Armindo Vaz D'Almeida *
AVE, AFRICA **
(25 de Maio de 1986)
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Boneca de gesso e pau-preto que me tocas e feres o coração na altivez insana da tua inocência deixa que eu te toque também sem no entanto te ferir nem dilacerar teu fino coração de espuma coroada de marfim
deixa que eu seja o provérbio antigo de sílaba única e vozes silenciadas dilatado no passo calado do tempo deixa que eu seja o centro de gravidade e descubra o rumo incerto do fiel da balança ou do pêndulo transeunte anónimo do universo acossados todos pelo destino castrado da luz |
deixa mulher que eu toque o dia e seja assim o sopro ultimo de suspiro derradeiro no teu ventre deixa que eu troque a nossa sorte bastarda de rochedos sem porto estupidamente encalhados à beira-mar deixa que eu desvende sem reservas o capricho oculto dos caminhos fluindo penitentes entre folhedos já extintos
e no cumulo da irreverência maior dos séculos pelo destino agiota de muitos milhões deixa mulher pelo nosso amor ainda que sem a glória da consumação deixa que eu seja definitivamente (e, se tanto, perdoa pelo meu egoísmo) mas deixa peço-te que seja eu ao menos o eu apenas o eu próprio de cada um de nós. |
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* São Tomé e Príncipe
** In Nocturno em Laivos de Amor - Armindo Vaz d' Almeida , Junho 2001, Livros do ISPV, Série A, Poesia, p. 91.