Maria da Conceição Duarte Pereira *

 

FOMOS À GÁLIA, POR AMOR DA SANTA!...

 

Assim foi, de facto! O ano passado, vai-se lá saber porquê, tivemos que contentar-nos com a nossa terceira opção. E verdade! Nem Normandia, Bretanha e Vale do Loire, nem Maravilhas da França. Nada! A primeira, porque depressa esgotou. A segunda, porque nem sequer se efectuou face ao diminuto número de candidatos pré-inscritos. Assim sendo, e porque Agosto já se perfilava nos nossos horizontes, lá enveredámos pela terceira opção - Paris, Eurodisney e Bruxelas - que até tinha o Futuroscope e o Parque do Astérix como bónus! Havia de ser um exemplo e, se calhar, até divertido. Um regabofe de papo cheio!... Destino escolhido, continha paga, e aí vão eles a caminho da capital da Lusitânia, prestes a iniciar nova aventura. O resto do dia foi para percorrer a capital, andar no sightseeing bus, comer pastéis de Belém e subir ao elevador de Santa Justa. Por fim, ao jantar, comer um monumental spaghetti Mamma Rosa nas Amoreiras, seguido de um divinal e caríssimo gelado de três bolas. Chocolate, stracciatella e pistachio...

Se no ano anterior havíamos sido utentes de um expresso semi-geriátrico, este ano, face ao menu, suspeitávamos que seria uma viagem quase exclusivamente povoada por baixinhos e meia-polegada! Afinal até não! Muito pelo contrário! Nenhum dos passageiros tinha menos de metro e meio de altura. Havia de tudo um pouco. Desde os mais discretos aos mais exuberantes, para não lhes chamar vaudevillescos... Como a veneranda senhora - mais o seu digníssimo esposo - de platinados cabelos pintados, calças azuis escuras, escandalosamente transparentes, que deixavam adivinhar uma rendada lingerie negra. Ou a tiazona de monumentais óculos escuros e celular em riste, com a sua aparvalhada filha pré-adolescente. Também o jovem de cerrado sotaque latino-americano, nome de matemático célebre, a quem baptizámos de Símon Bolivar. Ainda o casal oriundo da Pérola do Atlântico, que, pelo paleio, ou eram gentes de posses ou estavam a armar ao pingarelho!... Sem esquecer as duas gaiatas viúvas de meia idade e a presumida aguinha sem sal que ia mesmo à nossa frente, filha de emigrantes, e a quem, o recém-obtido canudo, dava ares de empáfia e mal disfarçada altivez!... Ou, ainda, o apaquidermado casal. Ele, com ar de infeliz atolambado e careca de abade, tinha voz de criatura jurássica. Daquelas de grande porte e carnívoras. Mostrou a dentuça na capital da União Europeia, como veremos mais adiante. Após as refeições, e durante horas, tinha o pavoroso hábito de fazer rodopiar um palito por entre os dentes e os cantos da boca. Ela, contudo, sempre tinha um ar mais modernaço. Pulseirinha no tornozelo esquerdo, sexy calção pelo joelho e aderente blusa. Tão coladinha que, à frente, deixava antever dois avantajados seios. Nas costas, contudo, eram quatro as salientes protuberâncias. É que, espartilhadas as carnes num corpete inteiriço, estas só estavam aconchegadas até onde este último as prensava.... Enfim, uma visão a atirar para o dantesco!... Também lá iam duas simpáticas amigas de idade avançadota, caricatas, bem dispostas, e que o medo de viajar de avião atira para tudo quanto é excursão de autocarro. Ainda o solitário viajante, sempre de óculos escuros e câmara de vídeo apontada para tudo, e que, segundo nos confidenciou, é docente vai para perto de uma trintena de invernos. Tinha a particularidade de, em todas as poucas conversas que connosco manteve, questionar as nossas afirmações. De duvidar de tudo, qual criatura Descartiana!... Do género: Será? Acha mesmo? Aí é?... Escusado será dizer que fugíamos dele como o diabo da Cruz!... Só falta a guia. Sim, pela segunda vez, calhou-nos uma menina! Moçoila na casa dos vinte, a beirar os trinta, era minhone, melena arruivada, bem falante e licenciada. A mochila, Lacoste, acasalava com o polar que vestia sempre que o frio acossava, também da família deste afamado réptil. Bem disposta e sorridente, brindou-nos com alguns novos vocábulos. Daqueles que, se calhar, já estão no novo acordo ortográfico. Tais como afuguentar ou experienciar... Mas ainda não é tudo! A cada passo, e em jeito de interjeição, atirava-nos com um sonoro Por Amor da Santa!... Mas até era castiça e uma querida. Amiga de conversar e ajudar no que fosse necessário.

Às oito da manhã, com o sol a entrar pelo autocarro sem ser convidado nem pedir licença, lá fomos de abalada para mais uma andança. Estrada fora, ao raiar da uma, já as barrigas roncavam de desespero. Uma Área de Serviço, algures por esse Portugal profundo, aconchegou-nos o estômago. Mas a preço europeu! Por um mísero prato de galináceo estufado com ervilhas, batata frita e arroz, seguido de um reles e aguado leite-creme com bolacha embebida em café e coberto de natas, acompanhado de uma simples água, desembolsámos perto de duas notas de conto! Lá seguimos viagem e, por Vilar Formoso, Ciudad Rodrigo e Valladolid, chegamos ao nosso primeiro local de pernoita - Burgos - a cidade de Rodrigo - ou Ruy Díaz de Vivar. Mais conhecido por El Cid, El Campeador (O Campeão), herói da luta contra os mouros por estas paragens. Antes, para passar o tempo, íamos tomando tento nos nomes das terriolas que se nos deparavam pela frente. Entre tantos e tantos, um ficou-nos na memória: Cabezón de Pisuerga!

