TRADIÇÃO E INOVAÇÃO NA PENA DE JOHN RUSKIN E ALEXANDRE HERCULANO

 

Dulce Melão *

 

Men of perfect genius are known in all centuries by their perfect respect to all law and love of past tradition: their work in the world is never innovation but new creation; without disturbing for an instant the foundations which were laid of old time

John Ruskin1

O passado! Quem mais o amou do que eu nesta terra? Quem volveu nunca os olhos com mais saudades para as suas tradições?

Alexandre Herculano2

1. Introdução

Alexandre Herculano (1810-1877) e John Ruskin (1819-1900) conferiram uma nova vitalidade ao passado, entretecendo-o de ficções e realidades que cativaram os leitores do seu tempo e lhes abriram novos horizontes. Se é certo que não foram os únicos a lançar mão do passado para sanar os males do seu século, o modo como exploraram tal filão, metamorfoseando épocas passadas numa amálgama rica em tradições inovadas, merece um olhar atento.

Ruskin foi muitas vezes guiado por Walter Scott quer em termos pessoais, quer em termos da obra que produziu, considerando a Idade Média a época que mais riquezas trouxe à humanidade. Herculano, como é sabido, inspirou-se em Scott para criar o seu romance histórico e nunca escondeu a sua admiração pelo escritor Escocês. Tal como Ruskin, Herculano não poupou elogios à Idade Média demonstrando, quer nos seus romances históricos, quer em diferentes momentos da sua vida nas reflexões que deu a lume, ser essa a época onde urgia buscar antídoto para combater os males da sociedade sua contemporânea. O passado funcionou para Ruskin e Herculano como alternativa não passiva ao presente corrupto e degradado que denunciaram sem temor.

Não sendo possível, nem sequer desejável, demonstrar de forma absoluta o modo com Herculano e Ruskin (re)interpretaram o passado em Portugal e Inglaterra, respectivamente, optámos por reflectir sobre a forma como ambos encararam o passado nacional e lançar um olhar interessado ao modo como Ruskin equaciona o seu passado individual. Em primeiro lugar, teremos em consideração as estratégias que ambos adoptaram para (re)ver o passado e o modo como os dois escritores apresentaram propostas válidas de mudança à sociedade do seu tempo. Em segundo lugar, acompanharemos de perto a forma como na sua autobiografia Ruskin estabelece pactos com passados reais e imaginados no intuito de se descobrir a si próprio.

 

2. Passados Reais e Imaginados

Ruskin e Herculano viam o passado como fonte onde era imperioso ir beber para sanar males presentes. Ambos amavam a pátria acima de tudo, tendo desistido de projectos de felicidade pessoal para defenderem interesses nacionais. Uma das razões pelas quais o casamento de Ruskin se dissolveu foi, sem dúvida, o seu apego ao trabalho que o não deixava consumir-se em afectos. Herculano casou tarde, preferindo abraçar a causa pátria e lutar em prol dos interesses do cidadão. Nesta secção procurarei (re)avaliar o modo como ambos (re)interpretaram o passado do seu país natal, convertendo-o em arma estratégica para denunciar o que ia mal no seio da sociedade.

a) O Passado Nacional, tela de tradições

John Ruskin procurou através das suas obras persuadir os seus contemporâneos da necessidade de respeitar o legado de gerações passadas e de preparar terreno fecundo onde gerações futuras pudessem colher farto fruto. Walter Scott foi, nesse sentido, uma influência importante desde a sua infância. Ruskin admirava o modo como Scott, através dos seus poemas e romances, chamava a atenção para as tradições da Escócia, optando por evidenciar que as sociedades muito tinham a lucrar se não rejeitassem, por princípio, o legado dos seus antepassados. Preocupado com o que considerava um entusiasmo desmedido e incompreensível pelas mudanças que a revolução Industrial trouxe consigo, Ruskin tomou a seu cargo a missão de denunciar o que, em seu entender, estava a transformar Inglaterra numa nação sem passado. Um dos relatos mais emotivos do seu pesar pela forma como heranças passadas eram destruídas e/ou ignoradas em prol do progresso surge imbuído de memórias de natureza pessoal. Assim, Ruskin transmite ao leitor o rol de emoções suscitadas por um passeio a pé em Croxted Lane em cujo ambiente aprazível se deleitara enquanto criança. O relato tem como objectivo chocar os leitores já que, após a descrição de uma paisagem verdejante onde serpenteia um riacho de águas cristalinas (retrato da beleza no passado), Ruskin aponta com tristeza a mudança operada:

