assume a tarefa de ensinar-lhe os segredos da vida na infância, de inspirar-lhe e de servir-lhe de modelo.

[...] Quantas vezes eu a vi, com os pés descansando em cima da barra, mergulhada na sua poltrona com o vestido semi-sungado nos joelhos por sua posição, pegando, depondo, e tornando a pegar a tabaqueira, de cima da pequena mesa entre a sua caixa de pastilhas e suas meias-luvas de seda! Era ela faceira? Até o dia em que morreu cuidou de si como se estivesse no dia seguinte ao daquele lindo retrato, como se esperasse a flor da Corte que se comprimia em torno dela. Aquela poltrona lembrou-me o inimitável movimento que ela imprimia às suas saias quando nela sentava. (BALZAC, 1955:148-9)

Somente o fato de ver a avó sentada em sua poltrona ensina Luíza a comportar-se como ela. As palavras estão dispensadas. Os gestos e as atitudes da Princesa são suficientes para ficarem fixados na mente da neta. Ela lhe ensina, sem nem dar-se conta disso, as maneiras que a mulher deve adotar na sociedade aristocrata. Luíza revela esse ensinamento ao expor suas lembranças:

Essas mulheres do tempo antigo levam com elas certos segredos que pintam a sua época. A Princesa tinha gestos de cabeça, um modo de saltar as palavras e os olhares, uma linguagem particular que eu não encontrava em minha mãe: havia nela finura e bonomia, intenção, sem preparo prévio; a conversação dela era ao mesmo tempo prolixa e lacônica, narrava bem e pintava em três traços. Tinha principalmente essa excessiva liberdade de opiniões que seguramente influiu sobre o feitio de meu espírito. Dos sete aos dez anos vivi em seu regaço; tanto ela gostava de me atrair aos seus aposentos quanto eu de ir até lá [...]. (BALZAC, 1955:148-9)

Através de seus gestos, olhares, palavras e conversações, a avó repassa a finura e a bonomia presentes no comportamento feminino. A própria Luíza afirma que encontra na avó o que não encontra em sua mãe: a delicadeza na maneira de ser. A personalidade e o caráter dela são profundamente marcados pelos traços de sua avó.

A ausência da mãe na infância causa à Luíza certas inquietações ao retornar para casa, pelo fato de nunca tê-la conhecido. As dúvidas são maiores do que as certezas: "[...] Encontrei minha mãe no seu salão, onde nada foi mudado. Ela estava em grande toalete. De degrau em degrau eu a mim mesma perguntava como seria para mim essa mulher, que foi tão pouco mãe que, em oito anos, dela não recebi mais do que as duas cartas que conheces". (BALZAC, 1955:150)

O fato de não ter tido anteriormente contato com a mãe, não anula a contribuição que essa deve dar-lhe na nova fase de sua vida. Por mais que Luíza não sinta afeição profunda pela figura materna, indubitavelmente é a mãe que torna-se o modelo mais próximo naquele momento, preparando-a para participar do mundo em que sua família está inserida. Ao ver a toalete da mãe, percebe o que isso significa:

A encantadora toalete de minha mãe era a primeira revelação daquele mundo entrevisto em nosso sonhos [...]. Sua beleza venceu-me, perdoei-lhe o abandono em que me deixara, compreendi que uma mulher como ela fora arrastada pelo seu papel de rainha [...]. (BALZAC, 1955:151)

Luíza compreende que a mulher se exime de muitas coisas para assumir um papel de influência na sociedade aristocrata, chegando ao ponto de entender que o zelo pela vida social implica abandonar a educação dos filhos, inclusive dela própria. A beleza, que é o atributo primordial utilizado pela mulher, demanda tempo e dinheiro para sustentar as exigências da toalete, o que exige, muitas vezes, a abdicação da educação dos filhos.

