Anos 20 : maldição ou bênção para Babbitt?

Ana Maria Pereira Lopes *

 

 

O romance Babbitt, de Sinclair Lewis, foi publicado no ano de 1922, dealbar de uma época reconhecidamente conturbada e controversa: a década de 20. O presente trabalho tem por objectivo averiguar em que medida a mundividência de Babbitt deixa transparecer factores de pendor ideológico, núcleos temáticos e sócio - culturais que, corroborados com outros vectores periodológicos, constituem um universo imaginário, onde as suas coordenadas podem perfeitamente servir de base para que a época em questão possa ser reconstituída. É que, não obstante estarmos conscientes de que o texto literário tem como característica primeira a ficcionalidade, sabemos também que o discurso estético mantém com o mundo empírico uma inevitável e indelével correlação semântica. Também considerámos que seria pertinente incluir algumas breves achegas relativas aos temas que Sinclair Lewis privilegiou nas suas obras, por nos parecerem elementos elucidativos para uma visão mais sólida do seu universo ficcional.

Sinclair Lewis foi um descendente da linha de Cooper, Emerson, Thoreau, Whitman e Twain e, tal como os citados autores, revoltou - se contra os efeitos insidiosos da cultura de massas e contra a estandardização do comportamento humano. O seu olhar crítico pousou sobre o modus vivendi dos habitantes nas pequenas "vilórias " (Main Street); sobre a capitulação da Ciência aos desígnios de uma sociedade materialista (Arrowsmith); sobre a corrupção no seio da Igreja (Elmer Gantry), ou sobre o universo dos "cansados homens de negócios"1, como é o caso de Babbitt.

No início da década de 20, pairava no ar um sentimento de alívio: por um lado, porque tinha terminado a guerra e os soldados tinham regressado aos seus lares; por outro, porque a "Prohibition Amendment" viera finalmente pôr cobro à lassidão e á falta de eficiência das classes trabalhadoras.

Mais do que sentir-se simplesmente aliviado, o "Average Citizen" rejubilava. Vencidos os perigos de uma guerra que o esgotara fÍsica e moralmente, e liberto da "tirania" de oito anos de "Nova Liberdade" Wilsoniana, o cidadão americano da classe média podia finalmente alhear-se de outras responsabilidades que não fossem as de prover pelo sustento da família, conservar os costumes americanos, ou, simplesmente, divertir-se. Ao que tudo indica, a resposta aos seus anseios (sobretudo ao último) não se fez esperar: na década de vinte - graças a três fadas - madrinhas que os três presidentes republicanos tão bem personificaram - a classe média gozou de uma prosperidade sem limites na história daquela nação. Foi ainda graças à política dos três presidentes americanos (Harding, Coolidge e Hoover) que o homem de negócios pôde assumir uma postura de altivez e auto-confiança, que testemunharam bem da sua inamovível convicção de que quer Deus, quer o clima socioeconómico eram favoráveis ao aparecimento do espírito mercantilista.

Efectivamente, durante dois anos a obra The Man Nobody Knows foi um "best-seller". Sustentava - se, na referida obra, que Jesus Cristo fora "a great executive", uma vez que escolhera doze homens e os juntara numa organização-modelo que conquistara o mundo. Por outras palavras, Cristo fora o criador dos modernos negócios. Nesta perspectiva, um grande armazém era comparável a um templo, sendo as funções de um patrão e de um sacerdote equivalentes, e o serviço do cliente semelhante ao culto religioso.

Num artigo de "Atlantic Monthly", Earnest E. Calkins dá-nos conta da confiança ilimitada que a América depositava no homem de negócios:

The work that religion, government and war have failed in must be done by business (...) that eternal job of administering this planet must be turned over to the despised businessman2.