À noite, depois de minimamente recompostos de tão desgastante jornada, aguardava-nos um rico jantarinho. Como entrada, uns legumes salteados com bacon, onde se viam ervilhas, feijão-verde, couve-flor, espargos, alcachofras, cenouras e cogumelos. Muito bom! Como prato principal, um suculento borrego de leite que se nos desfazia na boca, assado no forno e acompanhado de batatas fritas. A sobremesa foi mais frugal. Apenas uma maçã. Tudo regado por fresca água mineral. Depois do repasto, e porque o nosso hotel distava apenas alguns metros da catedral, vai de descobrirmos o burgo. Nas traseiras do templo, os bares eram como cogumelos na estação da chuva - porta sim, porta sim. A rua, porque era Sábado à noite, formigava de malta nova que entrava e saia de todas as capelinhas. Pelos jardins da cidade fomos digerindo a refeição, até que nos surge pela frente o comboizinho turístico. O que eles chamam de chiquitren. Ainda corremos para o apanhar mas, supremo dos azares, eram já onze e meia da noite e este fazia a sua última viagem rumo ao apeadeiro final. Conformados, e porque estava um frio de rachar, resolvemos recolher-nos. No dia seguinte tínhamos uma longa viagem pela frente. Já no quarto, ainda nos aguardava uma surpresa. Quando fechávamos a persiana, a fita que a sustenta rebentou com grande estrondo, fazendo-a precipitar do alto. Foi o bom e o bonito! Para mantermos a janela entreaberta, de forma a permitir a entrada de alguma luz que nos fizesse despertar a horas, vimo-nos obrigados a recorrer a um subterfúgio de emergência. Nada mais nada menos do que um suporte para correspondência, que se encontrava em cima de uma pequena cómoda. É assim. A necessidade aguça o engenho!...

Após o pequeno-almoço, seguimos viagem rumo ao nosso próximo destino, já na Gália. Era Poitiers que nos aguardava agora. Melhor dizendo, nos seus arredores, o Parque do Futuroscope. Seguimos viagem, observando Pancorbo à nossa direita, com a sua agreste e pedregosa paisagem, seguindo-se um ou outro túnel escavado na montanha. Depois o País Basco espanhol - Vitoria - que nos acolheria daí a uns dias e

San Sebastian, ou Donostia, em Basco, que atravessámos. Vimos a praia da Concha, a zona da Ondarreta, a Ponte Real e o monte com uma gigantesca estátua no topo, que nos pareceu ser de Cristo, sobranceiro à praia. Um pormenor despertou a nossa atenção, numa zona de apartamentos alugados a estudantes. Uma série de prédios, de cujas varandas pendiam panos e tarjas vermelhas. Estes, durante o inverno, são alugados aos alunos que buscam formação nestas paragens. No estio, são ocupados pelos veraneantes que aqui retemperam forças. Mais à frente, numa localidade logo a seguir, pudemos ler uma gigantesca e revolucionária pintura mural, à semelhança das que proliferam por Belfast, onde se lia: Miserias, No! No es Justo!... Prosseguimos por Irun, porta de entrada em França. Desta vez, não vimos polícias nem barreiras na estrada. Por Biarritz, algures à nossa frente, atravessámos Bordeaux cruzando a ponte François Mitterrand. Durante a travessia, o pensamento não pode deixar de ir para o nosso Aristides Sousa Mendes. Aqui, com muita coragem e uma simples assinatura, tantas vidas salvou de morte certa. A chuva intensa, por vezes torrencial, passou a ser nossa companheira de viagem. Foi com ela que chegámos ao Parque do Futuroscope. O hotel era, de facto, muito acolhedor.

Quando chegámos à sala de jantar, deparámo-nos com uma agradável e simpática surpresa. Esta, toda alusiva à sétima arte, era um deleite para qualquer cinéfilo. Logo à entrada, tinha uma gigantesca máquina de projectar, ao estilo do Cinema Paraíso.

Por toda a sala, sob a forma circular, tiras metálicas lembrando pedaços de celulóide caíam do tecto, ladeando as escancaradas e altaneiras janelas. As paredes, em tons rosa, estavam cobertas de fotografias king size de grandes nomes do cinema. Junto à nossa mesa, fazia-nos companhia uma jovem Marlene Dietrich. Longe, muito longe dos tempos do Anjo Azul. Ainda uma quase pueril Gloria Swanson, quando não tinha ainda cruzado a Sunset Boulevard, nem, tão pouco, sido apresentada à Nonna Desmond! Muito giro.

Cada um de nós tinha já, no lugar que lhe estava destinado, um copo de champanhe - uma flute - com vinho de uma tonalidade rosada. Tingido, ao que supomos, por umas gotinhas de groselha. A refeição, essa foi um espanto! Como entrada, uma salada de cenoura ralada, tomate fatiado, couve branca ripada em juliana e pickles de beterraba e pepino em tirinhas. Como prato principal, uma posta de salmão -fresco como nos foi reafirmado - coberto com um encorpado molho de natas e acompanhado com fatias de cenoura e trigo sarraceno, entalado ao vapor. Para sobremesa, três bolas de gelado. De limão, morango e acidulados frutos do bosque. Depois de tão principesco repasto, fomos dar uma curva pelos arredores do hotel. Não nos podíamos aventurar por muito longe. Por dois motivos. Primeiro, porque estávamos no Parque do Futuroscope. Segundo, porque a chuva ameaçava, a qualquer momento, despencar-nos em cima. E a cântaros! Mesmo assim, arriscámos Mas não foi longo o nosso périplo. Menos de meia hora depois, estávamos de volta e encharcados até aos ossos. Chateados que nem perus, fomos dormir.

 