A negligência da mãe durante a infância da filha é recompensada pelas suas preocupações após seu retorno à casa paterna. A mãe de Luíza sabe que a filha precisa ser educada para viver em sociedade: "[...] Embora eu queira deixá-la completamente livre, creio que nos primeiros tempos andará acertada se ouvir os conselhos de uma mãe que procederá consigo como uma irmã". (BALZAC, 1955:151)

Os conselhos da mãe são fundamentais para Luíza aprender o comportamento da mulher aristocrata. Essa lhe ensina as regras da toalete, o vestuário mais satisfatório e a linguagem utilizada, elementos esses necessários à mesma para conviver com os aristocratas. Até mesmo para a escolha dos chapéus, a mãe preocupa-se em educar seu gosto, a fim de colocá-la em condições de escolhe-lhos sabiamente. Levar a filha ao chapeleiro e indicar os chapéus adequados que deve usar implica um ensinamento, com um objetivo explícito. Todavia, as mínimas ações cotidianas de sua mãe estão repletas de situações de aprendizagem que não ocorrem propositadamente.

Minha mãe veste-se, nunca é visível das duas horas às quatro: às quatro sai para um passeio de uma hora; recebe das seis às sete, quando não janta fora; depois a noite é preenchida pelos divertimentos, espetáculos, bailes, concertos, visitas. Enfim, sua vida é tão cheia de ocupações que julgo não ter ela um quarto de hora seu. Deve passar um tempo considerável na sua toalete matinal, pois, está divina ao almoço, que se realiza entre onze horas e meio dia [...]. (BALZAC, 1955:155)

O comportamento da mãe evidencia como uma mulher influente deve comportar-se no decorrer do seu dia. É necessário gastar horas na toalete, passear nos bulevares, receber visitas, jantar fora, enfim, freqüentar lugares públicos e manter uma intensa vida social. A mulher influente não pode isolar-se em casa, relacionando-se apenas com os seus familiares. Ela precisa estar bela e manter um contato muito próximo com a sociedade aristocrata para ter o poder de influenciar seus participantes. Luíza prevê, pelas atitudes da mãe, o que a vida em sociedade lhe reserva e isso lhe provoca espanto:

[...] Ainda não pus o pé fora de casa, não conheço nada, estou à espera de ser desmamada, de que a minha toiltette e o meu ar estejam em harmonia com essa sociedade, cuja agitação me assombra, embora não lhe ouça o rumor, senão de longe [...]. Estou começando a destruir os hábitos do convento para adquirir os da vida mundana [...]. (BALZAC, 1955:155-6)

A educação do convento para a vida religiosa não condiz com a educação para a vida social. É necessário educar Luíza para uma vida diferente, onde o seu comportamento em público determinará seu êxito. A vida no convento implica hábitos, costumes e valores diferenciados dos da vida em sociedade. Aqueles precisam ser substituídos pelos hábitos da vida secular. É a educação que garante essa substituição. Para poder freqüentar as altas esferas sociais Luíza precisa obter os conhecimentos veiculados pela sociedade aristocrata. É possível perceber, então, que a educação de uma jovem dá-se inicialmente pelos membros de sua família, para ser completada, posteriormente, pela sociedade. Para entrar nas altas esferas sociais aristocratas, a mulher precisa adquirir, de antemão, determinados conhecimentos que são repassados pela família, mas, principalmente, pelo sexo feminino. A seqüência desse aprendizado na vida social vai depender, em grande medida, da própria mulher.

O comportamento da avó e da mãe, acrescido dos diálogos com Renata no convento, das indicações da governanta, Miss Griffith, escolhida para acompanhá-la, e das leituras que efetua na biblioteca paterna contribui para preparar Luíza para a vida em sociedade e, assim, torná-la uma mulher influente:

[...] E além disso, querida, tudo está em harmonia: um andar, uma voz! A gente se lembra dos meneios da saia da avó, que nunca a tocava: enfim, sou bela e graciosa. De acordo com a minha fantasia poderei rir como rimos tantas vezes, e serei respeitada: haverá não sei o que de imponente nas covinhas que o Gracejo com seus dedinhos leves cavara nas minhas alvas faces. Posso baixar os olhos e dar-me um coração de gelo sob minha fronte de neve. Posso ostentar o pescoço melancólico do cisne, tomando uma atitude de madona, e as virgens desenhadas pelos pintores estarão cem furos abaixo de mim; estarei mais alto do que elas no céu. Para me falar, um homem ver-se-á obrigado a musicalizar a voz. (BALZAC, 1955:158)

