No tempo em que não havia Erasmus III

A imortalidade dos pecados mortais

 

 

Vasco Oliveira e Cunha *

 

Nos anos 50 e 60 não havia Erasmus. Nem Leonardo. Não havia Sócrates. Para o estudante universitário, o estrangeiro era a aventura por conta própria. Em campos de trabalho, com todo o rigor da organização, da programação, dos custos e dos ganhos. Experimentei Londres em 58, num mercado abastecedor de frutas e de legumes do East End, bem próximo de Liverpool Street. Não gostei. Privilegiei, depois, o assumir de todas os riscos, eu mesmo definindo em cada momento o que queria ou não queria, criando a possibilidade de me deixar guiar pela minha própria anarquia.

Negativa, como realmente foi, a minha primeira experiência de cooperação internacional ofereceu-me, contudo, a oportunidade única de começar, ainda muito jovem, a tentar decifrar o mosaico labiríntico da vida de uma das grandes capitais do mundo. Nos meados do século passado, e no imaginário que construí de um instante decisivo da vida e da cultura inglesa - o século XIV.

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A margem esquerda do Tamisa, dessa história líquida" da nação, nas palavras de Defoe1, era a Londres do establishment, da ordem estabelecida, das suas simbologias: as políticas, as jurídicas, as financeiras, as educativas, as religiosas, a imprensa, rede densa e integrada de sistemas estruturantes e reprodutores por onde flui o sangue do povo; a Londres de Westminster, de Old Bailey2, da Old Lady of Threadneedle Street, da Velha Senhora da Rua Threadneedle3 e da Royal e da Stock Exchanges, da Universidade, de abadias e de catedrais, da Fleet Street do Times, do Daily Telegraph e de tantos diários mais; a Londres dos desfiles e dos cortejos do poder, os súbditos sorvendo, ávidos, o olhar sempre condescendente da realeza, as mãos agitando pateticamente o vermelho, o branco e o azul das cruzes de S. Jorge, de Santo André e de S. Patrício da Union Jack imperial4; o coração da cultura do reino e de uma boa parte do planeta, mundo de ópera e de concertos, de teatro, de cinema e de museus sem conto, memória da criatividade nacional e daquela que o Império subtraíra noutras latitudes e longitudes para a "salvar" do "subdesenvolvimento" dos seus proprietários originais e legítimos - a escultura do Parthenon, a Pedra de Roseta, templos assírios e babilónios, tesouros sumérios, bronzes etruscos, colecções e múmias egípcias...; a Londres do bulício constante das ruas e das praças, multidões apressadas que alimentavam os negócios de Regent Street, de Oxford Circus, de Old Bond Street, de King Street, do Selfridge's e do Harrod's; da algaravia do Soho, das sonoridades distintas do Império; dos hooligans, invadindo a City nos entardeceres de sábado, no rescaldo do futebol em Tottenham, em Chelsea e em Highbury, a "casa" do Arsenal; a Londres dos pickpockets, dos carteiristas, no mercado da pulga de Liverpool Street; dos clubs, as veneráveis e venerandas instituições da aristocracia, plenas de rituais de silêncio social refinado, requintado, de fumo de cachimbo e da leitura do Who's who, do Quem é Quem (na vida); dos parques imensos, de árvores nobilíssimas, gigantescas, de relvados com pedigree secular; a Londres do Speakers'Corner, em Hyde Park, a expressão livre, autêntica e inflamada de anarquistas, de monárquicos, de marxistas, de republicanos, de fascistas, de curandeiros, de astrólogos. De todos os credos e de todas as ideologias. Ouvia-se, sorria-se, passava-se adiante, a rua logo nos absorvendo na sua mutação permanente.

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Para lá do rio, para sul, no Surrey Side, mesmo em frente da City, ficavam os reinos informes de Lambeth5 e de Southwark6, amontoados de edifícios comerciais, de entrepostos e de manufacturas, de ruas imensas, perigosas, suspeitas, bordejadas de casas decadentes, sórdidas, aqui e ali interrompidas pelos vazios nascidos dos bombardeamentos nazis de 41, e mais para leste, para lá da Tower Bridge, a atmosfera densa das docas comerciais. Das madeiras e dos cereais, do queijo, da manteiga. Da democratização do suor.

Calcorrear estes mundos aparentemente rotineiros, previsíveis, cedo se revelou para mim fonte permanente de surpresa e de encontros e reencontros com a história: nas silhuetas múltiplas do Palácio Arcebispal de Lambeth, há mais de setecentos anos residência londrina dos arcebispos de Cantuária7; na biblioteca riquíssima do seu Grand Hall8; na galeria de retratos dos arcebispos da Guard Chamber, da Sala da Guarda, obras de Holbein, Van Dyck, Hogarth, e de outros famosos; na flagelação criminosa das ideias ditas heréticas, no Post Room; na violência contra os seguidores de Wycliff9, encarcerados na Torre dos Lollards10; no património arquitectónico de eleição que é a catedral gótica de Southwark, também conhecida por Igreja do Santo Salvador, panteão de poetas e de dramaturgos11, do irmão mais velho de Shakespeare, a mais bela construção de Londres, depois da Abadia de Westminster; do seu coro e das capelas da Virgem, de Harvard12 e de Notre-Dame13; na memória do testemunho da riqueza cultural dos vitrais riquíssimos, quase integralmente destruídos pelo deflagrar de uma bomba num mercado próximo durante os bombardeamentos alemães, glorificação de poetas e de actores dramáticos associados com Southwark - Alleyn14, Fletcher15, Massinger16, Shakespeare17; eternização da obra de Goldsmith18, de Johnson19, de Bunyan20, de Chaucer21; testemunha de acusação das condenações ao cadafalso de um tribunal consistório no tempo da rainha Mary, a Sangrenta.

