Vasco Oliveira e Cunha *

NO TEMPO EM QUE NÃO HAVIA ERASMUS II

 

[Nos anos 50 e 60 não havia Erasmus. Nem Leonardo. Não havia Sócrates. Para o estudante universitário, o estrangeiro era a aventura por conta própria. Em campos de trabalho, com todo o rigor da organização, da programação, dos custos e dos ganhos. Experimentei Londres em 58, num mercado abastecedor de frutas e de legumes do East End, bem próximo de Liverpool Street. Não gostei. Privilegiei, depois, o assumir de todos os riscos, eu mesmo definindo em cada momento o que queria ou não queria, criando a possibilidade de me deixar guiar pela minha própria anarquia. Em 60, foi Chester...]

A proximidade de Liverpool, onde trabalhava no Verão de 60, tornava obrigatória uma visita a Chester, a capital do condado de Cheshire, no noroeste de Inglaterra. De barco, atravessando o rio Mersey para Birkenhead, na margem esquerda, e depois, de autocarro, um curto trajecto para sul.

Atraíam-me a arquitectura medieval, única, da cidade, a fama das suas Rows, - galerias de lojas sobrepostas, umas, ao nível do pavimento da rua, outras, no primeiro andar, alinhadas num passeio panorâmico, coberto, para peões; as belíssimas casas Tudor dos séculos XVI e XVII; a combinação de estilos da Catedral, originariamente uma abadia beneditina; a Casa do Capítulo, rectangular, do séc. XIII; a possibilidade de percorrer a pé as muralhas medievais que rodeiam a cidade antiga, em parte erguida sobre as fundações romanas.

Seduzia-me a sua história - sede de 20ª legião romana1, a Valeria Victrix, no séc. I A.D., tirando partido da localização estratégica do lugar e da sua posição de fronteira num ponto de travessia difícil do Dee, ou Deva, como então o rio era conhecido; a história do porto, afluente e próspero, servindo a Escócia, a Irlanda, a França e a Espanha; as feiras de lãs, ainda pujantes no séc. XIX; as catástrofes devastadoras e as suas maiores epopeias - a destruição Viking no séc. VII e a restauração vigorosa trezentos anos mais tarde; a longa resistência aos exércitos invasores de Guilherme, o normando conquistador da grande ilha, nos meados do séc. XI, que estenderam de novo para norte as culturas mediterrânicas; o assoreamento irreparável do porto a partir de quinhentos, que fez definhar e arruinar o comércio; o engenho da construção de canais, de estradas e de caminhos de ferro no tempo da Revolução Industrial, fundamentos da recuperação mercantil e do desenvolvimento de indústrias manufactureiras, de laminação, de destilarias, de tabaco, de construção aeronáutica e de energia nuclear. De sal e de queijos saborosíssimos.

A mais forte das motivações, contudo, vinha da literatura. Sobretudo, do drama medieval inglês. Das suas origens mais remotas, no seio da Igreja cristã, e da sua secularização gradual inevitável. Chester ocupara um lugar central nessa evolução.

Como forma viva de arte, o drama soçobrara por completo na Europa com a queda do Império Romano, um processo de decadência acelerado pela hostilidade da Igreja à degeneração dos costumes no palco, à violência e ao horror encenados com realismo obsceno e cruel, e pela indiferença dos bárbaros por esta forma de criação. Das cinzas da tradição histriónica do império sobreviveram apenas farsas e mimos sem qualidade, representados por intérpretes individuais, menestréis nas suas vestes multicores calcorreando caminhos, participando em torneios, animando casamentos, alvoroçando mercados e feiras, alguns mesmo convidados para castelos senhoriais. Para a própria corte do rei. Permanecia forte o instinto mimético do povo e da nobreza, e a capacidade do menestrel para atrair multidões, embora sujeita a protesto permanente dos espíritos mais austeros da Igreja começou a aguçar o interesse de monges pela sua metodologia. Em lugares públicos, a palavra da fé e as histórias da vida secular passaram a entrelaçar-se.