Assim , o homem de negócios depressa se converteu em paradigma a ser imitado

The political leaders were chosen for their alleged business acumen, and its spokesmen were business men. When universities awarded their annual crop of honorary degrees, it was the bankers and industrialists who were selected as worthy to be called doctors of laws and of literature. Clergymen and teachers tried to disguise themselves as business men, and the teachings of the church and the schools were controlled by the ideals of the Rotary Club; every university hastened to establish a school of business administration to give its students vocational education, and to advertise the financial rewards of a college degree. Social conduct came to be directed toward success in business; art became commercial and literature a branch of advertising Pragmatism, to the sorrow of its formulators, was cheapened to the philosophy of material success3.

Atente-se agora no comentário de George F. Babbitt, e note-se como este reflecte toda a jactância que o homem de negócios da década de 20 não se inibiu de ostentar:

Mighty few fellows putting down eight thousand dollars a year-eight thousand good iron dollars -but there isn 't more than five per cent of the people in the whole United States that make more than Uncle George does, by golly ! Right up at the top of the heap4.

É de presumir que Babbitt proferiria as suas palavras num tom solene e auto- confiante.

Um dos aspectos que gerou maior controvérsia nesta década tão multifacetada foi, sem dúvida, a Lei da Proibição, imposta em Janeiro de 1920, através do "The Volstead Act", instrumento legal da 18ª Emenda à Constituição. Mediante esta lei, o fabrico, o transporte e a venda de qualquer bebida alcoólica estavam interditos em toda a extensão do território dos Estados Unidos da América. A aplicação desta lei veio dar cumprimento às reivindicações que alguns sectores da sociedade (onde imperava um maior conservadorismo) há muito vinham fazendo. Entre outros exemplos, lembremos que, já no limiar do século , um conjunto de mulheres sulistas, auto-denominando-se "The Purity Crusade", se insurgiram contra o consumo de álcool, argumentando que a ingerência de bebidas alcoólicas predispunha à violência, sobretudo entre os negros. Também os industriais reagiram favoravelmente à aplicação da "lei seca", já que acreditavam que esta viria diminuir consideravelmente os acidentes de trabalho. A multiplicação dos automóveis alertava para o perigo que representava qualquer condutor ébrio. Henry Ford observava: A velocidade a que conduzimos as nossas viaturas, dirigimos as nossas complicadas máquinas e a maneira como vivemos seriam impossíveis se as bebidas fortemente alcoolizadas fossem toleradas. Por outras palavras, mais valia embriagar-se de velocidade do que de álcool.

Estas constituíram ,todavia, as únicas respostas favoráveis ao "The Act", já que a restante população se mostrou indignada com uma lei que considerava absurda. Assim, para a juventude, por exemplo, o "speakeasy" (bar secreto escondido num subsolo) e a "hip-flask" tornaram-se símbolos de desafio à sociedade.

Bebia- se mais nas cidades do que no campo, mais no Leste do que no "Middle West", mais entre as classes ricas do que entre o povo. O "salloon" fora sórdido; o "speakeasy" era elegante . O "cocktail" substituiu o vinho, podendo, por vezes, os dois misturarem-se. Cidadãos honestos receberam em casa bandidos perigosos que lhes forneciam álcool. O "cocktail party" veio a ser o modo de recepção preferido. O "bootlegger" (vendedor de álcool de contrabando) tornou-se um profissional. Nas grandes cidades, o monopólio do contrabando era normalmente apanágio de um "gangster", que fazia fortunas avultadas, enquanto os seus homens se divertiam a espalhar o terror e a violência entre os habitantes.

Estes senhores feudais da pilhagem instituíram tributo às casas de jogo, de prostituição, às discotecas e até sobre negócios tranquilos, como lavandarias, oficinas de automóveis, peixarias, etc. Era necessário aceitar a sua protecção ou expor - se a actos violentos que podiam ir até ao assassinato.

O "racketeer" criava, por exemplo, uma associação de cabeleireiros, da qual todos os profissionais do ramo deveriam fazer parte, mediante pagamento de uma quota elevada. No entanto, se acaso um deles recusasse, uma "comissão de educação" invadir-lhe-ia o estabelecimento, derruindo todo o seu recheio. Este aviso prévio, que geralmente era compreendido, caso não o fosse, acarretaria, como consequência, o delíquio.