Essa mulher precisa, além de saber agir e adotar determinadas atitudes, possuir o arsenal de instrumentos para compor seu "armamento". O andar, o sentar, o caminhar e o falar devem estar de acordo com os padrões sociais e as regras de convívio. Essas regras já são discutidas por ERASMO no século XVI, quando tudo aquilo que parece perfeitamente natural precisa ser ensinado.2 Para conviver em sociedade, a mulher tem que aprender a comportar-se conforme determina as regras de conduta estipulados por seu meio social, nesse caso, o aristocrata. Não basta simplesmente saber baixar os olhos, mas fazê-lo de maneira natural, delicada e graciosa. Enfim, as minúcias do comportamento feminino devem ser aprendidas. Luíza compreende isso, ao ser presenteada por seu pai:

Minha Renata, tenho um enxoval de noiva! Tudo está perfeitamente arrumado, perfumado, nas gavetas de cedro e de frente laqueada do delicioso gabinete de toalete. Tenho fitas, calçados, luvas, tudo em profusão. Meu pai deu-me graciosamente o que requer uma moça: um necessaire, uma toalete, uma caçoila, um leque, uma sombrinha, um livro de orações, uma corrente de ouro, um xale de cachemira; prometeu mandar ensinar-me a montar a cavalo. Enfim, sei dançar! Amanhã, sim, amanhã à noite, serei apresentada [...]. (BALZAC, 1955:159)

Os acompanhamentos e os ornamentos são os primeiros requisitos empregados pela mulher. Cada objeto deve ser usado no momento certo e da maneira correta. Possuí-los de nada vale se a mulher não saber usá-los adequadamente. Um balançar mais brusco do leque, uma sombrinha que não acompanha o andar ou errar o passo ao dançar uma quadrilha podem comprometer o sucesso da mulher, que receberá mais críticas do que elogios. Após os devidos ensinamentos, que se iniciam na infância e são completados na juventude, a mulher está apta para assumir seu papel na sociedade. Na passagem que segue, Luíza revela a repercussão de sua entrada nas esferas sociais da alta aristocracia: "À noite, fui ao baile, e fiquei ao lado de minha mãe, a qual me deu o braço com um devotamento bem recompensado. As honras eram para ela, eu servi de pretexto para as mais agradáveis lisonjas [...]". (BALZAC, 1955:161)

A beleza e a toalete de Luíza chamam a atenção dos demais sobre si, o que propicia prestígio e status à sua mãe, devido a sua entrada bem sucedida na sociedade. O olhar dos convivas pode repousar sobre a "debutante", mas é a mãe que recebe os elogios, por ser ela a responsável pela educação da filha. A desenvoltura da aprendiz atesta e reafirma as qualidades da tutora, nesse caso, sua mãe.

O primeiro baile é apenas o início da vida social da mulher. Para ser notada e admirada pelos homens é necessário manter uma vida social ativa, freqüentando salões, teatros, óperas e bailes. Nesses locais, que são públicos, a mulher deve assumir um comportamento satisfatório para garantir o êxito nas relações sociais:

Faz quinze dias, querida que vivo a vida mundana: uma noite, nos Italianos, a outra na Grande Ópera, e daí sempre para os bailes. Ah! A sociedade é um deslumbramento. A música dos Italianos me encanta e, enquanto minha alma nada num prazer divino os binóculos se assentam sobre mim, sou admirada; mas com um único olhar faço baixarem os olhos do mais ousado rapaz [...]. (BALZAC, 1955:172)

Além de apresentar-se adequadamente, a mulher precisa também saber conduzir-se diante de determinadas situações, evitando manifestar uma opinião negativa acerca da sociedade. A mãe lhe mostra e ensina que o bom gosto e a etiqueta social exigem que a mulher se expresse de forma sutil e dissimulada, não expondo explicitamente o pensamento e o conhecimento acerca dos fatos, dos acontecimentos e das pessoas. É somente no meio familiar que a mulher pode expor suas idéias e opiniões sem correr o risco de ser criticada: "Em família - respondeu minha mãe - pode falar sem receio" (BALZAC, 1955:174). Se essas opiniões são expostas sem critério e de maneira desmedida, a mulher corre o risco de ser neglicenciada pelos membros da sociedade, por estar expressando um julgamento negativo em relação a atitude de seus pares.

