Depois da tempestade vem a bonança

ou

Um dia no bar da esquina

Vitor Manuel Tavares Martins *

Algures num Portugal em brasa, no Portugal de noventa, um cromo farsola, da estirpe rasca, preparava, num vaipe esgazeado e febril, um esquema bué de chunga. A bejeca vazava ininterruptamente até às botifarras. O man bem lhe tinha dito que aquele líquido era fixe nestas cenas. As ideias jorravam-lhe bué rapidamente da carola e o plano estava quase concluído.

No entanto, do outro lado do bar, uma perturbação começava a tripar-lhe a clarividência. A febra, pernas, que eram o máximo, até ao belo sorriso, impunha-lhe uns olhos azuis de fogo, que dominavam tudo. Deu-se conta de galar aqueles olhos malditos, num afiambrar desconcertante e refundido. Deu-se conta daquela ganza naice lhe controlar o corpo e a alma num tempestuosa desbunda baril. Yá, era realmente! Só lhe apetecia zarpar!

Mas a entrada de dois xotas melgas quebrou a curtição em mil estilhaços. Os chibos empestaram o clima, agora cagativo e foleiro. Tinha a fezada que a cena ia abortar, pois os cucos tinham vindo abardinar tudo.

Encharcou mais uma bejeca e, num rompante, o cromo passou-se: caiu para o lado, numa letargia de vómito e de inconsciência. Foi acalmar para a brisa durante essa noite.

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* Professor Efectivo da Escola Básica do 2º e 3º Ciclo de Valongo do Douro – Águeda.

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