Diferentemente de Lambeth, com memórias da história de matriz essencialmente religiosa, a relação de Southwark com a cultura gravitou sempre em torno da criação artística, sobretudo literária. Em 58 discutia-se o projecto de criação de um grande centro cultural para a margem sul; Dickens22 viveu aqui durante algum tempo; também Bob Sawyer, o estudante de medicina do seu Pickwick Papers; a Igreja de S. Jorge, um belo edifício do século XVIII, é conhecida na zona por Little Dorrit's Church, do nome da personagem de um conto do autor com o mesmo título.

Períodos mais altos desta relação foram, contudo, os últimos anos do reinado de Isabel I e o início da dinastia Stuart, em 1603, e o final do século XIV.

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Quase no termo do século XVI, Blackfriars tornara-se zona residencial da moda, atraindo a frequência das classes dominantes e da própria corte. E as ruas cinzentas e imundas de Southwark vestiram-se de cores, das curvas e dos ângulos dos veludos, dos damascos, dos bordados a ouro e a prata, dos colarinhos imensos importados de Espanha, luxos de uma sociedade afluente, rica, culta, mas cruel, que importava arquitectura italiana e a misturava com o gótico tradicional, os jardins combinando a simetria dos planos e a variedade de ornamentos. Razões para esta "fuga", os grandes surtos de peste em 1592 e 1593 e o consequente encerramento dos teatros de Shoreditch, no norte de Londres, considerados como fonte potencial de contágio, de rixas e de distúrbios. As companhias de actores transferiram-se para Bankside, a zona ribeirinha entre as Pontes Blackfriars e Southwark, e os palcos começaram a erguer-se: o Rose, associado mais com Christopher Marlowe23 do que com Shakespeare, junto à London Bridge; o Globe, palco de estreia das maiores peças de Shakespeare, construído pelos actores Burbage em 159824; o Swan, aberto entre 1595 e 1633, uma sala com capacidade para três mil lugares.

Em 1642, os Puritanos puseram termo a esta intensa actividade dramática ordenando a sua suspensão. The Hope foi o último palco a ser demolido.

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Na Inglaterra do século XII o debate vivo sobre os tribunais eclesiásticos, sequência dramática de pressões, de ameaças, de excomunhões e de destituições, terminou de forma trágica. De Thomas Becket, o arcebispo rebelde de Canterbury que se opunha ao duplo julgamento de homens da Igreja em tribunais eclesiásticos e comuns, os carrascos do rei fizeram um mártir e um santo retalhando-o a golpes de adaga, e durante mais de três séculos os caminhos da grande ilha encheram-se de multidões de peregrinos que queriam homenagear a memória do homem que, embora amigo íntimo do rei, a ele se opusera para defender a independência da Igreja face ao poder político25.

A situação privilegiada de Southwark fizera do lugar um importante nó de comunicações para a Mancha e para o Continente, e as peregrinações transformaram-no em testemunha viva de cortejos e de procissões sem fim de peregrinos vindos do norte e do noroeste na sua romagem ao túmulo do santo. Em torno da rua principal, da Borough High Street, com origem na extremidade sul da Ponte de Londres, estendendo-se depois para sul e com derivações para leste, proliferaram estalagens de acolhimento e de apoio, negócios que a procura sempre alta dos devotos tornou prósperos, os peregrinos sempre prontos a pagar caro algumas horas de repouso do corpo depois de longas caminhadas e cavalgadas pelas veredas quase sempre enlameados da Inglaterra, e antes de atacarem as últimas milhas do trajecto até Canterbury, já no Pilgrim's Way, o grande caminho das peregrinações do sudoeste e do oeste, que se iniciava em Winchester, bordejando as vertentes suaves e verdes e os rios pachorrentos das North e das South Downs26 e, finalmente, as colinas tranquilas de Kent.

A White Hart27, o Cervo Branco, a George Inn28 e a Tabard Inn eram as mais conhecidas. Nesta última, que subsistiu até 1875, pernoitaram numa noite distante de Abril, nos finais do séc. XIV29, os homens e as mulheres que Chaucer imortalizou nos seus Canterbury Tales, nos Contos de Cantuária.

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Contrariamente à ideia frequentemente expressa de que Chaucer é um poeta apolítico, o texto mais fundamental dos Canterbury Tales, o General Prologue, o Prólogo Geral, concise portrait of an entire nation, retrato conciso de uma nação inteira, na perspectiva de Nevill Coghill30, é um documento inequívoco da sensibilidade do autor às tensões do final do séc. XIV entre a ordem estabelecida, a feudal, assente numa economia rural estática e no predomínio de uma Igreja toda poderosa e inquestionada, e a ordem nova das forças emergentes da terrível praga bubónica que varreu a Europa em 1347 e em 1351, designada por Black Death (Peste Negra), e que na Inglaterra permaneceu endémica até meados de séc. XVII; tensões catalizadoras de um processo de comutação do trabalho servil em trabalho remunerado, com salários cada vez mais elevados dada a escassez da mão-de-obra dizimada pela peste31; de fragmentação da grande propriedade, e da consequente erupção de uma nova classe de arrendatários e de proprietários rurais independentes de origem plebeia32; de aumento da criação de gado e do volume de comercialização da lã; de transformação de uma economia de exportação de matérias primas33 em economia de industrialização; de afirmação de um espírito empreendedor, que viria a revelar-se fatal para o sistema de corporações existente, de dimensão local, ou mesmo paroquial; motor potencial e, para muitos autores, o germe primeiro da ideia de supremacia dos mares, a política insular da Inglaterra dando lugar a uma visão imperialista de domínio do mundo; de afirmação das forças do urbanismo e do individualismo. Em síntese, um processo de fragmentação da sociedade existente.