Essa atitude dissimulada deve também conduzir a relação conjugal. Para isso, a mulher deve receber os conhecimentos necessários para não colocar em risco o relacionamento afetivo e conjugal. Se o homem curvar-se explicitamente diante dos desejos da mulher, é a dominação que passa a comandar a relação e não mais a influência. Assim, Renata aconselha Luíza a utilizar a beleza para encantar e agradar o homem na vida conjugal e social. A beleza que deveria ser um atributo da natureza passa a ser revestida de um poder especial, desde que a mulher saiba utilizar seus encantos para influenciar o sexo masculino. A ternura precisa ser camuflada e o homem deve comprovar que seu amor é verdadeiro, chegando ao ponto da adoração. Uma vez que o amor é comprovado cabe à mulher conduzir a relação de maneira a atender seus interesses.

Para Renata, convém à Luíza influenciar Henarez, seu futuro marido, para torná-lo um grande homem, ao invés de adotar uma atitude de dominação explícita, conforme revela suas atitudes: "Podes [...] fazer surgir o leão oculto nesse homem verdadeiramente superior. [...]. Será que não te sentirás orgulhosa de exercer teu poder de outro modo que não em teu proveito, de fazeres um homem de gênio de um grande homem [...]?" (BALZAC, 1955:261). A mulher influente sabe como conduzir-se diante de uma situação como essa. Renata demonstra à Luíza que o poder feminino pode ser utilizado de outra maneira, não para oprimir, mas para possibilitar o crescimento do homem.

Além dos conselhos de Renata, a duquesa de Chaulieu também indica à filha como deve comportar-se diante de seu marido, submetendo-se a ele com espírito obediente: "Sacrifica tudo ao homem cujo nome é o teu, cuja honra e consideração não podem sofrer o menor ataque que não produza em ti um enorme abalo. Tudo sacrificar ao marido não é somente um dever absoluto para mulheres de nossa posição social, é também o cálculo mais hábil [...]" (BALZAC, 1955:235). Sacrificar e submeter-se ao marido, segundo a Duquesa, possibilita à mulher encontrar caminhos para conquistar o que deseja na vida conjugal de maneira perspicaz e satisfatória.

Embora Luíza tenha sido educada para influenciar tanto o marido, quanto a sociedade aristocrata, a protagonista do romance, em detrimento dos conselhos recebidos, decide determinar a relação conjugal de forma autoritária e dominadora. Em contrapartida, no meio social, Luíza consegue adotar uma atitude de influência sobre seus pares, tornando-se uma mulher famosa e admirada por seus contemporâneos aristocratas. É devido a essa influência e participação nas esferas sociais que Renata adquire cargos cada vez mais elevados para seu marido, pleiteados por sua amiga em Paris.

Não é somente a aristocrata que precisa de educação para viver em sociedade e para tornar-se influente. No romance intitulado Os Funcionários, BALZAC revela as artimanhas do casal Rabourdin para conquistar o cargo de chefia no Ministério. Filha de leiloeiro, Celestina Leprince, aos 17 anos, casa-se com o funcionário público Xavier Rabourdin. Para enfrentar a vida conjugal e a vida social, Celestina é preparada pela mãe. É essa que fornece à filha todos os conhecimentos necessários para ser uma mulher de influência.

[...] Cuidadosamente educada por uma mãe artista que lhe transmitiu todos os seus talentos, aquela jovem devia atrair os olhares dos homens mais altamente colocados. Alta, bela e admiravelmente bem feita, pintava, era boa musicista, falava várias línguas e recebera algumas noções de ciência, atributo perigoso que obriga uma mulher a tomar precauções se quer evitar qualquer pedantismo. Cegada por uma ternura mal entendida, a mãe dera à filha falsas esperanças sobre seu futuro: na opinião dela, somente um duque, um embaixador, um marechal de França ou um ministro, poderia colocar Celestina no lugar que lhe convinha na sociedade [...]. (BALZAC, 1955:91-2)

Além da beleza, Celestina aprende a pintar, tocar, falar outros idiomas e a ver o mundo com os olhos da ciência. Esses conhecimentos abrem os horizontes de Celestina com relação à vida burguesa. Não é para essa sociedade que a mãe educa a filha, apesar de pertencer ao meio burguês. Essa e outras famílias preparam suas filhas para viver aristocraticamente, tendo em vista o preconceito existente, naquele momento, pelo fato de pertencer à burguesia. Sem essa educação, a mulher burguesa não pode nem ao menos pensar em freqüentar essa sociedade. Nesse sentido, Celestina possui todos os atributos que necessita, pois