Comemoração dos momentos mais místicos e mais solenes da vida do Fundador, o ritual cristão da Missa, riquíssimo de movimentos, de gestos e de cor, de cânticos alternados entre o celebrante e a congregação, ou o coro, de momentos recitativos, de procissões, de encenações solenes, era dramático na sua essência.

Segundo Chambers2, quando o ofício religioso passou a ser entendido como repetição real do sacrifício inicial, em vez de olhado apenas como celebração simbólica, as suas características dramáticas intrínsecas intensificaram-se. Um processo igualmente visível em outras celebrações do rito cristão: na expulsão do espírito do mal na consagração de um novo templo, um ritual com origem na Gália; na comemoração da entrada de Jesus em Jerusalém, Cidade Santa, no Domingo de Ramos; nas celebrações de Sexta-Feira Santa... Simbolismo, acção mimética e o canto alternado da antífona3 potenciavam esse aprofundamento.

A partir do séc. IX, e até ao XI, está em curso no continente um processo de sofisticação litúrgica que acompanha o movimento de expansão e de riqueza da Igreja - templos belíssimos, vestes elaboradas, ricas, procissões magnificas, reflexos do elevado sentido do culto, em geral, e da Eucaristia, em particular, sobretudo nos mosteiros. Especialmente no Natal e na Páscoa, os textos mais elaborados dos tropos, diálogos cantados em latim, com melodias novas e enriquecidas relativamente à antífona, assumem pela primeira vez as características de uma representação4, constituindo um deles, Quem quaeritis?5, na perspectiva de Cawley, a far cry from a tenth-century Latin trope for Easter, um grito distante de um tropo latino pascal do século X6, o berço primeiro do drama litúrgico. Por outras palavras, o ritual cristão assumia a forma de uma representação cada vez mais elaborada, no séc. XIII todo o templo se transformando em palco, celebrante(s), coro e congregação unidos na convicção profunda dos valores sagrados do seu tempo.

À medida que os textos das representações se tornavam mais elaborados, crescia a popularidade do drama litúrgico. Na encenação, sempre mais complexa, o elemento dramático ameaçava mesmo sobrepor-se aos fins religiosos e exigia espaços mais amplos do que os do interior dos templos. E o drama extravasou. Primeiro, para o adro, para as ruas das cidades, depois. Era o início de um lento, mas progressivo, processo de secularização. De divórcio gradual do ritual cristão.

A sociedade civil apoderar-se-ia do drama que a Igreja gerara no seu próprio seio, a pouco e pouco apagando-se o papel dos clérigos na criação dos textos e na interpretação de figuras bíblicas, substituindo-se o latim pelo vernáculo nas representações para tornar a pedagogia da doutrinação acessível às multidões7, recrutando-se actores no seio das guildas, das corporações de artes e ofícios, as entidades que passaram a assumir a organização do drama litúrgico.

Designadas, genericamente, por pageants8, por miracles9 e por mysteries10, as peças do drama religioso medieval conservariam, porém, na sua essência, os temas bíblicos dos milagres de Cristo e dos Apóstolos, ainda que com a infusão de perspectivas seculares nem sempre filhas da ortodoxia. Exemplo disso é o humor do tratamento da figura da esposa de Noé, recusando-se a entrar na barca da salvação e da preservação das espécies sem as suas comadres11.

Viviam-se os últimos anos do séc. XIII e os primeiros do séc. XIV.

Associações extremamente poderosas nos séculos XIV e XV, especializadas, as guildas floresceram na Inglaterra, especialmente em cidades de dimensão média com actividades económicas diversificadas. A sua prosperidade tinha origens materiais bem determinadas - o crescimento da riqueza e o desenvolvimento rápido da classe burguesa. A multiplicação de feiras e de mercados.