Documento inequívoco, também, de um homem que, como salienta David, ama e acredita no ideal do cavaleiro (Knight), do Pároco rural (Parson) e do agricultor (Plowman), representantes dos três estados da sociedade medieval, ainda poderosa na época de Chaucer34, mas que não podia saber que essa mesma sociedade estava a morrer lentamente de doenças variadas e múltiplas - as guerras civis, a corrupção da Igreja e do Estado, o começo do capitalismo no crepúsculo da Idade Média. Chaucer detectou-lhe, contudo, os sintomas e foi capaz de retratá-los na vida do quotidiano35: no desejo de os membros da sociedade, na sua grande maioria, promoverem o seu bem-estar pessoal e o seu estatuto social, em detrimento do bem comum, do commune profit, na linguagem do poeta; na prática concreta da Igreja, infectada pelo comercialismo dos cidadãos comuns e pela tentação constante da emulação do orgulho e da ostentação da gente da nobreza; na caminhada de pesadelo e de perdição que, em cada momento, afastava a comunidade cristã das tarefas que a Divindade lhe atribuíra com o objectivo de lhe assegurar o bem físico e espiritual. Um ponto de vista próximo do de Howard, os Canterbury Tales entendidos como o espelho de uma sociedade cristã doente, obsoleta36.

Mais importante que todas as análises será, sobretudo para os iniciados, ler o poeta. Privilegiando o Prólogo. Saborear, como os primeiros leitores de Chaucer, o perfume de uma linguagem até então órfã de linhagens literárias37; mergulhar numa obra fundamental, preocupada com a ética, com as formas de comportamento que o autor considera as mais belas e socialmente construtivas - as pessoais e as políticas, mais do que com os acontecimentos -, com questões de duas naturezas distintas: umas, intemporais, próprias de uma humanidade que vive num mundo inquieto, inseguro, de gente falível; outras, originadas no colapso aterrador das hierarquias e da instabilidade da Inglaterra do séc. XIV; riscar no papel os perfis mentais dos peregrinos - dos bons e dos maus, dos piedosos e dos criminosos, dos corruptos e dos puros38. Gente como toda a gente. Como nós! E tentar aprender.

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Para o leitor mais ávido, sobretudo de textos clássicos fundamentais, e porque a obra de Chaucer não é de fácil acesso ou aquisição entre nós, ficam alguns esboços, necessariamente breves, dos peregrinos39. Traços largos, toscos, porventura imprecisos, dos rostos e do vestuário. Sobretudo do carácter de cada um. Observe-os com detalhe e, acima de tudo, de forma crítica. Que a galeria que lhe proponho, seguindo a ordenação que lhe foi dada por Chaucer, possa oferecer-lhe, ainda que de forma muito nebulosa, as imagens humanas de uma peregrinação a Canterbury no final de quatrocentos.

O Cavaleiro (The Knight)

Perfeito em atributos morais, dedicado mais a Deus do que às coisas do mundo, a verray, parfait, gentil knyght, nas palavras do poeta, ou, em inglês moderno, a true, a perfect gentle-knight40, sempre pronto a atingir a verdade, a honra, a grandeza da alma e a cortesia.

O Archeiro (The Yeoman)

Acompanhante do Cavaleiro, rosto queimado pelo sol, capa e capuz verdes, um arco poderoso para lançar setas enfeitadas com penas de pavão, combatera na Guerra dos 100 anos41.

A Monja, a Prioresa (The Nun)

A aspiração a padrões de comportamento mais genteel; o predomínio das aparências sobre o bem comum, o commune profit; o gosto pela trivialidade da vida: pela etiqueta, pela joalharia chic, pelo cãozinho ao colo. A encantadora submissão imperfeita do feminino no eclesiástico, the engaginghy submersion of the feminine in the ecclesiastical42.

O Monge (The Monk)

A rejeição total do monasticismo, do monaquismo; a afirmação de adesão impossível aos padrões da autoridade antiga de S.Bento e de Santo Agostinho, isto é, a desobediência à regra e à hierarquia ou, como escreveu Chaucer, leet olde thynges face/And heeld after the newe world the space, ou, em inglês moderno, He let go by the things of yesterday/and followed the hew world's spacious way43; a quebra da castidade e dos votos de pobreza; um grande paixão pela moda, pela caça. Pela inspecção de quintas.

O Frade (The Friar)

Um limiter, um mendicante, epítome de todos os abusos da mendicidade; tocador de realejo, o gosto pelas canções populares, pelas baladas, pelo convívio social em tavernas, conhecendo todas as empregadas; os presentes às jovens; uma preguiça intelectual desmedida. Vestindo-se como um médico ou como um papa, tinha o culto pelas worthy women of the town, pelas worthy women with possessions44, pelas senhoras respeitáveis e ricas da cidade, e pelas viúvas, alvo preferido da sua avareza e da sua luxúria, recebendo delas dinheiro em troca de leves penitências.

O Mercador (The Merchant)

Representante das transacções fluidas de uma economia monetária, substituta de uma economia tradicional de troca de bens, mais simples e mais estreita da sociedade agrária, adepto de um comércio internacional sem escrúpulos, ignorando todas as regras que não contribuíssem para o aumento da sua riqueza e da sua ascenção social.

