Acorrentados à pimbalhice televisiva

Vitor Manuel Tavares Martins *

"Amigo, oculta a tua vida e expõe o teu espírito."

Victor Hugo

 

 

Agora é o tempo em que não há tempo para o essencial. Agora é o tempo em que só há tempo para a pimbalhice, para a preguicite intelectual, para a coscuvilhice.

Na gestão do nosso tempo diário, damos muito tempo à televisão. Esta assume em muitos casos a função de ama electrónica para muitas crianças. É um descanso para os pais! Até nos quartos dos rebentos já tem presença obrigatória, a tv! Pode não haver uma mesa para o filho fazer os deveres escolares, para ler um bom livro ou para exercitar a escrita, no caderno ou no computador, mas para pousar a TV tem de haver! É um descanso! Habituamo-nos!

Assim, ganhamos tempo para tudo o resto, menos para o essencial -- as interacções que dão corpo a uma sólida e humanizante educação! Para o essencial já não temos tempo. E as crianças e jovens lá ficam entregues à ama electrónica, numa teledependência crescente. Habituam-se!

Como podia ser de outra maneira se também os pais se tornam, nestes tempos de alienação, consumidores compulsivos e acríticos da pimbalhice, do colorido espectáculo da degradação do homem. Confortavelmente sentados no sofá do amorfismo, bovinamente atentos à patetice, à javardice, embrutecemos. E pior do que tudo, habituamo-nos! Já Einstein dizia que um génio é aquele que continua em adulto a fazer perguntas de criança porque se recusou a engolir a papinha feita e a transformá-la num hábito, que nunca se questiona. Encalhamos no nosso cantinho do sofá e, olhos esbugalhados, anafamos o nosso génio, o nosso pensamento, o nosso espírito, face a uma qualquer excitação de paroleira televisiva, quanto mais alarve e estupidificante melhor. Basta ter meia dúzia de ingredientes: uns tantos fechados numa casa, umas correntes à mistura, nudez o mais possível, umas trocas e baldrocas pelo meio, pontapés na gramática mais que muitos, muitas câmaras indiscretas, telefonemas e publicidade e pronto! Temos programa. Ei-los embasbacados e presos ao écrã!

Tristes tempos estes em que tão pouco basta ao telespectador. São estes os valores com que as nossas crianças e jovens vão convivendo, graças à TV que temos, à política audiovisual que os nossos governantes criam e, sobretudo, aos pais/educadores que não sabemos ser. O que interessa é a fama, é o dinheiro a qualquer preço. Para isto já há tempo, já há tempo para o voyerismo, para a opacidade cultural, para o vil metal, para o facilitismo, para a pimbalhice, para as balbúrdias morais e éticas. O que é preciso é distrair o povo, seja de que maneira for, como se estivéssemos ainda no tempo do coliseu romano, com o sangue a servir de circo ao povo. Parece que, sob muitos aspectos, não aprendemos nada com a história.

E já agora porque não um show televisivo que...

- ponha os residentes a pão e água de cada vez que expressem determinadas pérolas verbais?

- feche os directores das estações televisivas na casa de banho da tal casa e os obrigue a redigir uma Cartilha da Privacidade?

- filme em directo os partos das damas do jet set deste país?

- feche nas casas de banho os candidatos e filme em directo as respectivas mundividências nesse espaço?

- dê guarida nessa casa as estrangeiros imigrantes que, do leste, têm vindo para o nosso país trabalhar?

- dê os milhares de contos de prémio aos que mais arrotem durante o tempo de permanência na tal casa?

- algeme os concorrentes e verifique quanto tempo e como sobrevivem?

- faça elaborar, por cada par de concorrentes, um dicionário do frenético voyerismo, do omnipresente disparate e das ocas banalidades?

- leve os concorrentes, sempre vendados, a entregar-se à prática sexual sem saber com quem, sempre em directo?

- torture os concorrentes com a presença de livros e de computadores na tal casa, acorrentando-os à leitura, à pesquisa e à expressão escrita?

Bom, podíamos continuar, mas já não há tempo, pois agora é o tempo em que não há tempo para o essencial. Agora só há tempo para o niilismo. Pobres tempos, estes, os do começo do século e do milénio. O simbolismo destes tempos merecia outra televisão, outros telespectadores. Como aquele (Sérgio Gordinho) que disse que o Big Brother e Os Acorrentados são programas culturais, pois, logo que começam, fazem-no mudar para outra divisão da casa para ler um bom livro, contribuem pois para a sua cultura. Ainda há quem pense neste país! Assim, sim!

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* Professor Efectivo da Escola Básica do 2 e 3 Ciclo de Valongo do Douro Águeda.

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