Hélio Bernardo Lopes *

 

A Saudade de um Mestre Amigo e Humanista

 

Quando frequentei o meu liceu, num tempo de alegria, amizade e gosto pelo saber e pela discussão das ideias, era aí professora de língua inglesa - talvez também de alemão - a mulher de Sebastião e Silva, catedrático de Matemática da Faculdade de Ciências de Lisboa, membro da Academia de Ciências de Lisboa e da Academia dos Linces de Roma.

Nunca fui aluno da Dra. Maria Virgínia Sebastião e Silva, nem mesmo a conhecia pessoalmente, até ao momento em que o marido me foi apresentado pelo próprio reitor, ele também meu professor de Matemática, nos meus 6º e 7º Anos da Alínea F do então Terceiro Ciclo Liceal.

Conhecia, porém, três obras essenciais e de grande qualidade de Sebastião e Silva, que eram o COMPÊNDIO DE ÁLGEBRA, em dois volumes, o interessantíssimo livro de GEOMETRIA ANALÍTICA PLANA e o COMPÊNDIO DE MATEMÁTICA, então a ser dado à estampa em fascículos, que iam sendo distribuídos aos alunos das turmas-piloto de Matemática a um ritmo semanal, obra que se veio a complementar com o GUIA PARA A UTILIZAÇÃO DO COMPÊNDIO DE MATEMÁTICA, em dois volumes, publicada por igual processo, e destinado, sobretudo, aos docentes.

A primeira impressão que sobressaiu em mim da pessoa de Sebastião e Silva foi a de uma figura misteriosa e eminente, transparente de inteligência superior, com um sorriso largo, sincero e integrador de uma confiança respeitável. Deixou-me a sensação imediata de um amigo, conseguindo mesmo ser brincalhão: mesmo tão próximo como se colocou, não deixou de manter-se no seu lugar de mérito e de uma hierarquia mais que universalmente reconhecida. E não esquecerei nunca as suas palavras, passados que foram os momentos da apresentação: temos que falar, Hélio! Como se compreende bem e me é hoje tão evidente, ouvir estas palavras, em pleno recreio, na presença da sua mulher e do próprio reitor, sentindo a sua mão esquerda sobre o meu ombro direito, produziu em mim um sentimento de orgulho e de uma singularidade que é difícil descrever por palavras!

Estes momentos iniciais, sempre inesquecíveis e difíceis de descrever, foram de imediato completados com as suas ligeiras palmadinhas no meu ombro e com as palavras que me dirigiu: o Hélio tem que evitar assuntos que estejam já muito trabalhados, porque é difícil encontrar algo de novo. Tem que trabalhar é em espaços topológicos, onde há muita coisa para fazer, já mais próximo da fronteira do conhecimento. E continuou a afagar-me o ombro esquerdo, tornando-se claro que era chegado o momento de retirar-me.

Quando voltei ao convívio dos meus colegas, fui de pronto assediado por eles - até pela contínua e pelo seu chefe, o velho Martins! - que haviam presenciado aquela conversa singular, cujo conteúdo conheciam em mui boa medida.

Entusiasmado com a necessidade de modernizar o ensino da Matemática, mormente ao nível liceal, Sebastião e Silva vinha produzindo, com a anuência do Ministério da Educação Nacional - o ministro era, ao tempo, o nosso anterior reitor, Hermano Saraiva - e da então Junta Nacional de Educação, a última das suas obras que refiro ao início deste texto, constituída por uma diversidade vastíssima de temas, apresentados numa visão integrada dos mesmos no domínio da Matemática, procurando levar os alunos a uma participação activa nas próprias aulas.

Foi nesta situação que vim a produzir o tal trabalho que a si foi apresentado pelo reitor, e que o levou a fizer o comentário que refiro antes, sobre o imperativo de evitar temas já muito trabalhados. Ainda assim, perante o facto do tema não ser apresentado com o aspecto habitual, resolveu-se a introduzi-lo no segundo volume do Guia, destinado ao corpo docente, e a propósito do método de indução matemática.

Este facto correu célere pelo grupo de professores de Matemática dos liceus de Lisboa, muitos dos quais acabaram por procurar-me no já extinto café Gigante, em Campo de Ourique, onde diariamente convivia com um discípulo de Sebastião e Silva, e também um doente benfiquista, como eu, que era o meu saudoso amigo João Santos Guerreiro, mais tarde também colega de Sebastião e Silva. O acaso das coisas, num bairro hoje degradado de Lisboa, mas que era, ao tempo, uma verdadeira piscina dos mundos cultural e científico da nossa capital - Joel Serrão, Antonino de Sousa, Odete San Maurice, Adolfo Simões Muller, António Ferreira de Macedo, António Almeida Costa, João Santos Guerreiro, Mário Mora, Maria Luísa Torres Pires, Bento Caraça, Germano Sacarrão, João Salgueiro, Pedro Cardoso, Leonel Cardoso, Rui Oliveira e Costa, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Borges de Macedo, Melo Moser, etc. - fazia até com que Santos Guerreiro fosse condómino dos dois últimos que refiro antes, da Faculdade de Letras de Lisboa e todos frequentadores do Gigante.