O Letrado de Oxford (The Oxford Cleric (clerk)

Magríssimo como o seu cavalo, vestes coçadas, o arquétipo estudante empobrecido, discípulo de Aristóteles, talvez mesmo, como sublinha Cooper, uma cópia tridimensional da personificação da Lógica, a three-dimensional copy of the personification of Logic45, parco de falas mas defendendo sempre uma ordem social assente no domínio do intelecto, o único instrumento que permite ao Homem a aplicação do dom divino da razão à experiência terrena para a organizar e orientar para objectivos mais construtivos, uma perspectiva de ordem social situada entre a sustentada pelo Cavaleiro - defesa dos poderes políticos terrenos e da economia em que eles assentam - e a do pároco - o privilégio do bem-estar das almas e das consciências, ao mesmo tempo que a preocupação e a compaixão para com os seus problemas.

O Jurista (The Serjeant at the Law)

Uma fortuna amassada nas consultas dadas no pórtico da Catedral de S. Paulo, em Londres; a capacidade para libertar a terra da complexa teia da lei feudal, para venda ou para arrendamento, uma situação originada na escassez de mão-de-obra, ajustada ao objectivo supremo de contribuir para a dissolução da velha ordem social, económica e política apenas por interesse e gula pessoais. Dele, diz Chaucer: there was no such conveyancer as he, não havia notário como ele46.

O Proprietário (The Franklin)

Livre por nascimento, mas não nobre, novo rico, ávido de respeitabilidade pela recente disponibilidade da terra e pela sua aquisição; pilar da comunidade, ele é, simultaneamente, sheriff, membro do parlamento local, auditor, juiz de paz; epicurista, vive para o prazer, sensual delight was the true felicity in sight47; o gosto de impressionar os outros com a sua haute cuisine. A worthy vavasour, nas palavras de Chaucer, um termo já gasto ao tempo, com ressonâncias de romances de cavalaria, de hospitalidade e de apoio a cavaleiros andantes.

O Retroseiro (The Haberdasher), o Tintureiro (The Dyer), o Carpinteiro (The Carpenter), o Tecelão (The Weaver) e o Fabricante de Carpetes (The Carpet-maker)

Homens das corporações de artes e ofícios, em todos, o prazer de impressionar o mundo pela sua ascensão pessoal, as esposas exultando com o título de Madam e por serem vistas na igreja com um manto como o de uma rainha. Mais do que o orgulho, sobressaem neles as práticas comerciais fraudulentas e o auto-conceito de superioridade social. Escreve Chaucer: Their wisdom would have justified a plan/To make each one of them an alderman, o seu saber teria justificado um plano para fazer de cada um deles um vereador48.

O Cozinheiro (The Cook)

Especialista em frango cozido com medula, em distinguir a cerveja de Londres pelo sabor, o melhor de todos em tortas e em sopas com entulho, densas. Na confecção do manjar branco. Único senão para um cozinheiro, uma chaga no joelho.

O Capitão de Navios (The Skipper)

O primeiro dos good felawes, dos good fellows dos Contos, um epíteto também aplicado ao Summoner, ao Oficial de Diligências, e aos parceiros do crime; conhecedor profundo das correntes, das enseadas e dos portos, da Dinamarca ao Cabo Finisterra, os hábitos do roubo do vinho de Bordéus, da pirataria, do contrabando e do assassínio em massa no English Channel, no Mar da Mancha. Uma consciência quase sem lei - Few are the rules his tender conscience kept49.

O Físico (The Doctor)

Simultaneamente médico e farmacêutico, versado na obra dos grandes mestres, de Esculápio a Avicena, de Hipócrates a Averroes, utilizava a lua e as estrelas para a experimentação astrológica; homem sem escrúpulos, enriquecendo à custa da Peste, o fim da Medicina, o enriquecimento pessoal, os medicamentos entendidos como medicação e não como instrumento de cura.

A Esposa de Bath (The Wife of Bath)

Mais colorida que a própria vida, vestida com tecidos mais ricos do que os de Ypres e de Ghent, chapéu de abas larguíssimas, lenços dos melhores tecidos, meias escarlate seguras por ligas bem justas; face vermelhusca, anca larga; perita em todos os remédios para os males de amor, a experiência nas mais antigas danças do sexo - She knew the oldest dances of love50; viúva de profissão, cinco maridos tinham já sucumbido aos ardores do seu sangue (para não falar já das aventuras múltiplas dos tempos da mocidade); peregrina experimentada, estivera três vezes em Jerusalém, orara em Roma e em Bolonha, ajoelhara em Colónia e em Santiago de Compostela.

Quatro pecados lhe aponta Chaucer: o orgulho, a ira, a inveja, a imodéstia.

O Pároco (The Parson)

Sacerdote de Cristo e dos Apóstolos, irmão dos humildes na doença, na dor, na educação, shepherd and no mercenary51, não aproveitara as forças do mercado e o déficit de clérigos causado pela Peste para ser colocado em Londres, como tantos outros que na capital do reino se prostituíam em lucros sociais e materiais. Ou, como escreve o poeta, ganhando pão fácil a cantar missas pelas almas dos mortos endinheirados, earn easy bread/By singing masses for the wealthy dead52.

O Agricultor (The Plowman)

Irmão do pároco, sempre a vontade firme de seguir Deus e de cumprir os seus deveres para com os semelhantes onde quer que se encontrasse, em parfait charitee, em perfect charity, sem nunca deixar de ser aquilo que era - trabalhador honesto, homem bom e verdadeiro, os impostos sempre em dia.

O Moleiro (The Miller)

Forte como um touro, barba avermelhada, farta como a de uma porca ou de uma raposa, um tufo de pelos irrompendo de um cravo nas narinas negras e largas, sempre altercador, sempre bufão, senhor de um grande repertório de histórias. Sujas, de preferência. Uma mão de mestre para roubar o grão, cobrando maquias três vezes superiores às devidas. Escreve Chaucer: wel koude he stelen corn and tollen thries - he took three times his due53; um polegar capaz de distinguir a qualidade da farinha, avalizando a ideia, corrente na época, de que os moleiros tinham polegares de ouro.

