50º Aniversário de uma edição de Os Lusíadas

Fernando Alexandre de Matos Pereira Lopes*

Jorge de Sena (1919-1978), poeta, romancista e dramaturgo de viçosa notoriedade e não menos ilustre mestre e ensaísta das Belas-Letras, nomeadamente no campo portentoso dos Estudos Camonianos, escreve a certa altura no seu ensaio, de interesse incontornável, «A Estrutura de Os Lusíadas»: " Não se trata de discutir o que está mais ou menos bem realizado naquele texto composto por 8816 versos. Trata-se, apenas, de observar, estruturalmente, o que Camões fez. Qualquer boa edição escolar de Os Lusíadas (e a melhor é sem dúvida, transcendendo em utilidade os usos escolares, a de Emanuel Paulo Ramos) estuda e anota a sequência do poema ".1

Sublinhámos, propositadamente, na citação transcrita, a parte em que Jorge de Sena expende o seu juízo de valor acerca dessa edição escolar de Emanuel Paulo Ramos, que felizmente hoje ainda se pode adquirir nas bancas das nossas livrarias, apesar de, desde a sua primeira publicação até hoje, mediar meio século, ao longo do qual, sucessivas gerações - onde se inserem camonistas de primeira plana - aprenderam, com a ajuda obviamente de seus mestres, a amar de forma efectiva o "Livro de Portugal" .

Para justificar o à-vontade e a glória com que identificamos o "Livro de Portugal" com o trabalho didáctico de Emanuel Paulo Ramos, diremos que, efectivamente, o autor da edição contemplou a totalidade das 1102 estâncias de Os Lusíadas, dando igual relevo, em termos de explicações linguísticas, históricas, mitológicas, culturais, etc, às oitavas prescritas pelos programas escolares e àquelas que ficavam para o aproveitamento da leitura integral e ideal da epopeia, por parte de alguns alunos que, ora motivados por mestres de alto coturno, ora seduzidos pelo desiderato de conhecer o nosso código genético, na sua totalidade, carrearam esse suplemento, que mais não representa do que um conjunto de peças necessárias à vivência de uma autêntica experiência estética do grande puzzle que é a epopeia camoniana (qual não fosse a voz do Poeta: quem não sabe arte, não na estima).

Não é nossa pretensão, neste pequeno artigo, fazer uma avaliação propriamente dita desta obra didáctica. Esse trabalho gostaríamos de o diferir para o próximo número, confinando, assim - hic et nunc -, o objectivo desta nótula camoniana a um eco de congratulação pelas bodas de ouro da edição escolar em apreço.

De momento, é-nos sim mais grato lembrar que essa efeméride que emblematiza a história do sistema escolar português e, sobretudo, a história do ensino da disciplina de Português, aconteceu, quase de certeza, no dia 20 de Novembro de 2002, ou poucos dias antes. Atendendo a que privilegiamos esta questão na abordagem a que procedemos, entendemos ser pertinente esclarecer alguns aspectos importantes.

Por feliz coincidência, no passado dia 10 de Junho de 2002 - em que se assinalou mais uma data festiva para Portugal, imposta pelo quatrocentésimo vigésimo segundo aniversário da morte do Príncipe dos Poetas - tivemos o privilégio de ter uma conversa amiga e intelectual com o Dr. Emanuel Paulo Ramos, em sua casa. Foi um momento importante, há muito por nós desejado, visto que nos temos vindo a ocupar, por razões académicas, do ensino de Os Lusíadas em Portugal. Aí, então, colhemos informações frutuosas sobre o contexto e a situação que envolveram a empresa levada a cabo pelo autor desta edição escolar de Os Lusíadas, a qual representa, sem dúvida, uma grande valia para a Porto Editora.

O autor desta obra, destinada aos alunos do Ensino Secundário, não nos soube dizer a data precisa em que a mesma veio a lume, tendo-nos, todavia, informado que teria sido no ano de 1952, visto ter começado, no início desse ano a elaborá-la, a pedido da Porto Editora, logo após a conclusão do seu estágio liceal, no liceu D. João III, em Coimbra, e a concluiu num período temporal inferior a um ano.

Ora, como sabemos, algumas edições, naquele tempo, não apresentavam data, por razões bem conhecidas. Nem mesmo a Porto Editora pôde averiguar esta questão com segurança. De qualquer forma, a data precisa do lançamento deste monumental trabalho didáctico terá sido mesmo a de 20 de Novembro de 1952, porque a Srª Drª D. Marília Augusta Duarte Torres Ramos, esposa do autor, nos mostrou, no dia 10 de Junho mencionado, o volume que o marido lhe oferecera in illo tempore - a rescender talvez à tinta daqueles anos cinquenta, como indica a dedicatória pessoal2.

 

(Continua)

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* Professor Adjunto, docente da Área Científica de Português

Sena, Jorge de, A Estrutura de Os Lusíadas e Outros Estudos Camonianos e de Poesia Peninsular do Sec. XVI, Lisboa, Portugal Editora , 1970, p. 57.

2 A edição actual desta obra, bem como outras que pertencem a um passado não muito distante, explicitam a data precisa da impressão, podendo nós leitores encontrar, nos dois últimos prefácios, as seguintes indicações espácio - temporais, deixadas pelo autor: "Lisboa, Dezembro de 1974" e "Lisboa 2 de Outubro de 1980", respectivamente.

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