The fields on each side of it are now mostly dug up for building, or cut through into gaunt corners and nooks of blind ground by the wild crossings and concurrencies of three railroads (...) The lane itself, now entirely grassless, is a deep-rutted, heavy-hillocked cart-road, diverging gatelessly into various brickfields or pieces of waste; and bordered on each side by heaps of - Hades only knows what! - mixed dust of every unclean thing that can rot or rest in damp: ashes and rags, beer - bottles and old shoes, battered pans, smashed crockery, shreds of nameless clothes, door-sweepings, floor-sweepings, kitchen garbage, back-garden sewage, old iron, rotten timber jagged with out-torn nails, cigar-ends, pipe-bowls, cinders, bones, and ordure, indescribable (XXXIV:266)

A destruição da harmonia outrora reinante é da responsabilidade do Homem. E o que Ruskin lamenta é o total desrespeito por uma das mais importantes heranças que, no passado como no presente século, importa preservar - o meio ambiente. O autor vitoriano acaba por concluir que, a continuarem tais agressões, os cidadãos do futuro ficarão irremediavelmente marcados pela falta de estímulos fundamentais ao seu desenvolvimento pessoal, nomeadamente no que diz respeito à capacidade de observação e espírito crítico, fundamentais para ultrapassar com sucesso os desafios do dia a dia. A mensagem continua a ser actual. O contraste passado/presente em termos do meio ambiente fica também patente numa das mais polémicas obras de Ruskin - The Storm Cloud of the Nineteenth Century (1884). O autor vitoriano pinta dois cenários completamente distintos. Em primeiro lugar descreve as condições meteorológicas de um passado não muito longínquo quando dias de tempestade eram seguidos de sol e não havia meses a fio de céu cinzento (XXXIV:10-11). Em segundo lugar Ruskin dá múltiplos exemplos para provar que o tempo mudou dado os níveis de poluição atingidos e a existência do que denomina de "plague-wind" (XXXIV:33). Tal poluição, defende Ruskin, não só é nefasta para o meio ambiente (envenenado, em sua opinião, pela proliferação de novas indústrias) mas também compromete o desenvolvimento intelectual do cidadão. E o exemplo escolhido para justificar a sua teoria é assaz persuasivo:

Of myself, however, if you care to hear it, I will tell you thus much: that had the weather when I was young, been such as it is now, no book such as Modern Painters ever would or could have been written; for every argument, and every sentiment in that book, was founded on the personal experience of the beauty and blessing of nature, all spring and summer long; and on the then demonstrable fact that over a great portion of the world's surface the air and the earth were fitted to the education of the spirit of man as closely as a schoolboy's primer is to his labour, and as gloriously as a lover's mistress is to his eyes (XXXIV:77-78)

Se os exemplos acima referidos traduzem com clareza o sentido lamento de Ruskin face à irresponsabilidade com que a sociedade que lhe é contemporânea encara a destruição do património ambiental,3 não há dúvida que em grande parte da sua obra dedica maior e mais cuidada atenção ao património arquitectónico e cultural do seu país. A preocupação de Ruskin com a preservação de tal património fica sobretudo patente em duas das suas obras: The Seven Lamps of Architecture (1849) e The Stones of Venice (1851-1853, três volumes). Na primeira, Ruskin insurge-se com veemência contra o que considera um atentado criminoso ao património arquitectónico: a restauração de edifícios antigos sem qualquer respeito pelo traçado original. Ruskin lança o aviso aos leitores:

Do not let us deceive ourselves in this important matter; it is impossible, as impossible as to raise the dead, to restore anything that has ever been great or beautiful in architecture (...) And as for direct and simple copying, it is palpably impossible. What copying can there be of surfaces that have been worn half an inch down? (VIII:242)

Para Ruskin a solução reside em prevenir a destruição de qualquer tipo de monumento/edifício antes que este esteja reduzido a ruínas. Só assim será possível, em sua opinião, evitar que gerações vindouras percam para sempre o contacto com o legado que lhe deixaram os seus antepassados. Mais: numa época que considera rendida aos encantos dos caminhos de ferro e ao ambiente fervilhante das cidades, Ruskin encara a arquitectura antiga como força vivificadora semelhante ao poder revigorante da natureza. Apagar os vestígios do passado é, pois, para Ruskin, o mesmo que condenar a pátria a periclitante futuro.