O automóvel e as armas automáticas facilitaram a tarefa dos criminosos. Além disso, a policia dos diversos estados encontrava-se então mal preparada para cooperar entre si. Não tardou, portanto, que os policiais se cansassem de prender (pondo em risco as suas próprias vidas) , poderosos "gangsters", que, pouco tempo depois , por influência política, seriam postos em liberdade.

Toda esta atmosfera de inquietação social se concatenou com importantes transformações ao nível da Ciência e da Técnica. Corolário dos novos avanços científicos foi sem dúvida a sofisticação das técnicas publicitárias que se tornaram, no decurso da "Era do Jazz", mais eficazes e agressivas:

Just as he was na Elk, a Booster, and a Member of the Chamber of Commerce (...) so did the large national advertisers fix the surface of his life, fixed what he believed to be his individuality5.

Foi, aliás, graças às novas técnicas publicitárias que os jornalistas puderam fabricar uma nova geração de ídolos desportivos que, elevados quase à categoria de divindades, exerciam um fascínio irresistível sobre um público ávido de heróis.

Theodore Roosevelt Babbitt (filho de George F. Babbitt ) não ficou imune a esta "ídolo-mania" (se assim se pode chamar a este culto exagerado pelo herói, o herói do relvado ou o herói do ecrã), e foi com pesar que George F. Babbitt se apercebeu de que a Academia não estimulara o entusiasmo de Ted pelos livros:

This September Ted had entered the State University as a freshman in the College of Arts and Sciences. The University was at Mohalis, only fifteen miles from Zenith, and Ted often came down for the week-end. Babbitt was worried Ted was 'going in' for everything but books. He had tried to' make' the football team as light half-back, he was looking forward to the basket-ball season, he was on the committee for the Freshman Hop, and (as a Zenithite, an aristocrat among the yokels) he was being 'rushed' by two fraternities. But of his studies Babbitt could learn nothing save a mumbled Oh, gosh, these old stiffs of teachers just give you a lot of junk about literature and economics6.

Também a produção em série, em obediência a padrões de uniformização, atingiu , no decurso dos anos 20, um crescimento sem precedentes, propiciando a emergência de comportamentos estandardizados e estereotipados ao nível individual.

É neste contexto que nos surge Babbitt, protótipo do "Standard American" Citizen", misto de complacência e optimismo, firme na sua convicção de que os Estados Unidos da América haviam descoberto a fórmula para o sucesso numa classe média simultaneamente produtiva e materialista, ostentadora e superficial.

Dr. Kurt Yavitch, notável histologista, habitante da pequena cidade de Zenith (espaço ficcional em que a personagem Babbitt se movimenta), ao alertar para os perigos que a estandardização indiscriminada poderá representar, deu voz à desconfiança de alguns observadores mais atentos, mesmo à do romancista:

No, what I fight in Zenith is standardization of thought, and, of course, the traditions of competition. The real villains of the peace are the clean, kind, industrious Family Men who use every known brand of trickery and cruelty to ensure the prosperity of their cubs. The worst thing about these fellows is that they are so good , and, in their work at least, so intelligent. You can 't hate them properly, and yet their standardized minds are the enemy7.

O próprio Babbitt, num momento em que a doença o obrigou à reflexão, se sentiu angustiado, ao constatar que o espectro da normalização pairava sobre si:

With no Vergil Gunches before whom to set his face in resolute optimism, he beheld, his way of life as incredibly mechanical. Mechanical business - a brisk selling of badly built houses. Mechanical religion - a dry, hard church, shut off from the real life of the streets, inhumanly respectable as a top - hat. Mechanical golf and dinner parties and bridge and conversation. Save with Paul Riesling, mechanical friendships - back - slapping and jocular, never daring to essay the test of quietness8.

