Vitor Manuel Tavares Martins *

 

SILVANA

 

Podia chamar-se Ana, Rita, Bernardo, Eunice, João, Catarina. Chamava-se Silvana. Era do 5 E, n19. Tímida, de cabelos entre o louro e o vermelho, longos, tinha nos olhos um brilho azul de tristeza e de apelo. Brilhante na expressão escrita, acertada no gesto, no estar, no dizer de cada aula, era para os colegas um exemplo discreto de êxito e de grande admiração.

Nos intervalos das aulas não se lhe via a alegria pueril, as velocipédicas correrias e os saltos chilreantes dos outros. Apagava-se em conversas com alguns colegas mas cumpria os rituais deveres do dia-a-dia escolar e mantinha no rosto branco, de anjo, uma determinação maior do que ela. Sofria de uma daquelas odiosas doenças incuráveis, daquelas que para muitos (para mim!) são, por isso, dificilmente pronunciáveis.

Estava numa turma que muito a admirava... pela sua tímida sabedoria, pelo seu saber estar, pelas suas brilhantes palavras escritas, pelo seu acertado sentido de solidariedade, pela calma que fazia transparecer. Estava em harmonia com os outros e consigo própria. Por entre sorrisos ausentes, via-se que estava em paz naquela turma, numa calmaria doce, num caminho sem sobressaltos, à espera...

Nos professores, nas funcionárias, na escola encontrava o afago da palavra, o ombro da companhia, o sorriso da cumplicidade: e a estratégia do encontro com a sua própria individualidade. No entanto, o sorriso não lhe chegava nunca ao rosto.

Era brilhante a Silvana. Na palavra bem medida, na douta timidez, no alinhado fruir das relações sinceras com os outros, na criativa palavra lançada ao papel. Mas ao brilho azul dos seus olhos continuava a não chegar o sorriso. E aquela ausência era inquietante, perturbante para todos nós.

Daquela vez, pelo Natal, concorreu ao concurso literário que promovêramos. E foi no momento em que o seu conto, intitulado "O Anjo de Natal", foi lido na escola, por ter ganho o primeiro prémio, que me pareceu ver - será que vi bem, Meu Deus? -, que me pareceu ver, pela primeira vez, um sorriso de Silvana. Ainda que tímido, como ela, era um sorriso! Límpido, saudável, transparente, inolvidável! A sua criatividade era o seu sorriso, a sua vida. Foi a única vez que a vi sorrir, até partir, para o céu, como um anjo, em 25 de Abril de 1997.

Desde então vivo com o sorriso de Silvana no meu coração. É ele que, por vezes, me dá alento no dia-a-dia. E rezo a essa estrela muito especial que, a partir dessa altura, um anjo colocou no céu por cima da minha casa e da escola onde Silvana estudava.

 

___________________________

* Professor Efectivo da Escola Básica 2.3. de Valongo do Vouga - Águeda.

sumário