Chaucer relegou para os versos finais do Prólogo a descrição dos parasitas burocráticos, dos gestores parasitas, como os classificam Nevo e Reidy54, gente que utiliza as suas posições de responsabilidade apenas para rechear os bolsos e não para que a máquina social trabalhe sem solavancos, enganando os patrões (mas jurando sempre servi-los com lealdade) com manipulações e traições atribuíveis à mobilidade social e ao crescimento de uma economia do capital no século XIV.

O Despenseiro (The Manciple)

Um exemplo para todos os fornecedores, nunca se precipitando, quer nas compras dos alimentos a crédito quer a pronto, escrutinando sempre com cuidado e rigor os mercados para conseguir os melhores preços. Não para melhor servir os seus senhores, antes para garantir para si próprio o enriquecimento mais acelerado da sua carteira. Apesar de analfabeto, mas tirando sempre o máximo partido da lassidão dos patrões, o despenseiro mostra-se suficientemente hábil para enganar um punhado de homens letrados e ilustres. No inglês de Chaucer, Now is nat that of God a ful grace/That swich a lewed mannes wit shal pace; em inglês moderno, Now insn´t it a marvel of God's grace/that an illiterate fellow can outpace/The wisdom of a heap of learned men55?

O Administrador (The Reeve)

Velho, colérico, magro, sempre bem barbeado, com uma grande devoção pela sua aparência, He kept his bins and garners very trim56, a mesma facilidade do despenseiro para defraudar os patrões, a mesma capacidade de subversão da ordem estabelecida, construindo uma base de poder que os outros empregados da propriedade tinham medo de desafiar (Feared like the Plague he was, by those beneath57). Familiarizado com todos os truques do seu ofício, conduzia uma gestão inteligente da contabilidade. Nunca ninguém o apanhara em falta. Amassava, assim, uma fortuna que ultrapassava a do patrão.

O Oficial de Diligências (The Summoner)

A missão de convocar réus para os tribunais eclesiásticos, uma espécie de oficial de diligências dos nossos dias, ocupação ideal para dela extrair lucros pessoais através de uma longa lista de más práticas: a substituição dos valores espirituais pelos mundanos, mais pragmáticos; a chantagem com a gente jovem da diocese, porque conhecedor de todos os seus segredos. Vivendo dos pecados e das culpas alheias, contribuía para a corrupção do processo de disciplina na Igreja criando a desordem na alma das gentes.

O Vendedor de Perdões e de Indulgências (The Pardoner)

Ave de Charing Cross, a bird from Charing Cross58, acabado de regressar de uma visita à corte de Roma, cabelo cor da palha, caracóis pendendo suavemente da nuca, olhos esbugalhados como os de uma lebre; personalidade complexa, degenerada, sempre preocupado com a fraude e não com a salvação, a alienação total da lei estabelecida, de todas as ordens, intensificada, segundo Curry59, pelo facto de ser eunuco, admitindo apenas uma única virtude - a sua própria esperteza - e exultando com a ironia de pregar contra a avareza ao mesmo tempo que o dinheiro crescia nos seus bolsos em cada dia que vinha ao mundo. Quase transformado em Príncipe da Desordem, (Prince of Disorder), recusa-se a servir Deus, substituindo o seu próprio Evangelho pelo do Criador.

A galeria aqui fica. Vinte e cinco quadros de gente concreta, real60. Vinte e seis com Harry Bailey, o Estalajadeiro. Homem notável, este. Competente, de trato fino nas palavras e nas obras, ele é, simultaneamente, guia imaginativo, capaz de tornar o caminho para Canterbury divertido, mas sem desvios à devoção e à fé, e juiz competente na avaliação das narrativas dos peregrinos. Retrato conciso de uma nação inteira, como ficou dito, num tempo de esboroamento do status quo medieval e de reprodução rápida e tumultuosa de uma outra idade. Nova, nos sistemas económicos e sociais que gerou; velha, nos pecados que não erradicou. Apesar da idade vetusta das figuras, o leitor reconheceu, certamente, muitos destes peregrinos. Cruzamo-nos com eles diariamente nas ruas das cidades e das aldeias do nosso mundo.

 

BIBLIOGRAFIA

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NOTAS:

* Vice-Presidente do Instituto Superior Politécnico de Viseu.

1 Daniel Dafoe (1660 - 1731), romancista, e também jornalista, autor de Robinson Crusue, Moll Flanders, Roxana, entre outras obras.

2 Old Baliley Court é o principal tribunal criminal para Londres, Middlesex e certas zonas de Surrey, Kent e Essex.

3 Designação familiar do Banco de Inglaterra.

4 Bandeira Nacional do Reino Unido.

5 Zona ribeirinha de Londres, entre a Ponte Lambeth e a Ponte Blackfriars.

6 Estendendo-se ao longo da margem sul do Tamisa, entre a Ponte Blackfriars e a Ponte de Londres, Southwark é uma das zonas mais antigas de Londres. Local de uma colónia romana, Southwark foi, na Idade Média, uma cidade com alguma importância.

7 O edifício do Palácio Arcebispal de Lambeth começou a ser construído no início do século XIII pelo arcebispo Langton, e foi sucessivamente aumentado e transformado pelos seus sucessores. O edifício foi particularmente fustigado pela aviação alemã na noite de 10 de Maio de 1941.

8 Espaço com mais de 300 m2, foi reconstruído no reinado de Carlos II pelo arcebispo Juxon, passando a servir como salão de refeições. A biblioteca foi instalada aqui no início do século XVIII. Em 1944 contava mais de 44.000 volumes. Entre eles, um Corão, do século XV, as Crónicas de Inglaterra, numa impressão de 1480, de W. Caxton; a Bíblia, de Gutenberg, impressa em Mainz em 1450 - 1455.