Em The Stones of Venice (1851-1853) o apelo de Ruskin a uma urgente mudança de atitudes no que respeita a destruição de espólios do passado é porventura mais forte. Numa prosa rica em imagens e carregada de emoções Ruskin não disfarça a ira mal contida pelas tentativas - infelizmente bem sucedidas - de deitar abaixo o que não é considerado moderno e de preservar sem preconceitos de ordem moral o que devia ser deixado em paz. No prefácio da primeira edição (1851), após ter assegurado ao leitor que a obra que tem entre mãos é resultado de rigoroso labor, Ruskin dá conta das dificuldades que teve para caracterizar os edifícios de Veneza dado a maior parte ter sido alvo de sucessivas restaurações que, por vezes, aboliram por completo o seu traçado original. Ruskin lança, pois, o alerta:

There is no building in Venice, raised prior to the sixteenth century, which has not sustained essential change in one or more of its most important features (...) the restorations or additions have gradually replaced the entire structure of the ancient fabric, of which nothing but the name remains, together with a kind of identity, exhibited in the anomalous association of the modernised portions: the will of the old building asserted through them all, stubbornly, though vainly expressive; superseded by codicils, and falsified by misinterpretation; yet animating what otherwise be a mere group of fantastic masque (IX:5)

Tendo como objectivo que a sua mensagem seja compreendida pelo maior número possível de cidadãos, Ruskin termina o prefácio da primeira edição de The Stones of Venice num tom persuasivo, garantindo que "Every man has, at some time of his life, personal interest in architecture" (IX:9) e apelando aos seus contemporâneos para que retirem lições dos exemplos que lhes irá apresentar. O prefácio da terceira edição da obra (1874) dá, porém, conta de que tal não aconteceu. Apesar do sucesso da obra em termos de vendas, Ruskin está ciente de que "The relation of the art of Venice to her moral temper, which is the chief subject of the book, and that of the life of the workman to his work, which is the most important practical principle developed in it, have both been ignored" (IX:14). Assim, os seus esforços para deixar a nu o contraste entre uma nação próspera no passado, gozando de saúde moral e espiritual (O'Gorman, 1999:29) porque respeitadora das suas tradições, e corrupta no presente, porque abandonou os princípios morais pelos quais se regia, não são bem sucedidos. Compreende-se, pois, o desalento que manifesta, anos mais tarde, no prefácio de uma das edições de The Seven Lamps of Architecture (1880), ao considerar tal obra "the most useless I ever wrote; the buildings it describes with so much delight being either knocked down, or scraped and patched up into smoothness more tragic than uttermost ruin" (VIII:15). Apesar do desencanto com que encarava o modo como heranças passadas eram votadas ao abandono sem dó nem piedade Ruskin foi, durante toda a sua vida, incansável na luta em prol da preservação das riquezas arquitectónicas de Inglaterra e acreditou sempre que era possível implementar mudanças que contribuíssem para evitar o marasmo em que outras nações (sobretudo a Itália) se tinham lançado.

b) O Património do Passado, guardião da História

A Alexandre Herculano preocupava igualmente o esquecimento a que tinha sido votado o património arquitectónico Português e nunca se poupou a esforços para bradar contra a situação de decadência que considerava instalada no país. Foram vários os modos como fez passar a sua persuasiva mensagem e, sendo impossível um levantamento exaustivo nas presentes circunstâncias, lançaremos mão de Lendas e Narrativas (1851), de O Monge de Cister (1848) e de publicações do autor em jornais literários da época. Habituado a patentear "livre e singelamente as suas opiniões acerca "dos homens e das cousas" (Opúsculos, IV:50), Herculano desde cedo chamou a atenção para a importância do património do seu país. Em 1838 aparecem em O Panorama dois artigos seus, "Monumentos I" e "Monumentos II" seguidos, em 1839, por "Mais um Brado a favor dos Monumentos." Os artigos seriam posteriormente publicados no segundo volume dos Opúsculos sob a designação de "Monumentos Pátrios." O objectivo de Herculano é não só "erguer um brado a favor dos monumentos da história, da arte, da glória nacional" (Opúsculos, I:181) como também denunciar o "instinto bárbaro, a malevolência selvagem, a filosofia da brutalidade" (Opúsculos, I:191) que caracterizam os que desprezam os monumentos. A solução apontada por Herculano é que se crie uma associação que lute me prol da preservação dos monumentos e tenha meios para denunciar os injustamente demolidos bem como os responsáveis por tal acto (Opúsculos, I:200). Os seus esforços foram, de resto, recompensados já que, em 1840, foi constituída a Sociedade Conservadora dos Monumentos Nacionais e, anos mais tarde, nasceria uma associação de defesa do património - a Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses (1863). Pela criação de semelhante associação pugnaria, em 1854, John Ruskin, numa das suas famosas incursões contra a destruição de monumentos na Europa, especialmente em Inglaterra, na Itália e na França. Ruskin defende assim que