O dia prometia ser de arromba! Era todo passado no Parque do Futuroscope, desfrutando das novas tecnologias, das maravilhas do cinema em três dimensões e do gozo dos simuladores de todos os perigos, sem sequer saímos das nossas confortáveis cadeiras. Já dentro do Parque e acompanhados por uma guia local que se disponibilizou para nos orientar, demos início à visita. Como primeiro poiso, Le Tapis Magique. Aqui, numa projecção de 15 minutos, acompanhámos o percurso das borboletas monarca - do casulo à crisálida - na sua viagem rumo a terras mexicanas e posterior regresso. Tudo isto num gigantesco écran côncavo. A nossos pés, aquilo que, quando nos sentámos, nos pareceu serem espelhos ou vidros, davam-nos, agora, espectaculares perspectivas desta fantástica viagem. De planos picados a contra picados, ainda que por breves instantes, foi-nos dado ver o mundo pelos olhos desta belíssima mariposa. Dali fomos andar no Gyrotour. Pelo menos os mais corajosos. É uma torre com uma espécie de gaiola, toda envidraçada, que nos transporta, em espiral, ao topo e novamente ao solo. É fantástica a panorâmica sobre todo o Parque. Fomos, depois, para o Couleurs Brésil, um pavilhão patrocinado pela Direcção de Turismo do Brasil, com uma mãozinha da Varig. Circular, num écran de 360 graus, vemos projectadas fantásticas imagens do país irmão. Com elas descemos o Amazonas de piroga, mesmo no meio da embarcação, subimos ao Corcovado, fomos ao Maracanã, ensaiámos uns passos de Capoeira e, como não podia deixar de ser, desfilámos em plena Marques de Sapucaí rumo ao Sambódromo, numa qualquer escola de samba. Também por momentos fomos Pais de Santo e espreitámos os Orixás do Candomblé, para, logo depois, descermos do Pão de Açúcar em Asa Delta. Um espanto! Dali fomos ao OceanOasis, submergir no habitat marinho do México e da Califórnia, na companhia de uma zoóloga marinha estudiosa das baleias que povoam estas águas. Deliciámo-nos com fabulosas imagens de moreias, tubarões, baleias e, imagine-se, pudemos constatar o quanto as raias gostam que lhes cocem as costas... Seguiu-se o Images Studio, um dos mais fantásticos na nossa opinião. Em carrinhos para dois ocupantes, vamos percorrendo o fantástico mundo do cinema e da sua magia. Girando, subindo e descendo, vamos descobrindo todo um mundo de fantasias que está por trás dos filmes. Os cenários, os efeitos especiais e sonoros, a caracterização, ou os filmes e realizadores que fizeram história. Enfrentámos, depois, a enorme fila e consequente espera de quase uma hora, que nos levou ao Le Defi d'Atlantique. Notável! Valeu a pena o sacrifício. Aguardava-nos um filme, de pouco mais de dez minutos, talvez nem tanto. À entrada, a cada um de nós é dado uma espécie de capacete com auscultadores acoplados e óculos em três dimensões incorporados. Num monitor, o velho Neptuno, Rei dos Mares, vai dando instruções alusivas ao modo como deveremos comportar-nos, uma vez instalados no interior da sala. As advertências e precauções são mais que muitas. Face às colunáveis maleitas que nos atormentam, não pudemos deixar de sentir um certo receio, senão mesmo algum cagaço! Lá dentro, depois de sentados nas cadeiras, agora muito quietinhas, apertámo-nos contra a barra de ferro que sobre nós desce, à laia de cinto de segurança. Depois do filme iniciado, a gritaria invade a sala! É que estamos a ver um filme em três dimensões, que nos leva ao fundo do Oceano em busca da Atlântida, e onde os monstros marinhos são às catadupas. A cada passo, espetam-se contra as nossas caras! E as cadeiras, meu Deus, essas, em permanente rodopio ao compasso da nave que sulca o fundo dos mares, fazem-nos dar saltos e mais saltos. Depois de tudo terminado, e apesar dos berros, só nos dá vontade de repetir a viagem. Mais e mais vezes. Mas não pode ser! Depois de tanta emoção, o que vinha a calhar era mesmo o almocinho. Mas leve! Éque ainda nos aguardam mais umas quantas brincadeiras e, nesta coisa dos simuladores e das três dimensões, o melhor é não ter o estômago muito atestado. Nunca se sabe!... Depois de nova fila, desta vez mais curta, eis-nos, de novo, artilhados com óculos para três dimensões. Desta vez, para vermos Aliens en Délire. Como do próprio nome se suspeita, trata-se de uma fantástica batalha intergaláctica cheia de humor. Durante 23 minutos, acompanhámos uma nave alienígena que visitou o Futuroscope, e cujos ocupantes deliraram com os seus pavilhões e brincadeiras. Também aqui, a histeria acompanhou a sessão. É que, volta meia volta, um horrível ser de outro sistema solar, aparentado com as personagens de Marte Ataca, resolvia estatelar-se contra os nossos olhos. Aldrabices! Contudo, muito bem feitas!... O dia estava a finar-se e aproximava-se a hora da nossa partida. Agora rumo à cidade luz. Mas ainda houve tempo para mais uma - O Cyberworld. Uma aventura virtual, também em três dimensões, levou-nos em companhia de uma cibernética criatura, gémea da Lara Croft, para testemunharmos a sua luta contra três simpáticos bugs que resolvem deglutir-lhe o computador. Tudo isto por entre imagens de Ant Z, feitas de propósito para o Futuroscope, idênticas à cena da dança no bar das formigas. Isto, para quem viu o filme. Também um clip dos Pet Shop Boys - Liberation - com digitalizadas imagens dos elementos desta britânica banda pop.

 

À hora marcada, e depois das compras da praxe nas boutiques do Parque, lá estávamos no autocarro. Mas não todos! O nosso Símon Bolívar perdeu-se(?!) e fez-nos esperar hora e meia. Isto porque, ao fim de meia hora do sumiço do rapaz, o motorista resolveu ir no seu encalço. Resultado: um para um lado e o outro para o outro. Com a paciência na cave, lá tivemos que gramar a espera.

Por Tours, ao longo do Vale do Loire e Orléans, chegámos a Paris já noite. Como não tínhamos jantar incluído, saímos em busca de algo para manducar. Felizmente, e para mal das nossas silhuetas, tínhamos perto a quitanda de um simpático ser das Arábias. E que tartes deliciosas ele lá tinha! Para não falar nos brownies - os suculentos bolinhos de chocolate com nozes.

Depois de comer, aventurámo-nos pela noite parisiense. O nosso hotel, sem ser espectacular, estava muito bem situado. Na Rua Bergère. Descemos a Boulevard Montmartre, a Boulevard des Italiens, a Boulevard des Capucines e a Boulevard de la Madeleine. A esquerda, cortámos para a Rua des Capucines e fomos até à Place Vendôme. Está diferente! Está agora povoada por umas enormes estátuas metálicas. Andámos à volta da coluna de Austerlitz, com Napoleão no seu topo, espreitámos os vips do Ritz e coscuvilhámos a loja Armani, com os seus preços de curar os soluços a qualquer um. Enfim, Paris é Paris e noblesse oblige!

Como já era tarde, rumámos ao hotel fazendo o percurso inverso. Toda esta descrição parece breve e esta viagem momentânea mas, acreditem, levou-nos seguramente umas duas ou três horas. No dia seguinte, pela manhã, esperava-nos a visita da cidade, com guia local.