9 Wycliff (c. 1320 - 1384) - Teólogo da Universidade de Oxford, espírito avançado, defendia a necessidade de a Igreja se desapossar dos seus bens e de regressar à sua pobreza primitiva. Só assim poderia recuperar as suas virtudes. Relativamente ao problema da salvação, o teólogo afirmava que ela poderia ser alcançada pelos homens através dos seus méritos, isto é, pelas suas obras. Não pelo cerimonial, pelas indulgências e pela penitência.

10 Nome que designa os "prelados pobres" de Wycliff, que viviam tão miseravelmente como os franciscanos. A princípio, homens da Universidade, prontos a dar a vida pela saúde da Igreja, e depois recrutados entre gente simples do campo, os Lollards difundiam a palavra de Cristo, compreensível depois que Wycliff traduzira a Bíblia para língua inglesa, as Escrituras sendo consideradas pelo teólogo como a fonte única de autoridade. Na sequência de alguns levantamentos populares, os partidários de Wycliff foram exterminados.

11 Na Catedral de Southwark encontra-se o túmulo de John Gower (1330 - 1408), poeta, com uma produção quase sempre em latim e em francês, as duas línguas mais usadas na Universidade e nos centros intelectuais. Possivelmente motivado pela reputação crescente da obra de Chaucer, seu amigo, escrita no dialecto que viria a ser a origem do King's English, Gower escreveu em inglês a sua Confessio Amantis, uma compilação imensa de histórias em verso octossilábico.

O templo é também morada última de Edmund Shakespeare, o irmão mais velho do dramaturgo, de John Fletcher (1570 - 1625), autor de obras dramáticas em colaboração com Francis Beaumont e com outros criadores, uma prática muito comum na época, e de Philip Massinger (1584 - 1639), pupilo de Fletcher.

12 Em memória de John Harvard, o fundador da Universidade de Harvard, em Cambridge, Massachusetts, nos Estados Unidos da América. Harvard nasceu na paróquia de Southwark, sendo baptizado nesta igreja.

13 Em 1958, a Capela de Notre-Dame era a igreja paroquial de Southwark.

14 Edward Alleyn (1566 - 1626) - actor fundamental das tragédias de Marlowe e director da Companhia de Teatro de Lord Admiral.

15 Ver nota 11.

16 Ver nota 11.

17 William Shakespeare (1564 - 1616) - Mestre na globalidade da sua obra, Shakespeare é, sobretudo, um artista da palavra. Sobretudo dos sons. Na lírica, tecendo imagens poéticas de encanto; na linguagem abrupta e dura de algumas das suas tragédias, estabelecendo sempre a intimidade com as audiências, integrando-as na trama dos seus dramas, mesmo quando "encerra" as personagens em solilóquios extensos. Eles constituem uma "íntima comunicação" com os espectadores.

18 Oliver Goldsmith (1730 - 1774) - poeta da expressão dos prazeres românticos da vida campestre e da generosidade do sentimento. The Deserted Village é, possivelmente, o mais popular de todos os poemas do século XVIII na Inglaterra.

19 Samuel Johnson (1709 - 1784) tentou a maior parte das formas literárias da época: o drama, a poesia lírica e didáctica, o romance, o ensaio. Foi autor de sermões, de orações e de meditações. Foi panfletário político. O seu nome ficou para sempre ligado ao Dictionary of the English Language, ao Dicionário da Língua Inglesa.

20 John Bunyan (1626 - 1688). Profundamente inspirado pela Bíblia Sagrada, a sua obra mais importante é Pilgrim's Progress, uma alegoria, a vida entendida como uma peregrinação árdua para o mundo do além, para a Cidade Eterna.

21 Geoffrey Chaucer (c. 1340 - 1400). Tradutor de Boécio para Inglês. Do Roman de la Rose. Da sua obra poética destacamos aqui Parlement de Foules, com influências de Cícero e de Boccaccio, Troylus and Criseyde, misto de tradução e de adaptação de Filostrato, de Boccaccio. The Canterbury Tales é o seu maior legado para a cultura inglesa e universal.

22 Charles Dickens (1812 - 1870). É talvez o maior dos romancistas Vitorianos. Alguns títulos de obras suas: David Copperfield, Oliver Twist, A Tale of Two Cities, Great Expectations, Pickwick Papers.

Em 1958, no pátio da George Inn, na Borough High Street, ainda se faziam representações de cenas dos seus romances.

23 Christopher Marlowe (1564 - 1593) -Nas suas peças, duas ideias força fundamentais - o espírito da liberdade humana e o poder e a iniciativa ilimitados do Homem. Títulos das suas obras: Tamburlaine, Doctor Faustus, The Jew of Malta, Edward II, Dido, Queen of Carthage.

24 De desenho octogonal nas paredes exteriores, o seu interior era circular e coberto por um tecto de colmo, pequeno e elevado. A característica dominante do palco isabelino era a sua projecção acentuada bem para o meio da assistência, e "envolvendo-a" de forma mais íntima na própria representação. Designação comum, palco de avental. Incendiado em 1613, do edifício primitivo resta a memória inscrita numa placa de metal de uma casa de Park Street, bem próxima da Southwark Bridge.

25 Amigo íntimo de Henrique II, Thomas Becket (1118-1170) foi em Canterbury, no Sudeste de Inglaterra, homem da Igreja e senhor temporal orgulhoso e poderoso.

O duplo julgamento de homens da Igreja em tribunais eclesiásticos e em tribunais comuns, um princípio defendido pela realeza, tornou o monarca e o arcebispo desavindos. Becket opunha-se ao princípio, mas, sob pressões e ameaças de morte, assinou a Constituição de Clarendon, que favorecia as posições da coroa.