An association might be formed, thoroughly organised so as to maintain active watches and agents in every town of importance who, in the first place, should furnish the society with a perfect account of every monument of interest in its neighbourhood, and then with a yearly or half-yearly report of the state of such monuments, and of the changes proposed to be made upon them (XII:431)

À semelhança de Herculano, Ruskin instigou os seus contemporâneos a agir e a sair da passividade que autorizava a destruição do espólio nacional. No entanto, só vinte e três anos após tal apelo foi formada, por William Morris, The Society for Protection of Ancient Buildings de que Ruskin seria membro. O seu apelo não foi, pois, de modo algum, vão.

A principal diferença no que respeita à acção levada a cabo em prol do património, entre Ruskin e Herculano, reside no facto deste último abordar o assunto em várias frentes. Assim, ao mesmo tempo que textos de maior fôlego eram consagrados a descrever com minúcia as consequências graves resultantes da destruição do património nacional, em O Panorama iam sendo divulgados os textos que mais tarde viriam a constituir as Lendas e Narrativas. Ora, em tais narrativas, corria vivaz a mensagem de Herculano em prol dos monumentos. Assim, n'O Castelo de Faria, publicado em 1838 em O Panorama, encontramos desde logo a descrição seguinte:

Este antigo castelo tinha recordações de glória. Os nossos maiores, porém, curavam mais de praticar façanhas do que de conservar monumentos delas. Deixaram, por isso, sem remorsos, sumir nas paredes de um claustro pedras que foram testemunhas de um dos mais heróicos feitos de corações portugueses (Lendas, I:191)

É, talvez, porém, n'A Abóbada, publicada em O Panorama em 1839, que encontramos prova inequívoca do amor de Herculano pela pátria. Assim, o inflamado discurso do mestre Afonso Domingues, reclamando para um Português a construção do mosteiro da Batalha e condenando que tal empresa seja confiada a mestre Ouguet cuja alma "não é aquecida à luz do amor pela pátria" (Lendas, I:212), torna-se um veículo apropriado para lançar em rosto dos leitores a importância do legado dos seus antepassados à qual têm fechado os olhos. A esta luz se compreende igualmente o comentário de Herculano em Arras por Foro de Espanha, cuja publicação se inicia em O Panorama em 1841, sobre Santa Maria Maior: "Como as da igreja, as ruínas da monarquia dormem em silêncio à roda de nós, e, envolto nos seus eternos farrapos, o povo vive eterno em cima ou ao lado delas, e nem sequer indaga porque jazem aí" (Lendas, I:76). Para combater a passividade da sua geração no que respeita a salvaguarda do seu espólio cultural Herculano não se furta igualmente a explicar, em termos gerais, a importância dos monumentos do passado no presente e no futuro. Assim, em "Duas Épocas e Dois Monumentos ou A Granja Real de Mafra" Herculano defende que:

Um grande edifício, fosse qual fosse o destino que seu fundador lhe quisesse dar, é sempre e de muitos modos um livro de história (...) Os castelos, os templos, e os palácios, tríplice género de monumentos que encerra em si toda a arquitectura da Europa moderna, formam uma crónica imensa, em que há mais história que nos escritos dos historiadores (Opúsculos, II:139)

Tal afirmação parecerá, talvez, banal ao leitor do nosso século; tratou-se, porém, de uma necessária chamada de atenção aos contemporâneos do romancista que, na generalidade, ou se confinavam um estado de profunda letargia ou se compraziam na destruição dos monumentos que lhes tinham sido legados. Na Introdução de O Monge de Cister Herculano retrata com minúcia estes últimos ao apontar para o "descrer brutal" do seu século "que a história distinguirá pelo epíteto de bota-abaixo e cujo legado monumental para os séculos que virão após ele será um cemitério imenso" (Monge, I:17). Para contrariar a destruição reinante o romancista dá a lume uma obra em que Lisboa surge rejuvenescida e plena de vida, reconstruindo "em imaginação" os monumentos que já não existem. E embora sabendo, de antemão, a enormidade da tarefa que meteu a ombros, demonstra, uma vez mais, ser dotado de invulgar persistência sempre que está em causa pugnar pelo desenvolvimento do seu país.