Após o pequeno almoço, reparámos num estranho tipo que se encontrava no hall do hotel, com ar de galã de filme português dos anos quarenta ou cinquenta, digna personagem de António Lopes Ribeiro ou Arthur Duarte. Careca no cocuruto, mas, no pescoço, o cabelo era ligeiramente para o comprido. De fato e gravata, fumava cigarrilha sorvendo o fumo em espessas golfadas. Quando entrámos para o autocarro, para a tal visita da cidade, constatámos que, o espécime que havíamos demoradamente observado no hotel, mais não era do que o nosso guia - o portuguesito Virgílio - que até tinha um sibilante sotaque das Beiras. A cada passo, durante as suas explicações, brindava-nos com um gutural Voilá! seguido de Hã! Ha! Como se isso não bastasse, expressava-se de uma forma quase grotesca, a atirar para o abrutalhado. Para falar destes ou daqueles povos, referia-se-lhes como essas gentes(?!). Se, por acaso, alguma viatura barrava o passagem do nosso autocarro, eis que vociferava logo: o que é que aquele palerma está a fazer? Enfim, o homem era sui generis!... Quando passámos pela Bastilha, em tom atamancado, referiu que, por aquela zona, volta meia volta, havia muita castanha!... Presumimos que quereria dizer zaragata ou pancadaria. Mas lá fizemos a visita, por sinal, muito interessante.

A Opera, novamente a Place Vendôme, agora sob um sol envergonhado e a promessa de muita chuva, o Louvre, a Bastilha e a Catedral de Notre-Dame.

Em espera para entrar, apreciámos o magnífico baixo-relevo sobre a porta da entrada, com cenas do Juízo Final. De um lado, anjos transportam sorridentes almas para o Éden. Do outro, o diabo arrasta cabisbaixos pecadores. Ainda umas esculturas que representam os progenitores da Virgem Maria.

Se o exterior é belo, o que dizer do interior! Um deslumbre! Da nave principal aos fantásticos vitrais, tudo nos deixou sem fôlego. Foi-nos dito que guarda a coroa de espinhos de Cristo e que, na Sexta-feira Santa, é mostrada aos fiéis. Só Quasímodo faltou ao encontro. Se existe ou não, não pudemos confirmar. Não se dignou mostrar-se...

Prosseguindo a visita, passámos pelo Centro George Pompidou e pelo Quartier Latin, morada de grandes nomes da cultura francesa. Como Juliette Greco e Jeanne Moureau, por exemplo. Em tempos, foi lar de Simone Signoret, Yves Montand, Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. O café Les Deux Magots, à nossa frente, ainda hoje é um dos locais privilegiados para o encontro de intelectuais parisienses. Agora o Panteão, onde repousam relevantes figuras da nação. Depois a Bolsa, único monumento de Paris começado e acabado no tempo de Napoleão. Pelos cinemas, em grandes parangonas e monumentais cartazes, publicita-se a estreia de Parque Jurássico III, agendado para o dia 8 de Agosto. Em algumas salas, com a particularidade de ser exibido em écran gigante. Também a sequela de Scary Moovie e Score, o thriller protagonizado por Robert De Niro, Edward Norton e o obesíssimo Marlon Brando. Este último, em Portugal, verá o seu título traduzido para Sem Saída. Finda a visita, lá fomos ao nosso simpático muçulmano buscar sustento. Uma vez mais tivemos oportunidade de comprovar o quão deliciosas eram as tartes expostas na vitrina.

Depois do almoço, decidimos ir a Versailles, para visitar esta magnífica obra de arte do século XVII, património mundial. Também os seus espantosos e quase cinzelados jardins.

Fomos de Metro. Entrámos na estação de Grand Boulevards, vizinha do nosso hotel, e tomámos a linha oito no sentido de Ballard. Saímos depois nos Invalides, para apanhar o comboio que nos levaria até Versailles Rive Gauche. Saímos muito perto do Palácio, a pouco mais de cinco minutos de caminho. Como sempre, e por todo o lado, as filas de espera eram monumentais. Enquanto aguardávamos, olhando em redor, imaginámos toda a grandeza e opulência da corte de Louis XIV. Depois de uma hora, com a chuva a cair-nos em cima sem clemência, lá entrámos. Para ver, entre outros, os grandes aposentos do rei e da rainha e as salas e salões que por lá proliferam. Todas forradas de tecido ou papel de veludo de variadíssimas cores - verde, vermelho, azul ou amarelo - e emolduradas com belíssimas pinturas. Não pudemos deixar de apreciar, numa delas, o famosíssimo quadro que representa Napoleão, já Imperador, coroando a sua Josefina. Também a galeria das batalhas, uma sala de 1830, com monumentais pinturas e tapeçarias, todas alusivas a grandiosas pelejas.

 

Ainda a espectacular sala dos lustres, de cujo tecto pendem mais de 50 belíssimos e enormes candelabros de cristal. Ainda ensaiámos uma ida aos fantásticos jardins, mas a malfadada chuva que agora caía a rodos tolheu-nos os movimentos.

Ficámo-nos por uma tímida espreitadela, que, ainda assim, se saldou numa valente molha. Finda a visita, e face à chuvada que sobre nós se abatia, corremos para a estação do comboio. Com a pressa, nem nos apercebemos que, afinal, estávamos a ir em sentido contrário! Depois de muito correr, começámos a aperceber-nos que os locais por onde passávamos eram-nos total e completamente desconhecidos. Parámos para reflectir e, pelo mapa que nos acompanhava e pelas placas toponímicas que por ali havia, lá acertámos o passo. De regresso à estação dos Invalides, onde deixámos o comboio para apanhar o Metro, nova peripécia nos aguardava e que iria pôr à prova as minhas capacidades linguísticas. É que todos passaram, após a introdução do bilhete na maquineta, menos eu. Dirigi-me à funcionaria, uma louraça gordalhufa, para saber o que se passava. A criatura, qual guarda de campo de concentração nazi, mais não fazia do que berrar comigo, dizendo-me que, o meu bilhete, n'est pas bon! n 'est pas bon! E que já havia caducado, uma vez que o adquirira há uma hora atrás. Com calma, mas já a começar a perder as estribeiras e a passar-me dos carretos, expliquei à lindeza que, do grupo, todos tinham passado menos eu! Então só o meu bilhete é que n 'est pas bon? Ou porque se convenceu da minha razão ou porque a fila que entretanto se gerara atrás de mim começava a incomodá-la, lá abriu a cancela para permitir a minha passagem. Na risota, apanhámos o Metro para Paris. Mas ainda não era tudo! Então não é que estas inteligências, uma vez dentro do Metro, aprestavam-se a fazer o mesmo percurso? Ora se na ida para Versailles tínhamos tomado o rumo de Ballard, como poderíamos, no regresso a Paris, fazer o mesmíssimo itinerário? Lá tivemos que sair na primeira paragem, subir á superfície e apanhar o transporte no sentido inverso.