[...] de resto, a moça tinha as maneiras, a linguagem e as atitudes da alta roda. Sua indumentária era mais rica e mais elegante do que devia ser a de uma moça casadoura: um marido só lhe poderia dar, a mais, a felicidade. E, além disso, os mimos contínuos da mãe, a qual morreu dois anos antes do casamento da filha, tornavam bastante difícil a tarefa de um amante: era preciso sangue-frio para governar semelhante mulher! [...]. (BALZAC, 1955:92)

Essas qualidades exigem que o futuro marido tenha, além de dinheiro, pulso firme para conseguir comandar Celestina. O burguês que tem dinheiro não lhe convém, justamente porque é um burguês; o aristocrata que, muitas vezes, não tem dinheiro não se sente estimulado a enamorar-se de Celestina, porque essa não possui títulos e nobreza. Seu temperamento forte, transforma-se em um obstáculo, que a prejudica ao invés de favorecê-la.

Diante das exigências de Celestina, Xavier Rabourdin, funcionário público, é o único que se dispõe a casar com a jovem, mediante seu consentimento. A educação que sua mãe lhe proporciona possibilita à Celestina sair-se com certa desenvoltura na vida social após seu casamento. Para agradar a sociedade, a mulher precisa aparentar uma relativa superioridade, falar adequadamente e cativar seus ouvintes. Dessa maneira, Celestina

[...] possuía os elementos da aparente superioridade que agrada à alta roda; sua vasta ilustração permitia-lhe falar a cada um a sua linguagem; seus méritos eram reais; ela manifestava um espírito independente e elevado; sua conversação cativava, tanto pela variedade, quanto pela singularidade das idéias. (BALZAC, 1955:93)

BALZAC denomina essa mulher de soberana ou imperatriz por possuir qualidades úteis e apropriadas que lhe possibilitam alcançar os objetivos que almeja. Esse comportamento pode lhe trazer vantagens e possibilidades, mas não basta à mulher deter essas qualidades, adquiridas pela educação. Ela precisa estabelecer encontros e manter uma vida social ativa para poder empregá-las. Assim,

[...] para satisfazer às necessidades de seu espírito, a Sra. Rabourdin estabelecera um dia de recepção por semana, freqüentava muito a sociedade, a fim de nela saborear os gozos a que seu amor-próprio a tinha habituado. (BALZAC, 1955:93)

Essa vida social ativa implica em receber visitas em seu salão e participar das recepções em outros salões. O espírito de uma mulher como Celestina nutre-se da aprovação constante das pessoas de seu círculo social. Para BERGER (1983:107), que estuda a influência do ambiente social sobre o homem no século XX, é o meio social que determina o que a mulher deve ser e fazer, indicando a conduta a ser adotada em diferentes situações.

Essa mulher é preparada, educada para "[...] esclarecer um homem de Estado, de aquecer a alma de um artista, de servir os interesses de um inventor e de auxiliá-lo nas suas lutas, de se devotar à política financeira de um Nucingen, de representar com brilho uma grande fortuna" (BALZAC, 1955:94). Movida por esse desejo e acreditando nas suas potencialidades, habilidades e capacidades, Celestina decide fazer a fortuna do marido para conseguir, assim, sustentar o estilo de vida que deseja.

[...] Por isso, nessa época, resolveu fazer por ela mesma a fortuna do marido, guindando-o a qualquer preço à esfera superior, e ocultar-lhe as molas que poria em jogo. Trazia nas suas concepções aquela independência de idéias que a distinguia, e se comprouve em erguer-se acima das mulheres, não lhes atendendo aos mesquinhos preconceitos, fazendo caso omisso das peias que a sociedade lhes impõe. Na sua impetuosidade, a si mesma prometeu vencer os tolos com as próprias armas deles, e mesmo enganar-se a si própria se tal fosse preciso [...]. (BALZAC, 1955:106)

Essa mulher fora educada para viver em alta sociedade ao lado de um marido reconhecido socialmente. É em função dessa educação que os seus projetos são elaborados. Ela deseja ter uma situação financeira estável, um marido que tenha prestígio social e freqüentar a alta roda aristocrata e ministerial. As mulheres influentes dessa alta roda são sempre lembradas pelos seus pares. Celestina almeja, da mesma forma que essas mulheres,