No seu tempo Herculano nunca foi devidamente compreendido e o vigor da sua mensagem não foi, por vezes, suficiente para abalar preconceitos estabelecidos ou ameaçar a ordem instalada. Continua, porém, a merecer atenção o seu entusiasmo pelo causa pública e a forma desinteressada com que se entregou ao seu labor. Ruskin foi igualmente incansável na sua luta em prol da preservação do património do seu país. A sua acção, à semelhança de Herculano, não foi tão bem sucedida quanto o autor vitoriano almejava. Mas a forma desassombrada como apontou, em múltiplas ocasiões, os males que corroíam a sociedade sua contemporânea é hoje considerada uma das mais importantes acções levadas a cabo no seu século.

3. Passado(s) na Primeira Pessoa

Se é certo que Ruskin se bateu ferozmente pela preservação dos tesouros patrimoniais do seu país, destacando a importância de resguardar o passado da avidez de progresso dos Homens da sua geração, não é menos importante a forma como equaciona o seu espólio de recordações. Nesta secção procurarei, pois, apreciar a forma como Ruskin lida com o seu passado enquanto herança pessoal e quais as consequências da sua abordagem quer no que respeita à obra criada, quer ao nível das expectativas do leitor.

a) O Passado Presente e o Ideal sonhado

Ruskin escolhe duas formas de (re)visitar o seu passado: através de fragmentos autobiográficos entretecidos em Fors Clavigera: Letters to the Workmen and Labourers of Great Britain (1871-1884) e através da sua autobiografia, Praeterita, sugestivamente subintitulada Outlines of Scenes and Thoughts Perhaps Worthy of Memory in my Past Life4 (publicada em três volumes de 1885 a 1889 e inacabada por motivo de doença). A importância dos fragmentos autobiográficos incluídos em Fors Clavigera foi primeiramente posta em relevo por Finley (1987) a quem não escapou que tais fragmentos muito tinham a dever a uma reflexão paralela levada a cabo por Ruskin em tais cartas - referimo-nos à tentativa (bem sucedida) do autor vitoriano de aí encetar uma breve biografia de Walter Scott. É, pois, através da biografia de Scott que Ruskin começa a ganhar o fôlego necessário para se lançar no projecto ambicioso que Praeterita constitui. Ou seja, tal como aponta Finley, "Ruskin's impulse to autobiography carried him through from Sccott's life to his own, particularly from Scott's youth to his own early life spent among his Scottish family and relatives" (Finley, 1987:550). Ao rever o seu passado em Praeterita Ruskin irá, de facto, seleccionar episódios da sua infância e descrever características da sua família que, por semelhança ou contraste, se relacionam estreitamente com o passado de Scott por si descrito, sobretudo nas cartas trinta e um a trinta e três de Fors Clavigera. Os aspectos abordados por Ruskin nas cartas que dedica em exclusivo à biografia do seu herói podem ser agrupados da seguinte forma:

(a) antepassados de Scott que permitem dar prova de que o autor de Waverley pertence ao que Ruskin denomina de "purest Border race" (565);

(b) infância e juventude de Walter Scott passada em terras Escocesas, predominando o contacto com a natureza,

(c) educação ministrada com zelo pelos familiares de Scott que desde muito cedo privilegiaram a leitura como exercício obrigatório para o futuro romancista. Particular destaque é dado por Ruskin ao papel desempenhado respectivamente pela mãe, avó e tia na educação do seu herói.

Ora são exactamente estes três aspectos que Ruskin utilizará como termo de comparação na sua autobiografia (embora, evidentemente, não o admitindo), considerando-os dignos de menção pela forma como o marcaram ao longo da vida e influenciaram futuras decisões. Assim, se concordamos, como sublinha Walsh (1990:46), não ser por acaso que Praeterita comece e termine com menções a Scott, julgamos serem mais relevantes os momentos em que Scott está explicitamente ausente mas implicitamente presente. Tal acontece sobretudo nos capítulos que Ruskin dedica a rever a educação recebida durante a infância (capítulos I-V) nos quais vai entretecendo a caracterização de membros da família, especialmente os tios e os primos Escoceses, e no capítulo reservado em exclusivo aos pais (capítulo VII). Ao longo dos capítulos I-V Ruskin chama a atenção do leitor para o facto da sua educação, tal como a de Scott, ter ser sido objecto de grandes cuidados por parte dos pais, imperando a disciplina. Por outro lado, graças à vontade do pai, John James Ruskin, de dar a conhecer ao filho o mundo que o rodeava, a família todos os anos partia à descoberta de lugares tão diversos quanto a França, a Bélgica, a Itália e a Suíça.