Na pândega dos jovens do meu tempo, esse meu trabalho sobre Análise Combinatória - o primeiro havia sido produzido, de facto, durante o Primeiro Ciclo - passou a ser chamado de Teorema de Hélio, premiado por Sebastião e Silva com a sua introdução no seu texto que refiro atrás. Um prémio já antes acompanhado pela referência que fez aos computadores eléctricos de valores lógicos, que haviam sido produzidos, no âmbito das chamadas actividades circunscolares, pelos meus colegas Victor Anunciada e Luís Borges de Almeida. Iniciativas que vieram, logo no ano seguinte, a ser prolongadas por dois outros, um meu, também eléctrico, e outro de Legateau Martins, já electrónico. Em todo o caso, o contacto directo - mais tarde, até íntimo - com o académico, produzia um efeito multiplicador do espírito de responsabilidade criativa.

Este conhecimento e contacto com Sebastião e Silva no tempo liceal levaram a que viesse a fazer os designados preparatórios de engenharia na Faculdade de Ciências de Lisboa, onde acabei, ainda aluno, por ver-me introduzido numa tertúlia de docentes, que funcionava numa conhecida livraria do tempo e contígua com o antigo edifício da faculdade. Ali criei amizade profunda e íntima com João Santos Guerreiro, António Almeida Costa, Tiago de Oliveira, Veiga de Oliveira, Antonino de Sousa, César Viana, José Pinto Peixoto, João Corte-Real, Augusto Barroso e outros. Foi esta circunstância que levou, ainda aluno do 2º Ano, a tornar-me sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Física. E também a fizer-me sócio, com lugar cativo, do então Glorioso, onde quinzenalmente passava as tardes de domingo na companhia de João Santos Guerreiro e César Viana. Infelizmente - ou não...- foi também aí que descobri, dolorosa e lentamente, o quão pouco, no plano do realismo político, valia uma boa parte da oposição ao Estado Novo: tinham razão, mas faltava-lhes quase tudo o resto, como depois se viu, até à ruína final da utopia, soçobrando completamente todo o ideário que brandiam...

Aí frequentei, a título meramente particular, duas disciplinas do curso de licenciatura em Matemática, e que Sebastião e Silva regia: Análise Superior e História do Pensamento Matemático. Deis tesouros da mais vasta riqueza cultural e da melhor formação científica! Dois tesouros inesquecíveis e hoje dificilmente encontráveis. Outros tempos! Direi assim: o que se sabia e se ensinava era bom e de muito boa qualidade, mesmo que pouco. Deixava raízes fortes e permanentes: raízes com importantíssimas repercussões estratégicas.

O gosto profundo pela Matemática e o entusiasmo e a responsabilidade criativa que derivava do contacto com aquela tertúlia, muito em particular as convivências com Sebastião e Silva e João Santos Guerreiro, levaram-me a procurar demonstrar, nada mais nada menos, que o último Teorema de Fermat!! De modo que assim me vi a pensar no problema momento a momento. Até certa noite, na Escola Frei Luís de Sousa, em Almada, em certa festa escolar, quando dançava com uma jovem que se deixara convidar. Num repente, disse-lhe: já sei! E levei-a para a mesa, onde realizei a minha demonstração daquele velho enigma, que Pièrre de Fermat deixara como herança. E o raciocínio, escrito sobre um guardanapo, perante a admiração da jovem, era sempre o mesmo: está certo!! A realidade, em que quase não acreditei, chegou-me pela carta de Sebastião e Silva, duas semanas mais tarde, e que aqui apresento. Confesso que tive calafrios: nem acreditava no que ali lia! E cheguei mesmo a pensar para comigo: ele está é a ver que eu vou conseguir... E lá continuei, sempre confiante em mim próprio, até acabar por perceber este facto simples: aquele raio de teorema era mesmo um inexpugnável baluarte, para o qual, de facto, eu não conseguia ir mais além!

Até que em certo dia, já comigo no Técnico e no LNEC, ao final de certo dia, vim a saber por minha mãe do desagradável telefonema que recebera para mim: Sebastião e Silva havia falecido. Num ápice, muito ao tipo do chamado durão latino, sofri um autêntico salto quântico sentimental: caído em desespero, chorei copiosamente, totalmente fragilizado pelo desaparecimento de um dos meus principais suportes culturais de sempre. E mesmo agora, quando escrevo estas palavras simples, uma vez mais me sinto acometido de umas lágrimas ligeiras de comoção, que são o preço da amizade e da admiração profundas de um Mestre saudoso e amigo. Um referência que nunca me deixará. E que não é a única.

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* Antigo aluno do Liceu Nacional de D. João de Castro e da Faculdade de Ciências de Lisboa.

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