[...] ir ao bosque de Bolonha numa linda caleça, para ombrear com a Sra. Delfina de Nucingen, para elevar seu salão ao nível do da Sra. Colleville, para adquirir ouvintes, para fazer dizerem dela: "A Sra. Rabourdin de alguma coisa" (não sabia ainda qual seria sua propriedade rural), como se dizia Sra. Firmiani, Sra. de Espard, Sra. Aiglemonte, Sra. de Garigliano; enfim, sobretudo para pagar o odioso nome de Rabourdin. (BALZAC, 1955:107)

Com o intuito de atingir os objetivos que deseja, Celestina estabelece estratégias apropriadas. Em função do acesso que possui aos recursos financeiros da família, estabelece, como estratégias, contratar o serviço de um criado, renovar as peças da mobília e adquirir novas peças de roupa, mesmo sem ter os recursos financeiros para esse empreendimento, acreditando que, dessa maneira, seria recebida e poderia receber pessoas da alta sociedade ministerial, sociedade essa que mantêm estreitos laços com a sociedade aristocrata. Além disso, deve receber e freqüentar outros salões para adquirir influência. Segundo as análises da antropóloga LAMPHERE (1979:129), uma estudiosa contemporânea, as estratégias acessíveis às mulheres dependem das regras conjugais, da herança e do acesso aos recursos econômicos existentes em cada sociedade. Além disso, os costumes e os hábitos também determinam a escolha das estratégias mais satisfatórias. A mulher sabe que precisa de determinadas estratégias para influenciar as pessoas da sociedade que almeja freqüentar. No caso de Celestina, uma outra estratégia utilizada é a de oferecer um jantar às sextas-feiras.

[...] Para por em moda suas quartas-feiras, deu regularmente um jantar nas sextas-feiras, sendo os convidados obrigados a fazer uma visita na quarta-feira seguinte para tomar uma taça de chá. Escolheu habilmente seus convivas entre os deputados influentes, entre as pessoas que, de perto ou de longe, podiam servir aos seus interesses. Finalmente, cercou-se de uma roda muito conveniente. Os convivas divertiam-se muito em casa dela; ou pelo menos era o que se dizia, o que basta em Paris para atrair a sociedade [...].(BALZAC, 1955:107)

Celestina sabe que não conseguirá participar da "alta roda" se não aproximar-se de pessoas que possam fazer a mediação entre ela e a aristocracia. Por isso, estrategicamente recebe essas pessoas duas vezes na semana, pretendendo, em algum momento, solicitar seus préstimos e favores. Os convidados são pessoas influentes, com os quais ela pode estabelecer laços para obter alianças políticas.3

Segundo Prado, uma autora contemporânea que também analisa a educação da mulher para ser esposa na França do século XIX, a reputação se baseia nas aparências, pois é ela que possibilita ao homem e à mulher atenderem os objetivos pessoais, satisfazer a vaidade, tirar vantagens pessoais e materiais, granjear créditos comerciais e relações de negócios, enfim, servir aos interesses pessoais e profissionais. (PRADO, 1979:87-8)

Dessa maneira, é a educação que permite à mulher desempenhar satisfatoriamente a sua influência sobre o homem. Celestina torna-se uma mulher influente por ser bela, espirituosa, e por utilizar satisfatoriamente as habilidades adquiridas ao longo de sua vida. É uma mulher ímpar, tanto por sua beleza, quanto pelo seu comportamento. Até mesmo os colegas de trabalho do marido sabem das qualidades dessa mulher.

[...] - Não há outra mulher como ela em Paris: haverá outras de igual inteligência, mas nenhuma tão graciosamente espirituosa; uma mulher pode ser mais bela do que Celestina, mas é difícil que seja tão variada na sua beleza. A Sra. Radourdin é muito superior à Sra. Colleville! [...] Flávia deve o que é ao convívio dos homens, ao passo que a Sra. Rabourdin é tudo por ela mesma, sabe tudo; não se poderia dizer o segredo em latim diante dela. Se eu tivesse uma esposa semelhante acreditaria poder alcançar tudo. (BALZAC, 1955:187)

As mulheres que convivem com Celestina podem ser tão belas quanto ela, mas Celestina possui algo mais. Sua inteligência e graciosidade a distingue das demais. Essa distinção não seria possível sem uma educação que a preparasse, a formasse para agir dessa maneira. A sabedoria e perspicácia provêm de sua formação.