É, porém, à Escócia e aos seus familiares Escoceses que Ruskin confere maior relevo na sua autobiografia, sobretudo aos tios de Croydon e de Perth (Praeterita, 45-51; 65-67 e 322-323). No último capítulo da sua autobiografia fica, de resto, patente quão a sua relação com a Escócia o marcou durante toda a vida não só pelos momentos de rara liberdade passados com os primos mas também pelo facto de lhe permitir estabelecer um elo mais forte com o seu herói, Walter Scott. Não admira, pois, que se esforce por identificar os seguintes traços comuns a ambos: 1) a paixão pela Escócia; 2) a sensibilidade e gosto pela língua Inglesa e pelos dialectos Escoceses e 3) o gosto apurado pela música Escocesa. Para que tal se torne claro aos olhos do leitor Ruskin descreve com entusiasmo o cenário Escocês e aponta exemplos dos romances de Scott que confirmam quão semelhante é a paixão que os une à Escócia (Praeterita, 437; 443-444); elogia o destaque que Scott confere aos dialectos Escoceses - orgulhando-se de ter aprendido o "old, classic, Galloway Scotch" (Praeterita, 432) - e lamenta que a maioria dos Ingleses desconheça a sua riqueza (Praeterita, 434); chama a atenção para o carácter único da música Escocesa que Scott põe em relevo nos seus poemas e classifica-a como única (Praeterita, 437; 442).

Ao passado da sua infância em que procura encontrar pontos de contacto com a de Scott e à identificação, bem sucedida, de características comuns a ambos, opõe-se a descrição de memórias de uma passado que é doloroso a Ruskin recordar. Assim, o autor vitoriano é sobremaneira amargo em relação ao largo quinhão que a educação religiosa ocupou, desde cedo, nos ensinamentos recebidos. Veja-se, por exemplo, os termos em que descreve a leitura diária da Bíblia:

It is only by deliberate effort that I recall the long morning hours of toil, as regular as sunrise, - toil on both sides equal - by which, year after year, my mother forced me to learn these paraphrases, and chapters (...) allowing not so much as a syllable to be missed or misplaced while every sentence was required to be said over and over again till she was satisfied with the accent (Praeterita, 27-28)

O tom doloroso que acompanha recordações associadas com a disciplina que lhe era impossível não cumprir perpassa também no relato dos Domingos5 em que lhe era vedada qualquer hipótese de diversão, sendo o dia consagrado à reflexão e à missa. Assim, ao contrário de Herculano que, em O Monge de Cister, recorda com saudade os seus "Domingos dos doze anos" em que "o seu espírito infante se harmonizava com o hino eterno da natureza" (Monge, II:34), Ruskin relembra:

I found the bottom of the pew so extremely dull a place to keep quiet in (my best story-books being also taken away from me in the morning) that, as I have somewhere said before, the horror of Sunday used even to cast its prescient gloom as far back in the week as Friday - and all the glory of Monday, with church seven days removed again, was no equivalent for it (Praeterita, 14-15)

Este desalento manifestado em relação a algumas actividades que faziam parte da rotina da sua infância - cuja finalidade principal era prepará-lo para atingir uma posição social elevada - explica, talvez, em parte, que Ruskin sonhe com um passado diferente do seu e expresse tal desejo, múltiplas vezes, ao longo da autobiografia. É, aliás, sintomático que em tais momentos Ruskin atribua, em grande parte, aos pais, a responsabilidade por não terem dado um rumo distinto aos acontecimentos. Assim, ao recordar a primeira viagem que fez com os pais a Wales e o entusiasmo que nele despertou para o estudo dos minerais, Ruskin deixa escapar o quão lamenta a atitude adoptada por John James e Margaret Ruskin em tais circunstâncias:

And if only then my father and mother had seen the really strengths and weaknesses of their little John; - if they had given me but a shaggy scrap of a Welsh pony, and left me in charge of a good Welsh guide, and of his wife, if I needed any coddling, they would have made a man of me there and then, and afterwards the comfort of their own hearts, and probably the first geologist of my time in Europe (Praeterita, 72)

Eata análise de Ruskin é sobremaneira exagerada se tivermos em conta o esforço levado a cabo pelos pais para que o filho granjeasse mérito junto dos seus contemporâneos. No entanto, do ponto de vista de Ruskin, o que poderia ter acontecido se lhe tivessem facultado a independência que irá reclamar durante quase toda a sua vida abre espaço a um passado sonhado que, momentaneamente, o convida a visualizar um outro futuro. Ruskin não considera apenas que os pais constituíram um obstáculo a que fosse um geólogo de renome; atribui-lhes, também, igual responsabilidade no que concerne a sua felicidade no plano amoroso. De facto, em Praeterita, Ruskin relembra como o encanto que lhe proporcionou a breve visita de Charlotte Withers foi irremediavelmente quebrado pelos pais, negando-lhe uma felicidade que nunca viria a obter:

If my father and mother had chosen to keep her a month longer, we should have fallen quite melodiously in love, and they might have given me an excellently pleasant wife, and set me up, geology and all, in the coal business, without any resistance or farther trouble on my part. I don't suppose the idea ever occurred to them; Charlotte was not the kind of person they proposed for me (Praeterita, 175)

O passado sonhado por Ruskin é, mais uma vez, por si apontado como colocando-se nos antípodas dos planos dos pais; a sua atitude, porém, não deixa de ser ambivalente: os pais são condenados por exercerem a sua vontade mas não há qualquer esforço de responsabilização individual, da sua parte, pelo facto de não ter tomado nenhuma atitude que alterasse a situação, convertendo-a a seu favor. Pensamos que os dois exemplos apontados6 mostram com clareza o posicionamento que Ruskin constantemente adoptou ao longo da vida em relação à sua felicidade pessoal, i.e., nunca teve coragem de tomar as rédeas do seu destino. Paradoxalmente Ruskin sempre instigou os eus contemporâneos a lutarem em prol da felicidade a que tinham direito e a perseverarem nos seus intentos. O que a autobiografia deixa, porém, a nu, é a sua dificuldade extrema em lidar com um passado que o aprisionou e que continua a ser motivo de insatisfação pessoal; neste sentido, o mérito que alcançou através da sua obra nunca teve o poder suficiente para afogar as lágrimas de um passado perdido. É o que transparece na auto-análise que, por entre recordações, faz de si próprio: "Some of me is dead, more of me stronger. I have learned a few things, forgotten many; in the total of me, I am but the same youth, disappointed and rheumatic." (Praeterita, 174).

b) O Passado Ausente

Esta breve viagem pela autobiografia de Ruskin ficaria irremediavelmente incompleta sem a referência a dois importantes marcos da vida do autor vitoriano: a sua paixão por Rose La Touche e o casamento com Effie Gray o qual não é, de todo, mencionado em Praeterita. É certo que esta parte do seu passado que Ruskin opta por omitir é um passado doloroso; e, no prefácio da autobiografia, o autor comunicara a sua intenção de condenar a "total silence things which I have no pleasure in reviewing, and which the reader would have no pleasure in reviewing, and which the reader would find no help in the account of"(Praeterita, 3). É relevante, todavia, tentar descortinar o modo como a relação que Ruskin estabeleceu com estas duas mulheres tem considerável impacto na forma como o autor se revê e como o público o vê.

O encanto por Euphemia Gray não durou muito: casaram a dez de Abril de 1848 e em 1854 o casamento foi anulado por não ter sido consumado. No entender de Batchelor (2000), autor de uma das mais recentes biografias do génio vitoriano, a explicação para tal fracasso é relativamente simples: a pressão exercida pelos pais contribuiu para o desequilíbrio emocional de Ruskin, impedindo-o de alcançar a felicidade pela qual lutou sem qualquer sucesso. Sentindo que falhou no seu casamento e que tal insucesso contribuiu para desapontar (e humilhar) os pais Ruskin apaga a referência do seu passado. O público continua hoje a especular acerca do fracasso matrimonial de Ruskin, considerando-o exótico.

A paixão de Ruskin por Rose La Touche é, por seu turno, um dos episódios mais conhecidos da sua vida, tendo recentemente sido caracterizado por Hilton (2000) como a relação que mais marcou o autor vitoriano a partir de 1850. Em Praeterita Ruskin menciona apenas dois pormenores acerca de Rose La Touche: o momento em que a conheceu (1858) e a primeira carta que ela lhe escreveu (Praeterita, 416-417). O vivo retrato que dela pinta é uma singela homenagem ao amor trágico que nele despertou uma criança com dez anos à qual viria a propor casamento oito anos mais tarde. A morte de Rose poria, de resto, fim, a tal paixão. A breve menção a Rose La Touche permite, pois, apenas vislumbrar uma das mais importantes parcelas do passado do autor vitoriano; mas, dada a sua habitual relutância em revelar as sua emoções (Fellows, 1975:175), pensamos ser esta uma ocasião a assinalar no percurso através do qual Ruskin nos vai (des)orientando em Praeterita. Parece-nos pertinente, neste contexto, o juízo que Coetzee (1984) emite acerca dos que escolhem partilhar connosco as suas memórias: "An autobiographer is not only a man who once upon a time lived a life in which he loved, fought, suffered, strove, was misunderstood, and of which he nows tells a story; he is also a man engaged in writing a story" (Coetzee, 1984:5). Enquanto leitores resta-nos, talvez, aceitar o desafio lançado pela história contada e embrenhar-nos em factos e ficções que, afinal, constituem a trama de tantos passados que teimam (re)visitar momentos do presente e não se acanham em prolongar-se futuro adentro.