Cansados, mas satisfeitos, fomos para o hotel. Antes, no nosso amigo magrebino, comprámos mais provisões para o jantar. Era preciso retemperar forças para a visita nocturna a Paris e para o passeio no Bateau Mouche. A nossa guia local, a Virginie, de cabelos louros apanhados em rabo-de-cavalo e grandes argolas nas orelhas, lá nos levou pelas avenidas de Paris rumo ao Seine. Embarcámos no Port de l'Alma e, durante cerca de hora e meia, sob uma chuvada monumental e um frio de rachar, vimos Paris de um outro ângulo e com outra luz. Da outra vez tínhamos feito a viagem de dia. Era agora diferente. As pontes de Paris, sob a tímida luz da lua, têm um novo encanto. A Pont des Invalides, a Pont de la Concorde, a Pont Royal, a Pont du Carousel, a Pont Neuf e tantas outras. A Île de la Cité. A Île de St Louis, a pequena Estátua da Liberdade, o Museu d'Orsay e a Torre Eiffel, espantosa e toda cravejada de luzes. Por hoje já chegava e o corpo pedia cama. No dia seguinte, para quem quisesse, era a visita à Eurodisney. Nós preferimos passear por Paris.

 

Manhã cedo, pequeno almoço tomado, eis-nos de novo pelas boulevards parisienses. O tempo estava agora mais seguro, mais meigo, apesar das ameaçadoras nuvens negras que ainda se viam no horizonte. Pela Rue Bergère, Boulevard Montmartre, Boulevard des Italiens, Boulevard des Capucines e Boulevard de la Madeleine, chegámos à Place de la Madeleine, onde apreciámos a fachada desta igreja muito peculiar.

Lembra um templo romano e não uma igreja. Foram essas as ordens de Napoleão, que a mandou construir em honra do seu grande exército. É que, no dizer do nosso guia Virgílio, em questões de religião, Bonaparte não era nenhuma lanterna... Vá-se lá saber o que quereria dizer com esta tirada!... Prosseguindo pela Rue Royal, acedemos à Place de La Concorde.

 

À nossa frente, miramos o magnífico obelisco de pedra e topo dourado, preenchido, nas partes laterais, por estranhos e indecifráveis hieróglifos. Foi oferta de Mohammed Ali Pasha ao rei Louis-Philippe, em 1831. Vamos agora ao longo do Cours de la Seine, com a Torre Eiffel à nossa frente, e cruzamos a fabulosa Pont Alexandre III, belíssima nos seus dourados reluzentes. Continuando, temos, à nossa direita, a Pont des Invalides e, depois, a Pont d'Alma.

Aqui, para a posteridade, tirámos uma fotografia na réplica da chama da Estátua da Liberdade, agora convertida em santuário de Diana de Gales. Foi aqui por baixo, no agora tristemente célebre túnel de l'Alma, que Diana, Dodi e respectivo motorista, ocupantes do fatídico mercedes negro, se estatelaram contra o 13º pilar.

Quase sem darmos por isso, tínhamos a Torre Eiffel a nossos pés. Já lá tínhamos subido, em tempos, mas era imperdoável não repetir a façanha. O tempo de espera, na colossal fila de candidatos à escalada consumiu uma hora do nosso precioso tempo. Este, contudo, não foi dado por mal empregue. Muito pelo contrário! Enquanto esperávamos, fomos apreciando tudo e todos. Como o espécime que conduzia um carrinho de bebé e que, só muito tempo depois, após uma minuciosa inspecção, concluímos tratar-se de uma mulher. Certamente nórdica, do alto dos seus quase dois metros de altura. Ou a criatura que, à nossa frente, se regalava com um par de sanduíches que, pelo aspecto, seriam de atum triturado com um pasta de maionese e verduras. Findo o repasto, leva à boca uma garrafa de água, para, em valentes goladas, desembuchar e enxaguar a dentadura. Mas o melhor foi a japonesa! Essa, sim, um susto! Feia como uma noite de trovoada de Maio, tinha um penteado do outro mundo. Coisa nunca vista! Nem a Isabel Queirós do Vale ou a Lúcia Piloto, alguma vez, seriam capazes de tal obra de arte. Tipo espanador, ou ninho de ave de arribação, era comprido dos lados, roçando o pescoço. Contudo, no cimo, estava o seu segredo. Curtinho, enriçado, crispado, ondulado, de fazer inveja a um artístico ninho de tecelão... Disfarçadamente, rimos a bom rir daquele sustentáculo de caricato e horribilis penteado. Ainda por cima, ou por pressa ou por esquecimento, apenas um dos olhos da estampa estava pintado. Com uma espécie de rímel esverdeado. Era aquilo que, vulgarmente, se considera uma figurinha!...

Chegada a nossa vez, os mais valentes foram até ao segundo andar. Os cobardolas, quedaram-se pelo primeiro. O panorama em redor - um tudo nada assustador - é soberbo. Com Paris a nossos pés, vemos, de um lado, o Sacré Coeur, do outro, a dourada cúpula dos Invalides, do outro, o Pallais de Chaillot e, do outro, o Arco do Triunfo com a Défense defronte. Até parece que a Torre oscila ao sabor do vento!

Já com os pés assentes no chão, damos continuidade ao nosso passeio. Atravessamos a Pont d'Iéna, rumo ao Pallais de Chaillot. O Museu do Filme é o nosso destino. Um monumental cartaz, aludindo a uma exposição de Chaplin, havia-nos aguçado o apetite. Infelizmente, não pudemos satisfazer a nossa curiosidade. O Museu encontrava-se encerrado, ao que percebemos, para um qualquer restauro. Estamos no Trocadero e, pela Avenue Kleber, chegamos ao Arco do Triunfo. Para lá entrar, ainda temos que atravessar a Avenue d'Iéna, a Avenue Marceau e, last but not least, a estonteante Avenue des Champs Elysées. É que a entrada para o Arco - subterrânea - faz-se por esta avenida, sob a direita do monumento. Ultrapassada mais uma fila para aquisição do bilhete, ainda nos faltava uma dura prova para superar - subir as muitas dezenas de degraus que nos separam do cimo. Agora, como há quatro anos atrás, o ascensor estava avariado.