Uma mulher como Celestina faz a carreira profissional e política do marido. Segundo BALZAC (1955:210), ela torna-se "[...] um dos mais preciosos instrumentos de uma elevada carreira política; ela compreende tudo, não recua diante de nenhuma idéia [...]". Para tornar-se esse instrumento, a mulher precisa encontrar-se com pessoas do meio político e estar preparada para o encontro. A mulher influente sabe que a escolha adequada do vestuário, dos adornos, do penteado, do calçado, da meia e do carro são de extrema importância para o êxito de sua influência. Celestina ao ser convidada para um jantar na casa do Ministro não esquece a importância desses recursos. É a educação de Celestina que lhe possibilita ter um gosto apurado para trajar-se da melhor maneira possível, como a ocasião exige. O gosto refinado combina com seu comportamento diante de uma situação delicada. Nessas circunstâncias, a mulher observa, analisa e avalia as pessoas que estão ao seu redor.

[...] Ela examinou o terreno ao sentar-se, e viu-se numa dessas reuniões seletas, pouco numerosas, nas quais as mulheres se podem observar, apreciar-se bem onde a mais insignificante palavra repercute em todos os ouvidos, em que cada olhar alcança o alvo, onde a conversação é um duelo com testemunhas, onde o que é medíocre torna-se chato, mas onde qualquer merecimento é acolhido em silêncio, como estando ao nível de cada um dos espíritos presentes [...]. (BALZAC, 1955:227)

Celestina percebe que a convivência social exige dos homens atenção redobrada quanto ao falar e ao agir. O convívio social faz com que as pessoas se relacionem, observando-se umas às outras, em que as palavras e os gestos passam ser acolhidos por todos os presentes. Dessa forma, o convívio é definido como condição permanente e essencial para a produção da vida tanto na sociedade burguesa como em outras sociedades.

Após analisar as circunstâncias à sua volta, Celestina faz valer sua influência cortejando a mulher do Ministro. Celestina é orientada por Lupeaulx, Secretário Geral no Ministério, a não falar em demasia com a Condessa.

[...] De quando em quando, a Sra. Rabourdin deu seus apartes como uma gata bem ensinada põe a patinha nas rendas da sua dona, aveludando as unhas [...]. Ao cabo de uma hora o ministro estava fortemente arranhado; o espírito da Sra. Rabourdin agradava-lhe; ela seduzira-lhe a mulher, a qual, inteiramente encantada por aquela sereia, acabava de convidá-la para que viesse à sua casa sempre que quisesse. (BALZAC, 1955:227-8)

Nesse encontro, a "performance" de Celestina garante o destaque de sua pessoa diante dos demais. Ao empregar satisfatoriamente as habilidades que adquiriu, essa mulher consegue agradar a Condessa e o Ministro. Ambos ficam encantados com essa mulher, por causa das atitudes e do comportamento que assume em público, brilhando em todo seu esplendor.

[...] Quando a Sra Radourdin despiu um a um os artifícios de seu vestuário, recapitulou sua noitada, incluindo-a entre os seus momentos de glória e de felicidade: todas as suas belezas tinham sido invejadas, fora elogiada pela mulher do ministro, feliz por poder opô-la à suas amigas. Enfim, todas as suas vaidades tinham brilhado em benefício do amor conjugal! (BALZAC, 1955:236)

Celestina consegue destacar-se e ser admirada pela esposa do Ministro, sendo considerada mais bela do que as amigas da Condessa presentes no salão. As estratégias por ela estabelecidas não são suficientes para assegurar a nomeação do marido. Outras questões interferiram na decisão do Ministro, influenciado pelo secretário geral que encontrava-se em débito com um usurário. Esse usurário exigia a nomeação de uma outra pessoa para a chefia do ministério. Independente dessa questão, o que interessa é verificar que, apesar de ser burguesa, Celestina recebe uma educação aristocrata. Essa educação a possibilita participar do meio aristocrata de maneira satisfatória, sem comprometer seu prestígio. Ela consegue por algumas horas destacar-se na alta sociedade aristocrata e, por pouco, não alcança a nomeação do marido.