Certas da eficácia da publicidade, as instituições de ensino serviram - se, de forma indelével, desta técnica, para concitar ao ensino universitário. A mensagem era clara : um grau académico conferia ao seu titular, não apenas conhecimentos, mas também prestígio social, e fundamentalmente fácil acesso e sucesso garantido no mundo dos negócios.

O número de inscrições em estabelecimentos de ensino universitário duplicou no período compreendido entre 1920 - 1930, facto que atesta bem o impacto da referida campanha. Porém , este súbito apreço decorria fundamentalmente da iminente possibilidade de realizar uma ambição pecuniária, sendo o desejo genuíno de aprender postergado para segundo plano.

Assim, com igual entusiasmo ao que evidenciara pelos negócios e pelo desporto, o homem da década entregava - se agora a um aparente culto do intelecto, tomando como modelo o jovem universitário. Correram rios de tinta e toneladas de papel foram gastas na descrição de estilos, modos, discurso e tradicionais irreverências dos estudantes. Aliás, toda a juventude se converteu subitamente em ícone, tratado com auras de grande sensacionalismo. Uma simples alusão aos anos 20 tem, por isso, o efeito de evocar a primeira visita ao "speakeasy", a primeira experiência sexual (que a privacidade e intimidade do automóvel proporcionava), a procura de uma felicidade concreta e imediata, etc.

Invocava-se Freud para sustentar que todas as neuroses provinham de complexos provocados pela repressão do instinto sexual. Emancipação tornou-se a palavra de ordem, quer se tratasse de sensualidade, quer de direito ao consumo de bebidas alcoólicas.

A moda, o dispêndio de dinheiro em bens efémeros e superficiais, a procura de novas sensações provocadas pelo álcool, pelo sexo e pela droga faziam parte de um propósito de evasão de que Ted Babbitt, seus ruidosos amigos e sua fútil namorada foram adeptos entusiásticos:

The boys and girls disappeared occasionally, and he remembered rumours of their drinking together from hip-pocket flaks. Me tiptoed round the house, and in each of the dozen cars waiting in the street he saw the points of light from cigarettes, from each of them heard high giggles (...)9

Contudo, este desejo de evasão resultava, em parte, do desencanto que a experiência negativa da guerra desencadeara. Os jovens estavam desmoralizados: à luz do que tinham vivido, a moral e as normas de conduta que lhes haviam sido incutidas afiguravam - se - lhe como hipócritas ou obsoletas. Por outras palavras, a guerra actuou como elemento catalizador no desmantelamento de uma estrutura social decadente.

De facto , dado o "boom" na indústria americana, era imperioso que o jovem rompesse com os padrões de comportamento cavalheiresco que a época anterior favorecera e assumisse uma postura mais arrojada, por forma a equacionar o seu sucesso num mundo de negócios cujas estratégias de actuação se tornavam ostensivamente mais combativas.

Em suma, dada a multiplicidade de transformações sociais, culturais e económicas, os jovens enfrentaram naquela década de 20, alguns desafios importantes. Por um lado, sentiam-se moralmente coarctados a preservar as tradições e costumes americanos; por outro, o mundo dos negócios exigia modernidade e agressividade. A perplexidade ante esta aparente ambivalência impeliu-os a refugiarem- se no álcool ou a assumirem comportamentos e atitudes irreverentes, como comprova o testemunho de uma jovem daquela época:

I don't care particularly to be kissed by some of the fellows I know, but I'd let them do it any time rather than think I wouldn't dare (...)10

Em Greenwich Village, há muito se instalara um clima de inquietação intelectual. Zona habitada (desde 1870 ) por artistas e escritores, conhecida como local propício à boémia e à excentricidade, albergara o número suficiente de escritores para que fosse considerada o centro cultural da Nação.