Só estas associações tinham a capacidade de concretizar grandes projectos sociais, culturais e cooperativos, comunitários, e deles retirarem, simultaneamente, benefícios amplos. Ao assumirem o desenvolvimento de um projecto de encenação da totalidade da narrativa bíblica em Ciclos de representações12 em dias sucessivos na grande festa anual do Corpus Christi, do Corpo de Deus, instituída pelo Papa Urbano IV, em 1264, mas só observada a partir de 1311, quando um Concilio da Igreja decretou que deveria ser celebrada com toda a cerimónia, ou na festa do Pentecostes, uma e outra coincidindo com os dias mais longos do ano no hemisfério norte. Ao assumirem este projecto, dizia, as corporações medievais dilatavam o seu prestigio, funcionando a sua acção pedagógica directa de diversão e de formação religiosa das populações como verdadeiro marketing institucional, potenciador do seu crescimento económico.

Na festa do Pentecostes, Chester tornava-se capital do mundo. Atraída pela fama dos seus pageants, pelo fascínio das narrativas bíblicas, desde a Queda de Lucifer até ao Julgamento Final, chegava gente de todo o condado (e de fora dele), a pé, a cavalo, de barco, subindo ou descendo o rio, rindo, cantando, trajando roupas de dia santo, pausa abençoada no trabalho duríssimo do campo, três dias de palcos de encantar que aprofundavam a sua fé, a sua esperança, todos tentando acomodar-se nas estações13 das representações - junto dos portões da Abadia, onde o Ciclo se iniciava, em frente da residência do Mayor, em High Cross, em Bridge Street, em Watergate Street. No Eastgate. Em tantas outras, espalhadas por toda a cidade, rindo com as discussões eternas de Noé e da mulher; saudando a entrada de Jesus em Jerusalém; odiando os que traíram o Salvador; chorando com a crucifixão; a alma receando com o Juízo Final, a mente elaborando e reelaborando propósitos e protestos, sempre violados, de não mais voltar a cair em tentação.

Nascido no séc. XIV, o drama litúrgico dos Ciclos sustentados pelas corporações medievais iria resistir durante trezentos anos (havendo ainda menção dele no reinado de Jaime I)14, e sem nunca perder popularidade. O zelo reformista do reinado de Isabel I, porém , com o fundamento de alegada "idiolatria e superstição", viria a pôr-lhes termo15. A cultura e os campos de Inglaterra ficaram mais nus e mais pobres.

Chester foi uma estação mais em que desembarquei no meu percurso pelo ensino superior. Um encontro com a história de um momento único da vida europeia e um diálogo vivo com o vigor da dialéctica das transformações culturais e sociais que anunciavam outras Idades do Homem. Na permanente alteração do mundo.

(O presente texto é uma pequeníssima homenagem do autor a Ricardo Pais, o amigo, o companheiro de trabalho no ISPV, um Homem grande no Universo da nossa Cultura).

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NOTAS:

* Vice-Presidente do Instituto Superior Politécnico de Viseu.

1 Chester era conhecida como a "cidade das legiões". In Trevelyan, G.M., A Shortened History of England, London: Pelican Books, 1959, pág. 49.

2 Chambers, E.K., The Medieval Stage, Vol. II, Oxford, 1903.

3 O canto alternado da antífona é um factor importante no discurso dialogado. Nascido em Antioquia, possivelmente em ligação com as tendências histriónicas do arianismo, e com influência da tradição de coros trágicos gregos e dos salmos judaicos, o versículo que se reza ou canta no início de um salmo ou de um cântico religioso é depois repetido alternadamente pelas duas metades do coro. A sua introdução na Itália deve-se a Santo Ambrósio de Milão. Segundo Chambers (op. cit.), as partes corais da Missa já se encontravam estereotipadas no final do séc. VI, sendo o Antiphonarium atribuído a S. Gregório Magno.

4 Estes desenvolvimentos do drama litúrgico foram levados pelos Normandos para Inglaterra no séc. XI. Para uma informação abrangente sobre o drama litúrgico medieval, a obra citada de Chambers permanece hoje fundamental. Na bibliografia que serviu de suporte à elaboração do presente texto encontram-se outras referências de interesse para a evolução específica do drama em Inglaterra.