Já no topo, começámos por contemplar uma exposição fotográfica alusiva aos inúmeros eventos que aqui têm lugar e, ainda, às muitas personalidades que por aqui já passaram. Só depois fomos ao terraço, deleitar-nos com mais uma magnífica vista de Paris, do alto deste monumento, que, apesar de erigido à glória de Napoleão, o corso nunca viu acabado. Quando partiu para o exílio, o Arco não tinha mais de dois metros de altura. Nova epopeia nos espera. Agora, feitas as visitas, era preciso fazer o percurso no sentido inverso, rumo ao chão Quem disse que para baixo todos os santos ajudam, mentiu descaradamente!...

Com o fôlego em pantanas e as pernas com peso de chumbo, percorremos o interior do arco, se assim lhe podemos chamar. Lemos os nomes dos generais e das batalhas que por lá se mencionam e fomos ver a chama que perpetua o túmulo do soldado desconhecido. Já cá fora, na Avenue des Champs Elysées, os estômagos dizem-nos que é hora de almoço. Por ser rápido e barato, fomos ao MacDonald's trincar um qualquer menu.

Eis-nos de novo em plena avenida, agora em passo de turista. Vamos vendo as montras e arregalando o olho perante os proibitivos preços que exibem. A Peugeot, com as últimas novidades móveis. O Lido, com fotografias de flauzinas descascadas, expostas à coscuvilhice e devassa dos transeuntes. O Planet Hollywood, com as suas disputadas t'shirts. A que está neste momento na montra, face à perspectiva da estreia recente do filme, escarrapacha uma dinossáurica fotografia nas costas e o tradicional logotipo da marca na frente. Este, substancialmente mais pequeno, está colocado junto ao peito, sob a direita. Depois a Disney, com uma loja recheadinha de coisas deslumbrantes. T'shirts do Mickey e pandilha, minúsculos robes dos 101 Dálmatas, ou, ainda, fofas pantufas do Winnie the Pooh! Uma loucura para pequenos e... menos pequenos!... Agora a Swatch, repleta de exóticos relógios. Aqui, os preços são de fugir! Uma simples bracelete, para um qualquer destes helvéticos relógios, custa quase tanto como o próprio, que, por sua vez, já aqui vê os seus preços substancialmente inflacionados. Também, como estamos nos Champs Elysées, é a taxa In!...

Continuando para baixo, vamos em direcção da Place de la Concorde. Apreciamos o famoso e chiquérrimo Hotel Crillon, poiso de famosos e notáveis, à semelhança de Madonna ou Michael Jackson. Também a roda gigante do Jardin des Toulleries. Mas resolvemos ir aos Invalides.

Para isso, recuando um par de metros, passamos em frente aos Grand e Petit Palais, pela avenida Winston Churchill, com a estátua deste estadista caminhando apoiado na sua bengala, reboludo, com o seu característico boné na cabeça. Depois, cruzando a Cours de la Seine chegamos à Pont Alexandre III, que pudemos apreciar de perto durante a travessia. Pela avenida do Général Galland, vamos dar às traseiras do Hotel des Invalides, o refúgio mandado erguer por Louis XIV, por volta de 1670, para albergar os soldados estropiados pelas sucessivas guerras. Hoje, é lar de veteranos da II Guerra Mundial e, mais recentemente, da Guerra do Golfo. Continuando, pela Boulevard des Invalides, chegamos à avenida de Tourville, onde se situa o portão de entrada deste monumento. Uma vez lá dentro - pasme-se que não havia fila para aquisição de bilhetes - começámos por visitar o Museu Militar. Nomeadamente toda a sua parafernália de fardas, armas, munições, armaduras, peças de artilharia, emblemas, bandeiras, estandartes e sabe-se lá que mais, tudo devidamente organizado por épocas e por salas. Aqui, pudemos constatar que, o cavalo branco de Napoleão, era-o efectivamente. Isto porque lá está o alvo exemplar de um puro sangue árabe, oferecido ao Imperador pôr um qualquer Vizir.

 

O que vinha a seguir deixou-nos sem palavras. Uma exposição alusiva à II Guerra Mundial - 1939-1945 - onde se expõem fardamentos, restos de munições, documentos e peças de artilharia. Em diversas salas disponibilizadas para o efeito, pudemos assistir à projecção de filmes da época, desde verídicas imagens de guerra a discursos de líderes, como de Gaulle. Mas o que mais nos impressionou foram documentos de antigos prisioneiros de campos de concentração. Nomeadamente passaportes de judeus e estrelas amarelas que eram obrigados a usar nas roupas. Também um quadro com uma macabra sinalética, que nos deu a conhecer os diferentes sinais com que se distinguiam os indesejáveis. Como um triângulo vermelho para os ciganos e um triângulo rosa para os homossexuais. Entre tantos outros. As vitrinas mais cruas exibiam fardas riscadas de prisioneiros e fotografias de bebés de colo, em Auschwitz, onde se viam, claramente nos antebraços, as diabólicas tatuagens com o hediondo número de registo. A pior de todas, que nos deixou sem palavras e profundamente emocionados, amontoava uma pilha de pares de sapatos, muitos infantis, oriundos de prisioneiros do campo de concentração de Majdanek...

Saímos dali para visitar a Igreja da Cúpula, uma necrópole militar, que alberga, em redor do túmulo de Napoleão, sepulturas de distintos combatentes, como Foch. A deste último, de pedra negra, é um assombroso conjunto de militares que, vergados pelo peso da dor, transportam em ombros o cadáver do seu comandante. Cada um deles está em diferente posição e, olhando de diversos ângulos, quase nos parecem estar a marchar Para ver o túmulo do Imperador, temos de descer umas escadas.

Este, é aquilo que se pode denominar de à grande e à francesa! Gigantesco, os folhetos turísticos dizem ser (...) talhado em blocos de pórfiro vermelho, colocado sobre um pedestal de granito verde de Vosges (...). No chão, sob este conjunto, pode apreciar-se uma gigantesca coroa de louros, com inscrições que recordam grandes batalhas vencidas por Napoleão. Como Austerlitz, por exemplo.