Depois da guerra, era cada vez maior o número de escritores que, com as suas mentes e penas inflamadas contra a guerra, contra os Babbitts e contra o puritanismo acorriam, esperançados a "Greenwich Village". Tinham idealizado um pais sensível à arte e à cultura, menos ávido de bens materiais e menos vulnerável à estandardização. Era, pois, com grande pesar que se davam conta que os seus ideais tinham sido incompreendidos ou ignorados, e que apenas as suas excentricidades e o seu mundanismo tinham sido decalcados. Também os intelectuais de Zenith (como já tivemos o ensejo de referir) se revoltaram contra a hipocrisia, mediocridade e tendência para a uniformização do pensamento e comportamento humanos.

A obra Civilization in the United States, escrita por trinta intelectuais daquela época constitui uma tentativa de denunciar a corrupção que, devido aos grandes negócios, se evidenciava em todas as esferas da vida pública e social. Estes intelectuais acreditavam que a única saída para os homens de mente sensível era emigrarem para a Europa, aonde, segundo eles, "as coisas eram mais bem feitas."

Em 1921, por altura da publicação da referida obra nos Estados Unidos da América, grande parte dos seus colaboradores viviam já no Estrangeiro, e foi longe do solo pátrio que se habituaram a olhar para si próprios como "the lost generation". Se bem que a "geração perdida" nunca tenha constituído um movimento artístico-literário, é todavia possível identificar um denominador comum na escrita dos vários autores : a guerra e o cinismo da política de Versailles haviam-nos convencido de que a espiritualidade morrera.

Importa, todavia, sublinhar que, não obstante a sua rebeldia e manifestações iconoclásticas, os intelectuais da década de 20, "sad young men", como Fitzgerald os designou, nunca deixaram de amar o seu país.

Embora desmoralizados e desiludidos, os intelectuais e a geração mais jovem não tinham aparentemente motivos para acreditar que o bem-estar socioeconómico de que os americanos então usufruíam, podia vir a ser abalado.

Com efeito, apesar de se ter assistido, no decurso das primeiras três décadas do século XX, a um aumento populacional na ordem dos quarenta e sete milhões de habitantes, o rendimento per capita sofreu, durante o mesmo período, um aumento de $1 777, enquanto que a riqueza nacional se elevava de 88 para 361 biliões de dólares.

Não é, pois, de estranhar que o clima de optimismo e confiança que reinavam na época não tenha permitido detectar a presença de várias forças hostis que anunciavam o iminente esboroar dos sonhos dourados da era Harding - Coolidge.

Porém, um conjunto de vicissitudes económicas e sociais prenunciava já o mal estar que viria a evidenciar - se na década de 30: no inicio da década, o deflagrar de violentas greves, quase condenou à extinção o Partido Trabalhista; os conflitos étnico - sociais intensificaram - se devido aos incidentes racistas e xenófobos provocados pela Ku-Klux-Klan; nas pequenas vilas e grandes cidades, a união familiar fora abalada por influências descentralizadoras, e nos campos os agricultores sofriam os reveses de um ano de seca e más colheitas.

Em face do exposto, uma pergunta se impõe: terá a América ignorado (apesar de todas as evidências históricas ) que, atingido o zénite do crescimento económico, todos os sonhos expansionistas se revelam quiméricos ou mesmo destrutivos?

De facto, os "bons velhos tempos" da "Era do Jazz" não constituíram uma recompensa terrena por três séculos de pioneirismo enérgico, mas antes o início de um período probatório, para determinar em que medida os mais acarinhados ideais de democracia e progresso de manteriam operantes.

Em conclusão, e referindo-nos agora de novo ao romance Babbitt, mais especificamente à sua personagem principal, lembremos que, em 1920, George F. Babbitt ocupava (à semelhança de muitos outros Babbitts seus contemporâneos) um cargo de chefia num negócio de compra e venda de propriedades, e se orgulhava de ter um rendimento de oito mil dólares anuais.