5 O tropo pascal designado por Quem quaeritis?, de autoria desconhecida, foi encontrado num manuscrito do mosteiro de St. Gall. Segue de muito perto o Evangelho de S. Mateus e o de S. Marcos, sendo adaptação, sob a forma de diálogo, da entrevista entre as Três Marias e o Anjo no túmulo de Cristo. Ele constitui a forma mais primitiva, e também a mais simples, do Quem quaeritis?. Para o leitor interessado, transcreve-se o texto original, e faz-se a sua tradução para português:

"Quem quaeritis in sepulchro, [O] Christicolae?

Iesum Nazarenum crucifixum, o coelicolae.

Non est hic, surrexit sicut praedixerat.

Ite, nuntiate qui surrexit de Sepulchro »

Anjo : « Quem procurais neste túmulo. ó seguidoras de Cristo?

Mulheres: "Procuramos Jesus Cristo, que foi crucificado, ó Anjo!"

Anjo: "Ele não está aqui. Ressuscitou como previra."

"Ide! Anunciai que Ele ressuscitou do Sepulcro."

6 Cawley, A.C. (ed) Everyman and Medieval Miracle Plays. London: J.M. Dent & Sons, Ltd., New York: E.P. Dutton & Co. Inc. 1956. p. V.

7 As primeiras peças em língua inglesa datam do reinado de Henrique III (1216-1272). Segundo Émile Legouis, a utilização do vernáculo e a troca do templo e do adro pela rua foram duas condições essenciais para a necessária liberdade, two essencial conditions for the needed liberty. Legouis, E. and Cazamian, L. A History of English Literature, London: J.M. Dent and Sons Ltd. 1957, pág. 180.

8 Pageants (ou pageants do Corpus Christi, do Corpo de Deus, das guildas, das corporações medievais de artes e ofícios) são peças curtas representadas como episódios de um ciclo. Por vezes, pageant designa simplesmente um palco móvel, montado em cima de um carro puxado por bois. Assemelhava-se a uma casa de habitação, com duas divisões, abertas no topo. A inferior, onde os actores se vestiam e despiam; a superior era o palco para a representação.

9 O sentido de Miracle é o da peça religiosa em vernáculo, representada fora da igreja.

10 A palavra mystery foi aplicada pela primeira vez ao drama religioso em 1744. Esta designação deverá estar relacionada com o facto de a actividade comercial ser considerada como um mistério para toda a gente, excepto para quem nela estava envolvido.

11 Pageant "Noah's Flood", terceiro do Ciclo de Chester. In Cawley, A. C., op. cit., pp. 35-49.

12 Sabe-se, através de registos municipais e de documentos pertencentes às guildas, que ciclos de pageants bíblicos foram criados em muitas cidades prósperas da Inglaterra. Todos se perderam, com excepção dos de York (54 pageants), o mais extenso, de Chester (24 pageants), de Wakefield ( a que deve ter pertencido o de Towneley, o mais inovador, (33 pageants), de Coventry (42 pageants). Para além de mais dois pageants de Coventry, um de Newcastle e outro de Norwich.

As peças eram encenadas e representadas por especializações corporativas, cada guilda se responsabilizando por um pageant, na medida do possível tentando conciliar a temática litúrgica com a natureza da actividade económica desenvolvida. As discrepâncias são, contudo, manifestas. Alguns exemplos: o pageant dos Pastores, em Chester, era da responsabilidade dos pintores e dos vidreiros; o da Matança dos Inocentes, igualmente do ciclo de Chester, dos ourives; o do Encontro dos Três Reis Magos com Herodes, do ciclo de York, dos pedreiros. Poderiam multiplicar-se as discrepâncias.erdop

13 Chamavam-se "estações" (stations) os locais da cidade onde os palcos móveis estacionavam para que se efectuasse a representação das peças. Uma vez concluída a representação de uma peça, cada um dos palcos era levado para as estações seguintes, cedendo o seu lugar aos outros pageants do Ciclo, de acordo com a sua ordenação. Até que todas as peças do Ciclo pudessem ser vistas em todas as estações.

14 In Wilson, J.B. English Literature - A Survey for Students. London: Longmans, 1958, pág. 74.

15 In Gardiner, H.C. An Investigation of the Last Days of the Medieval Religious Stage. New Haven, Yale University Press, 1946, pp. xi-xiii.

 

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