Conclusão

Herculano e Ruskin gozaram de considerável prestígio no seu tempo e revelaram possuir um notável espírito combativo . A sua pena desenhou com vivacidade os caracteres com que combateram em prol da pátria e nem um nem outro temeu lançar em rosto dos adversários as verdades que não conseguiam calar. Embora em circunstâncias diferentes, ambos procuraram instigar os seus contemporâneos a ver o passado como fonte de ensinamento para um presente caracterizado por convulsões sociais e políticas.

Nunca encarando o passado com uma nostalgia perniciosa Herculano clamou por mudança, dando alento aos seus contemporâneos para que fossem obreiros de uma sociedade mais justa. Olhando o passado com perspicácia, procurou estabelecer um diálogo frutífero com os leitores, sugerindo-lhes que lançassem mão da sua boa vontade e se transformassem em guardiões da História.

Ruskin lutou pela mudança no seu país, oferecendo aos seus leitores matéria de reflexão sobre a urgência de preservar o espólio nacional e de legar tal tesouro às gerações vindouras. Insistindo na irreparável perda das tradições Inglesas, sobretudo no respeitante ao património arquitectónico, Ruskin raramente perdeu a oportunidade para intervir nos destinos da sua pátria. A sua forma de lidar com a sua bagagem de memórias, misto de ficção e realidade, pode também ser encarada como um testemunho do carácter do homem obstinado que jamais soçobrou diante de dificuldades e colocou, acima de tudo, a pátria.

 

Referências

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COETZEE, J.M. (1984) Truth in Autobiography. Cape Town: University of Cape Town

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CUSTÓDIO, J. e GARCIA, J.M. (1982-1987) Opúsculos de Alexandre Herculano. Seis volumes. Lisboa: Editorial Presença

COCKSHUT, A. O J. (Ed.) (1994) Praeterita. Outlines of Scenes and Thoughts Perhaps Worthy of Memory in My Past Life. Keele: Ryburn Publishing/Keele University Press

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HERCULANO, A. (s/d) O Monge de Cister I. Mem Martins: Publicações Europa-América

____________________(s/d) O Monge de Cister II. Mem Martins, Publicações Europa-América

____________________(1992) Lendas e Narrativas I. Prefácio e Revisão de Vitorino Nemésio. Verificação do Texto e Notas por António C. Lucas. Venda Nova: Bertrand Editora

HILTON, T. (2000) John Ruskin. The Later Years. New Haven and London: The John Hopkins University Press

O'GORMAN, F. (1999) John Ruskin. Stroud: Sutton Publishing

WALSH, S. (1991) "Ruskin's Praeterita and the Mediated Self," Victorians Institute Journal, vol.19, pp.41-70

WHEELER, M. (Ed.) (1995) Ruskin and Environment. The Storm Cloud of the Nineteenth Century. Manchester: Manchester University Press

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NOTAS:

* Docente da Escola Superior de Educação Jean Piaget - Viseu.

1 Todas as citações referentes à obra de John Ruskin, com excepção das respeitantes à sua autobiografia, Praeterita, fazem parte da edição organizada por Cook e Wedderburn (1903-1912) e aparecem indicadas no texto pelo número do volume, em numeração romana, seguido da(s) página(s) em que se encontram. Cf. XXXV:551-552.

2 Cf. Opúsculos de Alexandre Herculano, IV:60. O critério de citação seguido é em todo semelhante ao descrito na nota anterior com excepção da fonte. Trata-se, desta feita, da excelente edição crítica dos Opúsculos de Alexandre Herculano levada a cabo por Jorge Custódio e José Manuel Garcia, editada pela Presença.

3 A relação de Ruskin com o meio ambiente e a forma como influenciou a sua geração ficam patentes em Wheeler, 1995.

4 Todas as citações referentes a Praeterita correspondem à edição crítica editada por Cockshut, 1994.

5 São múltiplas as circunstâncias em que Ruskin menciona a ansiedade e terror com que encarava os Domingos na infância e o modo como tais impressões o acompanharam pela vida fora. Cf. Praeterita, 5; 27; 85; 100; 151; 267 e 390.

6 Conferir igualmente Praeterita, 135-138; 177; 180; 235.

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