Maria Elisa Pinheiro *

 

EM 1956...

 

era tudo tão diferente...

 

Um professor que não conseguisse habilitar dois terços dos alunos a seu cargo tinha classificação de Deficiente. Dois Deficientes irradiavam-no. Não mais poderia exercer.

Assim se compreende que até mesmo os poucos para quem o cumprimento do dever não fosse estímulo suficiente pusessem todo o esforço, empenho, rigor e exigência na selecção dos alunos que transitavam ou eram propostos a exame.

Em 1956, na terra das maçãs reinetas e dos peros encarnados que fica no concelho de Óbidos e se chama Usseira, a turma era de três classes e dessas, a quarta, tinha apenas 5 simpáticas e bem preparadas crianças de 9 anos e uma outra, igualmente simpática, de 11.

Tinha também uma professora novinha em folha, totalmente inexperiente, desejosa de acertar e de fazer uma carreira limpa.

Tudo aquilo era um encanto. As macieiras, cultivadas nas encostas viradas ao mar, eram baixinhas e produziam bem. Mesmo as maçãs que caíam eram perfeitas, porque a queda era pequena. Tudo se aproveitava. Tudo rendia. Quase não havia pobres. Apenas três famílias.

A miudagem rivalizava no fornecimento de maçãs e peros encarnados às senhoras professoras. Havia também uns coelhinhos que sempre apareciam a anteceder o dia em que alguém precisava de faltar - costume que custou a erradicar.

Á tardinha, na capela, ensaiava-se a Missa, em Latim. A professora nova, que não tocava nada mas lia música, dirigia o ensaio. A executante, que não lia música, tocava órgão de ouvido e ia corrigindo os erros apontados. O coro esforçava-se. Cantaram razoavelmente a festa da terra no dia aprazado. Cantaram ainda outras festas, nas redondezas, com êxito. Talvez o público não fosse muito exigente. Verdadeiramente ... o que interessava era a participação. Ia-se a pé pelo pinhal à sede do concelho (4,5 km), quando havia assuntos oficiais a tratar; ia-se de camionete (descida a pé a encosta) ou de carroça, à feira da fruta, na praça principal das Caldas da Rainha.

E o ano corria suavemente...

Mês de Maio! Mês de Maria! Mês das flores!, rezava um dos livros de leitura de então.

Mês de trabalho! Mês de aperto, de revisões, de provas e mais provas, de medos e de dúvidas.

Maria Odete, 11 anos moreninhos e tímidos, sabia muita coisa. Ortografia, Redacção (Composição era ainda um vocábulo distante), Aritmética com fracções e tudo; problemas de 2 e 3 operações (4 ou 5, não), Gramática... Substantivos ou nomes; pronomes, que vinham em vez dos nomes; adjectivos determinativos e qualificativos, uniformes e biformes, com todos os graus. Superlativos regulares e irregulares:

pobre - paupérrimo

acre - acérrimo

humilde - humílimo

bom - melhor - óptimo

mau - pior - péssimo

grande - maior - máximo,

 

etc, etc, etc, e verbos: transitivos, intransitivos, regulares, irregulares, defectivos. A flexão verbal: modos, tempos, vozes, conjugações. Conhecia as sete funções do se. Dividia e classificava orações: coordenadas e subordinadas relativas, integrantes, consecutivas e concessivas... Sabia bem História... Geografia... Ciências Naturais... Educação Cívica...

Maria Odete sabia muita coisa, mas nas provas quase não ultrapassava os mínimos. Por isso ficou. Na dúvida, optava-se pela negativa...

Foi um erro que se verificou mal se viram os enunciados. Ela teria resolvido a maior parte do que saiu, facilmente. Juntou-se ao desgosto um vago remorso que presidiu pela vida fora a todas as selecções e que manteve viva a recordação daquela moreninha de olhos tristes.

Quantas Marias Odetes terão ficado pelos mesmos motivos?

Era bem?

Era mal?

Pensemos por um momento nos "rigores" de hoje...

Onde nos está conduzindo o facilitismo?

Em 1956 era tudo tão diferente!

 

99 Maio, Viseu

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* Professora do Ensino Primário, Reformada.

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