Não se considerava o arcebispo, contudo, obrigado a cumprir a lei, dadas as constrições a que fora sujeito. Perseguido, abandonou a Inglaterra, e de Vézelay, em França, onde se refugiara, lançou a excomunhão contra os seus inimigos.

Numa época de religiosidade profunda e de poder da Igreja, e de modo a poder salvar-se a face, rei e arcebispo reconciliaram-se, aparentemente, Becket jurando respeitar daí em diante os costumes do reino. Mas uma nova questão surgiu. Logo que desembarcou em Inglaterra, o arcebispo solicitou ao papa cartas de destituição para os bispos que o haviam traído. Violava, deste modo, uma regra antiga de Guilherme, o Conquistador, que definia não poder nenhum súbdito corresponder-se com o papa sem autorização real. Henrique II, que se encontrava em França, ficou furioso.

Quatro barões do monarca atravessaram a Mancha e em Canterbury exigiram do arcebispo a absolvição dos prelados. Becket respondeu com coragem e com desdém. Foi assassinado.

Sabendo do crime, Henrique II ficou desesperado. Sabia que a morte do arcebispo constituía uma grande vitória moral para Roma. Sabia, igualmente, que o povo inteiro tomaria o partido do mártir.

Para apaziguar o papa e os súbditos, o rei teve dois gestos dramáticos. Um, de renúncia à Constituição de Clarendon; de restituição a Canterbury dos bens confiscados; de dádiva de dinheiro aos Templários para defenderem o túmulo de Cristo e para a construção de mosteiros. O outro, de despojamento das vestes reais diante do túmulo de Becket para ser ciliciado por setenta monges. Estas atitudes valeram-lhe a recuperação do prestígio entre o povo.

Para os leitores mais interessados no tema do martírio de Becket, sugere-se a leitura de dois textos dramáticos de grande beleza e profundidade: Murder in the Cathedral, de T.S. Elliot, 1935, e Becket ou L'Honneur de Dieu, de Jean Anouilh. Deste último, há uma tradução portuguesa publicada pela Editorial Presença em 1965.

26 Elevações calcárias suaves, com vales estreitos por onde se abriram caminhos e onde se edificaram cidades de alguma dimensão: Guildford, Dorking, Rochester, a norte; Arundel e Lewes, a sul.

27 Destruída pelo grande incêndio de Southwark, em 1676, a estalagem foi reconstruída. Dickens descreveu-a no seu romance Pickwick Papers. Foi definitivamente demolida em 1889.

28 A George Inn, na Southwark Street, subsistia, ainda que só parcialmente, em 1958.

29 O ano de 1387 é frequentemente apontado como a data provável da peregrinação idealizada por Geoffrey Chaucer. Não existe, contudo, qualquer suporte real que a confirme. As referências que no texto se encontram a factos materiais da vida do país - a revolta dos camponeses, de 1381, as actividades ilícitas de alguns homens da Igreja, na sua pretensa associação com o hospital de St. Mary Rouncesval, e outras referências codificadas a acontecimentos políticos dramáticos fortalecem a ideia de que a peregrinação deverá ter tido lugar nos finais do séc. XIV.

A leitura dos Contos, porém, nunca dá ao leitor, como sublinha Cooper, H. (op. Ref., p.5) a medida dos anos conturbados em que a obra foi composta: anos de convulsões sociais e políticas que levaram à execução de vários amigos de Chaucer e que culminaram na deposição de Ricardo II.

30 The Canterbury Tales - Introduction, London: Penguin Books, 1951, p.15.

31 A população do reino (4 milhões) ficara reduzida a pouco mais de 2,5 milhões, calculando-se em milhão e meio o número das vítimas do flagelo. Alguns autores referem números diferentes: 3,5 milhões de habitantes, em 1348, pouco mais de 2, em 1400.

A voz dos camponeses, que sempre tinham vivido uma existência miserável, no limiar da subsistência, engrossou. Tornou-se mais exigente. Bem tentaram os proprietários e o Parlamento impedir o jogo natural dos mecanismos económicos, legislando que os salários para indivíduos com menos de 60 anos de idade deveriam ser iguais aos que vigoravam antes da Peste. A legislação, porém, foi inconsequente. Poucos anos após o termo da peste, os salários agrícolas tinham aumentado 50% para os homens e 100% para as mulheres. A terra rendia 20% ao ano em 1333 e apenas 4 ou 5% em 1350.

32 Incapazes de tirar rendimento da terra com o aumento dos salários, e não podendo competir, em termos de venda, com os produtores independentes, que trabalhavam terra própria, aos grandes senhores fundiários restavam duas soluções: o arrendamento de parcelas de terra ou a sua venda, fragmentando o todo.

33 A Flandres, com uma indústria pujante, era a grande consumidora da lã proveniente dos rebanhos ingleses.

34 David, A. The Strumpet Muse, op. cit., p. 62.

35 David, A. The Strumpet Muse, op. cit., p. 56.

36 Howard, D.R. op. cit. The Idea of the Canterbury Tales. London: University of California Press, 1976.

37 Até à segunda metade do séc. XIV, a produção literária em Inglaterra tinha tido como matrizes linguísticas diferentes dialectos da nação, o latim e o francês. O dialecto falado na região de Londres e nas duas universidades do país - Oxford e Cambridge - era, talvez, o mais deserdado em termos da literatura. Uma situação difícil de compreender, dado ser a região onde se instalara o poder político. A designação de King's English para a língua que, a partir de Chaucer, se assumiu como principal veículo de cultura, tem a marca indelével dos Canterbury Tales.