Finda a visita, já lusco-fusco, retornamos ao hotel. Contornando a Boulevard des Invalides acedemos à avenida do Général Galland. Atravessámos depois a Pont Alexandre III e, novamente pela Cours de la Seine, chegámos à Place de La Concorde. Pela Rue Royal vamos dar à Igreja de La Madeleine. Antes, no número três, ainda apreciámos o luxo do Maxim's. Primeiro, o restaurante, com a sua lindíssima fachada toda em madeira trabalhada, com candeeiros embutidos e cortinas franzidas às ondas. Depois, a loja subsequente, em cujas montras, cobertas de toldos vermelhos, vimos magníficos jarrões de finíssima porcelana. Mais à frente, duas lojas que quase nos fizeram cair os queixos de espanto. A primeira - Gucci - despertou-nos a curiosidade porque, no seu interior, para uma chusma de empregados todos de negro vestidos, havia um único e simples cliente. Este, que experimentava um blazer, fez-nos esboçar um sorriso. É que o senhor, de calças pretas e camisa branca, ostentava, no bolso esquerdo, apenas um reluzente Visa Gold. Pudera! Na porta ao lado, a loja Cerrutti, quase batemos com a cabeça nos vidros para ver se seriam possíveis os preços que se nos deparavam pela frente. Mas eram! Um casaco de ganga, em dinheiro português, custava a módica quantia de 600.00$00 e uma calças, também de ganga, 240.000$00. Já refeitos do susto, vamos então visitar o interior da Igreja da Madeleine, lindíssima. Depois, pela Boulevard de la Madeleine, Boulevard des Capucines, Boulevard des Italiens e Boulevard Montmarte, lá fomos para o hotel. Não sem antes irmos ao nosso amigo árabe. Lá foram mais umas fatiazitas das soberbas tartes. Um atentado às nossas esculturais silhuetas. Depois do jantar, apesar de cansados, fomos despedir-nos de Paris. Desta vez, caminhámos em sentido contrário. Pela Boulevard Poissoniere, Boulevard Bonne-Nouvelle, Boulevard Saint Denis - onde apreciámos dois pequenos arcos do triunfo - e Boulevard Saint-Martin, chegámos à Place de la Repúblique. Atravessámos a rua para o outro lado e fizemos o percurso inverso, rumo ao hotel. No dia seguinte, a nossa viagem levar-nos-ia até à Bélgica.

Manhã cedo, deixámos Paris. Demos uma última olhada ao Moulin Rouge, atravessámos o Periferique, vimos o Estádio de Saint Denis e passámos pelo aeroporto Charles de Gaulle. Este, tem a particularidade de ter as pistas de aterragem sobre a estrada onde circulamos. Assim, não é raro vermos inúmeros aviões a passar por cima das nossas cabeças. Ao longo da Normadia - onde se vão vendo inúmeras placas alusivas a batalhas ali travadas pelos tropas aliadas durante a II Guerra Mundial, identificadas com as bandeiras dos países de onde provinham os batalhões - atravessámos a França e cruzámos a fronteira. Dirigimo-nos a Bruges, onde, depois de visitarmos a Grand Place, almoçámos e comemos um delicioso gelado de tartufo e chocolate. Depois, fomos às comprinhas da praxe. Nomeadamente às lindíssimas rendas, semelhantes às nossas de bilros. Foi na lojinha de duas velhotas, por sinal muito simpáticas. Óculos encarrapitados na ponta do nariz e sorriso escancarado no rosto, expressavam-se num muito bom Inglês. Só o sotaque flamengo as denunciava. Depois rumámos a Bruxelas. Pelo caminho, a chuva foi nossa fiel companheira. Chegámos ao fim da tarde, ora com um frio de bater o dente, ora com abertas. Um pormenor curioso chamou a nossa atenção. As placas toponímicas estão em Francês e em Neerlandês. Apeados do autocarro, fomos para a Grand Place. Pelo caminho, vimos a Igreja da Finisterra, a Igreja de São Nicolau e ainda nos quedámos, por breves momentos, junto de um palco onde decorria um concerto que nos pareceu ser de cariz religioso. Dali fomos ao Manneken Pis, ver o tal menino que, despudoradamente, faz xixi à vista dos transeuntes.

 

Curiosamente, estava todo vestido de branco e com um lenço vermelho ao pescoço. Parecia o Elvis. Esta farpela, pareceu-nos alusiva a uma campanha publicitária que decorria paredes-meias. Depois de umas voltinhas pela Grand Place, fomos para o hotel que nos reservava algumas e divertidas surpresas. A primeira foi logo quando chegámos ao quarto que nos estava destinado. A chave - daquelas de plástico perfurado - recusava-se a abrir-nos a porta. Depois de muito tentar, sem sucesso, fomos à recepção. Por entre desconfianças de que o erro era nosso, que não estávamos a meter bem a chave na fechadura, lá nos deram outra chave. Melhor dizendo, recodificaram-na, de forma a permitir a abertura da porta. Agora sim, abriu logo à primeira. Quando entrámos, vimos que um grande guarda-chuva repousava sobre a cama. Tivemos todos o mesmo pensamento: como estava a chover muito, tinha sido uma cortesia do hotel para connosco. Como estávamos enganados! De repente, apercebemo-nos que, pelo chão do quarto, havia malas. E sacos. Fizemos meia volta e regressámos à recepção relatando o ocorrido. Estava desfeito o imbróglio. Por isso a chave não abrira a porta! Involuntariamente, havíamos entrado no quarto errado. Para início não estava mal! Como já era tarde, fomos logo para o restaurante do hotel para jantar. Nova confusão! Quase todos instalados e eis que, uma das senhoras viúvas, ainda se encontrava de pé porque não tinha lugar. Vem o chefe de mesa, de forma a tentar solucionar o problema. Parece que tinha havido um erro de contagem dos elementos do grupo. De forma cordial - pelo menos não nos apercebemos que tivesse sido de outra forma - tenta sentar a senhora junto do tal apaquidermado casal, que até estava sozinho numa mesa. O cabeça de casal, com tiranossáurica voz, desata aos urros e brados, dizendo que aquela mesa era para dois e mais ninguém se lá podia sentar! Como o empregado insistiu, o estouvado indivíduo atira-se para o chão, dizendo que, se assim fosse, teria que ali comer. Perante esta quase barranquenha tourada, a guia viu-se obrigada a intervir. Lá sentou a senhora, sozinha, numa mesa arranjada à pressa. Lamentavelmente, uma vez mais, a massa bruta mostrou a sua raça. Depois desta grotesca cena, o que custou mais a engolir ainda foram os execráveis comentários de alguns. Tudo gente bem falante, bem vestida, bem nutrida, mas uma lástima de carácter. Isto, a fazer fé nos impropérios que saíram das suas viperinas e acloacadas bocas. Como o chefe de mesa era de raça negra, ouviram-se comentários do tipo olha a insolência do preto! Sim, que é assim mesmo que ele tem que ser tratado!...