As virtudes que Babbitt mais apreciava eram a energia e a capacidade de iniciativa, que o herói designava como "hustling". Aliás, todos os cidadãos de Zenith (e de muitas outras pequenas cidades de que Zenith constituía um arquétipo) pareciam secundar a admiração do protagonista por aquelas duas virtudes:

Men in motors were hustling to pass another in the hustling traffic. Men were hustling to catch trolleys, with another trolley a minute behind, and to leap from the trolleys, to gallop across the sidewalk, to hurl themselves into buildings, into hustling express elevators... men who had made five thousand, year before last, and ten thousand last year, were urging on nerve - yelping bodies and parched brains so that they might make twenty thousand this year; and the men who had broken down immediately after making their twenty thousand dollars were hustling to catch trains, to hustle through the vacations which the hustling doctors had ordered11.

O cidadão americano da classe média, magnificamente retratado através da figura de Babbitt, fazia eco das opiniões do grupo socioeconomico a que pertencia: declarava solenemente que os radicais deveriam ser silenciados, a imigração restringida e os negros "mantidos nos seus lugares". Mesmo nas suas ocasionais fúgas à norma e ao estereótipo, o "Standard American Citizen " não conseguia romper por completo com os dogmas e valores que a sociedade lhe impusera.

O que deverá o aluno de História pensar de Babbitt? Deverá aceitar que Babbitt constitui o protótipo do homem de negócios da década de 20? H.L. Mencken anui desta forma. Em sua opinião, Sinclair Lewis traçara um retrato fiel e objectivo do homem de negócios da Era do Jazz.

Contudo, parece-nos lícito concluir que Lewis retratou Babbitt sem os acerbos enunciativos que H. L. Mencken certamente teria utilizado como ingredientes caracterizadores desta personagem.

Na realidade, Sinclair Lewis retrata Babbitt, ao longo de quase todo o universo diegético, como uma figura insípida, estúpida e convencional. Porém, num momento de aparente viragem da acção, Babbitt quase se eleva acima do estereótipo: tem uma ligação amorosa, defende grevistas e recusa tornar-se membro de uma associação de patriotas. É pois com um certo pesar que o leitor assiste ao retorno de Babbitt à sua velha, monótona e enfadonha rotina.

Em resumo, o tema central em Babbitt é o da transição cultural, em que o indivíduo se sente coarctado face aos limites socioculturais que lhe são impostos.

Terminamos com uma citação de Matthew Arnold, que, a nosso ver, traduz bem o dilema da personagem Babbitt - como aliás de todos os Babbitts dos dourados anos vinte aos nossos dias: Babbitt is lost between two worlds, the one dead to him forever and the other powerless to be born.

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* Equiparada a Professora-Adjunta da Escola Superior de Educação de Viseu.

1 Diz-nos Malcom Bradbury que Sinclar Lewis projectara Babbitt como a GAN about a TBM, ou seja, a great American Novel about a tired business man. (Cf. Bradbury, Malcom, The Modern American Novel, Oxford, New York, Toronto, Oxford University Press, 1985, p. 55).

2 Earnest E. Calkins, Business the Civilizer, Atlantic Monthly, CXLI, February, pp. 145-57.

3 Morison, Samuel E., and Commager, Henry S., The Growth of the American Republic, 3ª ed., Oxford University Press, d/d.

4 Lewis, Sinclair, Babbitt, 3ª Ed., Middlesex, Penguin Books, Ltd., 1987, p.47.

5 Lewis, Sinclair, op. cit, p. 78.

6 Lewis, Sinclair, Babbitt, 3ª ed., Middlesex, Penguin Books, Ltd., 1987, p. 236.

7 Lewis, Sinclair, op. cit., p. 82.

8 Idem, ibidem, p. 180.

9 Lewis, Sinclair, op. cit., p. 176.

10 Patterson, James T., America in the Twentieth Century, San Diego, Harcourt Brace Jovanovich Inc., 1989, p. 151.

11 Lewis, Sinclair, cf. Novelists' America-Fiction as History, 1900-1940, N11 - Lewis Sinclair, cf. Novelists' America-Fiction as History, 1900-1940, New York, Syracuse University Press, 1969.

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