38 Pintor do todo social da nação inglesa, Chaucer deixou apenas de fora a nobreza e a gentalha mais vil, classes com uma grande probabilidade de se auto-excluirem de uma peregrinação a Canterbury.

39 Na Tabard Inn, em Southwark, reuniram-se 29 peregrinos. A estes, juntaram-se o estalajadeiro e o próprio Chaucer. Assumindo-se como guia, Harry Bailey, o dono da Tabard Inn, define que cada peregrino contará duas histórias durante o trajecto para Canterbury, e outras tantas na regresso a Southwark. Ao todo, seriam 124 contos, tarefa imensa e incomportável que Chaucer não conseguiu concluir. Haveria um prémio para o melhor - uma ceia. Paga por todos os outros.

40 Chaucer, G. The Canterbury Tales - A new translation by Nevill Coghill, p. 27.

41 Conflito entre a França e a Inglaterra, iniciado em 1337 e concluído em 1453. Guerra dinástica, feudal, nacional, o conflito foi, segundo Maurois (op. cit., p. 145), imperialista, tentando os ingleses reservar duas zonas continentais indispensáveis ao seu comércio - a Flandres, compradora da lã, e Bordéus, centro produtor de vinho.

No séc. XIV, a Inglaterra era uma monarquia forte e desenvolvera, desde a Conquista Normanda (1066), uma organização e um espírito nacionais, para além de uma máquina administrativa poderosa. O facto de ser uma ilha adicionava-lhe o factor maior protecção.

A França, pelo contrário, estrava fragmentada, de acordo com a filosofia feudal, e na primeira parte da Guerra foi amplamente vencida.

Popular na Inglaterra, o conflito começou por ser uma empresa de pilhagem, e assim se manteve durante quase todo o séc. XIV. Pilhagem de tecidos, de ouro e de prata. Da própria marinha continental. Segundo Froissart, citado por Maurois, "Toda a Inglaterra se encheu de despojos da França, de modo que não havia em Inglaterra uma única mulher que não usasse algum ornamento, uma parte dos despojos de Caen ou de Calais". (op. cit. P. 145)

Na segunda parte da Guerra a França salvou-se pelo bom senso, pela coragem e pela fé de Joana D'Arc.

Justificada por quatro gerações de ingleses pelas pretensões genealógicas de Eduardo III e de Henrique IV ao trono francês, a Inglaterra, no final do conflito, detinha em França apenas o domínio sobre o porto de Calais, e conservá-lo-ia durante cerca de 100 anos mais.

Foi no plano político que a guerra teve consequências mais duradouras. Irreversíveis, mesmo. Na Inglaterra, com o fortalecimento ainda mais acentuado da monarquia; em França, com a destruição do sistema feudal.

42 Lowes, J.L. Convention and Revolt in Poetry, 2nd Edition, London, 1930, in Helen Cooper, op. cit., p. 37.

43 Chaucer, G. The Canterbury Tales - A new translation by Nevilll Coghill, op. cit. p. 30.

44 Chaucer, G. The Canterbury Tales - A new translation by Nevill Coghill, op. cit. p. 31.

45 Cooper, H. Oxford Guides to Chaucer. The Canterbury Tales, op. cit. p. 43.

46 Chaucer, G. The Canterbury Tales - A new translation by Nevill Coghill, op. cit. p. 34.

47 Chaucer, G. The Canterbury Tales - A new translation by Nevill Coghill, op. cit. p. 34.

48 Chaucer, G. The Canterbury Tales - A new translation by Nevill Coghill, op. cit. p. 35.

49 Chaucer, G., The Canterbury Tales - A new translation by Nevill Coghill, op. cit. p. 36.

50 Chaucer, G., The Canterbury Tales - A new translation by Nevill Coghill, op. cit. p. 38.

51 Chaucer, G. The Canterbury Tales - A new translation by Nevill Coghill, op. cit. p. 39.

52 Chaucer, G. The Canterbury Tales - A new translation by Nevill Coghill, op. cit. p. 39.

53 Chaucer, G. The Canterbury Tales - A new translation by Nevill Coghill, op. cit. p. 40.

54 Nevo, R. And Reidy, J. PMASAL 47 (1962): pp. 595-603. In J. - A. George (ed.), op. cit., p.111.

55 Chaucer, G. The Canterbury Tales - A new translation by Nevill Coghill, op. cit. p. 41.

56 Chaucer, G. The Canterbury Tales - A new translation by Nevill Coghill, op. cit. p. 41.

57 Chaucer, G. The Canterbury Tales - A new translation by Nevill Coghill, op. cit. p. 41.

58 Vasta encruzilhada de caminhos junto de Trafalgar Square e da Strand, bem no centro de Londres.

59 Curry, Walter, C. Chaucer and the Medieval Sciences. New York: Oxford University Presss, 1960. In J. - A. George, op. cit., pág. 112. Alguns autores questionam mesmo se o Pardoner, o Vendedor de Perdões e de Indulgências, pode ser inteiramente responsável pela sua vilania. Para Monica E. McAlpine (The Pardoner's homosexuality and How it Matters, Publication of the Modern Language Association 95 (1980): pp. 8-22, o Vendedor perdeu todo o controlo moral interior, só encontrando satisfação na sua capacidade de ultrapassar os outros pela sua retórica e de enriquecer à sua custa - ...he has lost all inner controls, and can find satisfaction only in his ability to overcome others by his rhetoric and to enrich himself at their expense.

60 Chaucer não faz no Prólogo a descrição de uma Freira e de três Sacerdotes que acompanhavam a Prioresa a Canterbury, limitando-se a referi-los de passagem. Compreensivelmente, o autor não faz o seu auto-retrato.

sumário