Valeu o jantar! Como entrada, meio tomate recheado com uma pasta de atum, servida com alface ripada, cenoura ralada e pepino às rodelas. Depois, uma deliciosa perna de frango corada, coberta de um acarilado molho, acompanhada de uma macedónia de legumes cozidos ao vapor. Bróculos, feijão-verde e cenouras, ainda pimentos morrones e croquetes de batata. À sobremesa, uma fatia de semifrio de maracujá. Depois do jantar, fomos dar um giro pela zona e espreitar os preços das lojas de nome sonante. Como a Chanel, onde vimos umas calças de senhora que custavam duzentos contos. Ou uma carteira por cento e cinquenta contos De volta ao hotel, ainda nos aguardava mais uma peripécia Então não é que, quando entrámos pelas portas giratórias, estas resolveram avariar? Lá tivemos os nossos quinze minutos de fama, expostos à risota dos clientes do bar do hotel.

No dia seguinte, andámos para trás! Isto é, rumámos ao Parque do Astérix, que dista pouco mais de duas dezenas de quilómetros de Paris. Entrámos por volta das onze horas e logo vimos o gaulês louro, gigantesco, sentado no topo de uma montanha. De mãos atrás das costas, com o seu alado capacete, acolhe-nos com um sorriso. Lá dentro, apreciámos as lojas atulhadas de artefactos, alusivos às personagens criadas por Uderso e Goscinni. Desde a farda completa do Astérix ao capacete com trancinhas do Obélix, tudo lá há. Sem esquecer o caldeirão do Panoramix e as toneladas de peluches do Ideafix e seus pares. Depois do almoço, percorremos demoradamente o Parque e vasculhámos as inúmeras atracções que por lá abundam. Como a maior montanha russa da Europa, com os seus sete loopings sucessivos e invertidos. Ou, ainda, Le Carroucel de César, La Descende du Styx, Le Camp de Petibonum ou La Tonnerre de Zeus, entre tantos e tantos. Para não dizer que não andámos em nada, fomos até ao La Galère.

Uma enorme barcaça, com uma grande águia à proa, suspensa, faz uma série de viagens de vai-e-vem, a uma altura vertiginosa. Pode dizer-se que é um bom horrível... Quando vai para trás, a coisa está menos mal. O pior é quando vai para a frente. Os nossos estômagos parecem querer saltar pela boca, para, logo depois, colarem-se-nos às costas. A sensação é idêntica ao poço de ar de uma viagem de avião. Mas foi bom! Depois, para acalmar, fomos ao inocente Carrossel de César. Ainda por cima, montados num cavalinho que subia e descia. Ao fim da tarde, ladeando Paris, rumámos a Chartres.

Depois de instalados e já recompostos da emoção, fomos jantar. Não no hotel, mas num restaurante próximo. Como entrada, duas fatias de salame, uma ripa de alface, um gomo de tomate e meio pepininho em conserva. Como prato principal, duas fatias de rosbife, afogado num acastanhado molho e enfeitado com um montinho de feijão verde cozido. Como sobremesa, uma salada de frutas em calda. Esta foi, sem dúvida, a refeição mais frugal de todo o circuito. Depois do jantar, fomos passear pela cidade onde, por acaso, até já tínhamos estado. Como a refeição fora fraca, os estômagos não se calavam. Entrámos num MacDonald's e cada um de nós compôs-se com um cafézinho e um brownie. Mesmo assim, ainda persistia um certo ratito. Em passeio, fomos dar à Estação de Caminhos de Ferro. Por sorte, lá havia daquelas maquinetas que, a troco de uma moeda, nos dão uns bolinhos ou uma batatitas fritas. Como a fome era negra, tirámos um pacote de madalenitas, daquelas de massa mista - chocolate e baunilha. Com isto, fomos deitar-nos.

No dia seguinte, após o pequeno almoço, rumámos ao País Basco espanhol. Vitoria era o nosso destino. Seguimos por Tours e pelo Vale do Loire, fertilíssimo, onde pudemos apreciar os campos de trigo e girassol a perder de vista. Depois Le Mans, Órleans e Poitiers, com o Futuroscope à nossa esquerda. Finalmente Bordeaux, Bayonne, Hendaye e os Pirinéus como cenário. Ainda Biarritz à nossa direita, Irun e, por fim, sempre a subir, por entre construções de auto-estradas e viadutos, para depois descer, lá chegámos à capital Basca. Eram dez da noite quando fomos jantar. Já estavam todos cegos de fome. Mas valeu a pena a espera! O petisco que nos esperava estava uma delícia. Nem houve entradas. Foi logo uma paella, com direito a repetir e tudo. Seguiu-se uma posta de pescada com molho branco, acompanhada de ervilhas e espargos. Para sobremesa, uma generosa fatia de um bolo de massa folhada, recheado com chantilly. Até tivemos direito a água e a vinho. Uma fartazana...

O último dia foi para o regresso às berças! Depois de Vitoria, cerca de uma hora mais tarde, avistámos de novo Pancorbo e, pela região de Castilla y León, ladeámos Valladolid e o rio Pisuerga. Se calhar, foi ele que deu o nome à tal terriola que nos fez rir. Salamanca, Ciudad Rodrigo e, finalmente, por volta das duas da tarde, cruzámos a fronteira de Vilar Formoso. Antes, havíamos parado para almoçar e espantar as últimas pesetas. Comemos almôndegas com batatas fritas e, para sobremesa, leite-creme.

Chegámos a Lisboa por volta das sete e meia. De malas às costas, rumámos ao hotel que nos aguardava. Uma lástima, por sinal. Mas foi uma farra! Estava em obras de restauro e só tinha um elevador para todos os clientes. O ar condicionado não passava de um reles ventilador. Cá fora, o ar estava empestado com o nauseabundo cheiro dos contentores do lixo por despejar. Mas ainda tínhamos um dia e passámo-lo, como se costuma dizes, na maior! Das lojas dos antros do consumismo aos monumentos da capital, tudo serviu para queimar os últimos cartuchos destas férias que, apesar de não serem o que inicialmente pretendíamos, acabaram por ser divertidas e bem passadas.

Este ano há mais!

Assim o permitam as nossas pernas e as nossas contas bancárias. Ainda, nestes conturbados tempos, as malfadadas conjunturas internacionais!...

 

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* Assistente Administrativa Especialista do Instituto Superior Politécnico de Viseu.

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