 

3. ASPECTOS CONCLUSIVOS

A análise desses romances nos possibilitam verificar que a mulher precisa encontrar exemplos à sua volta para utilizar o vestuário adequado, possuir uma toalete impecável e agir de maneira acertada para influenciar o homem. É necessário aprender a dissimular sua influência para não prejudicar a ambos. Desse modo, a mulher consegue alcançar os objetivos que almeja sem desmerecer seu cônjuge, utilizando-se da sutileza para influenciá-lo. É o equilíbrio desses elementos que lhe assegura conquistar a confiança do marido e de seus pares.

Para influenciar o homem a mulher precisa saber conquistar o marido e a sociedade, comportando-se de acordo com as regras sociais estabelecidas. Embora exerça influência sobre o cônjuge, a esposa não deve exercer um domínio explícito, sob pena de comprometer a relação conjugal.

Dependendo da educação que recebe, a mulher estabelece as estratégias que lhe convém para atingir seus alvos, a partir do aprendizado familiar e social. Sem essa educação, a mulher não consegue apropriar-se das habilidades para influenciar o sexo masculino. Como afirma ERASMO (1998:31) no século XVI, ao falar da educação, "[...] ninguém pode escolher os próprios pais ou a própria pátria, mas cada qual pode plasmar a sua personalidade pela educação".

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BALZAC, H. A Musa do Departamento. In: A Comédia Humana. Rio de Janeiro: Globo, 1955, v. VI.

-------. Memórias de Duas Jovens Esposas. In: A Comédia Humana. Rio de Janeiro: Globo, 1955, v. I.

-------. Os Funcionários. In: A Comédia Humana. Rio de Janeiro: Globo, 1955, v. XI.

BERGER, P. Perspectivas Sociológicas. Uma Visão Humanista. 6 ed. Petrópolis: Vozes, 1983.

BRANDÃO, C. R. O que é Educação. 2. ed.. São Paulo: Brasiliense, 1981. Coleção Primeiros Passos.

DURKHEIM, E. A educação como Processo Social. In: Educação e Sociedade. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1978.

ERASMO. A Civilidade Pueril. Revista Intermeio. Campo Grande, n. 2, Encarte Especial, 1998.

-------. Revista Intermeio. Campo Grande, n.. 3, Encarte Especial, 1998.

GASTALDI, S. Vida e Obra de Balzac. São Paulo: Guaíra Ltda, 1940.

LAMPHERE, L. Estratégias, Cooperação e Conflito entre as Mulheres em Grupos Domésticos. In: A Mulher, a Cultura e a Sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

KRUPPA, S. M. P. A Educação como tema da Sociologia. In: Sociologia da Educação. São Paulo: Cortez, 1994.

PRADO, D. Ser Esposa a mais Antiga Profissão. São Paulo: Brasiliense, 1979.

ROSALDO, M. Z. A Mulher, a Cultura e a Sociedade: Uma revisão Teórica. In: A Mulher, a Cultura e a Sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 1979.

 

* O presente artigo faz parte da Dissertação de Mestrado apresentada por Jane Cristina Franco de Lima, ao Departamento de Fundamentos da Educação em Março/2000, da Universidade Estadual de Maringá-Paraná-Brasil.

** Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Maringá-Paraná-Brasil.

*** Professora Doutora do Departamento de Fundamentos da Educação da Universidade Estadual de Maringá-Paraná-Brasil.

_____notas______

1 O nascimento de Balzac, em 1799, coincide com a ascensão de Napoleão ao poder; e sua morte, em 1850, com as barricadas de 1848. O escritor testemunha o Império, a Restauração da monarquia e a Revolução de 1830.1 É em 1830 que publica a sua primeira obra de impacto: Les Chouans ou La Bretagne en 1799.

2 ERASMO apresenta no livro A Civilidade Pueril tudo o que a criança precisa aprender para conviver com as pessoas. O autor procura apresentar todas as regras de etiqueta e de comportamento condizentes com a civilidade. É necessário ensinar à criança espirrar, olhar, tossir, bocejar, comer, respeitar as pessoas mais velhas, enfim, uma série de recomendações para garantir que essa criança torne-se um adulto civilizado. Ver: ERASMO. A Civilidade Pueril. Revista Intermeio. Campo Grande, n. 2, Encarte Especial, 1998.

3 A esse respeito, ROSALDO (1979:54) demonstra em seus estudos em tribos e sociedades do século XX, que a "[...] as opiniões femininas e sua habilidade em trazer um alto dote e estabelecer laços com homens específicos são fatores importantes para forjar alianças políticas entre grupos [...]".

 

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